Powell, Dólar, Ouro e Tarifas
O dólar só tem caído no último ano, a questão é: por quê?
Existe sim uma reflexividade entre ouro e dólar, e no momento vemos o dólar caindo no último ano continuamente desde Janeiro deste ano. Em relação ao real ele estava no seu ápice em R$ 6.73 em Dezembro do ano passado, e agora está em R$ 5.32, não é que o real apreciou, é que o dólar depreciou. Vemos que o EUR/USD sobe cada vez mais e com a visão de cortes de taxas de juros recentes pelo presidente do FED, Jay Powell, no curto–médio prazo podemos ver mudanças que afetaram mesmo que momentaneamente a relação do dólar com outras moedas.
As causas podem ser várias
Nem sempre é possível encontrar relações óbvias de causa–efeito para o forex (embora praxeologia e história recente possa ajudar), podem ter muitas causas para uma mudança de curto–médio prazo em flutuações de câmbio, é muito mais fácil observar mudanças sazonais do que diárias ou semanais. Pode ter certeza que day trading em forex é apenas especulação pura, e no contexto da obra “Security Analysis” de Benjamin Graham, tem uma grande diferença entre um especulador e um investidor.
Mesmo flutuações semanais ou mensais podem ser difíceis de prever (ainda que mais possível que as diárias), e diversos dados macroeconômicos são mais relevantes no Forex do que no mercado de equity. No forex, alguém deve estar atento a mudanças geopolíticas, relações de commodities com o forex, pois existe por exemplo, uma relação entre o ouro e o dólar e vice-versa, e uma relação entre gás natural, petróleo e moedas em certos contextos.
Mudanças de taxas de juros, payrolls, inflação, ou dados mais subjetivos como eventos que podem configurar uma mudança favorável ou desfavorável de um governo, podem mover os agentes do mercado a uma certa direção. Esses agentes não necessariamente agem de forma racional, ainda sim é uma certa especulação, embora haja uma diferença entre uma especulação total (como day trading) ou uma ponderada com base em dados macroeconômicos e eventos que podem mudar temporariamente relações cambiais.
É possível também investir na queda de moedas através de short selling como um long put em que você ganha com a queda de um instrumento financeiro, e isso pode ser feito contra o dólar, e com as falas recentes de Powell visando cortar juros para “aquecer a economia”, os agentes do mercado tendem a pensar que o dólar vai depreciar (por conta da injeção de liquidez e capital exógeno na economia), e como a base da economia é a “ação humana” de Mises, é um fato que essa condição comportamental cria flutuações com base em eventos como esse.
Ouro apreciando contra o Dólar
É um fato que o ouro apreciou 42.97% contra o dólar nesse último ano, assim como a prata 38.41% no mesmo período. Com as possíveis mudanças recentes é um fato que no curto–médio prazo essa apreciação pode mudar continuamente, existem várias causas para isso,a mais óbvia é da depreciação do próprio dólar, sendo que o índice do dólar (DXY) caiu -10.95% do início do ano até agora.
O euro apreciou 15.66% contra o dólar, o sterling inglês 10.34% e o real apreciou 16.21% contra o mesmo. O petróleo americano depreciou -11.54% desde o começo do ano até agora. Non Farm Payrolls foram bem baixos desde maio deste ano, mostrando uma baixa de empregos significativa. Não necessariamente essa depreciação do dólar continuará, prever o futuro no longo prazo é impossível, o ponto é que as flutuações de curto–médio prazo tendem a uma depreciação por conta dos eventos recentes.
A culpa é das tarifas?
Alguém poderia culpar as tarifas dentre as decisões mais calorosas de Trump desde o início de seu mandato. Sejam tarifas em ferro, alumínio, madeira serrada, peças de carros, vinho e champagne (contra a Europa em 200%), importações no geral de diversos países em níveis diversos e com razões ou protecionistas ou sem sentido algum (como a sobre taxar em 100% filmes estrangeiros).
É claro que essas tarifas têm a função de não só mostrar quem é que manda, mas tentar posicionar os EUA cada vez mais à frente do mercado global, tentando estabelecer seu poder sobre os outros e tentar estabelecer seu poder interno sempre querendo vantagem em qualquer transação. Porém, como Bastiat já usou o termo “Ce qu'on voit et ce qu'on ne voit pas” (aquilo que é visto e o que não é visto) na economia, o que é visto é a intenção de fazer a posição dos EUA no mercado global ficar maior, o que não é visto é como as empresas dos EUA sofrem com esse ambiente de tarifas sendo lançadas como balas de cada lado.
Mesmo que as intenções sejam boas, não tem como um programa extenso de tarifas posicionar os EUA melhor no mercado, apenas na verdade irritar seus competidores e impactando negativamente empresas que tanto são prejudicadas por tarifas de importação de matéria prima inelástica que eles necessitam, quanto tarifas de exportação impostas pelos concorrentes dos EUA, que continuamente lutam contra o mesmo nessa “Tariff War”.
O ponto é que elas no fim mais atrapalham mais o próprio EUA do que ajuda, talvez seja uma estratégia mirabolante ou um Xadrez 5D, mas é um fato que por mais que os EUA estejam numa posição de monopólio sobre grande parte do mercado global, flutuações de médio–longo prazo causadas por eles, podem impactar sua economia negativamente por um tempo. Então o dólar provavelmente vai voltar ao normal, a pergunta é: quando?