A Economia e Política Sintética de Avatar: A Lenda de Aang

Escrito por Aranea

Como Avatar demonstra temas essenciais da história político-econômica real

O mapa de Ba Sing Se

Pela milésima vez assisti recentemente uma das séries mais populares e relevantes das últimas duas décadas. Além de fazer parte da minha infância, pude ter a honra de poder ter visto o episódio final ser lançado em Agosto de 2008, lembro como se fosse hoje como quando deu o horário todos de onde eu morava foram correndo assistir o episódio como se estivessem loucos.

Já falei em livros muito sobre economia sintética, e recentemente sobre a Economia do Senhor do Anéis, do Silmarillion e História da Terra Média de Tolkien. No passado também sobre de Harry Potter, e por incrível que pareça, todas essas obras possuem (obviamente) uma estrutura que necessita desses pontos econômicos mesmo que para a mente despercebida eles não existam.

Meu foco aqui será dar um resumo dessa questão nessa obra consagrada.

O básico de Worldbuilding

Worldbuilding consiste no conceito de criar ambientes sintéticos fictícios com um certo fim em mente. Tolkien por exemplo desenhava mapas enormes da Terra Média e das mudanças da mesma. J.K. Rowling fez a mesma coisa usando algo com mais base no mundo real e um ambiente adicionado ao mesmo, o mundo bruxo e os dos trouxas essencialmente, com uma separação geográfica relativa entre os dois em acesso.

Então o ponto mais básico de worldbuilding é principalmente criar uma geografia sintética, e isso pode ser complexo. Li recentemente o livro "O Atlas da Terra-Media" de cartógrafa Karen Wynn Fonstad, e é impressionante os detalhes sobre a estrutura dos biomas do mapa de Tolkien, com base em poemas e passagens em todas as suas obras, além da forma de contagem de dias e anos que é diferente (veja "The Nature of Middle Earth" de Carl F. Hostetter).

A fauna também possui tanto elementos da vida real quanto sinteticos (como plantas fictícias), no Avatar: A Lenda de Ang vemos a mesma coisa. Praticamente todos os animais são misturas de animais da vida real (chamamos isso de bestiário em RPG's), como: porcos-galinha, pinguins-lontra,lobos-coruja, sapos-esquilo, unagis (serpentes estilo dragão aquático), lobos-morcego e etc. Ao ponto que acham estranho o urso do rei de Ba-Sing-Se ser apenas um "urso", sem mistura com nada.

A Guerra dos 100 anos

No episódio 6 da Terceira Temporada, vemos a história de Avatar Roku e Sozin (senhor do fogo posteriormente), vemos que eles eram amigos durante sua vida na nação do fogo, sendo Roku de uma família nobre, sendo que naturalmente a nação do fogo seguia o modelo aristocráta, monárquico (de uma forma estranha, pois os cidadãos não conheciam os rostos de Zuko e Azula, que eram príncipes e herdeiros do trono).

Até então não havia guerra no mundo na era dos dois, e embora não tratarei dos eventos de Avatar: A Lenda de Korra sobre a história de Wang, o primeiro Avatar, fica claro na Segunda Temporada, que houveram eventos de guerras contínuas na época do primeiro Avatar, também vemos esse fato na era de Avatar Kioshi (uma mulher), que derrotou Xu Ping An e Yun, onde ela lidou com mais conflitos que outros avatares citados próximos a época de Ang.

Vemos também tríades como a Triad of the Golden Wing que operavam por centenas de anos nesse mundo sintético, e aparecem em vários aspectos na primeira temporada da Lenda de Korra. Mas o ponto da Guerra de 100 anos, é que ela foi começada pelo design e desejo de apenas um homem, Senhor do Fogo Sozin, com o desenho de expandir seu império e "dividir seu conhecimento" com o resto do mundo, ele diz:

"Sozin: Desde o começo, eu estava destinado a ser o Senhor do fogo. E embora nós não soubéssemos, você estava destinado a ser o avatar. É um golpe incrível do destino nós nos conhecermos tão bem não é? Juntos nós podemos fazer qualquer coisa.

Roku: É, podemos!

Sozin: A nossa nação está desfrutando de uma época sem precedentes de paz e riqueza. Nosso povo está feliz e nós somos muito afortunados em muitos aspectos.

Roku: Aonde você quer chegar com isso?

Sozin: Eu andei pensando. Nós deveríamos dividir essa prosperidade com o resto do mundo. Em nossas mãos esta o império mais bem sucedido da história. Está na hora de expandí-lo" (T3:E6 "Avatar e o Senhor do fogo").

Sozin estava certo ao querer expandir seu reinado?

É óbvio que não. Porém, não é como se essa ideia de "compartilhar nossa riqueza e sabedoria com o mundo" fosse nova, na verdade mesmo Cícero (um fanboy de Roma sem igual), acreditava que deveríamos usar o poder de uma nação apenas para defesa, a ideia de um expansionismo geopolitico apenas com foco e aumentar seu poder (como o Império Romano fez), não pode ser defendido como uma ideia moral, como matar centenas de milhares de pessoas apenas para cobrar impostos delas (de outras nações, tributos) pode ser algo justo senão por defesa?

Zuko fala isso quando enfrenta seu pai durante o Eclipse Solar durante a invasão da aliança ao coração da Nação do Fogo:

"Zuko: Ao crescermos nos ensinam que a Nação do Fogo era a maior civilização da história. E que de alguma forma a guerra era nossa forma de dividir a nossa grandeza com o resto do mundo. Que mentira incrível essa não é? As pessoas estão apavoradas com a nação do fogo. Elas não veem a nossa grandeza. Elas nos odeiam e merecemos isso" (T3:E11, "O Dia do Sol Negro: Parte 2").

No episodio 3 da terceira temporada, fica claro que os jovens da Nação do Fogo eram doutrinados nas escolas a pensarem da mesma forma, mas no fim foi um ideial criado apenas por Sozin e passado para o Senhor do Fogo Azulon e em diante. O povo da nação do fogo no geral era coniviente com a guerra (embora nem todos), e isso é mostrado nas próprias colônias da Nação do Fogo. Então o povo era cúmplice da tirania auto-imposta por eles de forma indébita, mas com certeza não foi a única tentativa disso em Avatar.

O Plano de Ozai

Ozai não era necessariamente um niilista, mas o seu plano central às vésperas do Dia do Sol Negro e perto do Cometa Sozin, era de destruir a nação da terra por completo com o poder que o cometa daria aos dominadores de fogo.

Seria basicamente um genocídio em massa muito maior do que o realizado por Sozin contra os templos da tribo de Ar do Leste e Oeste (usando o poder do mesmo cometa). O plano foi sugerido por Azula (e ela mesma ressalta isso posteriormente à Ozai), dessa forma:

"Ozai: O cometa de Sozin está quase sobre nós. E neste dia ele nos dará a força e o poder de 100 sóis. Dominador algum vai ter chance contra nós.

Oficial: O que está sugerindo meu senhor?

Ozai: Na última vez que o cometa veio, meu avô, Senhor do Fogo Sozin, o uso para eliminar o exército dos nômades do ar. Agora vou usar o seu poder para acabar com o Reino da Terra. Para sempre. De nossas aeronaves vamos lançar fogo sobre as terras deles. Um fogo que vai destruir tudo. E das cinzas nascerá um novo mundo. Um mundo em que todas as terras serão a nação do fogo. E eu serei o governante de tudo!" (T3:E18, "O cometa de Sozin: Parte 1: O Rei Fênix).

Sozin buscava exatamente a dominação mundial, assim como Azulon, seu sucessor que só continuou seu legado de morte. Ozai queria agora executar esse plano buscando eliminar seus inimigos mais fortes e maiores populacionalmente, o Reino da Terra, e se ele fosse bem sucedido, todo o reino iria deixar de existir praticamente, destruído em chamas. No fim foi uma decisão político-militar maligna, é óbvio nesse caso quem são os vilões da história. Embora na vida real, nem sempre é possível delinear facilmente o bem e o mal, o lado certo e errado, e quando temos isso o ambiente político se torna muito mais complexo, é claro que não é o caso aqui.

Porém, vale lembrar que a expressão "exército dos nômades do ar", não é acurada (como foi citada por Ozai aqui), isso fica nítido nessa passagem:

"Professora: Primeira pergunta. Em que ano, Sozin o Senhor do Fogo, derrotou o exército da nação do ar? Fale Kuzon.

Aang: É uma pegadinha? Os nômades do ar não tinham forças armadas formais. Sozin derrotou eles numa emboscada.

Professora: Eu não sei como sabe mais que nosso livro nacional de história, a não ser como se tivesse lá há 100 anos.

Aang: É, eu vou anotar o que eu acho!" (T3:E2, "A faixa na cabeça").

Isso é verdade. Os nômades do ar nem imaginavam que a nação do fogo iria os atacar, foi realmente um ataque surpresa que eles não esperavam e não poderia se defender ativamente, além do poder dos dominadores de fogo estar no seu ápice no evento do Cometa Sozin. Porém, era isso que era ensinado nas escolas, uma mentira! O que não é muito diferente da vida real, é necessário usar documentos primários e fontes sem bias para avaliar eventos históricos, nesse caso tínhamos o último dominador de ar, uma testemunha ocular da forma de vida e estrutura social dos nômades do ar (mais do que qualquer livro com um bias intencional).

No episódio 3 da Primeira Temporada vemos um salão onde estava o cadáver do monge Gyatsu que era o mentor e mestre de Aang. Ao que me parece visualmente vemos que ele deve ter enfrentado sozinho ali um grande número de dominadores de fogo e vencido, essa cena mostra exatamente os horrores da guerra, e da calamidade do evento desse ataque a tribo do ar.

Geografia e Economia

Qualquer pessoa minamente versada em economia, deve entender que sem geografia, história e direito, é impossível entender esse tema. Você pode até entender finanças sem esses temas, mas elementos econômicos necessitam de tais conceitos para se desenvolver, quer o contrário é irracional.

E desde o primeiro episódio, na voz de Katara, vemos o resumo de toda história todos os episódios, começando com: "no ínicio a nação do fogo atacou". O mundo de Avatar é dividio em 4 nações: a da Terra, Fogo, Ar e Água. Economicamente nessa era a Nação do fogo era a mais forte, e vemos que eles foram os primeiros a dominarem com maestria o setor metalúrgico e bélico, criando equipamentos muito mais desenvolvidos nesse setor.

Desde a primeira temporada vemos minas de carvão (prisioneiros também trabalhavam nelas), também navios muito bem construidos com o uso do metal, indústrias já muito bem desenvolvidas e um nível de conhecimento em engenharia muito maior que as outras nações, sendo que a Nação do Fogo fica ao Oeste do mapa mundi.

No Leste temos o Reino da Terra, que é o maior, em termos econômicos seria a mais forte depois da Nação do fogo. Fica claro que em termos de possibilidade de cultivo em acres eles seriam os com maior vantagem competitiva (o que a Nação do Fogo balanceava com seu conhecimento industrial), por também terem dominadores de terra em si, a capacidade de arquitetura deles era muito maior, o exemplo mais básico é a estrutura incrível da cidade de Omashu do Rei Bumi (que vemos na primeira temporada), onde eles usavam escorregadores de terra para transportar commodities na cidade usando a gravidade.

Além de vilas espalhadas pelo reino, que em sua maioria estavam em regiões que poderiam vir a serem de biomas menos frutíferos, então uma boa parte do Reino da Terra não seria de prados e pastos verdejantes, o que poderia afetar a taxa de produção dessa regiões mais montanhosas.

De longe a maior obra prima de Arquitetura do Reino da Terra é a cidade de Ba Sing Se, a cidade protegida por muros. Não se fala com detalhes dos tantos de ataques que a mesma suportou antes da vinda da Nação do Fogo com a guerra, mas em si ela foi o auge da arquitetura pré-revolução industrial que vemos antes dos eventos de Avatar a Lenda de Korra.

A moeda

As moedas usadas em transações eram diferentes de reino para reino, no começo da segunda temporada por exemplo, Katara questiona se aceitariam dinheiro da tribo da água, que tinha uma formatação diferente naturalmente, mas todas tinham base em cobre, prata e ouro respetivamente.

Quando Toph foge da sua família (Beifong), que era uma das mais influentes e ricas do Reino da Terra, os pais de Toph oferecem um baú lotado de peças de ouro para Xin Fu e Mestre Yu trazerem ela de volta.

Os autores de Avatar conseguiram dar uma noção de realidade da falta de recursos dos personagens ao longo da série. Por exemplo, Zuko recebia recursos da nação do fogo para continuar sua busca pelo avatar. Após ele ser dado como traidor junto com seu tio por irem contra Zhao (o mesmo contratou piratas para atacar Zuko também, mas ele consegui escapar), eles tiveram que viver por conta no Reino da Terra como refugiados, e mesmo como mendigos viveram em certo momento, embora Zuko começou a roubar sem seu tio Iroh saber (como de um mercador de quem Zuko rouba peças de prata).

Debasement da moeda nacional naturalmente poderia ser efetuado, como foi feito pelo Senhor do Fogo Yosor (na novel "The Shadow of Kioshi"). Obviamente empréstimos também rolavam, contratos, propriedade de terras, casas e propriedade privada no geral (ou temporária na concessão de Ba Sing Se, para o Avatar e seus amigos), e isso naturalmente flui da lógica da obra e eventos relacionados a isso.

Posteriormente (em Avatar a Lenda de Korra) na United Republic of Nations, vemos o uso da moeda na sua forma fiduciária, porém ainda com moedas de metais preciosos rolando simultaneamente, o que poderia sugerir (pela lógica) um lastro dessas notas em ouro e prata (um bimetalismo) se for o caso

A Biblioteca de Wan Shi Tong

A verdade é que o que tem mais valor na economia não é o ouro e a prata, muito menos o capital em si por sim mesmo, mas o conhecimento (algo que fica claro em Hoppe no "A Short History of Man"). E onde está toda a fonte de conhecimento do mundo de Avatar? Na Biblioteca de Wan Shi Tong.

Lembro mais dela no jogo do Avatar do PS2 do que na própria série (fugir daquela coruja era terrivel). Ela tinha sido visitada pelo General Zhao, onde no fim da primeira temporada, ele diz a Iroh como ele não só esteve lá, mas ali aprendeu mais sobre a tribo da água do norte, e como ele poderia a destruir se matasse Tui e La, sendo respectivamente o espírito da lua e água.

Zhao acreditava que se matasse o espírito da lua, poderia acabar com o poder da tribo da água do Norte, que em 100 anos não tinha sido conquistada pela nação do fogo (o bioma com certeza dava vantagem a eles geograficamente). Porém, se alguém estudar um pouco de física (e a lógica se aplicaria na obra, Iroh mesmo diz isso e assim trai Zhao), destruir o efeito (de "empurrar e puxar") da lua sobre a terra, acabaria com os efeitos da mesma sobre o planeta, tendo efeitos destrutivos para toda a civilização (especialmente efeitos termodinâmicos (temperatura relativa) e de velocidade do ar).

Wan Shi Tong (a coruja; barn-owl para ser exato) colecionava todo o conhecimento da história, e isso incluia pergaminhos de artes marciais e dominação dos quatro elementos, conhecimento de engenharia e arquitetura, além de história. Com certeza ele teria ali livros sobre o a história do Avatar Wang (o primeiro Avatar) e dos eventos que ele participou que reestruturam a formatação posterior de divisão da população nas quatro nações (o que sociologicamente é importante para a formação das mesmas de forma sólida).

Sobre os eventos de Avatar Kioshi com mais detalhes, de todas as guerras que os avatares já lidaram, e também implicações de conflitos entre o reino dos espíritos e o dos humanos (no contexto mitológico da obra). Mesmo Sokka descobriu o dia do Eclipse por conta da Biblioteca, então imagine que tipos de conhecimentos poderia avançar a civilização de Avatar ainda mais se fossem estudados e devidamente aplicados.

Se tem uma coisa que aprendi em economia até agora, é que informação é de fato o que tem mais valor na mesma. E que despreza o conhecimento, pode até ter prata e ouro, mas nunca terá valor de verdade dentro de si.

Essa é só a ponta do Iceberg

Eu dei um resumo da primeira série com algumas citações básicas de Avatar a Lenda de Korra. Porém, não citei aqui os quadrinhos que intencionalmente possuem histórias posteriores aos eventos da série animada e as novels que possuem a mesma característica.

Para uma análise mais aprofundada seria coerente não só falar da série de Korra com mais detalhes mas de tudo que foi produzido por Michael Dante DiMartino e Bryan Konietzko. Pode ser algo que farei em outro momento, e seria interessante ver outros autores falando do mesmo tema, afinal, economia e política sintética é um tema muito amplo, muito mais do que alguém poderia imaginar.