Ética e moral em Genetic Enhancement
Em que momento que a Edição Genética pode levantar questões éticas e morais?
O que é Genetic Enhancement? Consiste em formas de modificar o DNA ou induzir efeitos exógenos hormonais e associados para gerar uma performance humana “superior”. A forma mais simples de dar exemplos nesse contexto, é com chips hormonais e esteróides, onde o foco é alavancar a performance humana em certos esportes ou em diferentes tipos de atividades com o fim de ter resultados melhores e que de fato são visivelmente provados, embora hajam colaterais que podem fazer os prós não pagarem os contras.
O objetivo deste artigo é demonstrar o tema e falar das questões éticas associadas a ele. Já falei no passado sobre a legalidade de esteróides anabolizantes e derivados, e agora iremos um pouco mais além, buscando exatamente entender se legalmente falando (em direito natural), genetic enhancement pode ser algo válido em certa medida, e quando que ele pode ser por natureza, algo potencialmente danoso à sociedade.
O Nascimento do “Melhoramento Genético”
“O que começou no começo dos anos 80 como um tratamento para crianças que não produziam o hormônio de crescimento humano (hGH) se desenvolveu numa possibilidade de melhoramento genético em indivíduos saudáveis. Inovações com tecnologia de DNA recombinante levaram à produção de proteínas de hGH em host cells, tais na bactéria E. coli, sem risco de transferência de pátogenos humanos. Através dessa manipulação genética “indireta” no sistema de expressão procarionte, o hGH recombinante poderia ser produzido com segurança em abundância e usado para crescimento e fortalecimento em atletas” (Sonja Pavlovic, Milena Ugrin, Vladimir Gasic, Vojin Rakic, Chapter 15 – Using genetic for enhancement (liberal eugenics), Editor(s): Sorin Hostiuc, Clinical Ethics at the Crossroads of Genetic and Reproductive Technologies (Second Edition), Academic Press, 2003, Pages 347-379).
Tem uma grande diferença no uso de hormônios como testosterona e GH em seres humanos quando a razão do uso é uma falta congênita da produção endógena deles pelo próprio corpo e o uso por fins estéticos e de performance. Os dois últimos vão além da necessidade do uso, afinal, o seu corpo não precisa de uma maior taxa de produção se ele já produz a média normal, então a injeção de material exógeno com o fim de gerar algo acima da taxa padrão é um excesso. Embora seja um excesso, atletas em vários âmbitos usam ciclos hormonais para aumentar sua performance, e já falei em outro artigo que não há nenhum problema nisso, embora hajam riscos que devem ser configurados na venda desses produtos (que deviam ser devidamente permitidos legalmente) além de uma produção laboratorial com o mínimo de qualidade (o que é difícil quando um país proíbe a produção e venda).
Não confunda o uso de hormônios como literalmente uma droga narcótica, o funcionamento e função deles não permite um pareamento com as mesmas, os contras dos peptídeos, esteróides anabolizantes, hormônios e afins tem características diferentes, muitos vão sim alterar temporariamente o comportamento da psique dos usuários mas não da forma como narcóticos fazem farmacologicamente, são diferentes e essa diferença deve ser ressaltada. No caso da Terapia de Reposição hormonal para mulheres na menopausa,vemos que:
“O componente de estrogênio na terapia de reposição hormonal pode ser tanto sintetizado ou derivado de fontes naturais. Os principais tipos de estrogênio incluem 17B-Stradiol, estrogênios equinos conjugados, e ethinylestradiol. 17B-Estradiol é fisiologicamente ativo na forma de estrogênio que faz uma função crucial no ciclo hormonal feminino e é primariamente um componente sintético primário de HRT. Ele é de uma formulação bioidêntica ao estradiol natural” (Yanachkova, Vesselina, et, al. “Reconsidering hormone replacement therapy. Current insights on utilisation in pramenopausal and menopausal women: An overview.” Journal of Clinical Medicine 14.20 (2025):7156).
Vários hormônios que tais mulheres nesse período podem estar deficientes por razões biológicas, podem ser repostos para criar uma taxa similar a anterior talvez antes desse período, o que pode gerar benefícios para a mulher e também ajudar a lidar com problemas que a menopausa pode potencialmente gerar. Mas no fim é uma forma de usar substâncias para modular o ciclo hormonal para uma taxa não endógena com certos fins. Homens também podem realizar isso com reposição hormonal de testosterona após uma certa idade, por fins óbvios. Não creio haver nenhum problema nisso, reposição hormonal já virou algo relativamente conhecido e comum em muitos âmbitos, porém, essa foi a primeira fase, vamos agora para temas que podem não ser tão fáceis assim eticamente.
Terapia Genética
“A Terapia Genética se refere à transferência de material genético em células somáticas apropriadas (i.e., nominalmente e terminalmente diferenciadas) de um indivíduo de tal forma a prever a alteração do fenótipo de um tipo de célula. A terapia genética pode prover uma forma alternativa de inibidores PDE que pode tratam apenas os sintomas (como disfunção erétil) mas não buscam curar a condição em si” (Steve K. Williams, Arnold Melman, Novel therapeutic targets for erectile dysfunction, Maturitas, Volume 71, Issue 1, 2012, Pages 20-27).
Nesse caso temos algo diferente de uma reposição hormonal para lidar com deficiência de produção endógena, ou do uso do mesmo para fins estéticos. Aqui temos literalmente material genético (normalmente viral nesse caso) sendo injetado no corpo humano com alguma finalidade de mudança de expressão genética com mesmo uma integração cromossômica no processo (idem). E a mesma pode ser usada para tratar tipos de câncer (fins oncológicos), problemas no pulmão, imunoterapias, AIDS e etc, porém, esses são os fins clínicos, será que poderia ser usado para fins de performance? Sim.
“EPO é um hormônio que é secretado naturalmente na maior parte pelo kidney com uma pequena contribuição do fígado e outros órgãos. Níveis elevados de Serum EPO estimulam a erythropoiesis levando a alta de níveis de hemogloblina e hematócritos e aumentando a quantidade de oxigênio levado aos tecidos” (Ana Baoutina, Ian E. Alexander, John E.J. Rasko, Kerry R. Emslie, Potential Use of Gene Tranfer in Athletic Performance Enhancement, Molecular Therapy, Volume 15, Issue 10, 2007, Pages 1751-1766).
Em outras palavras, você consegue performar atividades onde seu pulmão é mais necessário com maior facilidade. Eu quando jogava futebol na adolescência era lateral direito, e em futebol de campo essa posição é a que mais gasta os pulmões, em tanto natação quanto treinos de resistência podem ajudar quem gosta dessa posição, é óbvio que um lateral direito que tem uma vantagem dada a ele por alguma forma similar de terapia genética pode ter efeitos substanciais numa partida de futebol profissional, na natação, corridas e etc. O artigo supracitado cita o quanto “gene dopping” tem sido proibido por associações internacionais de esportes por razões óbvias.
Os autores citam o PPARD também:
“Evans et, al. recentemente fez a engenharia do rato de “maratona”, no qual a expressão excessiva transgênica induzida pelo PPARD promoveu uma característica de troca no tipo de fibra muscular. Isso manifestou funcionalmente uma melhora dramática no profile de exercícios e na proteção contra a acumulação de gordura e mesmo numa dieta com alta gordura” (Ana Baoutina, Ian E. Alexander, John E.J. Rasko, Kerry R. Emslie, Potential Use of Gene Tranfer in Athletic Performance Enhancement, Molecular Therapy, Volume 15, Issue 10, 2007, Pages 1751-1766).
Na mesma proteína, vemos a capacidade de endurance nos esportes quanto de melhora muscular com direito a fins específicos, o ponto é que potencialmente, esse tipo de avanço poderia ser usado na performance de atletas, gerando resultados melhores nas suas competições. Então meio que para cada modalidade de esporte, existiriam formas de aumentar a capacidade do atleta desde seu desenvolvimento na adolescência até a fase adulta, para gerar “super atletas” (lembra o conceito de super soldado em obras de ficção com a mesma temática de alteração genética). Mas obviamente existem colaterais em cada uma dessas formas de aumentação genética, e isso deve ser considerado em cada caso diferenciado, onde já vimos que existe uma clara diferença do uso de terapia genética para fins clínicos e fins de performance, um tem o foco em curar o outro é um excesso para gerar melhores resultados.
Edição Genética Pré-Natal
Quando o termo “pré-natal” é usado, estamos falando de uma intervenção antes do nascimento de um ser humano. Podemos aqui colocar essa parte do artigo como a mais “uncanny” (em termos do meme do Sr. Incrível), pois estamos lidando com algo que tem implicações ética e até morais muito mais sérias, pois erros em intervenções clínicas nesse estágio podem danificar a criança no seu desenvolvimento de forma permanente e substancial no pior dos casos, então é realmente mais difícil eticamente do que os temas anteriores.
Um exemplo:
“A primeira dessas intervenções iria provavelmente envolver a dição de células somáticas, nas quais mudanças não herdadas seriam feitas por razões terapêuticas.Neste cenário, uma pessoa grávida iria receber a diagnosis após o embrião ter começado seu desenvolvimento no útero, e a terapia iria focar células somáticas nos órgãos afetados como o cérebro ou pulmões” (Major, Rami M., and Eric T. Juengst. "Prenatal gene editing for neurodevelopmental diseases: Ethical considerations." The American Journal of Human Genetics 112.2 (2025): 201-214.).
Alguém poderia prever má formações no tubo neural, má formações posteriores na formação do corpus callosum (que pode levar potencialmente à problemas de linguagem e autismo em alguns casos), e diversos tipos de problemas que poderiam talvez ser remediados através da terapia genética. O problema é que, primeiro, o entendimento da probabilidade de expressão genética futura é complexo, algumas empresas vendem o chamado “sequenciamento genômico” em que o foco é prever patologias futuras com causas genéticas que você possa vir a ter (como tipos de câncer, ou diabete), porém, nem sempre a pessoa que tem aquele alteração genética que causa uma patologia, desenvolve ela, há sim um problema na teoria da probabilidade de expressão genética em certos contextos.
O que acontece se um erro for cometido? O que acontece se a terapia genética causar problemas no longo prazo que não ocorreriam se ela não tivesse sido realizada? Como pedir aos pais pelo uso desse método já no útero, avisando das consequências caso hajam colaterais? É realmente complexo. Os autores do artigo supracitado, sugerem que a alteração genética com foco em tratar má formações neurológicas, deveriam se tratar de doenças severas, que possuem uma etiologia muito bem entendida (etiologia é o estudo das causas, nesse caso de patologias), ter uma base clínica forte com base em estudos pré-clínicos para saber se o método irá funcionar no caso da patologia probabilisticamente inferida em si, e que deveria haver uma vantagem nessa intervenção pré-natal vs. a pós-natal, e a mãe tem que consentir é claro (idem). Porém erros podem ser efetuados nesse processo por ignorância ou falta de cuidado, é claro que existem grupos médicos em diversas instituições que poderiam fazer essa edição genética com foco terapêutico de forma muito melhor, então, há um risco potencial de erros médicos nesse contexto gerarem problemas na efetividade do método, então é necessário uma infraestrutura para fazer esse tipo de tratamento acessível.
Esse é o caso clínico, vamos agora para o sintético. Vamos esquecer doenças, patologias e má formações, alguém poderia realizar edição genética pré-natal (e hoje é possível fazer isso já) por fins de “aumentar” de alguma forma a disposição genética funcional dos fetos? Vimos que no caso clínico, mesmo nele, é necessário ética em relação ao que pode ou não ser feito, imagine agora, quando não há necessidade de realizar tal intervenção. E não estou falando de fertilização in-vitro apenas, estou falando de alguém querendo modificar eugenicamente o DNA humano no embrião para gerar “seres humanos melhores” (In-vitro genetic editing).
É claro que alguém poderia advogar por In-vitro genetic editing para evitar doenças genéticas futuras que podem probabilisticamente acontecer no futuro. O casal que opta pela fertilização in-vitro, pode escolher o melhor embrião para por fim a esposa vir a ser fertilizada com o mesmo, é uma forma de podar, escolher as cacterísticas do bebê que irá nascer, uma diagnose pode ser realizada em relação a embriões que são de baixa qualidade, e esses serem descartados. É diferente pois naturalmente, o embrião que adentra o óvulo vem de uma função probabilística, na fertilização in vitro ela é determinística (o que é interessante).
Por exemplo:
“Editar a mutação de células tronco embriônicas pode potencialmente corrigir todas as células filhas resultantes, o que preserva a função celular normal e a diferenciação dessas células e poderia permitir um desenvolvimento fetal normal. Isso é particularmente vantajoso em síndromes genéticas que afetam múltiplos sistemas de órgãos durante a embriogênese, os quais com frequência resultam na perda da gravidez, má formações complexas, e morbidade” (Mattar, Citra NZ, Wei Leong Chew, and Poh San Lai. “Embryo and fetal gene editing: Technical challenges and progress toward clinical applications.” Molecular Therapy Methods & Clinical Development 32.2 (2024)).
Mas e se alguém ir além disso? E querem melhorar os seres humanos em níveis além da capacidade comum genética dos mesmos? Parece um plot, um Mcduff de ficção científica, mas se há uma busca por genetic enhancement no campo in vivo, não creio que o in-vitro se tornará para sempre diferente. Talvez haja no futuro (não sei) uma busca muito maior por uma forma eugênica (e por isso errada) de melhoramento genético de forma excessiva, não só com fins clínicos, mas com fins de performance humana, performance cognitiva, e coisas do tipo. A teoria eugênica se tornou uma fraude, ela é imoral e errada, não estou dizendo que há uma probabilidade de isso se tornar tão comum que seja padrão na vida de uma sociedade, mas não acredito que genetic enhancement pré-natal seja algo ético, pois a teoria da probabilidade de expressão genética futura ainda está na sua infância, não creio que essas mudanças possam ser feitas agora em larga escala sem um dano congênito em muitos casos (mas essa é apenas minha opinião pessoal, é claro, não sou contra fertilização in-vitro por sinal, mas o caminho ruim que alguém pode seguir com ela no futuro).
Obs: É estranho como ideias para artigos vem de lugares diferentes, tive a ideia de escrever nesse tema por conta de um episódio que vi de Batman Beyond nesse tema de edição genética, só que in vivo, isso me lembra quando descobri sobre Quantum Divergence por conta de um episódio de Billy e Mandy (não vou explicar porque agora), então uma dica é que às vezes no lazer acabamos tendo ideias diferentes, e achamos coisas que nem procuramos.