Uma Breve Teoria de Alocação de Recursos

Escrito por Aranea

A escalabilidade da alocação de recursos ao longo da trajetória empresarial

Reunião empresarial

Nos últimos dois artigos eu falei sobre quatro pilares fundamentais em processos econômicos, sendo eles: alocação de recursos, investimentos, know-how e execução (e tempo na mesma). Nesse artigo focarei apenas no primeiro, em que o objetivo será expandir na medida do possível o que significa alocação de recursos, e como empresas privadas tendem a usar isso numa economia de mercado com o fim de gerar uma taxa de juros de retorno de investimentos maior.

O que alocar recursos significa realmente?
Vamos supor que você tenha a ideia de abrir uma loja, qual seria o primeiro passo para fazer essa ideia se realizar? Primeiro você teria que entender que nicho você gostaria atender, um nicho que você conheça de fato de tal forma que poderá gerar uma experiência do cliente substancial. Eu não sei nada sobre café gourmet, para eu pessoalmente abrir uma loja desse tipo, eu teria que ficar ao menos vários meses ou um ano no mínimo estudando, fazendo cursos disponíveis no tema, ou pagando consultoria e conhecendo esse mercado, para sequer pensar em cogitar a ideia de abrir uma empresa nesse setor.

A ideia de fato é extremamente importante, mas ela não pode vir à luz na realidade sem um conhecimento prévio mínimo, básico do nicho, pois aprender tudo do zero e já investir num ponto de aluguel, ir comprando mercadorias e etc, é coisa de maluco, é necessário primeiro entender muito bem o nicho, não que seja obrigatório fazer um curso de administração (para isso existe contabilidade, gerentes e etc, embora seja bom investir nisso), mas você tem que entender muito bem o setor que deseja atuar antes de fazer qualquer coisa.

Depois da ideia, é necessário capital, eu não consigo alugar um imóvel com R$ 0 reais na conta e negativado na minha linha de crédito, talvez alguém tente um crowdfunding, ou pedir dinheiro emprestado a amigos, mas dependendo da linha de negócio, um mínimo de capital é necessário. Se faz necessário citar que a formação de capital (seguindo Rothbard), vem de “capital, trabalho e tempo”, em que os últimos dois sem o primeiro, dependendo do nicho, não podem ser continuados (afinal, existe um custo de subsistência pessoal e familiar que não é de graça).

Tendo capital, alguém irá buscar alugar uma loja, talvez depois de já ter um estoque (na própria casa inicialmente) dos produtos que irão ser vendidos, esse estoque nesse caso seria adquirido através de uma pesquisa dos fornecedores locais do produto em questão do nicho escolhido, em que o capital adquirido através de empréstimos, juros e etc, será usado em grande parte para adquirir seu estoque. Então até agora temos duas coisas: capital e estoque.

A Segunda Fase

Depois de ter capital e estoque, você deverá (nesse exemplo) mover parte do estoque para sua loja (alugada, embora comprar o imóvel seja melhor, é um investimento mais arriscado, mas sobre isso depois), não necessariamente todo, seria talvez sábio buscar algum fornecedor de storage privado para guardar parte do seu estoque (para sua mulher ou quem for não encher o saco de ter estoque no seu banheiro até), além de você ter que gastar um valor mínimo de uns R$5 mil até R$10 mil reais (podendo ser mais) para reformar o imóvel alugado para ter uma loja atraente para os consumidores.
Se tudo ocorrer bem, você agora terá sua loja alugada, parte do seu estoque ponto para ser precificado e vendido, e eventualmente depois de podar a mesma, abrir ela ao público. Naturalmente o ponto escolhido é extremamente relevante, por fins teóricos de exemplo, uma loja em “Lugar Nenhum” nunca daria certo (assista Coragem,o Cão Covarde para entender, literalmente só a abertura basta), uma loja num local com fluxo alto de pessoas tende a ter o preço do metro quadrado maior, ainda mais em shoppings que valores começam de R$ 10.000 por mês para cima, dependendo do produto seria bom até já ter uma loja online antes para depois ir para o varejo, onde dependendo do nicho é até melhor ficar só no online, nem todas as lojas, o varejo vale a pena, depende, creio que lojas de games e Coin Shops por exemplo, tem ainda vida no varejo e online simultaneamente (até para criar inventário com maior facilidade).

A Terceira Fase

Sua loja já está rodando à seis meses, você agora tem mais dois funcionários, sendo eles um custo fixo e com salários ajustados à inflação anual. Você treina eles de forma processual, criando de forma simples e sem microgerenciar eles (tal coisa é abominável) uma lista do que fazer em certas ocasiões, por exemplo:

  1. Como receber mercadorias
  2. Como fazer pedidos de mercadorias
  3. Como precificar itens
  4. Como repor os itens ciclicamente
  5. Como atender os clientes
  6. Como atender telefonemas com clientes e fornecedores e etc

E coisas do tipo, mas creio que é melhor deixar eles livres no geral, apenas com regras processuais básicas (um organograma simples basta) para manter uma consistência e não deixar eles à deriva (sei disso por que já fui balconista). Porém agora, você tem que lidar com a dita alocação de recursos, você deve entender o que você deve comprar que tenha um potencial de venda maior e de forma líquida, ou seja, que não fique parado na sua prateleira eternamente. Itens não líquidos são um prejuízo, pois eles não geram liquidez suficiente para lidar com custos operacionais, e aí você precisa injetar mais capital de giro para lidar com seu custo mensal, sendo que devem ter itens que no agregado estão só criando teias no estoque e não vendem.

Alguém pode lhe dizer: “mas daqui a tanto tempo poderá vender”, porém, isso depende do mercado de atuação. Se for um mercado que permite itens colecionáveis e de características de leilão, o item pode apreciar no futuro, então seu estoque estará apreciando no agregado em média e poderá potencialmente ser vendido com um lucro maior do que o custo de retenção mais o de compra do fornecedor ou vendedor (como no mercado de games por exemplo). O custo de retenção no geral, é o custo total do seu estoque dividido por todos os itens em estoque, em que você pode transformar (se quiser) isso numa derivada do custo total ao longo do tempo pela mudança de estoque ao longo do tempo (itens saindo e entrando com o tempo).

Seu custo de retenção tende a ser o mesmo, pois é fixo. Então se eu alugar um storage privado, um galpão ou uma casa, não importa, para alocar meu estoque, o custo total é o que eu pago nesse aluguel, que pode variar, normalmente é ajustado anualmente à inflação. Em tudo isso, é bom lembrar que o lucro recebido continuamente é sujeito à depreciação anual em inflação, então a poupança da loja em si deprecia continuamente, e isso deve ser contabilizado anualmente, pois isso altera seu poder de compra real com o lucro adquirido. E é verdade que é bom que ele renda mais que a inflação no ato de investimentos, é só ajustar ele a depreciação da taxa de inflação anual e ver o quanto sua poupança perdeu em poder de compra no tal ano.

A Quarta Fase

Essa é a fase de uma empresa já amadurecida, aqui a alocação de recursos fica mais complexa, pois a quantidade de mercadoria adquirida em escala aumenta (se sua empresa de fato estiver crescendo). Talvez agora você tenha de 5 à 15 lojas (vamos ignorar franquias, não vem ao caso), e a quantidade de estoque comprado não é mais de R$ 25.000 por mês, mas de R$ 200.000 por mês dependendo do quanto a empresa cresceu. O storage agora é maior e não necessariamente em apenas um local (por razões de segurança e eficiência de transporte para cada loja), agora você contrata mais serviços terceirizados para diminuir o custo de operação (levar o estoque na Kombi não compensa mais).

A folha salarial e a demanda contábil também é mais custosa, e quanto mais sua empresa escala em tamanho, mais tarefas de gerência devem ser delegadas, visto que você cuidar de tudo seria uma imbecilidade, logo você vira como CEO apenas um gestor, delegando tarefas ao gerente de cada loja, em que cada um deles devem gerenciar seu estoque de forma eficiente, sendo devidamente treinados para isso e tendo liberdade de eles mesmos terem ideias melhores e sendo recompensados financeiramente por isso (não com jantares ou chocolate no fim do ano, por favor).

Você também começa agora a se industrializar, digo, fazer seus próprios produtos no nicho que você atua, tentando diversificar seu repertório sem sair do nicho (afinal, um fast-food começar a vender cartas de pokémon seria meio que fora do nicho não?), vendo o que funciona e o que não funciona. A sua margem de erro em alocação de recursos tende a ser maior agora, infelizmente, quanto maior a escala da operação, a margem de erro tende a punir mais o empreendedor, agora um erro na cadeia de produção, transporte e etc, custa muito mais capital, tempo e trabalho para ser resolvido, e se as falhas forem sistêmicas por n razões, o prejuízo tende a ser sistêmico também, ou seja, seu prejuízo vai escalar assim como sua operação e lucro do mesmo.

Como você resolve os problemas de crescer demais, talvez muito rápido? Se adaptando à escalabilidade. Se adaptar significa mudar processos, talvez fornecedores, forma de produção de linhas de produtos internos, e tentar sempre abaixar os custos e diminuir a margem de erro em alocar recursos da melhor forma possível, é claro que lançar novos produtos pode gerar desconforto, pois o risco é mais alto, porém, se for feito de forma correta, talvez mesmo os que falharem serão pagos pelos que derem certo, assim uma Amazon da vida que inicialmente só vendia livros, hoje vende principalmente computação na nuvem com n serviços para empresas (mesmo para streaming, criação de games online e etc), tem diversos tipos de projetos como jogos, filmes, séries, um repertório enorme, que depende de uma gestão para cada um desses novos setores que tenha uma eficiência operacional descente, mas o que demanda um custo de investimento maior.

Assim a Amazon por muito tempo sempre esteve em déficit depois de crescer demais, porque sempre reinvestia em si mesma para crescer ainda mais e pegando mais crédito e juros no processo, mas no fim isso por mais que criava uma tensão na mesma (como o Youtube foi assim também), eventualmente se pagou no longo prazo, mas é natural que empresas escalando demais em vários setores, tenham que lidar com uma alocação de capital maior, e investimentos contínuos, muitos que serão fracassos (A série Rings of Power que eu diga, um fracasso bilionário, renderia literalmente mais em poupança ou títulos, uma dica: “dinheiro parado é melhor que dinheiro jogado no lixo”). Eventualmente nessa fase, a empresa pode virar internacional se puder.

A Quinta Fase

Essa não é exatamente uma fase necessária, mas é primordial. Ela pode ser resumida numa frase: “adquirir outras empresas”. Uma empresa internacional já consolidada tende a ser obrigada a adquirir Startups e empresas emergentes, empresas como a Meta, Google, Amazon, Microsoft, NVIDIA, Berkshire Hathaway, tendem a adquirir empresas que adicionam ao seu repertório e que podem crescer com o capital e know-how que a mesma possui. É claro que empresas não são obrigadas a vender a si mesmas, elas podem simplesmente ignorar a opção de venda como o Facebook fez antes de ser a Meta com a Microsoft. Aquisições tem muitas facetas, mas em essência são transações comerciais em que ambas as partes precisam acordar com tal transação (embora existam aquelas mais agressivas legalmente falando, é no fim um contrato legal).

Defender limitações de competitividade e monopólios é imoral, uma instituição que tenta “controlar possíveis monopólios” estará no limbo da subjetividade, onde a noção de uma aquisição “monopolista” e “legal” é simplesmente imunda, visto que monopólios tendem a ser criados pelo Estado, e se uma empresa se tornou pública e deseja se vender para outrem, isso é um problema dela, não do Estado, se ela for de capital privado e deseja se vender, isso é problema dela, não do Estado, tentar controlar quem compra e quem vende e assim impedir tais transações é um ataque ao capitalismo, um ataque à liberdade econômica, um ataque à própria liberdade individual, empresarial e contratual, além de ser de análise subjetiva e uma violação de qualquer constituição.

Não devem existir limites para aquisições na legislação, embora o limite seja o leverage disponível à empresa, sendo que ela pode investir em empresas e startups que no fim geram prejuízo, no fim, tal coisa é um risco muito sério. Imagina adquirir uma empresa que vai à falência daqui a 5 anos? É um capital que basicamente foi absorvido e não tem volta, você pode até vender ela, tentar gerar crédito através de high yield bonds e etc, mas no fim, é prejuízo. O setor de Private Equity tem que lidar com isso, e empresas de fase cinco lidam com tais problemas toda hora. É impossível ela adquirir todas as empresas emergentes no timing correto, e as mesmas se quiser nem se vendem (depende), logo é necessário citar a necessidade da liberdade econômica nessas transações contratuais, visto que elas envolvem risco e embora sejam uma forma de crescimento de grandes colossos empresariais, podem ser bilhões jogados no lixo eventualmente, então, não controlem tais transações com regulações estatais inúteis.

Existe a sexta fase?

Eu não sei. A quinta já descreve as principais empresas no mundo, e pode ser dito que nem sempre na história a quinta fase existiu, somente veio no advento do capitalismo. O capitalismo vem se amadurecendo desde seu pré-nascimento pós-mercantilista, porém, não sei qual é o próximo passo, a história nos mostrará a próxima fase do avanço empresarial, ninguém sabia como seria no depois da Primeira e Segunda Revolução Industrial, Marx tentou prever o que aconteceria e falhou miseravelmente, assim como Malthus e outros que acreditavam que o aumento populacional causado pelo capitalismo seria catastrófico eventualmente, pelo contrário, hoje vemos uma baixa de natalidade em países desenvolvidos, e isso é normal, e não é ruim (somente para é ruim para idiotas que achem que previdência pública é algo natural).

Eu acredito que o capitalismo seja orgânico, nem precisamos desse nome, o conhecimento humano aumentou, a produção aumentou, o PIB per capita aumentou, a população aumentou, a taxa de qualidade nutricional aumentou, a população global aumentou, a pobreza diminuiu, a qualidade de vida aumentou, o tempo de vida aumentou, a qualidade de moradia média aumentou (viva numa economia pré-malthusiana e verás que era muito pior que agora, e sem ar condicionado, geladeiras e iphones), a taxa de mortalidade infantil abaixou, a taxa de qualidade de educação aumento assim como sua disponibilidade, e etc. O Capitalismo veio para ficar, embora no último século muitos vem tentando minar seu desenvolvimento, seja o que for, o próximo estágio virá da liberdade econômica, não sei o que irá acontecer, e não ousarei prever qualquer coisa, pois o futuro não pertence a nós, mas a Deus.

Essas fases não funcionam para todo tipo de negócio, seria necessário adaptar muita coisa para Holdings, Trustees e outras modalidades empresariais. Outros fizeram o mesmo no passado, essa é só minha opinião pessoal, e posso estar errado é claro. Porém, creio que essas fases são substanciais para um negócio comum, qualquer empresa pode chegar eventualmente no estágio cinco, a Berkshire Hathaway era inicialmente era uma indústria têxtil, e hoje opera em diversos mercados diferentes, e com alocação de capital em várias streams de faturamento (como o mercado de seguros principalmente), tudo depende da capacidade dos empresários e um toque de sorte (o que chamo de providência).Creio que o crescimento honesto e ético dessas empresas é um bem para toda a sociedade nacional e internacional, aqueles que demonizam o lucro, demonizam a prosperidade das nações e por fim, dos pobres que eles dizem defender