A Essência Catalática da Economia
Tanto a praxeologia quanto a catalática, que regem a essência de processos econômicos
O termo "catallactics" vem do grego καταλλοντα (ou καταλλάσσω, que significa "exchange", "troca" ou "câmbio") e essencialmente significa "reações orgânicas do mercado" de forma mais prática. É sobre a forma que pessoas se comportam em transações, que no seu escopo natural, são caláticas.
Vi pela primeira vez o termo em Hayek, mas ele não foi o primeiro a usar esse conceito. O ponto desse artigo será falar sobre a visão de Mises sobre "catallactics", e expressar a importância do termo na economia.
O que é a cataláctica?
"Não é o rigor lógico ou epistemológico, mas sim considerações de conveniência e convenção tradicional que nos levam a declarar que o campo da catalática, ou da economia em sentido estrito, é a análise dos fenômenos de mercado. Isso equivale a afirmar: a catalática é a análise das ações realizadas com base no cálculo monetário" (Mises, Ludwig von. Human action. Ludwig von Mises Institute, 1949, pg. 235).
Quando alguém usa o termo "processos orgânicos" na economia, significa que são os processos em sua normalidade, ou seja, sem intervenções econômicas e legais que podem fazer o processo natural se perder. Posso dar um exemplo, quando alguém compra barras de ouro, o objetivo central é criar uma reserva de valor alternativa à tradicional, sabendo que o preço do metal precioso tende a valorizar (assim como a prata), mas como é definida essa transação?
Basicamente você vai numa loja de moedas (Coin Shop) e vão ter várias disponíves a um certo peso, um spot price (o preço atual de mercado) e talvez à um premium dependendo da moeda ou barra diferenciada (mas vamos ignorar por enquanto o premium). A base do cálculo monetário ao alguém comprar barras de ouro é um cálculo mental do mesmo com base na informação que alguém tem dessa commodity e do seu valor para ela, o que é definido pela utilidade subjetiva e pela utilidade marginal (quantidade de oferta no mercado).
A preferência temporal do ouro muda constantemente, o que é algo incontrolável, mas eventos na mídia e no mercado pode fazer a preferência por ouro aumentar, um exemplo é quando a confiança na moeda fiat temporarialmente decresce por n motivos, e assim as pessoas pensam no ouro como hedge contra a inflação. Essa decisão em si de alguém comprar e vender ouro em n estágios da cadeia de produção, é um processo catalático, que tem base no que esperamos do ouro no presente vs. no futuro, assim quem pensa que ele continuará a subir, faz seu cálculo mental se deveria ou não comprar (em que agentes podem ser irracionais nessa alocação de ouro).
**Praxeologia e Catalática
"A praxeologia não pode, como as ciências naturais, basear seus ensinamentos em experimentos de laboratório e na percepção sensorial de objetos externos.Ela teve que desenvolver métodos completamente diferentes dos da física e da biologia. Seria um grave erro buscar analogias com as construções imaginárias no campo das ciências naturais" (Mises, Ludwig von. Human action. Ludwig von Mises Institute, 1949, pg. 238).
Esse predicado é muito importante, vemos aqui Mises fazendo a distinção da ciência econômica ortodoxa e a austríaca, em que o ponto é que nossas proposições sobre economia devem ter uma base na ação humana, e por isso os predicados não podem ser derivados a priori de interpretações probabilísticas ou imaginações téoricas em equações sem nenhum poder explanatório do tema abordado. Se você quiser usar matemática na economia (o que acho que é possível em alguns aspectos), seus predicados tem que estar corretos inicialmente, e um dos predicados mais basilares é sobre como esse ambiente é diferente da física e da química, não estamos falando aqui de píons e quarks, mas sim de pessoas, se você não entender isso tudo que virá da sua teoria estará errado.
A praxeologia estuda relações de causa--efeito na economia, contanto que alguém realize inferências corretas sobre as causas de efeitos na mesma, alguém pode identificar proposições óbvias, leis que regem a economia. Por exemplo, quando Say diz que: "a oferta gera a demanda", essa é uma proposição geral que pode ser falsa ou verdadeira, ela é uma proposição praxeológica, onde por ela (se estiver correta), podemos entender como as empresas ao criarem a oferta de n produtos (e gerando empregos, empréstimos, formação de capital e etc no processo), tem a necessidade de criar a sua demanda através da propagação da informação de seus produtos, que seus consumidores podem vir a gostar ou odiar com base em suas preferências, mas os mesmos não necessariamente pediram pelo produto inicialmente, ou pelas mudanças que o empreededor colocou nos mesmos.
Outra lei é a Lei de Gresham, que diz: "dinheiro ruim, tira o bom de circulação" (onde segundo Rothbard, isso tende a ser feito pelo Estado), o que é a constatação de um fato, e isso não é algo novo, podemos ver essa mesma visão sobre dinheiro em toda história (visto que mesmo Aristófanes citou o conceito na sua obra "Sapos). Então existem leis, proposições que descrevem praxeologicamente como a ação humana age em certas instâncias e momentos, e é isso que a ciência econômica é, quem nega isso, nega a realidade do tema.
Processos não--cataláticos
"Nas condições específicas das negociações no mercado, ação significa comprar e vender. Tudo o que a economia afirma sobre demanda e oferta refere-se a todos os casos de demanda e oferta, e não apenas à demanda e oferta resultantes de circunstâncias especiais que exigem uma descrição ou definição particular" (Mises, Ludwig von. Human action. Ludwig von Mises Institute, 1949, pg. 241).
Isso é muito importante, pois quando alguém coloca predicados na sua teoria econômica que são totalmente alheios a realidade da ação humana, e fazem inferências como que "agentes são racionais", "é um sistema fechado que tende ao equilíbrio", "modelos probabilísticos podem aproximar soluções em diversos contextos", "que os preços de ações já possuem em si informação suficiente para modelos preditivos" e etc, eles estão com as bases erradas para trabalhar em qualquer teoria, o que advém disso pode ser apenas uma quimera (para usar um termo de Mises).
O intervencionismo, protecionismo e coisas similares, tendem a criar uma confusão em processos cataláticos normais. É como se o flow de um rio normal fosse impedido por pedras no caminho, ele até flui mas com muitos mais obstáculos e mais lentamente (o que podemos chamar de burocracia). Isso não é natural, não é a ordem natural catalática de transações, essa é uma violação do direito natural de propriedade da sociedade, quando o governo (diferente do que deveria fazer) tira a liberdade que ele mesmo prevê na constituição, uma que ele retira na legislação depois de falsamente afirmar na constituição (afinal, fica contraditório o seu núcleo legal ir contra a legislação).
As pedras devem ser retiradas para que o fluxo da economia seja o natural e assim a possibilidade de prosperidade ser maior. Mises também fala sobre como muitos tentam defender processos não orgânicos na economia, através de exemplos totalmente fora da caixa que não são demonstráveis e prováveis fisicamente, eles funcionam bem na teoria, mas a prática não lhes dá nenhum vigor:
"Robinson Crusoé, que, apesar de tudo, pode ter existido, e o gerente-geral de uma comunidade socialista perfeitamente isolada que nunca existiu, não estariam em posição de planejar e agir como as pessoas só podem fazer quando recorrem ao cálculo econômico. No entanto, no âmbito de nossa construção imaginária, podemos fingir que eles poderiam calcular sempre que tal ficção for útil para a discussão do problema específico a ser abordado" (Mises, Ludwig von. Human action. Ludwig von Mises Institute, 1949, pg. 244).
Mises usa o termo "autistic economy" aqui, para um modelo black box sendo aplicado a um indivíduo num contexto específico. Crusoé é usado para explicar uma "single person economy" em que ele tem que administrar seus recursos numa ilha (à la The Sims: Castaway) de forma a maximizar sua homeostase e probabilidade de sobrevivência. Porém, esse exemplo imaginativo é totalmente possível e acessível a realidade, o modelo socialista utópico tende a criar um ambiente que demonstra que a teoria socialista é possível, que o cálculo econômico é possível, que seria possível melhorar a situação econômica da nação através de um sistema como aquele, porém, é um fato que teorias do tipo funcionam na teoria, mas não na prática, assim o poder preditivo de teorias sem fundamentos palpáveis (com predicados errados) é nulo.
Experimentos de pensamento imaginários
Mises também descreve a utilidade de "thought experiments" como de Evenly-rotated-economies (ERE), em que basicamente temos processos estacionários sem mudanças de relações de preços (o que significa que o juros originário se torna zero, assim como preferência temporal e etc). Mas seria um sistema totalmente sem mudanças e pensamentos divergentes de pessoas, o que é simplesmente impossível, mesmo numa obra de ficção seria difícil conceber isso.
Porém, Mises mostra que mesmo uma ERE é útil para gerar inferências econômicas, pois é na ausência dos elementos centrais da economia (como o tempo, preferências e mudanças) que vemos a importância dos elementos na vida real. O mais interessante é a forma que Mises descreve o dinheiro numa ERE:
"Todas as transações podem, na verdade, ser efetuadas por meio de transferência nos livros do banco, sem qualquer recurso a dinheiro em espécie. Assim, o "dinheiro" deste sistema não é um meio de troca; não é dinheiro de forma alguma; é meramente um número, uma unidade de contabilidade etérea e indeterminada, de caráter vago e indefinível, como a imaginação de alguns economistas o define e os erros de muitos leigos foram erroneamente atribuídos ao dinheiro" (Mises, Ludwig von. Human action. Ludwig von Mises Institute, 1949, pg. 250).
Dado que é necessária a preferência temporal (assim o tempo e mudanças de preferências das pessoas sequencialmente), numa ERE temos um sistema completamente alheio a sociedade normal, não existe dinheiro no fim, existem apenas eles numa constituição nominal e todas as transações são tão perfeitas que o significado de alocação de recursos com fim de arbitragem se tornam inesistentes. Pois quando eu quero juntar dinheiro para comprar um novo videogame, o preço afeta minha preferência de querer comprar agora ou depois quando ficar mais barato e essa mudança é essencial na minha decisão, mas numa ERE o próprio conceito deu eu como ser humano pensar no que eu estou disposto a pagar, não existe (é confuso porque uma ERE é impossível), por isso Mises que a ação humana em essência deixa de existir.
Sócratres (em Parmênides) descreve o ser humano usando o termo "γενήσεται" (vir a ser):
“Necessariamente.” — “Portanto, o que era (τὸ ἓν), é (ἔστι) e será (ἔσται), e estava vindo a ser (ἐγίγνετο), vem a ser (γίγνεται) e virá a ser” (γενήσεται) — “Com certeza.” — “E algo poderia pertencer a ele e ser dele, no passado, presente e futuro" (Cooper, John M., and Douglas S. Hutchinson, eds. Plato: complete works.Pg. 387, Hackett Publishing, 1997).
O que significa que o ser humano muda constantemente assim como qualquer criatura, logo, uma ERE seria uma negação do ser (humano), ainda sim é uma boa forma de mostra a importação do tempo e mudança na economia, e assim da preferência temporal.
A Economia Estacionária
"A construção imaginária de uma economia estacionária leva a duas outras construções imaginárias: a economia em progresso (expansão) e a economia em retrocesso (contração). Na primeira, a quota per capita de riqueza e renda dos indivíduos e o número da população tendem a um valor numérico mais alto, na segunda, a um valor numérico mais baixo" (Mises, Ludwig von. Human action. Ludwig von Mises Institute, 1949, pg. 252).
Na economia estacionária, temos basicamente um jogo de soma zero, onde ninguém ganha, ninguém perde, um equilíbrio termodinâmico perfeito. Na em progresso é um jogo de somas positivas, empresas ganham, outras perdem no processo, mas no geram ela tende a um crescimento em prosperidade, na em retrocesso ocorre exatamente o contrário (idem, pg. 252). Mises levanta então o problema dessas noções, pois, como você mede de fato uma economia em retrocesso por exemplo?
Na crise de 2008, com certeza tivemos um queda de inúmeros bancos na bolsa de valores, algumas nunca voltaram aos preços que eram anos antes da crise. Poucos realmente conseguiram prever a crise, e realmente todos pensavam que o boom dos anos 2000 até a crise irá tender a continuar, ninguém esperou uma crise tão gigantesca que afetou os EUA e a Europa de forma tão extrema, que governos tiveram que pagar para bancos não falirem. Mas o ponto é: "quando que a economia pode ser considerada de progresso e expansão, quando a qualquer momento ela pode estar em declínio? Ou quando o contrário acontece sem ninguém poder realizar de forma preditiva?".
A questão é que provar que é possível medir isso de forma preditiva, é basicamente impossível. Quem esperava a inflação global tão alta em 2019 antes da pandemia vir, ninguém. A questão é que as condições de mercado que podem fazer o mesmo cair ou subir não são previsíveis necessariamente, é um ambiente de muitas incertezas.
O ponto central
Mises então conclui seu pensamento sobre o tema, de forma primorosa:
"Assim, o resultado da ação é sempre incerto. A ação é sempre especulação. Isso é válido não apenas em relação a uma economia de mercado, mas também para Robinson Crusoé, o ator isolado imaginário, e para as condições de uma economia socialista" (Mises, Ludwig von. Human action. Ludwig von Mises Institute, 1949, pg. 253).
É estranho ler isso, pois o termo especulação me remete às palavras de Benjamin Graham, diferenciando o investidor do especulador. Mas creio que a intenção de Mises era falar sobre mudança, quando eu prefiro poupar dinheiro, eu devo ter minhas razões para tal ação, que podem ser várias, e cada um tem suas razões em preferir investir, deixar de investir (num carro, casa, bens de consumo caros), comprar e deixar de comprar, vender e deixar de vender. As pessoas tem diferentes preferências, e as mesmas mudam continuamente, logo a economia é um sistema de perpétual mudança (perpetual novelty; para usar um termo de W. Brian Arthur), entender esse fato é o fundamento central para alguém entender a ação humana e assim como a economia funciona, assim a economia é sobre duas coisas: ação, e mudanças (action and change soa melhor, ao menos na minha cabeça).