A Estrutura Praxeológica da Sociedade

Escrito por Aranea

A praxeologia mostra que existem leis e axiomas que provam ações de certos governantes imbecis

Carl Menger, Von Mises e Von Weiser respectifcamente

“Nós agora nos voltamos para o Axioma Fundamental (no centro da praxeologia): a existência da ação humana. Deste absolutamente verdadeiro axioma podemos destrinchar toda a fábrica da teoria econômica” (Rothbard, Murray N. Economic controversies. Ludwig von Mises Institute, 2011, pg. 107).

Segundo Mises a economia é representada através da praxeologia e história, em que na primeira temos relações de causa–efeito que pode ser observadas e demonstradas em axiomas de forma verbal, como: “o aumento da oferta de capital de forma exógena, gera inflação”, o que pode ser facilmente observável em toda a história desde a introdução da moeda fiat em diferentes períodos, em diversas nações.

É um pouco como química, que tantas quantidades de mols de hidrogênio e oxigênio geral tanto de água, analisando os nêutrons e prótons nessa relação, no geral temos constantes na física, temos leis, temos axiomas que no geral não mudam (se estiverem certos agora), e são aproximações da realidade, não valores absolutos essencialmente.

Mas na economia é diferente, não estamos falando exatamente de relações independentes de qualquer caráter biológico, mas de um caráter de ações de pessoas numa sociedade. Então quando alguém deseja transacionar com outra, vamos supor, um fazendeiro na Roma ainda como uma pré-monarquia (na Septem Colles Urbis Romae, as 7 colinas onde Roma nasceu), ele teria que trocar seu surplus de commodities produzidas (vamos supor de arroz) para vender para alguém que não quer plantar arroz, mas está prontamente de usar seu capital para comprar continuamente.

Então a economia é sobre relações entre pessoas, onde temos a mão invisível de Adam Smith no Livro IV, Capítulo II de “The Wealth of Nations”, onde o padeiro que faz o pão faz com seu próprio objetivo de minimizar seus custos e maximizar seus lucros (Teorema MinMax de Von Neumann), no seu ato “egoísta” de pensar em si mesmo, no seu ganha pão, ele beneficia o seu próximo, afinal, quem gosta de fabricar pão todo dia em casa? Leite? Frango? É mais fácil comprar tudo pronto no mercado, mas toda uma estrutura de produção existe, regida por essa mão invisível, a qual muitos marxistas negam categoricamente.

Quando Adam Smith disse isso, ele não disse nada demais, apenas uma relação óbvia na sociedade, que infere o princípio básico do incentivo do padeiro a produzir pão, e do leiteiro de produzir leite, onde seu capital adquirido nessas vendas será usado para consumir no produtos de n empresas, tendo assim o ciclo de circulação de capital dessa forma.

Porém, o que a praxeologia tem haver com isso? Ela é uma constatação, ou uma série de constatações da realidade, que pode ser formulada de forma categórica e axiomática. Então eu posso dizer que: a oferta produz a demanda, e não o contrário, e é claro que eu teria que provar essa proposição (que é a lei de Say), ou que o dinheiro ruim tira o bom de circulação, que é a lei de Gresham, todas essas “leis”, “axiomas”, são constatações da realidade de como elementos econômicos funcionam numa sociedade movida pela ação humana.

“Hutchison acusa Mises de dizer “toda ação econômica foi (ou precisa ser) racional. Mas isso está inteiramente errado. Mises nunca assume nada de racionalidade da ação humana (de fato, Mises nem usa o conceito na verdade). Ele assume nada da sabedoria dos fins humanos sobre a assertividade desses meios. Ele “assume” apenas que homens agem, isto é, que eles possuem alguns fins, e usam esses meios para chegar a eles” (Rothbard, Murray N. Economic controversies. Ludwig von Mises Institute, 2011, pg. 108).

Certeza Apodítica

O termo “apodítico” significa “uma prova sem refutação”, ou seja, que ela é tão clara e concreta, que alguém dizer o contrário dela seria naturalmente uma falácia. Do ponto de vista visual apenas (não estrutural), o céu é azul pela percepção humana, zebras possuem listras, onças manchas, e nuvens com chuva vindo são cinzas e escuras.

Ele vem de “ἀπό” que significa “longe de”, e “δεικνύναι”, que significa “mostrar, provar”. Um exemplo do termo nos evangelhos é em Lucas 20:24, onde é dito: “Δείξατέ μοι δηνάριον” (mostre um denário; que era uma das moedas da época), onde o termo Δείξατέ significa “mostrar” neste contexto, mas no sentido metafórico de representar a prova de alguma coisa, como uma proposição, ou argumentos num debate e etc.

O que significa certeza apodítica? Que na praxeologia, os axiomas que de fato são verdadeiros em representar relações econômicas, como a teoria subjetiva de valor e a preferência temporal, elas são prováveis sem sombra de dúvidas, em que quando vemos a mudança da taxa de juros natural, estamos vendo a mudança de preferência temporal das pessoas da demanda de capital. E que os preços de itens de leilões não são explicáveis pela teoria de valor tradicional de Smith, Ricardo e companhia, mas apenas pela visão de Bawerk, Menger e Weiser, visando a teoria subjetiva de valor em si.

Rothbard diz:

“O professor Mises, na tradição neokantiana, considera esse axioma uma lei do pensamento e, portanto, uma verdade categórica a priori a toda experiência. Minha própria posição epistemológica se baseia em Aristóteles e São Tomás de Aquino, e não em Kant, e, portanto, eu interpretaria a proposição de maneira diferente. Eu consideraria o axioma uma lei da realidade, e não uma lei do pensamento, e, consequentemente, “empírica” em vez de “a priori”” (Rothbard, Murray N. Economic controversies. Ludwig von Mises Institute, 2011, pg. 108).

Mises via essa noção como uma lei da forma das pessoas pensarem e agirem, Rothbard via mais como uma lei da realidade de como as coisas são, e quando propomos um axioma que se prova verdadeiro, nada mais descrevemos do que o óbvio, então a utilidade marginal decrescente sempre existiu, mesmo que uma noção acadêmica dessa relação só veio com Menger, a preferência temporal dos juros sempre existiu, mesmo que só foi desenvolvida melhor por Mises posteriormente, mas a realidade já existia, representada nas ações humanas.

A visão posterior de Lachmann

Na visão Lachmmaniana, no contexto da teoria subjetiva de valor, a objetividade das relações comerciais, produção e etc, se perdem, ao ponto da mesma não existir realmente, o que diria que axiomas praxeológicos econômicos não seriam teoricamente possíveis, e por isso inúteis.

Rothbard tentando lidar com isso, diz:

“Quanto ao Homem Lachmanniano, o empreendedor pode até existir, mas perde toda a sua importância. Ao contrário do Homem Hayek-Kirzneriano, ele não consegue aprender com os sinais do mercado porque, de qualquer forma, não consegue saber nada, nem mesmo por meio dos sinais de preço.” (Rothbard, Murray N. Economic controversies. Ludwig von Mises Institute, 2011, pg. 179-180).

Mesmo Marx em toda sua burrice colossal (não tem como chamar de outra forma, ainda que ele fosse inteirado em todos os economias principais de sua época) acreditava que existia objetiva na sua teoria de exchange-value (tauschwert), sendo o valor segundo ele criado pelo trabalhador no ato da produção e o valor de troca (exchange) no ato da venda pelo capitalista, mas ele via objetividade na formação de preço, mesmo na subjetividade da avaliação do preço (wertform) pelas pessoas em transações de commodities (warenaustausch; dentro da teoria horrível dele de commodities), o que ele define como criada por um caráter social (no contexto da mais-valia ou “mehrwert”), os austríacos por um caráter individual.

Como o Lachmann, que escreveu para mim (e Rothbard cita o mesmo livro dessa parte), um dos melhores livros sobre o conceito de “capital” (Capital and Its Structure), e arreda a franga para começar a ter visões mais contrárias ao que ele propôs anteriormente? É deplorável ver isso.

Mas essas leis e axiomas podem sim ser propostos, e chegar a conclusões apodíticas. O ponto de Hayek e Kirzner sobre a informação que os agentes possuem, e dela ser imperfeita, não muda o fato que os axiomas são independentes dos próprios agentes. Se um idiota compra todas as ações de uma empresa horrível e perde tudo, o que isso tem haver com praxeologia? Nada. É a ação de humana pessoa, uma irracional, a irracionalidade dos agentes não infere nada na lei da utilidade marginal por exemplo, pois ela é independente dos próprios agentes, ainda que derivada deles implicitamente.

Quem são aqueles contra as leis básicas da economia?

“Com a proliferação de países e o estabelecimento de relações entre eles, as moedas de ouro e prata dos diversos países passaram a ser negociadas de acordo com seu conteúdo de metal precioso. Por exemplo, se o dólar americano fosse definido como 1/20 de uma onça de ouro e o franco francês como 1/100 de uma onça de ouro, então a taxa de câmbio entre dólares e francos seria naturalmente a proporção de seus respectivos pesos: cinco francos para um dólar” (Rothbard, Murray N. Economic controversies. Ludwig von Mises Institute, 2011, pg. 212-213).

Sempre foi assim (e óbvio que Rothbard sabia disso), lembro do livro “Ways and Means” de Xenofonte, onde ele dizia que a prata de Atenas era considerada a mais pura (segundo ele ao menos), e pela pureza da prata que o câmbio delas deveria ser naturalmente estabelecido, pois se a prata de Atenas for confirmada como mais pura que a de Esparta, então quando ambos transacionassem com outras nações, a de Atenas teria um valor cambial maior que a de Esparta, simplesmente pela pureza da mesma por peso, e nada mais.

Porém, e se os espartanos decidissem fixar o valor da prata acima do valor de Atenas, mesmo que intrinsecamente fosse inferior? Não ia mudar o valor dela para as outras nações, elas poderiam inspecionar a pureza da prata, ver se é “sound money” tanto quanto a de Atenas, e se não fosse, não importa o que Esparta dissesse, o valor seria definido pela pureza dela e nada mais.

O governo Kirchner na Argentina, tentou fixar o câmbio dos pesos argentinos com o dólar, uma ação imbecil, pois no fim sua moeda continua desvalorizada no mercado pelo fato, não que a Argentina não produzia, mas que ela gastava de mais, e por isso usava métodos exógenos de aumentar sua quantidade de capital, gerando inflação e diminuição do valor cambial com outras moedas, o que era óbvio que iria acontecer praxeologicamente, e você pode verificar esse fato em eventos similares na história (o livro de Aristóteles: Oeconomica”, por exemplo).

Então as pessoas num governo imbecil, sempre vão agir de forma ou ignorante, ou intencionalmente buscando seus próprios interesses, sempre buscando comprar mais impostos, mais tarifas, mais quotas de exportação (impedindo empresas de exportarem o quanto quiserem), mas taxas de importação de matéria prima e etc, enfiando subsídio em linhas de crédito com dinheiro de impostos do povo para no fim ter mais dinheiro que probabilisticamente pode ser usado para corrupção e não gerar nenhum retorno na sociedade. Esses agem contra a razão, e parecem primatas na frente de mesas, dando canetadas enquanto comem as fezes de suas próprias ignorâncias.

O que deveríamos fazer então?

“Minha conclusão, portanto, é que os economistas devem ou explicitar seus juízos de valor e defendê-los com um sistema ético coerente, ou abster-se estritamente de entrar, direta ou indiretamente, no âmbito das políticas públicas” (Rothbard, Murray N. Economic controversies. Ludwig von Mises Institute, 2011, pg. 251).

Alguns acreditam, que não devemos dar nossa opinião, que não temos competência de dar qualquer opinião em assuntos públicos, na verdade, qualquer cidadão da nação, tem o direito de dizer o que quiser, mesmo que seja imbecil, e não ser preso ou repreendido legalmente por isso.

A constituição Americana, por exemplo, diz:

“Congress shall make no law respecting an establishment of religion, or prohibiting the free exercise thereof; or abridging the freedom of speech, or of the press, or the right of the people peaceably to assemble, and to petition theGovernment for a redress of grievances” (First Amendment, American Constitution).

Isso é óbvio, todos devem ter liberdade de expressão, e ela envolve criticar ações que obviamente causaram efeitos retardantes na sociedade, como a ação de Fernando Collor, que Rothbard cita aqui:

“Talvez, mas dificilmente é uma solução fazer o que Gorbachev fez, ou seja, seguir o caminho pouco inspirador do presidente brasileiro do “livre mercado”, Collor de Mello, que na primavera de 1990, numa tentativa de reverter a hiperinflação, congelou arbitrariamente 80% de todas as contas bancárias” (Rothbard, Murray N. Economic controversies. Ludwig von Mises Institute, 2011, pg. 435).

Vamos analisar a atitude de Collor como presidente, e ver se ela não foi extremamente imbecil e irracional:

“§ 3º Os depósitos compulsórios e voluntários mantidos junto ao Banco Central do Brasil, com recursos originários da captação de cadernetas de poupança, serão convertidos e ajustados conforme regulamentação a ser baixada pelo Banco Central do Brasil” (Lei Nº 8.024, de 12 de Abril de 1990, Art. 6º).

Olhemos aqui com detalhes. Collor:

  1. Confiscou 80% das reservas das pessoas nos bancos, sua propriedade privada, o que fere a constituição por ser um roubo.
  2. Sua intenção era lidar com uma recessão econômica, retendo a oferta monetária para reduzir a inflação.
  3. Ele não devolveu o dinheiro para os depositantes (embora depois foi dado uma parte, mas no fim perderam tudo).

Primeiro, depois dessa, como alguém pode confiar em depositar nos bancos brasileiros. E segundo, como o presidente tem o poder de roubar toda a população com uma mera lei, que fere o direito “à vida, liberdade e” propriedade”, previstas na própria constituição, onde é óbvio que esse dinheiro em depósitos era propriedade privada do povo e não do Estado, e suas medidas se suas medidas eram para “melhorar o estado do povo”, ele foi um imbecil, quem melhora a situação de um mendigo roubando ele? Isso é totalmente irracional, obviamente foi impeachmado, mas o dano já tinha sido feito. E conheço pessoas próximas que sofreram muito por conta desse evento.

Collor foi antiético?

Isso só pode ser uma pergunta retórica. Roubar alguém é antiético? Não só isso, é imoral sem sombras de dúvidas, uma certeza apodítica. Agora, se o presidente eleito pelo povo rouba o povo, é antiético? É claro que sim, e também imoral. Mas alguém pode dizer: “Ele fez isso para nos ajudar, nossa economia estava em fiapos, esse foi um méto..”, calma, peraí, você quer defender uma ação estatal imbecil projetada pela mente de uma pessoa como correta? Quando ela obviamente só poderia ser a causa de um desastre, e sendo inerentemente imoral, nunca deveria ter sido implementada, e se num país normal uma lei dessa pode ser implementada e passada, esqueça qualquer noção de sociedade, esse só pode ser uma obra de Pierre Boulle, não uma sociedade normal que pensa antes de agir.

Rothbard bate nesse ponto:

“A eficiência jamais pode servir de base para a ética; pelo contrário, a ética deve ser o guia e a pedra angular de qualquer reflexão sobre a eficiência” (Rothbard, Murray N. Economic controversies. Ludwig von Mises Institute, 2011, pg. 260).

Nunca alguém pode justificar seus meios pelos seus fins. Se seu meio de reduzir a pobreza mundial for reduzir a população mundial, assim como Thanos, você é um ser hipócrita e imoral, você está buscando uma medida brutal e maligna, pois é ignorante e tolo para tentar buscar uma solução. E nem sempre podemos achar soluções para problemas complexos, mas conhecendo as leis e axiomas da ação humana econômica (veja, idem, pg. 292), podemos ao menos saber o que não dá certo, e o que nunca deu certo na história, e aqueles que negam os fatos da história que mostram a veracidade dos axiomas, são loucos.

Como falar para um político de esquerda, centro, que reduzir impostos corporativos (significamente) na verdade gera uma maior arrecadação? Essa é uma lei axiomática do incentivo que empresas têm em produzir, e de investir seu capital capex/ll novamente para gerar mais lucro. Mas na mente de primatas de muitos políticos, eles acreditam como crianças no mundo moderno, que é só eles cobrarem mais em todas as áreas de consumo, renda e etc, que eles irão melhorar a condição do governo de prover “benefícios” para o povo.

Todos esses nunca leram Bastiat, e não sabem nada de “Ce qu'on voit et ce qu'on ne voit pas”, então presos na parábola do Pai e Filho e nunca entenderam a parábola da janela quebrada, como a bíblia diz:Quem repreende o zombador traz afronta sobre si; e quem censura o ímpio será insultado.8 Não repreenda o zombador, para que ele não odeie você; repreenda o sábio, e ele o amará.

“Quem repreende o zombador traz afronta sobre si; e quem censura o ímpio será insultado.8 Não repreenda o zombador, para que ele não odeie você; repreenda o sábio, e ele o amará” (Provérbios 9:7-8, NAA).

Sei que devemos sempre falar contra falácias comunistas, marxistas, socialistas, chicaguistas, keynesianas e etc, mas isso é fácil. O difícil é ensinar o sábio, ensinar aquele que sabe tanto ou mais que você, o difícil mesmo é ir além dos autores do passado, e sobre isso que devemos discutir, como avançar a teoria econômica além das bases que Menger, Bawerk, Von Wieser, Mises, Rothbard e etc deixaram, afinal, eles foram além de seus predecessores, e se não formos além deles tendo o ensino deles já em mãos, seremos mais imbecis que todos aqueles que falamos contra.