A Falácia Inflacionista
O avanço da prosperidade das nações vêm do avanço no conhecimento, não através de técnicas de expansão de crédito
Uma proposição muito comum keynesiana, é o dictum: “A moeda fiduciária, embora abaixe o poder de compra no geral, cria uma geração de investimentos muito maior, que se paga no longo prazo através do multiplier econômico”.
Tem um problema com essa tese ortodoxa, que na verdade, ela não se paga no longo prazo. E por isso essa doutrina ela poderia ser sumarizada como uma forma de “après moi, le déluge” (depois disso, o dilúvio), ela ignora os efeitos de longo prazo de ciclos econômicos, em que o boom de investimentos inicial no fim gera uma crise econômica, e o looping de Boom & Bust eterno continua.
O objetivo desse artigo é demonstrar, dando um exemplo de Mises, que essa proposição é uma falácia.
O Multiplier
“Uma doutrina muito popular sustenta que a redução progressiva do poder de compra da unidade monetária desempenhou um papel decisivo na evolução histórica. Afirma-se que a humanidade não teria alcançado seu atual estado de bem-estar se a oferta de moeda não tivesse aumentado em maior medida do que a demanda por moeda. A consequente queda no poder de compra, diz-se, foi uma condição necessária para o progresso econômico” (Mises, Ludwig von. Human action. Ludwig von Mises Institute, 1949, pg. 463).
Não necessariamente o progresso econômico advém de políticas monetárias. A ideia keynesiana tende a um intervencionismo em que economistas buscar dar ideias que podem melhorar o estado econômico atual para um estado de prosperidade (até aí, nada de errado). O problema não é a intenção, mas o efeito final, mas antes é necessário deixar claro que mesmo teoricamente essa visão não se sustenta.
O que realmente melhora a prosperidade de uma nação, é o aumento do conhecimento e n setores aplicados à produção e serviços. É um fato que mesmo a relatividade geral e especial, como avanços na explicação do efeito fotoelétrico (além de outros avanços, mas esses foram primordiais), mudaram completamente o shape do século 20.
Foi através do entendimento mais aprofundado de como a luz funciona, que transistores foram criados, foi através do avanço de teorias da matemática pura como a Teoria dos Números, Teoria da Informação (por Shannon), Lógica Booleana (por Boole), que o avanço na teoria da computação foi possível por Turing, Church, Shannon, Von Neumann e muitos outros, teorias aparentemente úteis apenas para acadêmicos que possibilitaram um avanço tecnológico nunca antes visto da história, além de muitos outros avanços na química (como Dmitri Mendeleev por exemplo), biologia (por Louis Pasteur, James Watson, Francis Crick e etc), neurociência (por Hodgkin e Huxley, Santiago Ramón e Cajal, Donald Hebb), na genética (George Mendel, Hermann Joseph Muller, Oswald Avery), na física (Einstein, Planck, Bohr, Heisenberg, Oppenheimer (Oppie), Max Born) e muitos outros antes dele.
O ponto que quero fazer, é que diversos avanços em n áreas da economia, dependeram de ideias, e não necessariamente de dinheiro. Só um louco diria que os avanços desses e outros acadêmicos não influenciaram os avanços do século passado. É um fato que se você tem um shampoo em casa, ou coisas simples como um GPS no celular hoje em dia, que sem avanços dessas e outras pessoas, essas tecnologias não estariam disponíveis à empresas, e não importa quanto dinheiro do mundo você tiver, descobertas vem das ideias privadas de pessoas curiosas, não necessariamente da quantidade de investimento que recebem.
Um exemplo
Na inteligência artificial por exemplo, Alan Turing inaugurou o tema em 1950 no seu artigo “Computing Machinery and Intelligence”, desde então acadêmicos de várias áreas decidiram que iriam fazer as ideias de Turing de criar sistemas de IA (em que ele sugere inicialmente simular algo no nível da mente de uma criança no artigo) se tornarem uma realidade.
Isso ocorreu no Dartmouth College em 1956, seis anos depois do paper de Turing, acadêmicos de peso como Shannon, Nathaniel Rochester, John McCarthy, Marvin Minsky, W.S. McCulloch, Ray Solomonoff e muitos outros se juntaram para resolver o problema da IA “em um verão”. Se tinham pessoas em todo o mundo que resolveriam esse problema, seriam eles, mas conseguiram, foram bem sucedidos? Absolutamente não.
E isso continuou por décadas, pequenos avanços na IA ocorreram, mas sem resultados que atendiam o hype, assim ocorreu dois eventos que foram conhecidos como “AI Winters”, que foram momentos em que o hype gerado não deu os resultados necessários para pagar todo o dinheiro sendo investido pelo próprio governo dos EUA (que por sinal financiou o Frank Rosenblatt; embora hoje em dia os avanços só vem de empresas privadas) e grandes empresas.
O primeiro AI winter foi de 1974–1980 e o segundo de 1987 até meados dos anos 90, o que é estranho pois o artigo de Backpropagation foi escrito em 1984, então as coisas deveriam melhorar logo à partir disso? Não. Pelo contrário, o livro “Perceptrons” de Marvin Minsky e Seymour Papert era bem crítico da possibilidade do avanço da IA no futuro.
Posteriormente algoritmos importantes foram desenvolvidos, como Convolutional Neural Networks nos anos 90, Q-Learning também mais ou menos nessa época, logo o foco da pesquisa começou a se centrar no caminho certo, creio que 2008 com o paper “Learning Deep Architectures for AI” de Yoshua Bengio em Deep Learning, e outros na mesma questão, o avanço se consolidou, além obviamente do avanço da Lei de Moore, então tanto em algoritmos quanto capacidade computacional, o tema tinha tudo para emplacar no futuro.
Porém, os Invernos da IA nos mostram que não adianta quanto dinheiro você investir, ideias não nascem necessariamente de maior alocação de capital, mas sim do avanço do conhecimento, que independe disso em níveis inflacionários, mas acontecerão normalmente em ambiente endógenos muito mais, afinal, eles no longo prazo (pela teoria de ciclos econômicos de Mises–Hayek) se sustentar muito mais, dando o ambiente para investimentos em boas ideias nasceram e se multiplicarem.
O Argumento de Hoppe
Em “A Short History of Man”, Hoppe diz:
“Se não houver inovação tecnológica (a tecnologia for fixa), a única maneira possível de a população crescer sem uma queda concomitante na renda per capita é ocupando mais terras (e possivelmente de melhor qualidade). Se não houver terras adicionais disponíveis e a tecnologia estiver fixa em um nível "dado", no entanto, qualquer aumento populacional além do tamanho ideal levará inevitavelmente a um declínio progressivo na renda per capita” (Hoppe, Hans-Hermann. A Short History of Man: Progress and Decline. Ludwig von Mises Institute, 2015, pg. 77).
Essa era a armadilha malthusiana, sem avanço no conhecimento, não importa que técnica bancária os povos antigos usassem, nunca sairiam do status quo.John Law não fez a França se tornar a maior potência mundial através das suas inovações bancárias, pelo contrário, ele fez a França quebrar. Sempre quando vemos a moeda fiduciária através da história, vemos que no final a mesma sempre se tornou um fiasco, seja na França, nas colônias americanas, na China, ou onde foi usada.
O argumento central de Hoppe é que o avanço no conhecimento (em n áreas da ciência) que permitiu que a sociedade saísse da Armadilha Malthusiana (idem, pg. 101), assim aumentar sua produção industrialmente de forma eficiente e finalmente permitir aumentos populacionais que geraram mesmo o globalismo em transações internacionais atuais e dependência de países em n commodities um do outro em importação e exportação. Esse é o ponto mais importante, que os keynesianos, monetaristas e desenvolvimentistas ignoram.
O ponto central de Mises
“Eles desmascaram a ilusão da doutrina de Lord Keynes de que a origem da pobreza e da miséria, da depressão do comércio e do desemprego reside numa "pressão contracionista". Não é verdade que "uma pressão deflacionária... teria... impedido o desenvolvimento da indústria moderna". Não é verdade que a expansão do crédito provoque o "milagre... de transformar uma pedra em pão". (Mises, Ludwig von. Human action. Ludwig von Mises Institute, 1949, pg. 467).
Você acha que os mesmos avanços não aconteceriam numa deflação? É claro que empresas para realizarem seus projetos, precisam de dinheiro, mas não é gerando uma oferta ex–nihilo através de técnicas de expansão da oferta monetária que o problema é resolvido. A forma endógena de formação de capital é muito mais segura no longo prazo, e o avanço das ideias independente de políticas inflacionária, em que as mesmas causaram a Crise de 1928 (veja Rothbard em “America's Great Depression”), as mesmas causaram a crise causaram o “Pânico de 1819” (outro bom livro do Rothbard no tema), e isso cria um ambiente péssimo para investimentos no longo prazo, os contras são maiores que os prós inflacionários.
Você acha que Einstein teria resolvido a relatividade mais rápido num ambiente Suíço com uma política monetária moderna? Você acha que simplesmente expandir a oferta de capital faria Planck descobrir sua constante? Ou Born e Heisenberg desenvolverem seus métodos matriciais na física quântica? É claro que eles aprenderam tais temas em boas escolas e ótimas universidades, que necessitam de acesso a crédito e n elementos na economia associados à educação superior, mas dizer que foram políticas monetárias expansivas que criaram um ambiente educacional melhor, e não o avanço de produção e serviços endógenos capitalistas, seria a Maior Falácia Econômica do Século, algo que eu taparia os meus ouvidos ao ouvir.
Por fim, devo terminar com Rothbard:
“Infelizmente, na ciência econômica, o retrocesso no conhecimento ocorreu quase tão frequentemente quanto o progresso. O enorme avanço proporcionado pela Escola Austríaca, neste ponto como em outros, foi bloqueado e revertido pela influência de Alfred Marshall, que tentou reabilitar os classicistas e integrá-los aos austríacos, ao mesmo tempo que menosprezava as contribuições destes últimos” (Rothbard, Murray N. Man, economy, and state with power and market. Ludwig von Mises Institute, 2004. pg. 357).
Porém, identificado e provado o fracasso da doutrina keynesiana de expansão monetária, devemos ir em frente, demonstrando ainda mais a veracidade das nossas proposições, não porque sabemos mais do que os keynesianos e etc, mas porque a praxeologia e história mostra a realidade das nossas proposições.
Não que nossa teoria não tenha lugar para avançar mais e mais (como se já tivesse avançado completamente), creio que nós nos apoiamos nos ombros de gigantes (parafraseando a célebre citação de Isaac Newton), se se formos mais além do que eles, foram porque nos deixaram a fundação para isso, e se (pela graça de Deus que nos dá conhecimento) formos além, que os próximos depois de nós avancem mais e mais:
Ad prosperitatem populi, ad divitias gentium!