A Ineficiência de Investimentos Estatais
Alocação de Recursos, Investimentos, Know-how e Execução, quatro Pilares em que o Estado é inferior ao Setor Privado
A pegada desse artigo será a mesma do anterior sobre “A margem de erro do Estado”, porém, o foco aqui será fundamentalmente em investimentos, ou seja, em analisar da onde vêm os avanços do ponto de vista de crescimento econômico e alocação de recursos. É óbvio que seria impossível negar que diversas nações e impérios se desenvolveram à parte do “Estado”, porém, a eficiência de investimentos tende a ser superior no âmbito privado, e o Estado tende a dissipar capital (no sentido de Bastiat) ao invés de usar ele de forma a gerar avanços econômicos.
Alocação de recursos e investimentos
O que é a alocação de recursos? Na produção, ela é: “a forma pela qual alguém pode direcionar capital, trabalho e tempo (segundo Rothbard na definição de formação de capital) com o fim de gerar uma produção ou serviço cujo fim é o consumo”. E o que seria o investimento? É uma forma de alocação de capital na forma de base monetária (embora diversas commodities foram usadas como moeda ao longo da história) com o fim de gerar uma taxa de retorno de juros de investimentos (outra vez com a noção de Rothbard no MES).
Então no primeiro você busca uma estratégia para produzir, transportar, armazenar, administrar com maior eficiência, o quanto você vai importar de matéria-prima durante a produção de chocolate na Páscoa (por exemplo, numa empresa neste nicho), quanto de fatores de produção, trabalhadores, você terá que ter para gerar essa demanda seasonal. E naturalmente você precisa de grana para isso, talvez até pegar crédito no banco e pagar um juros que seja abaixo da taxa de porcentagem de lucro futuro desse crédito tomado, assim, um bom investimento tende a gerar uma taxa de retorno (lucro) acima do juros.
Vamos supor que você falhou no seu cálculo de demanda seasonal e produziu mais do que deveria, parte dos seus chocolates e matéria-prima (cacau por exemplo) ficaram no estoque e estão vencendo, você incorreu prejuízo pela sua ignorância do que deveria ter feito (sim, o mercado privado tem um margem de erro, obviamente). Como um bom capitalista, você vai aprender com seus erros (talvez ao menos), e tentará melhorar essa margem de erro de investimento e alocação de recursos, visto que se você tivesse investido menos em matéria-prima e fatores de produção nessa temporada, você teria menos prejuízo (incorreu o custo obviamente) do que se não tivesse, assim devemos definir que: “não necessariamente mais capital disponível significa uma maior taxa de juros retorno de investimentos”.
Know-how e execução
Esse termo é bem peculiar e importante, quanto mais informação você tiver do mercado, quanto mais você o conhecer, mais sua probabilidade de ser bem sucedido aumentará, o conhecimento é realmente a chave para o sucesso em qualquer empreendimento.Vimos a importância da alocação de recursos e investimentos, mas sem conseguir executar os mesmos, ambos são inúteis, talvez você pegue a quantidade de crédito corretamente ou do Capex/ll da empresa, aloque os recursos da melhor forma, mas execute as vendas dos produtos, o marketing (dissipar informação sobre o mesmo) e etc de forma porca, o que irá gerar retornos menores.
No contexto do mercado de games, na Revista Edge, me lembro de um dos membros da Nintendo eventualmente falando sobre como o marketing deve ser focalizado nos produtos que de fato vendem. Então você tem um repertório de 5 novos jogos (por exemplo) e um budget finito de marketing (numa época sem internet) na época do Super Nintendo, você foca o budget num Super Mario All-Stars ou num Pit fighter? Você realmente pode aumentar as vendas do primeiro profusamente com o marketing para atender calendários de produção, o segundo, nem tanto, porque o jogo era ruim. O Marketing não salvará produtos horríveis por muito tempo, uma hora as pessoas caem na real que aquilo é simplesmente lixo.
Você lembra a pulseira “power balance” que dizia que melhoraria seu equilíbrio mesmo em atividades esportivas como surfing e coisas similares? Eventualmente tiveram que desmentir essa fraude, sinceramente, o que eles diziam fazer nem fazia sentido ou era possível por meios físicos, mas as pessoas acreditaram. Mas essa não é uma boa estratégia de longo prazo pois sua marca pode ser amaldiçoada pelos consumidores como uma real fraude, e o que vêm de fraudes? Mais fraudes talvez.
Para sumarizar, o know-how e execução operacional é tão relevante quanto a alocação de recursos e investimentos. Se você tiver uma loja (exemplo esdrúxulo chegando) de games, e começar a cuspir nos clientes e chamar eles de alfabetos funcionais e coisas similares, sua execução do atendimento ao consumidor irá fazer todo o resto desabar, e isso serve para todos os setores, em vários processos desde adquirir matéria-prima até a venda final, temos diversos passos que demandam uma execução que nem todos podem realizar de forma primorosa.
Execução vs. tempo
Recentemente joguei ICO e estou jogando The Last Guardian, ambos jogos feitos pela Team Ico, criadora do Shadow of The Colossus. Na minha pessoal opinião, ICO é o melhor jogo que já joguei na minha vida, só perdendo para Zelda Ocarina of Time (até o momento), The Last Guardian tem sido incrível, e estou pensando em colocar no meu top 10 pessoal. A ideia de ICO começou no início dos anos 90 por Fumito Ueda e Kenji Kaido, e a proposta de produção com os conceitos iniciais do game ocorreram quase no fim de 1997.
O desenvolvimento do game começou em Fevereiro de 1998, em 1999 vemos diversos dos conceitos de design e gameplay sendo desenvolvidos (e o Team Ico Wiki mostra o processo de brainstorming dessa questão), em Setembro de 1999 o jogo foi pela primeira vez compilado (lembrando que programar para o PS2 era em C, C ++ e MIPS assembly). Um disco demo foi lançado em 2001, em que houve um processo de migração eventual para o PS2 (ainda bem, pois o hardware do PS1 nunca iria rodar isso no prime), em Agosto de 2001 o jogo finalmente foi compilado na sua versão final.
No geral foram quatro anos de desenvolvimento aproximadamente, o Shadow of The Colossus mais ou menos isso também, o problema foi o The Last Guardian, com cerca de 10 anos de desenvolvimento onde houveram vários problemas no desenvolvimento, transição do PS3 para PS4 e outras peripécias (como o Ueda e Kenji saindo da Sony) que aumentaram o tempo. Disse tudo isso para enfatizar o quanto o tempo é um conceito importante num empreendimento, não importa o quão bom você seja, que seu time de desenvolvimento seja, mesmo que você tenha uma grande quantidade de capital e fatores de produção (trabalho), o tempo que leva para realizar um projeto pode ser longo por design, pela complexidade e tamanho do mesmo. É muito melhor lançar um bom produto mesmo que demorando no tempo de produção, do que um inferior, visto que o último potencialmente irá desagradar seus consumidores, levando a menor retorno de investimentos.
Ico vendeu mais de 650 mil unidades, Shadow of The Colossus vendeu 3.3 milhões de unidades (era obrigação comprar ele no PS2) e The Last Guardian cerca de 2 milhões. Porém, devemos entender que a possibilidade de remake de ICO poderia gerar um grande fluxo de caixa para a Sony, o próprio Remake do Shadow of The Colossus vendeu cerca de 1.2 milhões de cópias (segundo a IGN em 2024) ao redor do mundo, um remake de Ico com o marketing certo (eu por exemplo assisti Top Gun pela primeira vez uma semana antes de assistir o novo no cinema), poderia fazer até um novo público que não jogou ele e outros games da Team Ico, querer o mesmo.
Muitos reclamaram durante o tempo de produção dos jogos da Team ICO, que eles demoraram mais que o esperado para serem completados (principalmente o último, sendo que no ano passado o Fumito Ueda lançou um teaser de um novo lançamento), mas acredito que a qualidade final do produto supera essa crítica, a Ubisoft produzia um Assassin's Creed quase todo ano, mas tirando Black Flag, Brotherhood, a primeira triologia e alguns outros, eles tendem a ser genéricos. Não é porque você produz mais rápido que seu produto é melhor nesse setor específico, porém, em outras áreas, o tempo pode impactar muito o calendário de demanda temporal por produtos e serviços, especialmente em obras de construção e infraestrutura, e nisso, o tempo é crucial.
Execução e tempo do Estado
A seção anterior, foi um exemplo específico que pode ser aplicado para qualquer setor do mercado, sobre como tempo é primordial na produção de produtos, onde alguns tendem a levar mais tempo (como a agricultura e agropecuária), outros menos, mas na mesma ênfase de Rothbard, devemos colocar o tempo como um asset primordial nos estágios de produção e calendários de demanda temporal. Agora, qual é mais eficiente na execução de projetos num tempo hábil? O Estado ou o setor privado?
O primeiro ponto é que o Estado faz seus projetos com dinheiro público, o privado com o próprio capital (seja de poupança ou crédito), o Estado pode ter agentes que buscam tirar uma lasca do investimento público para si mesmos (corrupção), além serem ineficientes em alocação de recursos, know-how, investimentos e execução em comparação com o setor privado. No quatro pilares citados, o Estado falha, não que ele não entregue projetos, a infraestrutura do país foi construída com alocação de recursos públicos dando dinheiro a empresas privadas para construírem pontes, hidroelétricas, estações de metrô, trens que levam commodities e etc.
Porém, é um fato que em toda a forma de investimento estatal, por conta que o mesmo é ineficiente nos quatro pilares citados, eles sempre irão dissipar capital enquanto demoram para entregar projetos, visto que a margem de erro deles é maior que a do setor privado, não é que o Estado não consegue construir uma ponte, um metrô, uma avenida, e mesmo operar a manutenção necessária, é que ele é pior que o setor privado em administrar tudo isso. Como já disse em outros artigos, concessões e licitações são no máximo medidas provisórias, elas não resolvem o problema, privatizações (embora melhores que estatais no geral) são apenas uma forma de monopólio, é claro que seria melhor ter o máximo de empresas privatizadas no Brasil, mas é um monopólio criado pelo Estado no fim, seja no setor de energia, água e etc.
Qual é a solução? Existem n contingências necessárias para resolver o problema, a única que vou citar aqui é o fato é que devemos entender que mais controles econômicos estatais, mais controle fiscal, mais restrições protecionistas, mais “planos mirabolantes para melhorar a economia da nação e melhorar a qualidade de vida do povo” geram o contrário do que governantes desejam (dizem desejar ao menos) realizar (embora seja bom para se reeleger). O ônus da Democracia é o fato que demagogos incompetentes ficam no poder, é a forma de governo menos pior, mas a cada quatro anos outro imbecil fica no poder, bons governantes se acham nos dedos e no fim não ficam por muito tempo no poder (sem se corromper), quanto menos o Estado desejar “fazer coisas” mais ele irá fazer realmente o que precisa, a resposta é liberdade econômica, que o Estado fique com suas leis e pare de se intrometer no direto “à vida, liberdade e propriedade” alheia, tirando do povo o que sua própria constituição defende categoricamente.