A Lei de Say: A oferta sozinha pode criar a demanda?

Escrito por Aranea

Como a Lei de Say pode ser aplicada nos dias de hoje?

Indústria

William H. Hutt é um dos meus economistas favoritos (entra no top 5 fácil), e ele escreveu uma obra chamada "A Rehabilitation of Say's Law", quem ele trata sobre a necessidade de entendermos como a Lei de Say é a verdade sobre a criação da demanda, e não a versão Keynesiana de que a demanda cria a oferta.

Meu foco aqui não será defender a Lei de Say nos termos de Hutt, mas apenas a aplicar num mercado específico recorrente nos últimos artigos. Veremos que na verdade Keynes não estava totalmente errado em enfatizar que a demanda cria a oferta, mas o peso da Lei de Say é muito maior, tal que dizer que a oferta gera a demanda é uma proposição geral superior.

A Lei de Say

Hutt nos diz:

"O processo de fornecimento — isto é, a produção e a precificação adequada de serviços ou ativos para reposição ou crescimento — mantém o fluxo de demandas fluindo de forma constante ou em expansão. Portanto, existe um significado que pode ser atribuído à expressão "disposição para demandar". Significa simplesmente "disposição para oferecer!"" (Hutt, William Harold. Rehabilitation of Say's Law, A. Ludwig von Mises Institute, 1974, pg. 27).

Rothbard mesmo diz que o capitalista é um fornecedor de bens presentes e demandante de bens futuros. O empresário que tem uma fábrica de café, fornece continuamente seu produto, demandando fluxos de caixas contínuos através do número de vendas, que permitam a ele conventer esse capital em reservas e investimentos (além de lidar com seus custos), no fim, ele sempre demanda bens futuros num ambiente de incerteza, onde ele não sabe se suas escolhas vão dar a ele sucesso ou não (e com isso, todo empresário tem que viver todo dia, com essa possibilidade de fracasso).

No processo de criação de um empresa (ou mesmo uma nova linha de produtos), temos o começo da possível criação da oferta, então se eu quero criar uma linha de produtos de café, eu preciso primeiro criar o design do mesmo do ponto de vista quimico dos produtos (devidamente aprovados), criar o design de embalagem, que envolve criação da marca, terceirizar a produção para escalar a eficiência de custo e etc.

Porém, nesse momento, não existe demanda para meu café, ninguém sabe da sua existência, e mesmo que eu seja um influencer no setor de café (imaginando aqui) e faça um excelente marketing, a demanda ainda não existe tecnicamente, podem até ter pessoas interessadas, testes rolando, mas o teste final é com o produto no mercado, e só aí veremos se existe uma demanda real para um novo produto emergente num mercado competitivo.

Por enquanto você, seus sócios e seus investidores têm um gut feeling que essa ideia deu certo (afinal, se 50 Cent ganhou $4 bilhões de dólares vendendo água, porque não?), que esse café é realmente bom, o gosto, o repertório dos tipos oferecidos, a embalagem, a marca, tudo, mas pode ser que a preferência das pessoas seja diferente sobre tais produtos, no fim, mesmo depois de todos os estágios de produção e amadurecimento da ideia, ninguém sabe se essa demanda de fato existe.

A oferta tem mais peso que a demanda

Quando digo isso, estou dizendo no contexto da Lei de Say. É óbvio que se você fabricar toneladas de café e todos acharem a qualidade horrível, ninguém vai comprar. A demanda, nada mais é do que a curva de preferência das pessoas, onde a priori, ela é incalculável (seguindo Rothbard em curvas de custo e etc), e a posteriori mensurável. A preferência das pessoas muda com o tempo, e naturalmente a oferta tem que atender as necessidades do nicho de mercado que atua, isso é real.

Porém, Hutt demonstra tanto nessa obra como na sua obra magna "The Theory of idle resources" (talvez um dos livros mais densos e difíceis de entender que já li) junto com a obra supracitada, como no fim devemos entender que há toda uma formação de capital nos estágios de criação da oferta, tem pessoas sendo pagas (funcionários) criando circulação de capital na economia, tem bancos sendo pagos por juros de empréstimos, empresas da qual nossa empresa hipotética paga por importação de matéria prima, e n outros agentes que fazem parte dessa cadeia de produção.

Não é a preferência das pessoas que gerou a oferta, foi a ideia de uma pessoa ou um grupo delas, que viu uma oportunidade num mercado que tem uma certa demanda quantificável, mas a questão agora seria descobrir se há uma demanda pelo seu produto. Em outras palavras, se as pessoas vão gostar realmente do seu produto, e é impossível você saber isso no momento de ter a ideia, ela pode parecer boa, e depois se provar um fracasso, mas caso dê certo, através de você gerar a oferta de um produto bom, ele mesmo cria a demanda (e n fatores associados à marca), que nada mais é o fato que existem pessoas que dão valor ao mesmo, algo que é incontrolável pelo empreendedor (embora um bom marketing ajude).

A Lei de Say e Preferência Temporal

Qual era a demanda por console e jogos de computador em 1900? Zero. E em 1950? E 1970? E nos anos 2000? Não é que as pessoas não sabem o que querem, é que quando não foram expostas a algo que existe, como poderia haver uma demanda para tal coisa?

É um exemplo completamente esdrúxulo esse, mas verdadeiro, que ideias nascem de uma perspectiva de demanda potencial (usando o termo "potentia" de Aristóteles). A demanda potencial não é calculável nem quantificável, é uma estimativa de quantas pessoas podem vir a comprar um produto em comparação com produtos similares.

Não é que a Lei de Say funciona apenas para itens novos no mercado, mas é um príncipio, pelo qual sabemos como o supply side influencia o demand side, como a oferta de n produtos influencia a comparação de pessoas entre eles e molda as suas preferências, onde elas mesmas tomam a decisão do que preferem, onde mesmo num mercado inelástico como o do arroz, temos preferências de qual tem um gosto ou qualidade melhor, ou quais são as características do mesmo que podem ser melhor para a saúde (algo que eu pessoalmente não ligo.

Então as curvas de preferência mudam continuamente, e para qualquer teoria que use preferência temporal economicamente, isso será importante. Preços n
não possuem uma alta relevância aqui, em mercados elásticos como o de games, em que o preço afeta a demanda, o que modula a probabilidade de alguém comprar a um certo preço é a preferência temporal da pessoa, onde o spot price é definido pelo mercado (que nada mais é que um reflexo da preferência temporal da pessoas daquele item).

A oferta pode mudar a preferência temporal das pessoas? Sim, com toda certeza. Podem ter novos produtos de certos setores, que podem fazer as pessoas se inclinarem a um nicho que não gostavam. Elas não foram obrigadas a isso, mas aquele nicho chamou a atenção dela por n razões subjetivas e ela começou a ver valor no mesmo.

Um exemplo no mercado de games

Minhas preferências associadas a esse mercado mudaram recentemente, eu tinha uma tendência a crer que quem conhece esse mercado tende a saber sobre o que é de novo no mesmo, os novos lançamentos, novos consoles, novidades de mercado e etc.

Porém, por algumas razões, minha preferência se voltou a jogos retrô recentemente, especialmente do PS1, Super Nintendo, Nintendo 64 e etc, mas também de produtos que eu não conhecia como o Dreamcast da Sega, que agora me dá interesse. Mas eu sou apenas uma pessoa, e não influencio o mercado, mas quando tem n pessoas localmente e ao redor do mundo se voltando a um nicho, temos uma mudança de preferência temporal que pode aquecer esse mercado fazendo os itens que agora são escassos subirem de preço.

Podemos dizer que nesse caso a demanda criou a oferta? Não é possível. Sim, as preferências das pessoas podem em massa, mudar continuamente, mas é o conhecimento da existência e disponibilidade da oferta que gerou esse desejo, e a mesma modula os preços dada a utilidade marginal decrescente desses produtos. Você não pode separar a Lei de Say da preferência temporal, se o fizer, cairá num limbo onde não poderá ver as coisas corretamente.

O Ponto Central

Hutt demonstra que até a oferta ser criada e distribuída, diversos processos econômicos (de anos talvez) já ocorreram. E querendo ou não, a demanda futura desse produto no fim é um mistério, quando alguém tenta usar curvas de demanda, relações de equilíbrio, relações de empregabilidade dada mudanças de demanda de n setores, você só vai entrar num lugar escuro e frio, aonde nada útil virá disso.

Acesso a capital (em juros) e ideias de investimentos que se provam bem sucedidas, que criam disponibilidade de emprego e favorecem o mercado doméstico positivamente. Impostos elevados, restrições de importação entre outras, expansão de crédito, inflação, taxas de juros altas (lembrando que bancos centrais não deveriam existir), uma legislação que impede diversos processos que no fim invalidam a possibilidade de criação de oferta em n setores, e etc, que geram problemas nesse contexto.

É somente quando essas restrições forem retiradas que empresários podem gerar (potencialmente) ideias com maior liberdade, gerando a oferta que potencialmente pode gerar uma demanda para a mesma. Claro que preferências mudam, e isso pode vir totalmente das pessoas e não da oferta em si, por isso disse que não necessariamente o lado da balança pende apenas para o lado da oferta, mas com certeza, pesa mais para ela do que uma base teórica na demanda (como a Keynesiana), o que só pode gerar teorias completamente inúteis.