A Oferta e Demanda por trabalho
Como a desutilidade do trabalho nos ensina sobre relações de oferta e demanda?
Um conceito muito importante na teoria econômica de trabalho é o "leisure" (lazer), que nada mais é que o tempo de descanso vs. o tempo de trabalho, onde um uber por exemplo, tem que entender o quanto de tempo ele precisa empregar para manter sua subsistência e ainda ter tempo livre vs. o de trabalho no aplicativo.
A disutilidade do trabalho é exatamente isso, e sim, nós valorizamos muito trabalhar perto da empresa que estamos, pois se demoramos três horas para chegar na mesma e três para voltar, temos um tempo inútil de transporte onde não temos nem descanso, nem somos pagos.
A qualidade do ambiente também é importante, e a quantidade de trabalho extra quando chegamos em casa (como programadores e setores similares), tudo isso é levado em conta em relação a disposição da oferta de trabalho em n setores, onde sempre as pessoas pesam os prós e contras do lazer possível vs. o trabalho e salário possível naquela empresa, e é com isso que lidaremos nesse artigo.
Trabalho num sistema pós-malthusiano
"O capitalismo moderno é essencialmente a produção em massa para o benefício das massas. Os compradores dos produtos são, em geral, as mesmas pessoas que, como assalariados, cooperam em sua fabricação. O aumento das vendas fornecia informações confiáveis ao empregador sobre a melhoria do padrão de vida das massas" (Mises, Ludwig von. Human action. Ludwig von Mises Institute, 1949, pg. 587).
No contexto da divisão de trabalho, temos n setores, onde os wage-earners (assalariados) recebem pelo que produzem no setor em questão e isso se transforma em consumo e impostos. O benefício deles está no fato que o trabalho lhes permite consumir os suficiente para sua existência (subsistência) e pode dar um premium de lazer, onde alguém pode passar anos de sua vida estudando para ser advogado ou médico com o fim de ganhar mais, e assim aproveitar salários mais altos que podem lhe dar mais conforto e lazer (embora não necessariamente tempo dependendo do setor).
Nós passamos da época de economias primitivas, em que a maioria das pessoas trabalhava na área rural e similares, temos n tipos de setores que são mais modernos, ao ponto de que mesmo o trabalho home office é uma opção que pode tanto beneficiar empresas com serviços com os mesmos resultados (depende do setor) quanto conforto no trabalho aos trabalhadores, visto que no fim o que a empresa busca é lucro através de resultados e metas que o atinjam, o home office tem seus benefícias para ambos, empregador e assalariado, alguém que não era possível no geral séculos atrás.
O sistema capitalista melhorou a qualidade de vida da população em geral de países desenvolvidos, assim como a taxa nutricional, qualidade de moradia, PIB per capital, qualidade de vida, saúde e acesso a educação (coisas que Marx diz no Das Kapital (no primeiro volume) que não iriam acontecer na evolução do sistema capitalista). Criou-se também uma necessidade de níveis de especialização maiores, e daí cresceram muito mais as universidades e cursos profissionalizantes.
Porém, as leis praxeológicas que regem a oferta e demanda de trabalho sempre foram as mesmas, e controles sobre ambos, pode gerar problemas, e esse é o próximo ponto que quero tratar.
O controle da oferta de trabalho
Essa visão que vou mostrar, vejo muito entre os fisiocratas. Eu sei claramente que certas profissões necessitam de um tempo de estudo mínimo e qualificável para alguém performar a profissão (como a medicina). Porém, com outras não é bem assim, na área da segurança da informação por exemplo (que eu era parte no passado), não importa em nada seus certificados e coisas do tipo, mas sim o que você pode realizar em n questões nesse meio, se você tiver um excelente portifólio de feitos para mostrar em coisas como Bug Bounty e etc, isso é mais relevante mesmo do que uma faculdade no setor (que ensina muito pouco nesse tema específico).
O problema é quando o governo coloca restrições de quem pode praticar certas áreas, e formas de controlar o tempo de estudo delas (como o MEC faz no Brasil) que estendem o tempo hábil de estudo, que poderia ser num tempo menor com a mesma qualidade. Eu fui professor por 3 anos em escolas ensinando informática, e uma coisa que é muito importante, é conseguir sintetizar o conteúdo de tal forma que o aluno aprenda de forma eficiente, onde por exemplo, em inglês, você não precisa ficar 5 anos nunca escola para ser fluente, tem escolas que fazem isso em 2, o que se a pessoa se esforçar e tiver bastante horas de estudo, pode realizar a fluência nesse tempo (embora seja algo para toda a vida).
Isso pode controlar a oferta de trabalho, quando um governo exige, escolhe, o tempo que certificações devem vir a ter, ou mesmo que conteúdo deveria vir a disponibilizar (pelo MEC, que por exemplo não permite certos temas da teologia bíblica serem ensinados em faculdades) por uma questão de "qualidade" segundo eles, temos um problema, de uma instituição que pode (mesmo que indiretamente) restringir a oferta de trabalho.
Quer um exemplo mais óbvio ainda? O CREF (Conselho Regional de Educação Física), que é uma instituição que regula o mercado de personal trainers em academias, o mesmo, nada mais é do que um monopólio de quem pode ou não ensinar dentro de academias, sem o CREF (dizem eles), alguém não pode estar habilitado a realizar esse serviço, mesmo que teoricamente (tendo até faculdade de E.F) os mesmos saibam mais que qualquer um dentro da instituição (ou eles são os deuses do fisiculturismo?).
O Estado tem vários desses controles que restringem a oferta sem necessidade, criando um efeito de indisponibilidade desses serviços para quem não quer se adequar a essas instituições.
Sobre a disutilidade do trabalho
Mises nos diz:
"Nenhuma ideologia, por mais enfática e ensinada que seja, pode afetar a desutilidade do trabalho. É impossível eliminá-la ou aliviá-la por persuasão ou sugestão hipnótica. Por outro lado, ela não pode ser aumentada por palavras e doutrinas. A desutilidade do trabalho é um fenômeno inerente ao ser humano" (Mises, Ludwig von. Human action. Ludwig von Mises Institute, 1949, pg. 588).
As pessoas possuem preferências diferentes. Existem pessoas que preferem trabalhar de noite, e dormir de dia, se acostumaram a isso, e não necessariamente isso lhes afeta negativamente. Outras não reclamam (não necessariamente gostam mas suportar) trabalhar em horários que começam à tarde e vão até à noite, outras não conseguiriam aceitar um emprego nesse tipo de condição.
É uma questão pessoal, uma preferência psicológica consciente individual. Mas uma coisa é óbvia, todos preferem ter tempo livre, talvez possam até conseguir um bom emprego perto que lhes pega bem, mas se ele for sete vezes por semana, longe e extressante, talvez a pessoa não irá suportar, tudo depende dos gostos da pessoa. Eu mesmo já trabalhei em uma escola que eu ganhava menos que o trabalho anterior, mas eu preferia ela pois me dava um tempo para focar na minha empresa, algo que outro serviço me dava menos.
Ninguém pode alterar a preferência das pessoas. No sistema Soviético, poderia ser visto que Lenin e seus sucessores queriam criar a mentalidade da alegria pelo trabalho pela comunidade, de que os trabalhadores tinham o dever moral de obedecer as leis do Estado em relação a alocação de trabalho e recursos, e se esforçar para performar dentro desse ambiente, mesmo que tudo fosse de mal a pior. É um sistema de controle total da oferta de trabalho, e que confunde totalmente a demanda do mesmo, assim se tornou um sistema completamente ilógico as leis básicas da economia natural.
Mises diz:
"O fato de o tédio do trabalho ser substituído pela alegria do trabalho não afeta a valoração nem da desutilidade do trabalho nem do produto do trabalho. Tanto a demanda quanto a oferta de trabalho permanecem inalteradas. Pois as pessoas não trabalham pela alegria do trabalho, mas pela gratificação imediata. O que se altera é apenas a atitude emocional do trabalhador" (Mises, Ludwig von. Human action. Ludwig von Mises Institute, 1949, pg. 588).
No sistema socialista, eles tentam controlar a oferta e tentar alocar a demanda por trabalho onde acham conveniente, uma quimera é criada onde temos uma confusão da oferta e demanda de trabalho. Os salários são alocados não pelo valor da produtividade marginal descontada (veja Rothbard no MES), mas escolhidos pela arrogância de governantes, do que eles acham que é justo em n setores (colocando pessoas para monitorar essa relação), e não existe método ou fórmula econométrica e probabilística que gere esse cálculo econômico,logo temos o fim completo da noção de trabalho no seu sentido natural, mas apenas sobra um modelo ditatorial e inorgância, contrário à natureza.
A visão de Rothbard sobre trabalho
Rothbard diz:
"Nisto, como em todas as coisas, existe uma divisão do trabalho; e numa sociedade de livre mercado, cada indivíduo entrará nos campos e áreas de trabalho que lhe forem mais atrativos" (Rothbard, Murray N. "Egalitarianism as a Revolt against Nature." Modern Age 17.4 (1973): 348, pg. 163).
Num livre mercado, num laissez-faire, as pessoas entram nas áreas que desejam sem controles que impedem ou extendem demais o tempo necessário para que elas atinjam a capacidade necessária para aquele setor. Quantas pessoas começaram em empresas sem nenhum conhecimento da área em questão e foram aprendendo com o tempo e se tornando altamente capacitadas (até podendo depois completar o conhecimento com uma faculdade para se consolidarem), dependendo do setor, essa extensão de tempo necessário para alguém ser considerada "capaz" se torna inútil, é claro que tem muito bias aqui, já vi pessoas dizendo que se você não faz uma faculdade de 4 anos de ciência da computação você não aprendeu o suficiente.
Mas isso é subjetivo, uma pessoa talvez sim, duas, três, mas você acha que as massas que fizeram técnologo dois anos são inferiores no mercado de trabalho de quem fez quatro anos? Isso nem importa, pois a faculdade te prepara no caminho para o mercado de trabalho, o resto (a maior parte) depende apenas de você, e a pessoa tem que além do seu curso estudar por conta própria lendo livros e fazendo cursos externos para completar seu conhecimento, se não fizer isso, será incapaz de performar no futuro, pois será refém de um repertório menor.
Outro ponto é quando a desutilidade do trabalho for maior que o retorno do mesmo:
"Portanto, um homem continuará a trabalhar enquanto a utilidade marginal do retorno exceder a desutilidade marginal do esforço laboral. Um homem deixará de trabalhar quando a desutilidade marginal do trabalho for maior do que a utilidade marginal do aumento dos bens proporcionado pelo esforço" (Rothbard, Murray N. Man, economy, and state with power and market. Ludwig von Mises Institute, 2004, pg. 46).
Se você ganhasse na Mega-Sena, você continuaria a trabalhar? Depende. Eu pessoalmente não gostaria de ganhar tanto dinheiro, não creio que faria algo útil com tanto. E mesmo assim gostaria de continuar trabalhando em coisas que gosto, aí vai do gosto da pessoa, mas no geral, tem pessoas que podem vir a parar de trabalhar e se aposentar cedo caso possuam reservas suficiente para realizar isso, e depois só descansar (passar todo o tempo em leisure).
Se um uber for tão eficiente que ele ganha R$ 5.000 reais por mês trabalhando 3 dias da semana, então ele pode escolher ter o resto do tempo em lazer ou em outras coisas, do que trabalhar mais e ganhar mais, depende do objetivo, das preferências da pessoa. Talvez em três meses ele foque em ganhar o máximo possível, em outros tenta descansar mais, ele poderia trabalhar 10 horas por dia, sete dias da semana e ganhar muito mais (teoricamente com o know-how que possui de onde fazer as corridas e etc), porém, ele prefere descansar, pois já ganha o suficiente que ele desejava.
Vamos supor que alguém venha a se aposentar com 45 anos (incomum), essa pessoa pode se cansar de tanto lazer (o que realmente desejava antes):
"Então, à medida que seu consumo de lazer aumenta, a utilidade marginal do lazer diminuirá, enquanto a utilidade marginal dos bens renunciados aumentará, até que finalmente a utilidade dos produtos marginais renunciados se torne maior que a utilidade marginal do lazer, e o agente retomará o trabalho" (Rothbard, Murray N. Man, economy, and state with power and market. Ludwig von Mises Institute, 2004, pg. 47).
Eu pessoalmente gosto de jogar videogame, recentemente jogos antigos por exemplo. Porém tenho que entender o tempo de lazer jogando vs. o tempo de trabalho, visto que produzo menos se eu trabalhar menos obviamente (por isso cortei League of Legends, foi necessário). Eu nunca iria querer em toda minha vida no futuro ficar jogando jogos o dia todo, por mais que ame jogar, eu pessoalmente canso, e eu gosto de trabalhar (ao menos no meu setor), e considero para mim pessoalmente, ler artigos acadêmicos como diversão (por exemplo) e uma forma de lazer também. Mas creio que é difícil se render completamente a disutilidade do trabalho, por que o ser humano foi feito para trabalhar segundo a vontade de Deus para nós beneficiarmos uns aos outros nisso, mas no fim, é uma escolha, também é um fato que tem pessoas que trabalham fazendo streaming de jogos, tem momentos que trabalho e lazer se junta, e nesse momento há felicidade (teoricamente).
Psyquic Income
Em outra passagem, de forma ainda mais clara, Rothbard diz:
"Assim, o homem aloca seu tempo entre o lazer e o trabalho produtivo, entre o trabalho remunerado e o trabalho em bens não trocáveis, etc., de acordo com o princípio de maximizar sua renda psíquica. Ao decidir entre trabalho e lazer, ele pondera as vantagens marginais do trabalho com as vantagens marginais do lazer" (Rothbard, Murray N. Man, economy, and state with power and market. Ludwig von Mises Institute, 2004, pg. 219).
O termo "renda psíquica" é interessante, faz parte do conceito de "mental accounting" na economia comportamental e neuroeconomia. Podemos ir até para teorias da consciência aqui, ao dizer que é um fato que as preferências das pessoas são diferentes, especialmente sobre a desutilidade do trabalho. Os tipos de lazeres que as pessoas gostam tende a ser diferente, assim como suas preferências por trabalho, e as mesmas podem mudar continuamente, ao ponto que alguém pode considerar passar mais tempo com a família de agora em diante, quando no passado não considerava isso em sua mente, essa mudança de mentalidade é algo incalculável e completamente individual.
Outro ponto é que quando há uma oferta de trabalhadores num setor com alta demanda, isso pode aumentar os salários, mas logo essa relação pode tender a uma oferta que vai equalizar com a demanda teoricamente, assim:
"A chave, portanto, são os salários científicos. E aqui chegamos a outro ponto importante: não pode haver escassez duradoura de qualquer ocupação no mercado livre, pois, se houver escassez, ela será rapidamente revelada em salários mais altos, e esses salários farão tudo o que for humanamente possível para aliviar a escassez rapidamente, atraindo novas pessoas para a área (e trazendo de volta aquelas que a deixaram). (Rothbard, Murray N. Science, technology, and government. Ludwig von Mises Institute, 2015, pg. 28).
A área de programação historicamente sempre foi escassa, por ser algo específico muitas das vezes com diferentes demandas em diferentes processos e linguagens onde são necessários (se faz necessário citar que Rothbard nesse contexto está usando cientistas como base). Porém dependendo do setor dentro dessa área, podem haver algumas onde a oferta supera a demanda, especialmente com Home Office, não estou dizendo que isso ocorre agora, mas que isso pode acontecer teoricamente, onde isso pode abaixar os salários dentro de trabalhos específicos nesse setor, realmente depende. Se existir uma demanda alta por uma linguagem específica e que paga muito bem, as pessoas vão buscar aprender a mesma para ter maiores salários (que usando python, vamos supor), porém isso pode teoricamente equalizar a oferta com a demanda, e logo os salários não serão tão díspares como antes (embora esse seja apenas um exemplo).
O ponto central
Restringir a oferta de trabalho, fixar salários mínimos, extender o tempo de ensino necessário numa área ou mesmo obrigar alguém a se certificar em instituições monopolizadas pelo governo, são elementos que podem ferir a liberdade econômica do trabalho. Esse é um ponto que muda totalmente nossas vidas, pois uma confusão nesse contexto altera a renda em n setores continuamente. Não falei ainda do imposto de renda progressivo, e como ele é um dos maiores, senão o maior male nesse contexto de retorno real do trabalho performado, mas isso deixarei para outro artigo.