A Política e Psico-história do Legendarium de Asimov
Uma breve análise sobre a política e economia nas obras de Asimov
Asimov foi um dos autores mais prolíficos do século passado, escrevendo cerca de 500 livros tanto de não–ficção (mesmo sobre a história de Roma), sobre química (ele era Ph.D nesse tema e dava aula sobre), sobre astronomia, e é claro, suas lendárias obras de Sci-fi.
Meu objetivo aqui é falar sobre a economia e política nas obras de Asimov, e pode ter certeza, ele foi um dos primeiros a escrever “political novels”, que são obras focadas em aspectos políticos intrinsecamente. Veremos aqui desde “The Gods Themselves” até a Fundação, focando nos principais aspectos dessas obras, e o que ela pode nos ensinar sobre o futuro da economia.
Fundação
Sou obrigado a começar com a obra que mais gosto, e a primeira que li de Asimov. Quando adolescente eu tive interesse em Asimov após ver um entrevista dele sobre a internet, e o que ela faria com os jovens no futuro em relação à possibilidade de estudar fazendo cursos no computador (na época que ele disse isso, ela nem existia ainda), só li a Fundação mesmo quando estava escrevendo “Principia Economica Vol. 1”, e quando mais eu lia, mas eu via como essa obra estava à frente do seu tempo.
A história gira em torno de Hari Seldon, um matemático jovem nos seus 20 e poucos anos que ainda não teve sucesso na sua pesquisa o suficiente para ter uma posição de valor no Império. Tal Império Galáctico foi formado em milhares de desenvolvimento, sendo que veio inicialmente do avanço tecnológico na Terra e depois colonizando 50 planetas ao redor da galáxia (veja em de Naked Sun o processo disso) e gradativamente crescendo ao ponto de agora o Império Galáctico ser constituído de centenas de milhares de mundos, e um quintilhão de seres.
Seldon deu uma palestra em Trantor, no tempo de Cleon I como Imperador, sobre um tema que ele mesmo chamou de “psico-história”, sobre isso:
“Sim. Ele disse que esse Hari Seldon atendeu a convenção de matemáticos aqui em Trantor–eles fazem isso a cada dez anos, por alguma razão– e ele disse que conseguiu provar que alguém pode dizer o futuro matematicamente” (Prelude to Foundation, pg. 4-5, 1988).
Um oficial de Cleon I ouviu a palestra de Seldon randomicamente, não era como se ele fosse conhecido ou reconhecido ainda, ele era só um matemático comum (segundo ele mesmo). Porém, essa teoria visava, não prever o futuro da economia, mas era uma forma de entender dinâmicas populacionais com base em eventos factuais históricos. Ela posteriormente iria depender de um número abismal de Zetabytes de informação da história de todos os mundos do Império (para quem manja de Big Data, isso é massivo), era uma teoria que não necessariamente era praxeológica (nunca esse termo é citado), mas buscava elementos praxeológicos, axiomas de comportamentos sociais econômicos (da ação humana no geral), para entender a probabilidade de certos eventos ocorrerem.
Não era uma ciência exata (como nos é explicado no Prelude to Foundation e Forward Foundation), é na verdade uma teoria probabilística com base em dados, em que você não quer prever o preço de coisas ou que empresas vão se sair melhor no futuro, mas na verdade, o próprio estado da Civilização e com isso extrair apenas uma informação: “qual a probabilidade do Império colapsar com base no que vemos atualmente e na sua história?”, então creio que não confronta com a visão de Mises sobre usar dados bayesianos para prever fatores econômicos, pois a teoria nem foca nesse aspecto na verdade.
A ação humana
“Considere o jeito em que cientistas lidam com partículas atômicas. Existem números enormes desses, cada uma se movendo ou vibrando de forma randômica ou imprevisível, mas este caos aparenta ter um ordem estrutural, de tal forma que podemos trabalhar com mecânica quântica que responde todas as questões que nós sabemos como responder. No estudo da sociedade, nós colocamos seres humanos no lugar de partículas subatômicas, mas agora tem um fator a mais da mente humana. Partículas se movem sem pensar; seres humanos não” (Prelude to Foundation, pg. 11-12, 1988).
Tenho certeza que nunca foi a intenção de Asimov, introduzir uma noção Miseana nas suas obras. Porém, é um fato que Seldon continuamente levanta a necessidade de entender como as pessoas funcionam, com uma grande ênfase em psicologia (a Segunda Fundação era de pessoas focadas em psicologia, spoiler), então de um lado ele tinha dados focados especialmente em análise de Big Data de todos os mundos na História desde a Terra (isso bem posteriormente na obra, que ele realiza isso), do outro um grupo que entendia mais sobre o comportamento humano, então o autor foca em ambos os lados da questão.
Seldon inicialmente não acreditava em si mesmo
“Os olhos de Seldon piscaram rapidamente. “Milhões de mundos. Bilhões de culturas. Quadrilhões de pessoas. Decilhões de inter-relações. – E você quer que eu a reduza para ordem”.
“Não, eu quero que você tente. Pelo bem desses milhões de mundos, bilhões de culturas, quadrilhões de pessoas. Não pelo Imperador. Não por Demerzel. Pela humanidade.
“Eu vou falhar”, disse Seldon.
“Então nada ficará pior. Você vai tentar?” (Prelude to Foundation, pg. 58, 1988)
Eu não sei exatamente se isso é interessante ao personagem ou até irritante às vezes. Acho que mais mostra a humildade de Seldon, desde o início, ele não acreditava em si mesmo, e ousava mesmo diante do Imperador de milhões de mundos, recusar aplicar sua teoria para tentar o ajudar. A razão disso é simples, primeiro, porque Seldon acreditava que alguém poderia usar essa teoria para o mal, e segundo, porque Seldon acreditava que não seria capaz de a executar.
Então todo o primeiro livro do Prelude to Foundation (que é posterior à trilogia, embora cronologicamente antes obviamente na história) é sobre Seldon querendo fugir do seu destino. Porém eventualmente ele decidi ajudar Cleon I, e se torna membro da corte política do Imperador e começa a trabalhar no seu projeto, vale lembrar a existência de R. Daneel Olivaw que vemos em “The Naked Sun” e é o personagem mais importante no Legendarium de Asimov, mas não vou dar spoiler de quem ele é nessa obra, pois seria maldade, mas ele foi uma peça fundamental de controle de todo o desenvolvimento do Império, desde a Era dos Robôs e etc.
A teoria de fricção social
No Forward Foundation, vemos que:
“Isso deu nascimento para a noção que dinâmicas sociais tem as suas de de conservação assim como na física, de fato, e que essas leis que oferecem a nós as ferramentas possíveis para resolver os aspectos problemáticos da psico-história” (Asimov, Forward Foundation, pg. 300, 1993).
Essa fricção social seria uma lei de grupos simétricos em comportamentos de grupos sociais grandes o suficiente (e isso é citado como importante para teoria, não o indivíduo mas o grupo), seria como encontrar os axiomas do comportamento humano de massa do ponto de vista econômico, seria praxeologia na prática, embora o termo não seja usado. Vejo também aplicações de Social Network Analysis (SNA), que creio que seja um dos temas mais importantes da aplicação de matemática aplicada na economia, que basicamente é uma forma de entender relações sociais em larga escala.
Na Universidade de Trantor Seldon tinha uma capacidade computacional medonha, especialmente representada no seu Prime Radiant, um supercomputador no formato de um Dodecaedro que cabia na palma de sua mão, e que tinha dentro de si todos os dados computados de todas as civilizações da história aplicando as equações da psico-história. É uma representação total da vida de Seldon naquele cubo, do seu trabalho, do seu esforço, da sua abdicação de si mesmo em prol do bem dos outros.
Cleon II e a Fundação
No estilo Júlio César, Cleon I é assassinado (o autor numa das introduções dessas obras fala sobre sua inspiração no Império Romano para Trantor), e esse seria o princípio do caos. Seldon afirma que a causa da queda do Império seria uma versão galáctica da queda do Império Romano, onde grupos independentes (ao estilo povos germânicos como Godos, Frísios, Ostrogodos e etc) começaram a se rebelar nas sombras, fazendo ele gradualmente cair como num dominó.
Porém, essa queda seria brusca para a galáxia, Seldon demonstra que com base na sua teoria, ela seria inevitável, e ele vai até Cleon II, descendente de Cleon I, e fala sobre isso, esse é o começo do livro “Fundação”. E no fim ele aceita o conselho de Seldon, e assim é criada com sua ajuda e recursos a Fundação em Terminus, que nas mãos de Seldon veio a se tornar uma plutocracia, que não visava ser um “livraria para o conhecimento humano” como Seldon disse ao Imperador, mas sim um grupo cuja missão seria restaurar a civilização após sua queda, assim restaurando a prosperidade que estariam num limbo de destruição por milênios.
Après nous, le déluge
Essa frase icônica representa o fato que muitos economistas e estadistas pensam no curto prazo na economia, que “depois disso, o dilúvio” significa que se algo ruim com base nas minhas ações num governo não tiverem efeito enquanto eu viver, então não importa. Isso era exatamente o contrário do que Seldon pensava, e o contrário do que Cleon I pensava.
Cleon I não estava contente com seu ápice de prosperidade galáctico, ele queria que isso se mantivesse não somente em sua vida, mas posteriormente para o reinado de seus filhos e filhos. Ele buscou a ajuda de Seldon não para manter seu poder ou por razões imorais e de seus próprios interesses, mas sim para achar uma forma de estabilizar o Império no longo prazo.
Veja, a queda do Império matou centenas de milhões de pessoas, obviamente foi algo terrível para a humanidade, e dois homens queriam consertar isso. Seldon não viu nem de perto isso ocorrer, mas as sementes da sua teoria se provaram no longo prazo a forma mais clara de demonstrar de como os avanços do conhecimento humano são indispensáveis para a prosperidade das nações. Quem diria que um jovem matemático desconhecido e sem riquezas, iria mudar o destino da galáxia com suas próprias mãos.
Stars, Like Dust
“‘Você foi para a escola. Você aprendeu o ciclo econômico. Um novo planeta é estabelecido’ — ele estava marcando os pontos com seus dedos—- ‘e seu primeiro cuidado é alimentar a si mesmo. Assim se torna um mundo agricultor, um mundo pecuário. Ele começa a cavar o chão para matéria prima para exportação, e vende o surplus da agricultura para fora para comprar luxos e maquinário. Esse é o segundo passo. Então, conforme a população aumenta e investimentos externos crescem, uma civilização industrial começa a florescer, que é o terceiro passo. Eventualmente o mundo se torna mecanizado, importando comida, exportando maquinário, investindo no desenvolvimento de mundos mais primitivos, e assim por diante. O quarto passo’” (Stars, like Dust, Ch. 7, pg. 65, 1951).
“Stars, like Dust” é um um dos piores livros de Asimov segundo alguns, e eu vi a opinião de muita gente sobre isso. Dizem que mesmo o próprio autor disse isso. Receio ter que discordar de ambos categoricamente, e discordar hiperbolicamente. Esse é uma das melhores obras de Asimov em questão de expandir sua noção de desenvolvimento planetário, de relações entre planetas do ponto de vista político–econômico, e toda história gira em torno de um planeta (os Tyrannian) querendo taxar os outros (empregar o poder para destruir), sendo que o tal que tinha a capacidade de plantio de uma commodity específica (até que acharam uma forma de plantar ela em qualquer lugar, o monopólio acabaria ali), o que fez eles não conseguirem se desenvolver economicamente como poderia, ficando escravos dos Tyrannian.
No capítulo 12 é citado um termo “enconomic”, que seria um planeta subdesenvolvido economicamente, eu não vi sendo usado até agora em outras obras, se for algo singular de Asimov aqui, isso é substancial.
Sobre Lingane:
“Com planetas-estado vizinhos se consolidando em um grupos de estados e se tornando mais fortes, conflitos civis em Lingane ficaram cada vez mais caros e perigosos ao planeta. A população geral estava quase que aceitando, finalmente, negociar qualquer coisa por uma calmaria. Assim eles trocaram a plutocracia para uma autocracia, e assim perderam a liberdade nessa mudança” (Stars, like Dust, Ch. 12, pg. 123).
A transição de ciclos políticos é um tema extremamente importante. Hoje na nossa sociedade a transição envolve mais ciclos de novos governantes que possuem identidades políticas diferentes e perspectivas que mudam o rumo do país significativamente. Mesmo Sócrates cita essa questão na República e Aristóteles na “Constituição Ateniense” (só que do ponto de vista histórico, não teórico).
A plutocracia é a forma de governo dos mais ricos, não seria diferente chamar ela de “corporativismo planetário” nesse contexto. Sair de uma plutocracia para uma autocracia seria um erro, pois a autocracia é basicamente o poder centrado numa pessoa, e se tal pessoa em sua insensatez buscar seus próprios interesses, é basicamente o fim, pois não tem como retirar essa pessoa do poder por meios democráticos. Uma plutocracia com base no PNA e em direito natural, poderia funcionar, teria que ter sim líderes (em Terminus tinha também), a ideia de foco apenas em lucro não é factível, ela teria que focar em aspectos organizacionais como criar leis, executar eles, toda barganha dos três poderes, funcionando ou não, é melhor que uma autocracia.
No fim, eu recomendo muito “Stars, Like Dust”, se você já leu, preste atenção nos detalhes econômicos e políticos da obra (escrevi sobre ela em “Principia Economia Vol.3, onde trago muitos outros detalhes, aqui foi um breve resumo).
Pebble in The Sky
No Pebble in the Sky o foco é mais na relação dos planetas colonizados com a Terra. É óbvio que colônias eventualmente se tornam independentes, vemos isso na história da civilização, seja com o Brasil, EUA, Canadá e etc, a Austrália sendo um exemplo à parte. Então meio que com o tempo, se desenvolve uma certa teoria da conspiração contra a Terra, contra terráqueos, e meio que um pré-conceito também, eventualmente a Terra se tornaria inabitável (embora depois volta a ser habitada, na verdade se torna o planeta mais habitável (e maluco) após a queda definitiva do Império.
“Existiam ali os mundos de Ophiuchus, por exemplo, os quais os ortodoxos por muito tempo considerado como samples de uma Humanidade primitiva não avançada ainda no estágio da viagem interestelar. Todo livro-texto usado nesses mundos eram a melhor evidência da Merger Theory; i.e., que a Humanidade era o clímax natural da evolução em qualquer mundo baseado numa química de água-oxigênio com intensidades próprias de temperatura e gravitação” (Pebble in the Sky, pg. 15).
Nessa obra podemos ver algumas partes que nos trazem boas referências a teorias de Asimov (num sci-fi é claro) de leis ou noções essenciais sobre bioastronomia, que seria o estudo de como seres vivos podem (teoricamente) viver em condições totalmente alheias às da terra, seja em Marte, num asteróide, ou num planeta orbitando algum sol em Andrômeda ou seja lá onde for no imenso Espaço criado por Deus.
Em todas as suas obras, uma hora ou outra você vai ver esse tipo de noção, mesmo teoremas fictícios que poderiam apresentar até uma certa verdade por trás, ou esse tipo de constatação teórica para criar uma fundação lógica no desenvolvimento teórico de uma sociedade fora da terra.
The Gods Themselves
Essa obra talvez seja uma das mais icônicas na característica política de Asimov. Em “The Gods Themselves” a humanidade encontra uma forma de se comunicar com uma outra versão da realidade (um espelho do universo deles), onde havia uma outra terra, como se fosse universos gêmeos ou algo do tipo (ficção, lembre-se disso).
Porém, o outro universo tinha uma física diferente do outro, e agora era possível usar uma forma de fusão diferenciada para gerar energia em níveis nunca antes vistos gerando uma maior prosperidade na Terra. Porém, o que foi um benefício para a sociedade se tornou a representação do caos, pois agora a física dos dois universos estavam se misturando, e isso poderia fazer o Sol de um deles implodir, como é dito:
“Então agora, jovem, não me diga para parar o bombeamento. A economia e o conforto de um planeta inteiro dependem do mesmo. Me diga, ao invés disso, como deixar o Bombeamento de explodir o Sol”.
Lamont disse, “Não tem jeito, Senador. Nós estamos lidando com algo que é tão básico que não podemos brincar com isso, devemos parar agora” (Asimov, The God’s, Themselves, pg. 56, 1972).
É claro que tudo isso estava no reino da possibilidade. E isso afetava tanto o universo tradicional quanto o “para-universo”, a estrutura da força forte de píons e gluons estava se desestabilizando, e isso poderia ter graves consequências para a lei da conservação de energia (central na física, como nos Teoremas de Noether). Aí entra a questão, um senador decidir politicamente o que fazer em relação a essa “possibilidade”, ou ouvir seus cientistas, onde eles mesmos podem estar errados também, ou não, mas se eles estiverem certos o sol irá explodir e todos iriam morrer, e temos mais o lado do universo tradicional aqui, não do para-universo que também devem ter tido seus atritos políticos.
Mas o ápice dessa obra não são guerras, lutas, e coisas semelhantes: são conversas. Mas que dão uma luta psicológica na obra, que às vezes tem mais impacto que uma guerra planetária no Star Wars. E o leitor pode pensar: “O que eu faria se eu fosse o senador nesse caso? O que eu faria se eu fosse o físico nessa situação”, e essas decisões não afetariam apenas seu próximo mandato, mas o destino do universo, e por isso o título é pertinente, fracos seres humanos estava prestes a mudar a estrutura da existência, e no fim (como num título de um dos melhores artigos de Yegor Gaidar), seria:
“Uma Decisão Política!”
Referências:
- Asimov, Isaac. Prelude to Foundation. Publisher, 1988.
- Asimov, Isaac. Forward the Foundation. Doubleday, 1993.
- Asimov, Isaac. Foundation. Bantam Books, 2004
- Asimov, Isaac. The Stars, Like Dust. Doubleday, 1951.
- Asimov, Isaac. Pebble in the Sky. Doubleday, 1950.
- Asimov, Isaac. The Naked Sun. New York: Ballantine Books, 1983.
- Asimov, Isaac. The Gods Themselves. Doubleday, 1972.
- Santos, Principia Economica Vol. 1, Aranea Science, 2022.
- Santos, Principia Economica Vol. 3, Aranea Science, 2024.