A Quimera

Escrito por Aranea

Processos inorgânicos intervencionistas podem ser descritos como uma Quimera, que nunca permitem a prosperidade da nação

A Quimera de Giovanni Battista Tiepolo

A Quimera é um animal confuso, é a mistura de um leão, bode e serpente, citado na Ilíada de Homero:

“Eles eram os verdadeiros irmãos de armas de Sarpédon e filhos de Amisodaros, que criaram a feroz Khimaira [Χίμαιρα], um pesadelo para muitos homens” (Homero, Illíada, Livro 16, linha 328, pg. 387, Homer. The Iliad. Translated by Robert Fitzgerald, Doubleday, 1974).

Mises usa o conceito para explicar o fenômeno de “non–market prices” (preços que não são de mercado) na sua obra “Ação Humana”. O objetivo deste artigo é demonstrar como esse efeito acontece num sistema socialista, onde temos uma desconfiguração dos preços pela falta de um sistema de mercado orgânico, mas ao contrário, o controle de todos os meios de produção, dos próprios preços e da ação humana.

Exemplo de uma Quimera

“Os preços são um fenômeno de mercado. São gerados pelo processo de mercado e constituem a essência da economia de mercado. Não existem preços fora do mercado. Os preços não podem ser construídos sinteticamente, por assim dizer. São o resultado de uma determinada constelação de dados de mercado, de ações e reações dos membros de uma sociedade de mercado” (Mises, Ludwig von. Human action. Ludwig von Mises Institute, 1949, pg. 392)

Quando um sistema se torna cada vez mais centralizado, quando mais processos inorgânicos tomam conta de processos econômicos, quando ocorrem minimizações de preços e intervenções nos mesmos continuamente, podemos sim dizer que são preços sintéticos.

Sintéticos no sentido que eles são alterados através dessas intervenções. As pessoas tendem a achar que os próprios lojistas e atacadistas que escolhem os preços, e que sempre querem um premium acima do valor real. Porém, pensar isso é não entender o fenômeno do mercado, pois a elasticidade de n produtos pode fazer um preço acima do que as pessoas estariam dispostas a pagar, abaixar a demanda, logo menos produtos seriam vendidos e tanto lojistas, atacadistas,distribuidores e produtores poderiam ter prejuízo com a baixa de demanda por terem escolhido preços ineficientes.

Quando você minimiza ou maximiza preços (o Estado no caso), quando você escolhe eles arbitrariamente num sistema socialista, você cria uma quimera, você cria uma confusão sem sentido e lógica que gera efeitos contrários aos desejados por estadistas.

Mises acrescenta:

“Não é menos inútil ponderar sobre quais deveriam ser os preços. Todos ficam incomodados se o preço das coisas que desejam comprar cair e o preço das coisas que desejam vender subir. Ao expressar tais desejos, um homem é sincero se admitir que seu ponto de vista é pessoal” (Mises, Ludwig von. Human action. Ludwig von Mises Institute, 1949, pg. 392).

Alguém diz: “mas eu creio que esses produtos não valem o preço pelo qual eles estão vendendo, e essas margens poderiam ser menores, talvez alguém poderia controlar o quanto de margem o lojista poderia ter em n produtos, para assim manter eles sem um premium tão alto, melhorando o poder de compra do pobre”.

Mas quem diz isso não entende o que é ter uma empresa, não entende que essa forma de controle não pode ser efetuada, pois os próprios empresários (e n funcionários que operam essas funções de forma eficiente) devem decidir as características da própria operação,colocar limite de margem de lucro, é no fim outra quimera.

A Quimera Inca

Existem algumas razões para crermos que o Império Inca foi um sistema “socialista”, não no sentido marxista é claro (obviamente), mas em representações de um sistema de controle estatal a tal ponto, que tirando a liberdade individual, se tornou um sistema diferente dos Maias, Astecas e etc.

Num exemplo da economia dos Chibchas da Colômbia:

“Essas trocas eram efetuadas por meio de escambo, mas certos produtos de grande demanda, como milho e coca, já desempenhavam um papel intermediário e eram aceitos como pagamento” (Baudin, Louis. A Socialist Empire: The Incas of Peru. Translated by Katherine Woods, D. Van Nostrand Company, 1961, pg. 165).

No Peru também, era assim, muitas dessas tribos não tinham um sistema básico monetário mesmo usando commodities, essas que eram bem abundantes de região para região, o autor cita mesmo armas de prata e ouro feita por eles. O autor cita que os Chibchas usavam discos de ouro para algumas transações domésticas (idem, pg. 165).

O Império Inca ia desde o Equador (como conhecemos hoje) no norte até o Sul do Chile, pegando países adjacentes ao nosso mapa atual. O ponto central do Império era em Cusco (no Peru), cidades conhecidas eram: Machu Picchu, Huánuco Pampa, Choquequirao, Ollantaytambo e etc. Sobre a administração desse Império, nos é dito:

“Foi a essas sociedades que o Inca aplicou seu esquema de socialismo, o qual, embora destrutivo para o comércio privado, sempre teve o cuidado de respeitar as instituições locais. Veremos como o estabelecimento do sistema peruano levou a uma diminuição progressiva do comércio. As correntes comerciais continuaram a fluir nas províncias recentemente conquistadas e desapareceram nas demais” (Baudin, Louis. A Socialist Empire: The Incas of Peru. Translated by Katherine Woods, D. Van Nostrand Company, 1961, pg. 168).

A propriedade privada de fato existia entre os Incas, porém, ela era concentrada apenas na nobreza (idem, pg. 75), é claro que não era exatamente algo absoluto, o autor cita no Chile a possibilidade de venda de propriedades, mas apenas na mesma comunidade (idem, pg. 78). O ponto é que o controle de propriedade privada de terras, de produção (idem, pg. 100), de transações externas, migrações (idem, pg. 130), distribuição de riqueza através de impostos (idem, pg. 140) e coisas do tipo, eram bem mais centralizados no Império Inca, e planificadas estatisticamente (idem, pg. 123; veja também idem, pg. 128, onde como eles usavam seus dados estatísticos para tomar decisões centralizadas).

Em essência,era uma economia planificada, não do ponto de vista moderno é claro, e obviamente não do ponto de vista marxista, mas do ponto de vista que tinham nela controles inorgânicos excessivos, criando uma quimera na formação de capital e no desenvolvimento:

“Seu procedimento ali também foi marcado pela elaboração de um programa racional, sua execução por decreto autoritário e, finalmente, o estabelecimento de regulamentos destinados a prevenir qualquer ocasião de perturbação e a tornar a organização definitiva e permanente” (Baudin, Louis. A Socialist Empire: The Incas of Peru. Translated by Katherine Woods, D. Van Nostrand Company, 1961, pg. 91).

Então existia o que era visto como propriedade do Estado, a da comunidade e a privada na forma de presentes entre a elite (idem, pg. 80), porém, não vemos a noção de propriedade privada de forma tão clara como no direito legal romano e grego por exemplo, entre os Astecas, também vemos similaridades nessa questão de a mesma se restringir à nobreza, mas o autor delineia na obra muitos outros pontos e mostra como os controles inorgânicos deles em terras que não necessariamente tinham um yield tão bom, deixava a população numa vida de subsistência, sem possibilidade de avanço e prosperidade.

Como matar a Quimera?

“No entanto, precisamente porque queremos examinar esses problemas, é necessário distinguir claramente entre preços e decretos governamentais. Os preços são, por definição, determinados pela compra e venda das pessoas — ou pela sua abstenção de compra e venda. Não devem ser confundidos com decretos emitidos por governos ou outras agências que impõem suas ordens por meio de um aparato de coerção e imposição” (Mises, Ludwig von. Human action. Ludwig von Mises Institute, 1949, pg. 394).

Não existe forma de matar a Quimera alimentando ela. E ela mesmo no contexto mitológico foi criada, nesse caso por Typhon e Echidna, como é dito na obra "Teogonia" de Hesíodo:

“Ela deu à luz a Quimera, que cospe fogo furioso,
terrível e grande, de pés velozes e fortes,
com três cabeças: uma de leão de olhos duros,
uma de cabra, uma de serpente, uma serpente forte;”
(Hesíodo, Teogonia, 319–323, Hesiod. Hesiod's Theogony. Translated by Richard S. Caldwell, Focus Publishing, 1987).

Da mesma forma (na nossa metáfora), vemos que que a Quimera de processos inorgânicos na economia, é criada por agentes do Estado que visam seus próprios interesses, e que na sua ignorância criam efeitos contrários aos que desejam, assim o povo fica a mercê de um ambiente sem liberdade econômica básica para o desenvolvimento, gerando nada mais do que um ambiente onde a prosperidade (na taxa que deveria estar) é impossível.

Só o livre–mercado pode matar a Quimera, só o Laissez-faire. Não que as leis devem ser descontinuadas, pelo contrário, elas devem ser melhoradas, com uma perspectiva mais racional e lógica da economia, destruindo conceitos como reservas fracionárias, maturity mismatching, expansão de crédito ex–nihilo, e todos os outros poderes que a Quimera venha a ter. Pois só assim pode haver um ambiente onde a prosperidade advém de forma mais natural aos avanços e inovações do mercado.

Então seremos como Belerofonte no seu Pégaso, quando ele mesmo matou a Quimera:

“Após decifrar a cifra mortal, que se transformava,
ele deu sua primeira ordem: seu convidado deveria lutar e subjugar
um monstro espumante, a Khimaira, de origem horrenda e desumana,
com a parte dianteira leonina, a cauda de serpente e uma cabra no meio.
Essa criatura exalava jatos de fogo.
Bem, ele a matou, seguindo os presságios dos deuses”
(Homero, Illíada, Livro 6, linha 179 em diante, pg. 147, Homer. The Iliad. Translated by Robert Fitzgerald, Doubleday, 1974).