A Teoria de Ciclos Econômicos de Mises-Hayek

Escrito por Aranea

Como tal teoria explica as crises econômicas atuais?

Birmingham Northern Rock bank run 2007

A teoria de ciclos econômicos de Mises-Hayek visa demonstrar a essência de problemas econômicos num ambiente de expansão de crédito. A expansão de crédito é uma forma exógena e inogância do aumento da of

Porém, tanto Mises quanto Hayek vão para uma visão diferente, voltada mais à poupança, argumentando que métodos de expansão da oferta de capital de forma exógena pode vir a criar a tempestade perfeita para crises econômicas. É como que se ao invés de termos um acidente com TNT, termos um com uma Bomba de Hidrogênio, a expansão de crédito leva congenitamente, a problemas maiores e mais duradouros em qualquer crise.

Como a expansão de crédito funciona?

A ideia central é gerar formas de aumentar a quantidade de capital disponível, não precisa literalmente ser imprimir dinheiro, existem n formas de expansão de crédito. A mais obvia é o uso da moeda fiduciária, como é só papel com um valor legal tender (imposto pelo Estado), a quantidade dessas notas com uso obrigatório na nação (sem a opção de usar outras para compra e venda) influencia diretamente o poder de compra da população, como o governo controla a emissão dessa moeda e relações de taxa de juros, ele tem o poder para desvalorizar a mesma e até realizar senhoriagem.

Senhoriagem (desde Nicholas Oresme) é quando um primeiro emissor (um rei, um governo, etc) emite mais moedas do que existem (anteriormente era fazendo minting, como misturar prata com outros minérios) ele consegue gastar mais inicialmente assim como os que tem acesso imediato a esse capital agora exógeno. Porém, quando as moedas em circulação começam a girar na economia, rapidamente ocorre inflação, o poder de compra diminui, pois esse aumento da oferta não for orgânico, através de produção, serviços e etc, mas simplesmente uma técnica bancária (que é imoral).

Minting foi usado em toda a história por governantes para gastar mais em guerras e projetos pessoais (como o livro "Oeconomica" de um discípulo de Aristóteles dá ínumeros exemplos, como o de Dionísio de Siracusa, discípulo de Platão), porém, um método ainda mais eficiente hoje além da moeda fiat, são reservas fracionárias. Basicamente é uma forma "legal" de aumentar sua oferta de capital ex nihilo (para citar Jésus Huerta), literalmente do nada, como um banco podendo do dinheiro depositado pelos seus clientes no mesmo, deixar apenas 20% em reservas e investir o resto como quiser, onde teoricamente ele pode ir a falência a qualquer instante caso seus depositantes venham retirar seus depósitos (legalmente), o que em crises econômicas facilmente pode ser uma necessidade que esses bancos não podem realizar.

Easy Money

A expansão do crédito que provoca a recuperação sempre se origina da ideia de que a estagnação dos negócios deve ser superada por meio de "dinheiro fácil". As tentativas de demonstrar que esse não é o caso foram em vão. Se alguém argumenta que taxas de juros mais baixas não foram constantemente retratadas como o objetivo ideal da política econômica, isso só pode ser devido à falta de conhecimento sobre a história econômica e a literatura econômica recente" (Von Mises, Ludwig. Causes of the Economic Crisis, The. Ludwig von Mises Institute, 2006, pg. 185).

A ideia central de keynesianos, monetaristas e etc, é que é possível gerar um multiplier econômico onde com a expansão de crédito, tenhos um boom de acesso a capital, mais acesso a empréstimos, e por fim mais investimentos, inovação e crescimento. Porém, essa é uma ilusão segundo Mises, na verdade, esse boom inicial não pode continuar por muito tempo, e as recessões causadas pelo efeito de acesso a "easy money" são catastróficos e causam retrocessos econômicos, onde os contras são maiores que os prós.

Temos um exemplo na Crise de 2008, a causa da crise foi uma fraude generalizada no mercado imobiliário. De forma resumida, quando alguém ia comprar uma casa e pegava um empréstimo para isso (mortgage em inglês), os bancos facilitavam de forma extrema pessoas mesmo sem condições ter acesso a esses capital, pois os mesmos eram convertidos em promessas de pagamento de crédito, que eram vendidas ao redor do mundo na forma de CDO's (Credit Default Swap).

Um CDO é basicamente uma bulk de securities de crédito, então o investidor apostava que aquele crédito seria pago e assim comprava o CDO, investimento em crédito já é algo relativamente antigo, no geral, high yield bonds são exatamente isso, você pode investir na promessa de pagamento de crédito por empresas, dando a elas acesso rápido a capital, é claro que se elas não pagarem, você se lasca, por isso é um mercado muito inseguro.

Um CDS (Credit Default Swap) era um seguro para um CDO, você poderia comprar eles para caso o seu CDO falhasse (o termo default é usado). Outro termo é o Synthetic CDO, que tinha lastro em ambos, embora não literalmente continha os mesmos (por isso Synthetic), era uma forma de você apostar em CDO's por exemplo.

O que causou a crise de 2008?

O grande problema, é que as fraudes no mercado imobiliário (com literalmente pessoas falsificando dados bancários de pessoas) criaram um efeito bola de neve, que pessoas tinham acesso a empréstimos que não eram pagos (pois não tinham grana para pagar desde o começo). Isso gerou um default brutal em CDO's, que nada mais era do que promessas de crédito que não eram pagos. Os mesmos eram ranqueados por empresas que faziam rankings de crédito (para o investidor saber (confiando muito na agência) se aquele CDO era bom), porém as mesmas davam rankings altos para CDO's que claramente eram esterco, então investidores cegamente investiram em lixo que nunca iria ser pago, uma hora a bomba iria explodir.

Outras formas de expansão ocorriam nessa época, como o uso de commercial paper (uma forma de empréstimos de curto prazo), short term Repo (repurchase agreement) em que o governo (por exemplo) vende para um investidor (empresas também) um security a um certo preço e compra por um preço maior posteriormente, isso é uma forma de ter acesso a capital rápido por parte de uma empresa, e existiam várias formas de ter acesso a crédito muito rápido.

Então entenda que o problema, de longe não é só a moeda fiat, mas um sistema bancários que pode realizar diversos tipos de operaçõe que permitam um aumento exógeno de capital e de acesso a capital que pode gerar problemas no longo prazo. Maturity mismatching (que era muito usado antes da crise na Islândia) é uma forma de empréstimos que você pega empréstimos de curto prazo (vamos supor a 2%) e vende por longo com a uma taxa de juros maior (a 5%), o que tende a ser arriscado e quando uma crise imprevisível ocorre, isso pode criar um colapso.

Em essência, a Crise de 2008 só foi tão monstruosa, por conta que no contexto de expansão de crédito, esses tipos de fraudes causam problemas muito maiores, pois se ela ocorresse num contexto de Padrão Ouro com reservas 100%, com certeza não seria no mesmo nível, pois o problema é que na crise os bancos não tinham reservas para realizar suas obligações, e se tornaram insolventes, me dá náuseas que nenhum documentário cita isso como uma das causas centrais do problema, pois esse é de fato um dos principais, quando uma crise ocorre, reservas fracionárias se tornam um colosso.

Nós somos credores aos bancos?

"É verdade que as massas não se consideram credoras e, portanto, simpatizam com as políticas que não favorecem os credores. No entanto, essa ignorância não altera o fato de que a imensa maioria da nação deve ser classificada como credora e que essas pessoas, ao aprovarem uma política de “dinheiro fácil”, prejudicam involuntariamente seus próprios interesses materiais" (Von Mises, Ludwig. Causes of the Economic Crisis, The. Ludwig von Mises Institute, 2006, pg. 192).

Sim, nós somos credores, se você tem dinheiro num banco, você é um credor a ele. É um fato que seria diferente se os bancos de depósitos não fossem misturados com o de investimentos (algo que voltou nos EUA nos anos 90 pelo Repeal da Glass-Steagall Act) nós seríamos apenas depositantes, mas não é o caso. O banco (não importa qual você use), literalmente pega mais de 80% em média do que lhe é depositado e usa como quiser em investimentos próprios, ou seja, pelo menos uns 80% de toda a poupança no Brasil está sendo usada para investimentos, e esse é o seu dinheiro, então você é um credor ao banco, o que é estranho, pois normalmente pensamos que o banco que nos empresta dinheiro, e não o contrário.

Caso ocorra uma crise e todos venham ao banco retirar justamente suas reservas, ele não vai conseguir lhes dar seu dinheiro, pois, ele literalmente não está ali. Jésus Huerta De Soto mostra em sua obra prima, como isso deveria ser considerado absolutamente imoral, que um banco pode usar os depósitos irregulares dos clientes como quiser, e alterando a esmo a oferta de capital da nação gerando inflação crônica e baixa no poder de compra da mesma:

"O depositum confessatum obscureceu as fronteiras legais decididamente claras entre o contrato de depósito irregular e o contrato de empréstimo ou mútuo. Independentemente da posição de um estudioso sobre a proibição canônica da usura, o depositum confessatum levou quase inevitavelmente à identificação “natural” dos contratos de depósito com os contratos mútuos" (De Soto, Jesús Huerta. Money, bank credit, and economic cycles. Ludwig von Mises Institute, 2006, pg. 121).

Não se pode confundir depósitos regulares com o muttum (empréstimos), pois ambos são diferentes. A Glass-Stegall Act de 1933 nos EUA entendeu isso, pois viram que foi uma das causas centrais da Grande Depressão de 1928, então houve um raciocínio de que se os EUA queriam no longo prazo serem mais estáveis no seu setor bancário, que eles deveriam separar o setor de depósitos e investimentos, ignoraram isso nos anos 90, e por "conhecidência" a crise de 2008 veio e jogou tudo para o ar. Mas lhe digo de forma bem clara, as reservas fracionárias (ainda mais no contexto de uma moeda fiat e o que já disse antes), que fizeram esse problema, infinitamente pior.

De forma ainda mais clara, Huerta diz:

"Em outras palavras, os depositantes entregam dinheiro como se estivessem fazendo um depósito, e os banqueiros o recebem como se fosse um empréstimo. No entanto, que tipo de contrato tem duas causas jurídicas essencialmente distintas? Ou, dito de outra forma: como é possível que ambas as partes do mesmo contrato pretendam simultaneamente manter a disponibilidade da mesma quantia?" (De Soto, Jesús Huerta. Money, bank credit, and economic cycles. Ludwig von Mises Institute, 2006, pg. 136).

A taxa de juros num ambiente expansionista

Mises diz:

"A expansão do crédito não apenas gera uma tendência inextricável para o aumento dos preços das commodities e dos salários, como também afeta a taxa de juros de mercado. Como representa uma quantidade adicional de dinheiro oferecida para empréstimos, gera uma tendência para que as taxas de juros caiam abaixo do patamar que atingiriam em um mercado de empréstimos não manipulado pela expansão do crédito" (Von Mises, Ludwig. Causes of the Economic Crisis, The. Ludwig von Mises Institute, 2006, pg. 194).

Primeiro: as taxas de juros não deveriam ser controladas, pois são incalculáveis. Não é possível prever a demanda por capital, logo não é possível calcular a taxa de juros correta a ser escolhida num banco central (argumento de Rothbard no MES). Se você acha que é possível prever a demanda de capital, tente prever de outras n commodities, quando você for bem sucedido, volte e argumente (mas garanto, você não vai).

Turgot talvez foi o primeiro a argumentar de forma bem mais clara, que a taxa de juros (sendo o preço do capital) é regulado pela oferta e demanda de capital de forma endógena. A preferência temporal das pessoas de capital, que gera a taxa de juros e não a preferência por liquidez Keynesiana, em que você pode aquecer a economia mudando a taxa de juros, pelo contrário (como Rothbard diz também no MES), você abaixar a taxa de juros não muda a demanda do mercado, na própria crise de 2008 tentaram resolver o problema com o FED injetando capital na economia (abaixando a taxa de juros), esperando empresas começando a investir mais e fazer tudo voltar mais rápido, e o que vimos? Empresas recomprando ações, literalmente nem aí para o que o FED queria e esperava.

O preço do capital (taxa de juros) deve ser definido pelo mercado, não pelo governo, primeiro porque é incalculável, e segundo porque só assim veremos a taxa de juros natural (algo que um marxista clássico negaria veementemente que exista). Quando você fixa a SELIC, você é basicamente um imbecil que está tentando fazer algo impossível, nada mais é do que uma forma de controle monetário, nada mais. Num sistema de bancos privados apenas, a SELIC nem existiria, taxas de juros seriam definidas pela preferência temporal das pessoas, a assim o preço do capital seria o natural e não o artificial atual.

A Teoria de Ciclos Econômicos

O primeiro ponto que devemos guardar a entender sobre a teoria de ciclos econômicos de Hayek-Mises, é que uma economia focando em expansão de capital exógena (easy money) sempre será inferior a uma focada em crescimento endógeno através de produção e serviços (sound money) e não técnicas monetárias para aumentar a quantidade de capital ex nihilo. Porém, todos querem a forma mais facil de resolver problemas econômicos, não a que demora mais e é mais difícil.

Mises diz no Ação Humana:

"Não há meios de evitar o colapso final de um boom provocado pela expansão do crédito. A alternativa é apenas se a crise virá mais cedo como resultado de um abandono voluntário de novas expansões de crédito, ou mais tarde como uma catástrofe final e total do sistema monetário envolvido" (Mises, Ludwig von. Human action. Ludwig von Mises Institute, 1949, pg. 572).

Marxistas tendem a dizer que as causas de crises econômicas advém de uma falha no sistema capitalista em si, como inerentemente não natural e ruim em comparação com o modelos que eles defende. Porém, é um fato que no último século (e mesmo antes com Bastiat, os fisiocratas, Cantillon e etc), vemos que todas as crises que ocorreram tiveram causas que já tinham sendo demonstradas como a fórmula para o fracasso. Rothbard principalmente, mostrou em suas obras como o "Panic of 1819", "The Great Depression", entre outras, sobre como as causas de crises são de efeitos causados pelo próprio sistema bancária, normalmente, buscando "easy money", desregulação do mercado, e coisas similares, como o capitalismo deveria ser culpa e não o próprio governo que formentou tais crises (o próprio FED por exemplo e bancos centrais, eles tem tanto poder, mas nunca querem ser tidos como os causadores das crises).

Mises continua dizendo:

"O que importa é unicamente que os bancos e as autoridades monetárias sejam guiados pela ideia de que a altura das taxas de juros, tal como determinada pelo mercado de crédito livre, é um mal, que o objetivo de uma boa política econômica é reduzi-la e que a expansão do crédito é um meio apropriado para atingir esse fim sem prejudicar ninguém além dos agiotas parasitas" (Mises, Ludwig von. Human action. Ludwig von Mises Institute, 1949, pg. 573).

LBO's são Leverage Buy-outs, uma forma de comprar empresas através de acesso a crédito, gerando liquidez para o uma empresa de Private Equity adquirir várias a esmo. Quem dá esse leverage para o mercado de Private Equity? Os bancos, exatamente. Quem dá leverage para Hedge Funds (de investimentos), os bancos, eles focam exatamente em options e precisam de capital emprestado para fazer a maioria de suas transações. No geral, o mercado de investimentos geral depende de leverage gerado pela expansão de crédito, eles são os mais próximos aos primeiros emissores e por isso se beneficiam desa expansão, enquanto a população se lasca com inflação crônica e menor poder de compra da moeda (e isso é um efeito global).

O efeito final da expansão de crédito: pobreza e ilusão

"As pessoas ficam mais desanimadas quanto maior era o seu otimismo nos dias de crescimento. Elas perderam, por ora, a autoconfiança e o espírito empreendedor a tal ponto que até mesmo deixam de aproveitar boas oportunidades. Mas o pior é que as pessoas são incorrigíveis. Depois de alguns anos, elas embarcam novamente na expansão do crédito, e a velha história se repete" (Mises, Ludwig von. Human action. Ludwig von Mises Institute, 1949, pg. 578).

Foi assim na Islândia, a obra "Deep Freeze: Iceland's Economic Collapse" fala dessa questão no país. Foi uma época de paz e prosperidade no começo dos anos 2000, através de expansão de crédito, maturity mismatching e outras técnicas bancárias o país prosperou ao ponto dos mais jovens estarem tão melhores economicamente que os mais velhos anteriormente, que realmente era palpável o aumento de prosperidade do país. Porém, isso era uma ilusão temporária, assim como muitos acreditavam que a técnica bancária de John Law com moeda fiduciária na França traria prosperidade de longo prazo, logo era impossível trocar notas por prata, logo o colapso era inevitável, pois papel no fim sempre será sem valor em comparação à commodities.

O FED cortou a taxa de juros durante a Crise de 2008, cortou durante a Pandemia da Covid, e sempre tende a aplicar a noção de preferência por liquidez quando uma crise acontece. Porém, isso é um band-aid, isso não resolve os problemas, tanto que o FED mesmo e governos na Europa tiveram que pagar para bancos não falirem (embora muitos de fato faliram), caso não o fizessem, imagina o quanto mais de pessoas iriam perder toda a poupança que acumularam durante a vida (o que de fato ocorreu). Você entende que o colapso de sistemas bancários nos afeta negativamente de tal forma que pode mudar nossas vidas drasticamente? Esse parágrafo de Mises irá ocorrer ciclicamente na história, até que as pessoas caiam na real, ao verem, que a expansão de crédito é subitamente: O MAL DO SÉCULO!