A venda de esteróides anabolizantes: uma perspectiva libertária

Escrito por Aranea

Mesmo com os efeitos danosos dos anabolizantes, eles deveriam ser liberados?

Anabolizantes

Em outro artigo, falei sobre a venda de narcóticos com uma perspectiva inicial neurocientífica sobre a questão que no fim leva a uma relação moral ao tema.

Agora, o foco será falar sobre esteróides anabolizantes, peptídeos, hormônios sintéticos, e produtos semelhantes, que foram restringidos à prescrição médica proibidos no Brasil desde a Lei No 9.965, de 27 de Abril de 2000. E recentemente com proibições mais fortes nessa questão.

Esteróides Anabólicos

Existem vários tipos de esteróides, peptídeos, beta 2-agonistas, diuréticos e etc, que são usados num contexto de busca por estética através desses meios. Cada uma das substâncias nesse contexto buscam melhorar performance ou melhorar a qualidade, o resultado final de treinos de forma androgênica. Em essência, a combinação de n elementos, como dieta, forma de treinar, histórico de treino e parcialmente genética, são relevantes para tais resultados, no fim é uma combinação multifatorial diferente para cada indivíduo.

Sobre a Testosterona:

“A testosterona pode se ligar diretamente ao receptor de andrógeno (RA). Nos tecidos-alvo onde as enzimas intracelulares estão presentes, a ação da testosterona é mediada pelo metabolismo.A testosterona é irreversivelmente convertida pela enzima 5α-redutase em 5α-diidrotestosterona (DHT), que se liga com maior afinidade ao receptor de andrógeno (RA), ou pela aromatase em estradiol, que se liga ao receptor de estrogênio (RE)” (Kicman, 2008).

No Reino Unido até então:

“A boldenona e a trembolona são restritas a fins veterinários em alguns países, mas, mesmo assim, sabe-se que atletas de competição e fisiculturistas administram esses esteroides anabolizantes” (Kicman, 2008).

O paper é positivo em relação ao uso num contexto de recomendação médica, porém, ressalta que os abusos no meio de performance sem acompanhamento médico (num cardiologista por exemplo) e check-ups contínuos,pode afetar a saúde do atleta significativamente, mesmo que o mesmo não saiba ou não reconheça isso.

Diversas substâncias nesse contexto são relativamente mais conhecidas e seus efeitos, prós e contras conhecidos. Como a boldenona (Tousson et, al. 2016), trembolona (Borecki et, al. 2024; que também pode afetar o cérebro temporariamente), GH ou Growth Hormone (Colao et, al. 2021; associado a problemas no coração), Dianabol ou Methandrostenolone (Siddiqui et, al. 2024), Stanozolol (Tucci et, al. 2012), Deca-Durabolin (Patanè et, al. 2020; pode vir a causar ginecomastia,desordem lipídica e danos aos rins), Oxandrolona (Kahn et, al. 2006; Supasyndh et, al. 2013; de Mello Gindri et, al. 2025; pode vir a causar coagulação do sangue, fibrinólise e danos no fígado).

Um problema claro são as doses e as combinações dessas substâncias em diversos contextos em diferentes pacientes que terão reações diferentes no seu espectro genético a tais substâncias, então mesmo com cuidado médico, muitas delas estão num limbo onde não existe um exato com senso de doses seguras mesmo num ambiente controlado (embora obviamente um controlado é melhor do que um que não é).

Sobre o funcionamento da trembolona:

“A primeira dessas vias, conhecida há muitos anos como via genômica, ou clássica, ocorre através da ligação do agente anabólico ao receptor de andrógeno citosólico (AR); nesses casos, a trembolona tem uma afinidade três vezes maior que a testosterona” (Borecki et, al. 2024).

E ainda:

“Finalmente, no núcleo celular, o androgênio e o receptor se combinam com o DNA cromossômico, em locais chamados elementos de resposta a androgênios (AREs), na forma de homodímeros. Estes promovem a transcrição de genes específicos e a subsequente tradução de proteínas pró-anabólicas. Essa via é mais lenta e seus efeitos podem se manifestar ao longo de um período de tempo mais longo” (Borecki et, al. 2024).

Além de possivelmente ter efeitos lipolíticos no tecido adiposo (idem, 2024), e por isso seria uma substância boa para “secar” (Yarrow et, al. 2011). O problema dela mais conhecido (e até virou meme) é como ela afeta o mental da pessoa, seu comportamento, onde ela probabilisticamente pode ter uma tendência a ser mais agressiva, realmente ter uma mudança do seu estado mental habitual depois do uso, o que pode acontecer no uso de algumas dessa substâncias de forma prolongada (Papazisis et, al. 2007). Embora se faça necessário entender que elas não podem ser a causa primária de tal comportamento, no máximo um catalisador, em outras palavras, são dependentes de contexto.

O que (Bahrke, 2005), mesmo que seja uma fala de 20 anos atrás, nos traz um ponto que não é diferente agora:

“Esses estudos encontraram humores e comportamentos positivos ou inalterados. Um número extremamente pequeno de atletas foi estudado, e as descobertas derivadas de populações de pacientes só podem ser generalizadas para atletas com cautela, principalmente porque se sabe que os atletas usam várias drogas simultaneamente e drogas do "mercado negro", cujo conteúdo pode ser suspeito” (Bahrke, 2005).

Se você for buscar artigos de certos esteróides, vão ter muito poucos dos menos conhecidos, e mesmo os que mesmo não-usuários conhecem por ouvir falar, não possuem uma ampla cadeia de clinical trials ou mesmo da etiologia dessas substâncias de forma detalhada e explorada. Então muitos usuários vão testando as coisas pelo boca a boca e pelos “experts” ao seu redor, onde o conhecimento do mesmo vai alterar os resultados (se for fraco), e talvez até amplificar os contras.

A venda deveria ser ilegal?

Devemos diferenciar essas substâncias de narcóticos, os narcóticos são para recreação e prazer hedonista, enquanto anabolizantes são para performance e cultivo do corpo físico, estética. As suas funções são completamente diferentes, então a diferença central é a funcionalidade dessas substâncias.

O fisiculturismo depende de substâncias desse tipo de uma forma estrutural em competições, e diversos usuários desse nicho que não participam de competições buscam efeitos de performance associada a essa prática. É óbvio que o abuso gera problemas, e existem características de dependência e mudanças hormonais e neurais que podem ser relativamente permanentes para algumas dessas substâncias.

O maior problema é a fabricação de péssima qualidade desses produtos que estão numa formatação underground sem uma qualidade técnica química necessária para manter a qualidade laboratorial.

Assim, a legalização total poderia abrir o mercado (que agora é fechado) restringindo apenas players de mercado que podem produzir tais produtos em condições adequadas para comercializar os produtos com as devidas precauções e níveis de qualidade, onde é possível considerar apenas através da prescrição médica, já que sem a mesma não existe controle por parte do usuário sobre o uso.

É difícil traçar a linha de quais deveriam ser proibidos, já que mesmo a testosterona em gel e derivados podem gerar problemas no longo prazo quando administrados em doses abusivas sem orientação endócrina. É claro que uma trembolona causa efeitos bem mais fortes de imediato.

O que penso é que as próprias pessoas, e não o Estado, deveriam buscar informações sobre tais substâncias, seus danos, efeitos contrários, e assim decidirem se irão usar ou não para fins estéticos. Onde creio que elas sendo realizadas num contexto laboratorial não reduz os efeitos danosos das substâncias, mas é superior a produtos underground de qualidade extremamente duvidosa e danosa.

Um exemplo esdrúxulo

Quero terminar criando um muro entre esteróides anabolizantes e narcóticos. Já disse como são diferentes funcionalmente, o fim de ambos, e é um fato por exemplo, que facções não vendem Deca e progesterona nas suas bocas de fumo. Mas porque? Porque são produtos completamente diferentes, ambos são substâncias químicas, mas seus usuários tendem a buscar fins diferentes do que um uso recreativo hedonista.

É claro que o seu abuso é extremamente danoso para a saúde da sociedade, mas a culpa no fim é daqueles que buscam o uso sem acompanhamento médico (embora mesmo assim é danoso à saúde). É óbvio que você não pode inserir ou ingerir substâncias exógenas sem acompanhamento (como de um cardiologista etc), e se houvesse mais especialistas focados nesse setor, aliviaria parte do problema (se seu endócrino não souber nada desse nicho, se não for especializado nele, acabou-se).

Embora eu pessoalmente creia que mesmo o uso para fins estéticos já é um problema na população em geral (minha opinião pessoal), creio que a liberdade das pessoas de decidir isso deve ser mantida, e sua compra liberada por uma prescrição médica, mesmo que seja para fins estéticos.

Referências:

  1. Kicman, Andrew T. "Pharmacology of anabolic steroids." British journal of pharmacology 154.3 (2008): 502-521.
  2. Tousson, Ehab, et al. "Physiological and biochemical changes after boldenone injection in adult rabbits." Toxicology and industrial health 32.1 (2016): 177-182.
  3. Borecki, Rafał, Piotr Byczkiewicz, and Jolanta Słowikowska-Hilczer. "Impact of trenbolone on selected organs." Endokrynologia Polska 75.3 (2024): 267-278.
  4. Colao, Annamaria, et al. "Growth hormone and the heart." Clinical endocrinology 54.2 (2001): 137-154.
  5. Siddiqui, M., et al. "Biotransformation of anabolic drug Dianabol with Rizhopus oryzae." International Journal of Biology and Chemistry 17.1 (2024): 108-111.
  6. Tucci, Paolo, et al. "Neurochemical consequence of steroid abuse: stanozolol-induced monoaminergic changes." Steroids 77.3 (2012): 269-275.
  7. Patanè, Federico Giuseppe, et al. "Nandrolone decanoate: use, abuse and side effects." Medicina 56.11 (2020): 606.
  8. Kahn, Nighat N., et al. "Effects of oxandrolone, an anabolic steroid, on hemostasis." American journal of hematology 81.2 (2006): 95-100.
  9. Supasyndh, Ouppatham, et al. "Effect of oral anabolic steroid on muscle strength and muscle growth in hemodialysis patients." Clinical Journal of the American Society of Nephrology 8.2 (2013): 271-279.
  10. de Mello Gindri, Izabelle, et al. "The safety and effectiveness of oxandrolone different clinical conditions: A systematic review." Endocrine and Metabolic Science (2025): 100246.
  11. Yarrow, Joshua F., et al. "17β-Hydroxyestra-4, 9, 11-trien-3-one (trenbolone) exhibits tissue selective anabolic activity: effects on muscle, bone, adiposity, hemoglobin, and prostate." American Journal of Physiology-Endocrinology and Metabolism 300.4 (2011): E650-E660.
  12. Papazisis, Georgios, et al. "Anabolic androgenic steroid abuse and mood disorder: a case report." International journal of neuropsychopharmacology 10.2 (2007): 291-293.
  13. Bahrke, Michael S. "Psychological and behavioral effects of anabolic-androgenic steroids." International Journal of Sport and Exercise Psychology 3.4 (2005): 428-445.