Alemanha Oriental vs. Ocidental
Qual economia de fato foi superior na divisão das Alemanhas? A Socialista ou a de Mercado?
Como analisar qual modelo econômico é superior de uma forma decisiva? Bem, a forma mais fácil é dividir um mesmo país em dois e ver qual lado se sai melhor no longo prazo. E de fato temos exemplos recentes disso, especialmente no caso da Alemanha Oriental e Ocidental após o término da Segunda Guerra Mundial. Especificamente em 23 de Maio de 1949 para a Alemanha Ocidental e 7 de Outubro de 1949 para a Oriental, sendo que a guerra acabou em 14 de Agosto de 1945.
A Alemanha Oriental virou socialista e a Ocidental seguiu o modelo de mercado, tendo como suporte a obra de Jaap Sleifer que analisa e compara ambas economias, quero demonstrar o quanto o resultado da falha Oriental era praxeologicamente inevitável.
Uma economia destrutiva
O maligno governo nazista centralizada sua economia em seu modelo ditatorial, deixando nenhum anseio por liberdade de expressão contrária a sua visão eugênica sobreviver. Só um completo lunático diria que a economia da Alemanha nessa época de controle ditatorial foi uma economia de mercado, isso seria simplesmente uma imbecilidade colossal. Se faz necessário lembrar que a Alemanha de fato era uma potência até então apesar dos revezes após a Primeira Guerra Mundial, sua economia experienciou uma inflação estratosférica com a impressão de marcos para pagar a dívida imposta pelo Tratado de Versailles. Como dinheiro é como vinho, adicionar a água da oferta exógena na moeda nacional fez os preços de itens básicos como arroz, pão, manteiga e etc dispararem ferozmente.
Com a ascensão da Alemanha Nazista, houve sim um crescimento econômico temporário, porém, não através da Economia de Mercado, mas sim um controle estatal de forma planificada, o qual não pode ser chamado de socialista obviamente, mas sim facista em que houve uma centralização enorme de todos os elementos econômicos e bureocráticos. Isso não se susteria por muito tempo, especialmente pela violação do tratado o que permitiu que a Alemanha se militarizasse em níveis nunca antes vistos, então a taxa de investimento em algo que em tempos de paz era praticamente inútil (a não ser por segurança) se tornou uma forma da Alemanha por meios malignos e imorais anexar países próximos como a Polônia e a Tchecoslováquia, com um fim expansionista quasi-imperialista, o que permitiria a arrecadação de fundos para financiar sua demagogia infernal.
A destruição da economia alemã de fato foi causada inicialmente por conta da Primeira Guerra Mundial e as consequências da mesma, a crise posterior gerou problemas de reestabilização, mas caso a mesma não tivesse ocorrido, podemos ao menos teorizar que a Alemanha conseguiria continuar crescendo e se expandindo muito mais rápido, com isso aprendemos como a guerra sempre é apenas um retrocesso econômico em todos os âmbitos.
Uma economia dividida
“A Alemanha Ocidental, como país capitalista, baseia-se principalmente na propriedade e no controle privado e individual das empresas, enquanto na Alemanha Oriental, como país socialista, as empresas estatais eram predominantes. Em relação ao grau de centralização, o capitalismo proporciona amplas áreas de discricionariedade para a liberdade de escolha individual, o que leva à descentralização das decisões econômicas, enquanto o socialismo demonstra uma abordagem mais centralizada em relação às decisões econômicas" (Sleifer, Jaap. Planning ahead and falling behind: the East German economy in comparison with West Germany 1936-2002.Walter de Gruyter GmbH & Co KG, 2014, pg. 18).
Isso resume em si a razão pela qual eventualmente, a Alemanha Oriental foi inferior à Ocidental. Uma economia planificada (em todas as instâncias) tende a ter uma margem de erro de alocação de recursos deveras maior. Você deve estar se perguntando porque esse seria o caso, e é muito simples na verdade. Quando usamos o termo “centralização” aqui, isso significa que alguém ou um grupo de pessoas está planejando a alocação de recursos na economia para n setores e produção de n commodities, além de controles de preços, importação, exportação e etc.
Logo, é claro que praticamente toda a estrutura da cadeia de produção de n commodities fica na mão de um grupo pequeno de pessoas, que não possuem know-how ou mesmo capacidade (não importa quem seja) para administrar (através de hierarquias estatais) essas empresas ou ditar como os donos delas deveriam as administrar (caso a propriedade privada não seja totalmente tirada de vista como no socialismo. Quanto mais o Estado dita regras inúteis às empresas, mas isso atrapalha o flow natural da produção, pois você quer importar x para produzir y, investir em certos tipos de inovação e pesquisa e coisas do tipo, mas se leis lhe restringem, você vai simplesmente desistir de aplicar novas ideias, pois o incentivo de qualquer empresa é o lucro.
No contexto de Schumpter:
“A Alemanha Ocidental, como país capitalista, baseia-se principalmente na propriedade e noO modelo dinâmico de Yeager baseia-se principalmente no conceito schumpeteriano de "destruição criativa". Yeager escreveu: "Para que ocorra um crescimento intensivo, as instituições devem fomentar o processo de destruição criativa, no qual a nova tecnologia destrói a antiga. Isso requer competição do lado da oferta e comportamento voltado para o lucro. As economias socialistas, por sua própria natureza, não promovem a competição.” (Sleifer, Jaap. Planning ahead and falling behind: the East German economy in comparison with West Germany 1936-2002.Walter de Gruyter GmbH & Co KG, 2014, pg. 20).
Não quero dizer aqui que o termo “destruição criativa” é bom realmente, mas o conceito é correto. Que é que uma economia de mercado tende a gerar o ambiente em que empresários descentralizados (isto é, sem um terceiro microgerenciando eles) tendem a gerar mais inovação na busca por minimizar seus custos e maximizar seus ganhos (o teorema MinMax de Von Neumman), e a competição é essencial aqui, pois o empresário terá que conhecer seus competidores (fazendo uma market map, uma pesquisa de mercado) e entender o gap que os mesmos não estão preenchendo, gerando através da Lei de Say, a oferta que potencialmente vai atender um nicho e lhe gerar lucro.
Estatística e propaganda
“Ao mesmo tempo, o crescimento podia ser usado como propaganda para enfatizar as realizações do regime. Consequentemente, as estatísticas sobre o desempenho real do crescimento eram importantes de duas maneiras. Primeiro, como um mecanismo de controle para verificar se os planos econômicos estavam sendo efetivamente cumpridos; e segundo, como uma espécie de justificativa para as autoridades comunistas"(Sleifer, Jaap. Planning ahead and falling behind: the East German economy in comparison with West Germany 1936-2002.Walter de Gruyter GmbH & Co KG, 2014, pg. 29).
É óbvio que os políticos e “economistas” dentro do sistema socialista devem ser exímios em estatística e probabilidade, certo? Certo! Porém, o grande problema é crer que estatística e a teoria da probabilidade (como a Keynesiana) podem ajudar na alocação de recursos de uma forma centralizada, afinal, dados estatísticos devem ser interpretados, e interpretados praxeologicamente, ou seja, existem um abismo entre um produtor de café olhando para as estatísticas do seu negócio e entender o que deve fazer daqui em diante, do que um técnico de time de futebol olhando para o heat map de seus jogadores, ou para um banqueiro olhando para dados de high yield bonds, são áreas diferentes, a interpretação do que deve ser feito com base em estatísticas vem do know-how do empreendedor, assim a estatística não é uma bala de prata, não é um fim em si mesmo, ela tem grande utilidade assim como a econometria, mas sem a interpretação semântica praxeológica da mesma, ela não será só inútil, mas um problema (vale ressaltar que as estatísticas oficiais da USSR, Alemanha Oriental e de países comunistas no geral, tendia a ser fraudulentas quando necessário).
A construção e Queda do Muro de Berlin
O muro foi construído apenas pela Alemanha Oriental e esse é um fato extremamente importante, pois o objetivo era impedir que a população migrasse para o lado Ocidental, no fim, era uma forma de controle do povo e não um ato de soberania e defesa, era um controle de imigração:
“Primeiro, o Muro de Berlim foi construído em 1961, o que reduziu a migração para a Alemanha Ocidental. Segundo, a Alemanha Oriental introduziu o "novo sistema econômico" entre 1963 e 1967. As reformas econômicas incluíram uma ampla reforma de preços, executada em várias etapas, cujo objetivo era eliminar uma parte significativa das distorções de preços então existentes” (Sleifer, Jaap. Planning ahead and falling behind: the East German economy in comparison with West Germany 1936-2002.Walter de Gruyter GmbH & Co KG, 2014, pg. 109).
A queda do muro ocorreu em 9 de Novembro de 1989, ou seja, foram 40 anos de divisão, o que nos dá dados suficientes para analisar ambas economias e ver qual no geral se saiu melhor, e é um fato que a crise na Alemanha Oriental foi substancial para a queda do muro, tanto que o momento de transição para uma economia de mercado foi devastador, ao ponto do autor em questão comparar a mesma com a Grande Depressão Americana de 1928 (idem, pg. 136). Entenda que a transição da Polônia, por exemplo, foi muito mais fácil de se realizar do que na Alemanha, isso porque quanto mais enraizado o país estiver em processos inorgânicos socialistas, mais complexo é mudar a mentalidade política e legal para o modelo de mercado.
O Colapso
Eventualmente a economia da Alemanha Oriental colapsou:
“O Produto Interno Bruto (PIB) per capita da Alemanha Oriental manteve-se estável em relação ao da Alemanha Ocidental durante todo o período de 1950 a 1989, apresentando pouca diferença durante a década de 1980. Posteriormente, o PIB per capita da Alemanha Oriental entrou em colapso. Como uma economia planificada centralmente, a Alemanha Oriental conseguiu manter um padrão de vida equivalente a 56% do da Alemanha Ocidental graças ao elevado nível de emprego, que se manifestava na participação das mulheres na força de trabalho e na jornada de trabalho.” (Sleifer, Jaap. Planning ahead and falling behind: the East German economy in comparison with West Germany 1936-2002.Walter de Gruyter GmbH & Co KG, 2014, pg. 160).
A centralização e planificação da economia tem data de vencimento, eventualmente, quando houver quaisquer respiros de crises ou sopros de recessão, o sistema colapsa pois a margem de erro na alocação de recursos é tão grande quando comparada ao capitalismo, que a mesma não pode sobreviver a não ser através de medidas desesperadas e estatais e por isso não-orgânicas. Nos dados da Tabela 1.1 da página 19, o autor mostra que no Terceiro Reich os preços eram baixos, a quantidade de commodities era moderada e o número de firmas baixo, na Alemanha Oriental era até pior, tanto preços, quantidade, número de formas, e investimentos eram baixos, enquanto para todas essas variáveis, na Alemanha Oriental, todos eram altos, e alguém pode reclamar que os preços eram altos (sim, de fato eram mais altos), mas tem uma grande diferença do preço de mercado e o preço controlado pelo Estado (de níveis moderados à elevados), e uma grande diferença de um país com uma economia estável e descentralizada, do que um microgerenciado e planificado.
Porém, devemos aprender que o que temos hoje é o que caminho do meio que leva a não um socialismo ou mesmo a um quasi-socialismo, mas sim a alguma versão de “Social Democracia” que nada mais é que a socialização do capitalismo.Existem formas de implementar ideias estatistas que se assemelham a princípios socialistas progressistas, naturalmente isso se torna um grande problema. No nosso país temos políticos que possuem tais ideais, que geram o contrário da intenção que verbalmente eles demonstram, leis e políticas fiscais inúteis, impostos elevados, restrições do mercado na legislação (inutilmente e sem motivo) e coisas do tipo que geram retrocesso.
É muito fácil destruir as ideias socialistas, pois elas estão erradas inerentemente. Porém, é mais complexo avançar a própria economia de mercado quando muitos querem restringir a mesma de várias formas, indo de forma contrária ao direito natural e à liberdade. Devemos tomar o exemplo da Alemanha Oriental e da Polônia (que falarei sobre em outro artigo) para entendermos melhor os efeitos do socialismo numa economia.
Mas vamos imaginar aqui (teoricamente), que existissem 3 Alemanhas, uma socialista, uma com a economia de mercado e uma outra agora, com uma economia de mercado e minarquista/agorista (o que você achar melhor), digo, uma Alemanha ainda com menos restrições inúteis legislativas e com o máximo de liberdade econômica (sem controle da taxa de juros, reservas fracionárias, moeda fiduciária, impostos elevados e etc) regida apenas pelas leis predicadas em direito natural (no sentido de Quesnay), aí então poderíamos ver qual se sairia melhor das três, de fato não podemos fazer esse experimento, mas talvez, pela própria praxeologia, poderíamos ao menos supor qual seria a melhor.