Alemanha pressiona sírios a deixar o país após fim da guerra civil
Declaração é inusitada, dada a tendência recente da política convencional alemã acolher os imigrantes.
O chanceler alemão Friedrich Merz (CDU) declarou nesta segunda-feira que sírios não têm mais motivo para pedir asilo na Alemanha. Segundo ele, a guerra civil no país do Oriente Médio terminou e os refugiados devem voltar para reconstruir a nação. A declaração ocorre em meio à pressão do partido de direita Alternativa para a Alemanha (AfD), que ganha força nas pesquisas eleitorais.
Merz afirmou que espera o retorno da maioria dos sírios que vivem no país de forma voluntária. "Não há mais motivos para asilo na Alemanha, e por isso podemos começar as repatriações", disse. O chanceler advertiu que quem se recusar a voltar pode ser deportado "em breve".
A Alemanha recebeu cerca de um milhão de sírios durante os 14 anos de conflito, o maior número entre os países da União Europeia. A política de portas abertas da ex-chanceler Angela Merkel marcou aquele período. Merz adota agora postura oposta e critica a antecessora, dizendo que a decisão foi um erro grave que sobrecarregou o país.
A posição do chanceler contraria seu próprio ministro das Relações Exteriores, Johann Wadephul. Após visitar Damasco na semana passada, o ministro questionou se os sírios vão querer voltar. "Aqui, quase ninguém consegue viver uma vida digna", afirmou Wadephul ao ver a devastação em Harasta, subúrbio de Damasco que sofreu bombardeios pesados.
A Organização das Nações Unidas alerta que a Síria não tem condições para repatriações em larga escala. Cerca de 70% da população ainda depende de ajuda humanitária. O país vive uma crise profunda, apesar da queda do governo de Bashar al-Assad em dezembro do ano passado.
A AfD lidera as pesquisas em algumas regiões e pode conquistar seu primeiro governo estadual nas cinco eleições marcadas para 2025. O partido faz campanha contra imigrantes e diz que o Islã não se compatibiliza com a sociedade alemã. A migração lidera a lista de preocupações dos alemães há anos.
Alice Weidel, co-líder da AfD, atacou as declarações empáticas de Wadephul. Ela chamou as falas do ministro de "tapa na cara das vítimas da violência islamista", referindo-se à prisão de um sírio de 22 anos acusado de preparar um ataque em Berlim no fim de semana.
Merz convidou o presidente sírio Ahmad al-Sharaa para discutir em Berlim a deportação de sírios com antecedentes criminais. O governo alemão estuda essa possibilidade há meses. Thorsten Frei, chefe da chancelaria, disse que homens sunitas jovens "não correm mais perigo ou risco de miséria na Síria".
Centenas de milhares de sírios na Alemanha têm apenas permissões de residência temporárias. Apenas cerca de mil voltaram ao país de origem com ajuda federal no primeiro semestre deste ano. A Alemanha já fez repatriação similar nos anos 1990, quando centenas de milhares de bósnios voltaram após o fim da guerra na Bósnia.
Deportações forçadas de sírios podem enfrentar desafios legais. Muitos se integraram ao país, aprenderam o idioma e trabalham na economia alemã, que sofre com falta de mão de obra e envelhecimento da população.