Animais Geneticamente Modificados
Animais Geneticamente Modificados podem potencialmente fazer mal à saúde?
Falei anteriormente sobre o “Non-GMO Project”, que tenta ser uma voz contra alimentos geneticamente modificados (especialmente em verduras, legumes e etc). No mesmo artigo disse como essa visão contra à GMO’s na maior parte das vezes não faz sentido, e que mesmo alguém tentando argumentar problemas gerados por regulação alostérica e mudanças conformais como potencialmente gerando teoricamente ou probabilisticamente mudanças na estrutura genética desses alimentos de uma forma que seria danosa à saúde,no momento, é apenas especulação.
Aqui focarei não em plantas, mas apenas em animais geneticamente modificados, onde mesmo o Crisp-car-9 pode ser usado dentre outras técnicas, e onde o objetivo dessa ciência neste nicho, é gerar uma oferta, uma produção maior de livestock (pecuária), o que no fim gerar preços menores para nós consumidores. E o esquisito é que alguns ambientalistas nesse contexto, dizem o contrário.
O que seria um animal geneticamente modificado?
A primeira vez que vi algo parecido com isso, foi numa aula de biologia do ensino médio, onde lembro que uma das professoras (além de bem bonita) tinha participado de laboratórios importantes em São Paulo (embora não sei em que projetos). E foi numa aula dela que aprendi pela primeira vez sobre a tal da clonagem, a famosa ovelha Dolly, e isso levantou além de um avanço na ciência em algo que antes era apenas ficção, uma pulga na orelha sobre se fazer isso seria ético ou não, se você duplicar um ser vivo de tal forma poderia ser considerado um “crime” de certa forma.
Sobre essa questão no caso de transplantes:
“Entretanto, em ambos os casos as células imunes do paciente irão reconhecer que as células transplantadas ou tecidos não pertencem ao paciente recipiente: elas não são “de si mesmas”, e o sistema imune iria iniciar a reação para rejeitar células exógenas do corpo ao menos que suprimidas com algum tipo de medicação” (Chapter 6 – Cloning: History and Current Applications, Editor(s): Christine Mummery, Anja van de Stolpe, Bernard A. j. Roelen, Hans Clevers, Stem Cells (Second Edition), Academic Press, 2014, pages 131-161)).
Imagine poder clonar você mesmo para conseguir um órgão que você precisa para sobreviver, como um rim, um fígado, um coração e etc. Porém, isso levanta uma questão ética e moral, do tipo: “como alguém pode ter direito de criar outro ser consciente, intencionalmente colocando um propósito que ele não consentiu de sua morte?”, se alguém clonasse alguém com sucesso para fazer um transplante, talvez mesmo o ato inicial de tal concepção já seria imoral, porém, devemos separar esse exemplo de modificar o fenótipo de uma proteína através de edição genética para fins de melhorar a qualidade de um animal (como no uso de GH (Growth Hormone) em animais).
Animais geneticamente modificados não são exatamente algo novo, na verdade desde os anos 80 já haviam pesquisas sendo feitas nisso, sobre os métodos principais usados:
“A produção de animais GM se sustenta em duas principais características: (i) modificações estáveis do genoma, e (ii) germline transmission de mutações em um modelo de sistema. Um método comum para a criação de ratos complexos GM envolve a geração de quimeras retra-parentais de embriões normais e células tronco GM embriônicas, seguida por múltiplas etapas de breeding para obter tanto homozigotos macho e fêmea para a germline de propagação de mutação” (Yiren Qin, Fuqiang Geng, Duancheng Wen, Chapter 13 – Generation of sex-reversed female clonal mice via CRISP/Cas9- mediated Y chromosome deletion in male-embryonic stem cells, Editor (s): Iio Vitale, Gwenola Manic, Lorenzo Galluzi, Methods in Cell Biology, Academic Press, Volume 170, 2022, Pages 203-210; diga-se de passagem que esse artigo em si tem uma tendência que discordo profundamente).
Porém, o foco que queremos dar aqui é no uso desses métodos para gerar animais com o propósito final de consumo, onde eles podem ser mais resistentes a patógenos e condições que podem gerar um custo de produção com perda em lucro. Diga-se de passagem que existe pesquisa nesse contexto mesmo do ponto de vista apenas acadêmico, como o “Oncomouse”, onde o foco é através do gene v-Ha-ras inserido no mesmo, o rato predispõe geneticamente ao câncer e assim podem ser feitas análises para estudar como lidar com o câncer de várias formas (e sei que ambientalistas poderiam fazer mesmo contra esse tipo de experimento, com facilidade).
Existem edições genéticas que visam mesmo criar vacas sem chifres para não terem que ser retirados eventualmente de forma dolorosa, e tipos de frangos que podem ser resistentes à variantes de influenza, então a prática de demonizar animais geneticamente modificados, depende do uso e finalidade, onde eu pessoalmente creio que existem contextos onde o mesmo pode ser antiético ou até imoral.
GMO’s vem sendo regulados nos EUA
Nos EUA, eles têm a FDA, EPA e USDA que juntas são entidades que lidam com diversos aspectos da regulação dos alimentos produzidos no país, herbicidas aprovados, técnicas de produção aprovadas e etc. Nesse sistema, o desenvolvedor de um GMO pode mandar sua descoberta para a FDA e ter a mesma sendo aprovada eventualmente caso não hajam problemas. O objetivo é realmente controlar a qualidade e a segurança alimentar nesse contexto.
Porém, isso me lembra o livro “Bureocracia” de Von Mises, onde o Estado bureocrático tende a colocar barreiras que impedem ou fazem processos
econômicos ficarem mais lentos. Sim, estamos falando de comida, e é claro que deve haver uma regulação para ninguém colocar papelão na carne e sair impune (como uma certa empresa por aí), é óbvio que os consumidores devem saber se tem algo que poderia danificar a saúde de si mesmos ou de seus filhos, mesmo bebês, crianças, se tal alimentação poderia apresentar um risco a eles, isso é um fato.
O problema é que isso pode colocar impedimentos em questão de velocidade de avanço nesse contexto, então é um problema. Deve sim haver pesquisa para analisar efeitos de longo prazo de alimentos geneticamente modificados, seja em frango, carne, leite e etc, que já são comercializados nesse formato, porém, nem sempre a pesquisa nesse contexto pode ter resultados imediatos, afinal, “longo prazo” tem um significado, e não se pode esperar ver efeitos de longo prazo de alimentos sem impedir que eles venham a existência.
O ponto é que deve sim haver um acesso à verificação de qualidade desses produtos, porém assumir que eles fazem mal à priori simplesmente não faz sentido quando a alteração genética tem um fenótipo específico como foco e que não necessariamente (ao menos que se prove o contrário) irá causar danos ao ser humano, e mesmo que se prove isso para um alimento específico, o mesmo deveria ser feito para cada um deles, afinal, estamos falando de relações de causa—efeito que podem ser inúmeras, dependentes de um estudo de engenharia genética.
Alimentos modificados podem ter problema de reprodução?
Numa review desse tema, os autores demonstraram que no geral, mudanças em proteínas como Cry1AB, Cry3Bb1, GAT4601,Cry1F em alimentos como milho, soja e maisena não mudaram de forma estatisticamente significante a taxa de reprodução de machos em diferente espécies, por fim, eles disseram:
“Nos anos recentes, muitos estudos controversos tem sido publicados à respeito dos efeitos de GM crops no seu sistema reprodutivo. Como visto nessa revisão, parece que não há nenhum efeito adverso de GM crops observados para múltiplas espécies de animes em estudos de alimentação agudos e de curto prazo, mas um debate sério ainda existe em estudos de longo prazo e multigeracionais” (Zhang, W. and F. Shi. “Do genetically modified crops affect animal reproduction? A review of the ongoing debate.”animal 5.7 (2011): 1048-1059).
Alguém pode dizer: “mas isso pode se aplicar apenas a grãos, verduras e legumes e não a animais que são seres geneticamente mais complexos”. Porém, creio que essa afirmação nega o fato de que a biologia molecular como um todo é um sistema programável, seguindo a visão de Adleman em DNA Computing, o DNA e toda a estrutura nesse contexto é uma máquina de Turing, isto é, é um código biológico que gera operações que tem mesmo um custo em joules e dissipação de energia como na computação clássica (apenas de forma análoga talvez).
O que isso significa? Que não seria errado em comparação, que mudanças genéticas específicas com certos fins fenótipos, não necessariamente irão impactar negativamente a alimentação de tipos de carne, frango, leite e etc, que não há uma prova generalizada de que o simples fato de você mudar genes com um fim específico irá aumentar a toxicidade de todos os alimentos (de animais) geneticamente modificados, assim dizer que eles são “inerentemente potencialmente danosos à saúde” seria uma falácia sem prova experimental.
O que devemos tirar disso?
É até contraditório, pois existem tipos de modificações genéticas que tem mesmo fins ambientalistas, como os Enviropigs, por exemplo:
“O Enviropig produz 70% menos fósforo no seu amadurecimento da à introdução de uma fitase de enzima de Escheria coli, no qual ele permite ao porco produzir uma enzima digestiva de ácido fitico nas suas glândulas salivares, reduzindo o custo de suplementos de fosfato mineral” (Renu Pandey, Meeknakshi Dwivedi, Shishir Kumar Gupta, Daman Saluja, Chapter 3 – Genetically Modified Fodd Animals: An overview, Editor(s): Ronald Ross Watson, Victor R. Freedy, Genetically Modified Organisms in Food, Academic Press, 2016, Pages 19-26).
Então existem mesmo aplicações ambientalistas nesse tema, e eles mesmos agem contra a questão que lhes favorece (embora eu entenda que eles acham que é fundamentalmente errado por design). Bom, do ponto de vista de mercado, creio que avanços nesse setor tendem a gerar alimentos de melhor qualidade em todos os âmbitos e uma eficiência de produção ainda maior para atender as demandas globais, então creio que esse tema tende a gerar um grande benefício para a sociedade, e não o contrário.