As estranhas e novas tendências da direita no mundo
Aborto, anti-cristianismo, gramcismo, tudo isso sendo antimoderno.
O mundo parece ter se saturado do velho consenso pós-Guerra Fria. Guerras novas se aproximam, sejam elas econômicas, "culturais" ou de fato armadas; e a desconfiança em relação ao liberalismo aumenta cada vez mais. O bode expiatório da vez é Francis Fukuyama e sua tese do "fim da história".
No alvorecer da nova era, um grupo de homens surge com uma proposta "diferente", dizem-se "dissidentes" da atual cultura, política e época. São os homens da "nova direita".
A Nova Direita surge na França, em maio de 1968, mesma época do auge do progressismo nas universidades, com filósofos acadêmicos como Foucault, Deleuze e Derrida ganhando cada vez mais espaço. A filosofia nascida dessa época foi denominada "pós-modernismo" e emergiu, assim, como crítica a modernidade, anunciando a tarefa de superá-la. Decretaram a morte da metafísica, a exposição das estruturas de opressão social e a libertação das mesmas por meio de protestos com atitudes transgressoras.
O pós-modernismo tem tudo a ver com a Nova Direita. Maio de 68 teve um efeito duradouro, até mesmo no setor da direita. O "filósofo" Alain de Benoist e outros fundaram o Groupement de Recherche et d'Études pour la Civilization Européenne (GRECE) com o objetivo de ser um think-tank e "escola de pensamento" para uma nova direita. Benoist é o maior nome da Nouvelle Droit, a Nova Direita na França (Neue Recht na Alemanha, Nuova Destra na Itália, etc.), e principal nome dela no mundo inteiro.
Eles se manifestaram como um grupo antimoderno, reacionário, mas longe de ingenuidades: o objetivo, segundo Benoist, é trazer "ideias pré-modernas numa direção pós-moderna". Desse modo, tal como os pós-modernos da esquerda, eles são contra o colonialismo, o capitalismo e o imperialismo, mas sob a égide da antimodernidade. Do mesmo modo que os pós-modernos, mas baseados numa cosmovisão "tradicional", também são ambientalistas, defendem os povos originários e condenam os missionários cristãos. Sobre as pautas de gênero, eles reconhecem dois "polos", um feminino e um masculino, mas creem que indivíduos de ambos os sexos possam se diferenciar desses polos devido a "fatores genéticos e escolhas sócio-culturais", eles fazem isto para poderem incorporar, em sua visão classicista, as figuras "tradicionais" como os andróginos, eunucos etc., sendo, portanto, mais tolerantes quanto a homossexualidade: vale tudo, contanto que seja "tradicional".
Do mesmo modo, a Nova Direita também possui um próprio feminismo: eles acreditam que as diferenças sexuais desempenhem papeis no domínio público e, assim, creem que as mulheres possuem direitos de acordo com sua vocação, esses direitos seriam o direito a virgindade, o direito a maternidade e o direito ao aborto. Por fim, acerca da imigração, eles dizem que a imigração é pior aos povos que saem de sua pátria e, destarte, defendem que, em vez de receber os imigrantes, os países do primeiro mundo deveriam ajudar e cooperar com os países do terceiro mundo do qual saem os imigrantes.
Feministas, defensores do aborto, ambientalistas, anticristãos. Tudo isso sendo tremendamente antimoderno.
A modernidade, para a Nova Direita (ND), é o "projeto" em andamento pelos últimos três ou quatro séculos de história ocidental, e é caracterizada pelas seguintes ideias: progressismo, individualismo, igualitarismo e universalismo. No fundamento disso, para eles, está o cristianismo. Ele é progressista porque crê que a história segue um plano divino rumo ao fim (Juízo Final), é individualista pois crê num primado da relação do coração e consciência de cada homem com Deus, isto é, na salvação individual; é igualitarista porque crê que a salvação é igualmente disponível a todos, e todos os homens possuem uma dignidade inalienável dada pelo próprio Deus; é universalista porque diz possuir a plenitude da revelação de Deus aos homens e chama todos à conversão.
Com isso, a Nova Direita é contra o cristianismo e tudo aquilo que reivindica possuir a "verdade absoluta", são pluralistas e defendem a autonomia das "tradições". Contra o cristianismo, pregam a volta a uma "tradição europeia" pagã, pautada por sua equipe de filólogos e linguistas, como sendo uma tradição primordial dos povos indo-europeus: onde gregos e romanos, celtas e germânicos se reúnem como irmãos e se juntam aos indianos como parentes distantes, cujos pais são todos indo-europeus. Esse conceito científico foi transformado na estória de um povo dotado de um ethos nietzscheano e conquistador, que fornece o modelo de moral aos novos direitistas.
A principal distinção dessa Nova Direita, todavia, não é o enciclopedismo nem o trabalho editorial, tampouco seus estudos em filologia, mas sim sua nova estratégia política. Toda movimentação intelectual possui um propósito político: buscar, no longo prazo, a hegemonia. Tudo é instrumentalizado para, antes de vencer na política, "ganhar a guerra cultural".
Para isso, recorrem ao marxista italiano Antonio Gramsci, eles não escondem sua filiação e se dizem "gramcistas de direita", com efeito, realizam o trabalho intelectual da chamada "metapolítica". Metapolítica, para eles, é pensar politicamente a própria política, buscar seus fundamentos. Nisto, está a cultura. Cultura é a alma da política e, assim, é necessário mudar a cultura por meio da difusão de ideias para transformar, no longo prazo, a política. Todo conflito político é guerra cultural. É necessário fornecer, destarte, a munição intelectual para seus futuros políticos, são ideólogos.
Além de Gramsci, a ND também se inspira em Georges Sorel, em especial no papel da criação dos "mitos revolucionários", daí criaram o mito dos povos "indo-nietzscheano-europeus". A busca da ND é por intelectuais orgânicos, ideólogos que pavimentam o caminho para uma revolução vindoura, uma "revolução conservadora".
Segundo eles, antes de Lenin precisou haver Marx, antes da Revolução Francesa precisou haver o iluminismo, desse modo, é necessário que antes venha a Nova Direita para daí vir o Cesar.
Aproveitando Cesar, é notório que a ND, ao ser anticristã, diz que a "tradição europeia" é, na verdade, pagã; eles adoram estudos sobre o helenismo, a civilização da língua sânscrita, os germânicos e, é claro, Nietzsche. Eles se embriagam com a crítica nietzscheana ao cristianismo e defendem "a afirmação da vida" e uma moral aristocrática. Eles se apropriam, desse modo—tal como outra figura da Nova Direita, Dugin, faz—do pensamento de autores como Martin Heidegger; em especial o Heidegger das "Contribuições da Filosofia", tão entorpecido pela poesia de Hölderlin. A apropriação de Alain de Benoist e Dugin se dá da seguinte forma: Heidegger, ao falar tanto sobre como se deve esperar "o deus", pela sua linguagem mitopoética, dá conotações políticas ao que diz.
Dugin viu seu "deus" em Vladimir Putin. Os homens da Nova Direita do GRECE ainda estão a espera de seu Cesar, ponto culminante da guerra cultural, que, numa estrada pavimentada por seus intelectuais, marcha rumo sua apoteose: Cesar, deificado após a morte. É essa a essência da "metapolítica", a substituta da metafísica na pós-modernidade. Em vez de metafísicos, temos ideólogos e, como bem disse Heidegger, toda a tradição filosófica foi, no fundo, metafísica. Agora, com a metafísica "morta", a ideologia é quem tomou o lugar dela, e tudo se torna ideologia, tudo é instrumentalizado para fins políticos. A Nova Direita, portanto, é mais uma das faces da politização integral da vida—a tendência que veio para ficar.