Cartéis e Monopólios são um problema?

Escrito por Aranea

Tem uma enorme diferença entre monopólios naturais e os inorgânicos

Indústria

Cartéis são imorais? Monopólios são malignos? Será que empresas adquirindo outras para terem um maior pedaço da torta é algo injusto e uma heresia capitalista? O ponto deste artigo será demonstrar que existem tanto monopólios orgânicos quanto os inorgânicos (criados pelo Estado), e estabelecer essa diferença de forma em clara.

Aquisições de grandes empresas

Quando a google comprou o Wave por $1 bilhão de dólares aproximadamente, muitos disseram que isso significaria um desejo da empresa por monopolizar o mercado de aplicativos por GPS. Quando a Microsoft anunciou que iria comprar a Activision-Blizzard (com títulos como Call of Duty, Stacraft, World of Warcraft e etc) por cerca de $70 bilhões de dólares, muitos também viram isso como uma tentativa da empresa monopolizar ainda mais o mercado de games (e de fato foi uma aquisição substancial neste mercado).

Recentemente a Netflix anunciou sua intenção em comprar a Warner (detentora dos direitos da DC Comics, títulos como Batman, Liga da Justiça, Harry Potter e etc), que poderia ser visto como uma tentativa de ter uma grande porção do mercado de entretenimento, fazendo dela agora uma empresa com um repertório superior aos seus concorrentes (na minha visão pessoal desse mercado).

Isso é errado? Tem um problema nessas transações? Aquisições são problemas legais complexos, empresas de Private Equity por exemplo, focam especialmente em adquirir empresas inteiras através de leverage com crédito, e tentar melhorar os fluxos de caixa futuros das mesmas. Empresas como a Blackrock da vida gostam de ter grande parte do mercado adquirindo grande parte das ações de empresas no mundo todo, especialmente as do mercado de entretenimento, e a grande questão para alguns, é se isso é justo. E esse é o ponto que quero tratar aqui.

Cartéis

"Isso é feito para tirar proveito de uma curva de demanda inelástica e aumentar o preço, obtendo assim uma maior renda monetária para todo o grupo. Podemos visualizar, por exemplo, o caso de um cartel do café queimando grandes quantidades de café" (Rothbard, Murray N. Man, economy, and state with power and market. Ludwig von Mises Institute, 2004, pg. 636).

Vamos usar o exemplo com laranjas tendo a mesma visão de Rothbard aqui. Vamos supor que você tem uma empresa de produção de suco, você detém a capacidade de produção nas fazendas (não tercerizado), plantando Laranja-Pera, Laranja Hamlin, Laranja Valência, Laranja-Lima e etc. Você detém também capacidade de transporte e distribuição além da manufatura de embalagens e etc e a própria marca de suco (terceirando alguns processos na cadeia de produção para reduzir custos).

Agora suponhamos que você produza mais do que a demanda real dos seus produtos usando laranjas como matéria prima (inúmeros), o que acontecerá? Pelo shelf-life do produto, ele irá vencer,então sua liquidez aqui tem que ser veloz, você tem que produzir e vender logo, pois mesmo com conservantes e engenharia genética de proteínas, elas não duram para sempre (embora não indefinidamente).

Estão seus erros de output de produção, te darão prejuízo, o que pode afetar seus lucros. Pela lei da utilidade marginal, se tivermos laranjas demais no mercado em relação a demanda, o preço diminuiu, se tivemos menos ele aumenta, Rothbard questiona se está no direito e poder da empresa, de restringir a oferta de laranjas, produzindo menos do que sua capacidade para aumentar sua quantidade de lucro.

É claro que o foco da empresa é lucro, e tem uma diferença entre restringir a oferta para manipular o mercado, e deixar de produzir para ter mais lucro, ele questiona se ela pode queimar parte da produção para aumentar os preços (se ela for grande o suficiente), mas de fato ela teve um custo nessa produção, ao meu ver ela tem direito de fazer o que quiser com seus produtos.

O que eu não concordo, é a manipulação intencional do mercado:

"O povo amaldiçoa quem retém o trigo,mas bênção virá sobre a cabeça daquele que o vende" (Provérbios 11:26, NAA).

Está sim no direito da empresa, produzir menos com fim de lucrar mais (menos que a demanda futura esperada), porém, é diferente quando pelo erro da mesma ela retém o produto para manipular o preço de mercado, sendo que o erro dela aqui é culpa dela, pela sua falha em relação a quantidade que deveria produzir, pois se ela produzir demais e não vender, produto ficará parado em armazéns criando traça e estragando, mas o custo de produção já foi pago, não se convertendo em fluxo de caixa. O ponto é que tem uma diferença entre manipular o mercado com o que você já tem, e em reduzir o output de produção pela lógica de maximização de lucro.

O exemplo de Rothbard

"Suponha, por exemplo, que antes da entrada em operação do cartel do café, uma quantidade X de mão de obra e uma quantidade Y de terra cooperassem para produzir 100 milhões de libras de café por ano. O cartel do café determinou, no entanto, que a produção mais lucrativa era de 60 milhões de libras e, portanto, reduziu a produção anual para esse nível" (Rothbard, Murray N. Man, economy, and state with power and market. Ludwig von Mises Institute, 2004, pg. 638).

Aqui o cartél estatisticamente, viu que ele deveria produzir apenas 60 milhões de libras de café, para não ter deadweight loss (e eles podem estar errados é claro, é uma estimativa apenas). Eles potencialmente poderiam produzir 100 milhões, mas isso poderia gerar pela lei da utilidade marginal decrescente, um déficit de lucro de produto que não vende.

Também é óbvio que existem diversas empresas no mundo no setor de café, e existem indíceis de preços em futures de café que são assets de investimentos, onde você mesmo pode baixar um app hoje em dia de investimento em futures e literalmente hoje investir no preço do café, apostar que o preço vai supor (numa call option), ou descer (short selling), tendo um bom know-how do mercado de café para realizar essa operação é claro (não usando apenas gráficos como alguns loucos).

O preço internacional do café afeta os preços, um cartel grande o suficiente poderia decidir produzir uma quantidade menor para aumentar o preço, sem alterar a demanda é claro (que é apenas aferível nas vendas), assim poderiam manipular os preços do café. Porém, é um fato que mudanças cambiais de commodities tem muitos fatores, muitos deles incontroláveis, as decisões do cartel podem na verdade reduzir seus lucros dependendo de flutuações do setor, quando mudanças que eles não podem controlar no preço ocorrem, então é uma atividade que pode na verdade ser menos lucrativa do que parece, pois as decisões deles podem afetar eles mesmos negativamente, assim o cartel iria colapsar.

A taxa de produção óptima de café

É óbvio que empresas tem um custo de produção, e se elas cometem erros nessa área, terão prejuízos que eventualmente podem acabar com a operação. Eu nunca fui num Starbucks, mas vou usar comomo exemplo, muitas pessoas gostam de tomar cappucinos e coisas do tipo, há uma demanda para tipos diferentes de café, porém, se as empresas produzem mais que o necessário, haverá deadweight loss, café inútil que não é vendido pois há oferta foi maior que a demanda, e lojistas não vão comprar mais do que podem vender, se não eles mesmos se lascam.

Então é claro que empresas podem reduzir a produção para obterem mais lucro, o que pode aumentar os preços naturalmente, mas caso elas produzissem tudo que pudessem continuamente, teriam prejuízo num mercado que já tem uma margem extremamente baixa, logo, seus consumidores não teriam acesso a seu querido Starbucks caso eles fossem irracionais a esse ponto, Rothbard bate muito bem nessa questão:

"Se houver anticartelistas que discordem desse veredicto e acreditem que a estrutura de produção anterior servia melhor aos consumidores, eles têm total liberdade para retirar os recursos de terra, trabalho e capital das agências de guias na selva e dos produtores de borracha, e embarcar eles mesmos na produção dos supostamente “deficientes” 40 milhões de libras de café" (Rothbard, Murray N. Man, economy, and state with power and market. Ludwig von Mises Institute, 2004, pg. 640).

Você faria melhor que essas empresas com dinheiro do Estado? Vai e tente. Mas saiba que ter uma empresa é algo complexo, e se ela ser idiota ao ponto de produzir mais do que pode vender, e ser optimizar seu lucro, logo não faz sentido a operação, se ela ganha mais produzindo menos pela utilidade marginal da commodity, é isso que ela deve fazer, afinal, é uma empresa, não uma instituição de caridade, e se ela está sendo bem sucedida no mercado de forma honesta, significa que os consumidores gostam do produto e aceitam os preços no geral, então se você for contra esse fato, terá que ir contra os consumidores que apoiam a empresa, no fim irá ter um pensamento que beira o socialismo ou o de sociais democratas (que no fim são farinha do mesmo pote).

Consumidores podem sim acabar com a reputação de uma empresa

"Se os consumidores realmente desejam impedir essa ação, basta que alterem seus padrões de consumo do produto, seja por meio de uma mudança real em seu gosto por café ou por uma combinação de boicote e filantropia" (Rothbard, Murray N. Man, economy, and state with power and market. Ludwig von Mises Institute, 2004, pg. 641--642).

Quando uma empresa desagrada os consumidores em relação a preços num mercado elástico, há sim uma revolta. Recentemente isso aconteceu como Gamepass da Microsoft (um serviço de assinatura de games), onde os preços subiram e cancelamentos em massa ocorreram, pois esse é um mercado altamente elástico, quando você tem que pagar um console por ano para jogar a biblioteca (que nem é lá essas coisas, tem muito jogo lixo mesmo), temos um problema.

Jogos P2W (Pay to Win) também, onde alguém que gasta mais no jogo fica mais forte mesmo sendo ruim, o que ocorre é que os jogos mais populares como Fortinite, League of Legends e CSGO 2, tendem a ter mais comésticos em forma de skins (que não afetam o gameplay, literalmente o melhor do mundo pode não gastar 1 real no jogo e ser o melhor), e isso é importante para os consumidores, jogos com muitas microtransações e custos contínuos para progressão, são mal vistos por grande parte da comunidade, isso pode diminuir os lucros no longo prazo.

A Bud Light sofreu um boycott em Abril 2023, por ações que desagradaram seus consumidores potenciais, então a escolha do marketing da empresa hoje em dia, pode afetar muito ela negativamente. Se uma empresa aumenta seus preços acima da elasticidade atual do mercado ou faz ações que desagradam os consumidores, elas não vendem. Agora, uma empresa optmizar seu lucro produzindo menos, é algo que favorece a empresa e o capex/ll potencial dela, e no fim beneficia os próprios consumidores com produtos (probabilisticamente) cada vez melhores (pontencialmente).

O Ponto Central

A manipulação da oferta através da restrição da mesma do que o trader de commodities já possui, é diferente da optimização de lucro de produzir menos para lucrar mais. Assim, na primeira temos um erro de output de produção, onde há um conflito de interesses entre empresas no mesmo mercado, quando uma manipula o preço intencionalmente (com o que já tem restringindo a venda, segurando a mercadoria) por conta de erros em cálculos de calendários de demanda.

Porém, não há nenhum problema em optmizar a produção para gerar mais lucro, então ela é totalmente justa e moral quando para buscar mais lucros, produz menos do que sua capacidade total, calculando que assim pela lei da utilidade marginal decrescente, ela terá mais lucro produzindo 60 toneladas de uma commodity do que 100, esse é o ponto central.

Outro é que existem monopólios orgânicos, criados pelos próprios consumidores que gostam e por isso consomem a marca. O sucesso da marca e assim tomando uma fatia do mercado maior, é algo que pode ser criado pelos próprios consumidores satisfeitos com tais produtos, por isso, um monopólio orgânico é natural e justo. O monopólio inorgânico, normalmente, é criado pelo Estado (visão presente em Rothbard), dando privilégios para capitalistas amiguinhos do Estado, e assim criando uma vantagem competitiva injusta no mercado, até por concessões feitas a empresas que beneficiam o governo e assim temos o monopólio injusto e inorgânico, o qual é imoral.

Monopólios são criados pelo Estado

Mises diz

"A experiência com cartéis e trusts na última geração confirma isso plenamente. Todas as organizações monopolistas duradouras são construídas sobre o poder do monopólio de dispor de recursos naturais ou de determinados terrenos. Um indivíduo que tentasse se tornar um monopolista sem o controle desses recursos — e sem amparo legal específico, como tarifas, patentes etc. — teria que recorrer a todo tipo de artimanha e artifício para garantir um sucesso, ainda que temporário" (Mises, Socialism: An Economic and Sociological Analysis. Translated by J. Kahane, Yale University Press, 1951 (or Liberty Fund, 1981)., pg. 388).

E normalmente, para ter tal monopólio de terras e recursos naturais, uma empresa ou holding delas, pode obter concessões, permissões e vantagem por parte do governo sobre terras e recursos (através do que a constituição e legislação permitem) para terem vantagem competitiva sobre outras empresas, assim, a grande parte dos monopólios reais, são criados pelo Estado restringindo parcialmente ou totalmente o acesso de novos players de mercado em alguns setores da economia (como o de energia, água, hidrocarbonetos e etc).

Rothbard é ainda mais assertivo:

"Em outras palavras, por essa definição, monopólio é a concessão de um privilégio especial pelo Estado, reservando uma determinada área de produção a um indivíduo ou grupo específico. A entrada nesse setor é proibida a todos, e essa proibição é aplicada pela polícia estatal" (Rothbard, Murray N. Man, economy, and state with power and market. Ludwig von Mises Institute, 2004, pg. 669).

A legislação pode conceder a players de mercado um acesso aos recursos do seu setor com uma vantagem competitiva maior, assim, elas buscam e se beneficiam de ter aliados dentro do Estado, que beneficiam eles em detrimento dos seus competidores, muitas até recebem subsídio, enquanto outras do mesmo setor não, então o grande ponto é que existem "capitalistas" que no fim são "capitalistas de Estado". Os quais se enriquecem depois de já grandes, com o dinheiro dos outros, isto é do povo, o que na minha visão, pode ser visto como imoral.