China endurece controle sobre terras raras antes de encontro com Trump

Escrito por Vitor Gomes Calado

Medida busca fortalecer posição negociadora da China face a tarifas.

IMAGEM: Reuters

O governo chinês anunciou na quinta-feira um conjunto robusto de restrições à exportação de terras raras e tecnologias relacionadas, numa decisão que aumenta a pressão sobre países ocidentais e antecede o encontro previsto entre o presidente Xi Jinping e Donald Trump, marcado para o final deste mês na Coreia do Sul.

As medidas entram em vigor a partir de 1 de dezembro e criam barreiras sem precedentes no setor. O Ministério do Comércio chinês determinou que empresas estrangeiras precisam de autorização especial para exportar produtos que contenham vestígios mínimos de terras raras de origem chinesa, mesmo quando esses produtos foram fabricados fora do país. A regra abrange também itens produzidos no exterior com tecnologias chinesas.

Além disso, Pequim restringiu a transferência de conhecimento técnico e ferramentas relacionadas à mineração, processamento, reciclagem e fabricação de ímãs de terras raras. Software, planos técnicos e documentação de manutenção ficam submetidos às novas normas. A decisão dificulta que empresas estrangeiras desenvolvam cadeias de produção independentes fora da China.

O governo chinês deixou claro que exportações destinadas a fins militares ou forças armadas não receberão licenças. No caso de semicondutores avançados, as autorizações serão analisadas caso a caso.

As terras raras são um grupo de 17 elementos químicos presentes em minerais e essenciais para a fabricação de smartphones, turbinas eólicas, veículos elétricos e equipamentos militares. A China domina esse mercado de forma quase monopolista: responde por cerca de 70% da mineração mundial e controla aproximadamente 90% do processamento global.

Analistas interpretam o movimento como tática de negociação antes da cúpula entre Xi e Trump. O encontro ocorre num momento delicado, com a trégua comercial estabelecida em maio expirando em novembro. Desde abril, quando Pequim impôs as primeiras restrições em resposta às tarifas americanas, o mercado global enfrentou escassez desses materiais.

As novas regras atingem também empresas europeias e alemãs. A Câmara de Comércio Europeia na China já havia alertado em setembro sobre o risco de novas interrupções na produção das empresas associadas.

A estratégia chinesa replica métodos que Washington usa para bloquear exportações de semicondutores para a China através de países terceiros. Com essas medidas, Pequim busca fortalecer sua posição negociadora.

Trump, que tem demonstrado interesse em recuperar o controle sobre a extração e o processamento de terras raras, pode ver as novas restrições como provocação. Esse tema está presente em diversos aspectos de sua política externa, incluindo negociações sobre a Groenlândia e a Ucrânia, regiões com reservas desses elementos.

O Ministério do Comércio chinês afirmou que as medidas visam "proteger a segurança e os interesses nacionais" e que não são direcionadas a nenhum país específico. A declaração soa diplomática, mas o momento escolhido para o anúncio, dias antes da cúpula, revela a natureza estratégica da decisão.

Para o mercado global, as restrições representam um alerta sobre os riscos de cadeias de suprimento concentradas. A dependência chinesa nesse setor crítico coloca países desenvolvidos em posição vulnerável, especialmente na transição para tecnologias limpas e na produção de equipamentos de defesa.