Ciclos Econômicos e o Mercado de Crédito em Mises-Rothbard
O Mercado de Crédito segundo a Teoria Austríaca de Ciclos Econômicos
Falei nos últimos dois artigos sobre a Teoria de Ciclos Econômicos de Mises-Hayek, e sobre algumas implicações deles que afetam nossa vida diretamente, como inflação crônica, menor poder de compra e etc.
Agora, o foco será pontuar algumas outras questões dessa teoria, que é central para a Escola Austríaca de Economia (embora eu seja neo-austríaco; que é quase a mesma coisa com Complexity Economics), além de ressaltar as implicações para o mercado de crédito em si, o que veremos como é importante ver essa relação.
A Teoria Ricardiana de Ciclos Econômicos
A teoria de ciclos econômicos teve um acerta origem na visão Ricardiana da questão, que em si usa reservas fracionárias, e expansão de crédito em boom-busts normalmente, mas em essência:
"Mises começa como os ricardianos: o governo e seu banco central estimulam a expansão do crédito bancário comprando ativos e, assim, aumentando as reservas bancárias. Os bancos, então, expandem o crédito e, consequentemente, a oferta monetária do país na forma de depósitos à vista (já que as notas bancárias privadas praticamente desapareceram)" (Rothbard, Murray Newton. For a new liberty: The libertarian manifesto. Ludwig von Mises Institute, 1978, pg. 233).
A expansão de crédito gera um boom de investimentos inicial com uma injeção de uma oferta de capital exógena que realmente aumenta a capacidade das empresas de terem mais acesso a crédito e realizarem projetos e investimentos que desejam com mais facilidade (o que aparentemente é bom). Porém, no longo prazo esse crescimento tem uma falha crônica, essa é: "a artificialidade de uma oferta de capital exógena, permite que investimentos com menor sensitividade a risco venham a ocorrer".
E uma relação de potencialidade. É óbvio que se a taxa de juros estiver em 15%, as empresas e pessoas vão pensar duas vezes em fazer um investimento usando crédito (será melhor usar poupança), porém, quando ela descresce artificialmente, realmente o preço do capital fica mais barato, porém, é criada uma confusão aqui, pois a taxa de juros natural é definida pela preferência temporal das pessoas sobre capital, ou seja, pela demanda de capita orgânica. Você alterar a taxa de juros artificialmente, nada mais é que confundir essa relação de oferta e demanda de capital, e de quebra, também permitindo que empréstimos ocorram com mais facilidade, e com menor aversão a risco (quando na taxa de juros natural isso não aconteceria dessa forma).
Rothbard diz como Mises demonstrou como a expansão de crédito afeta a taxa de juros, e isso cria efeitos catastróficos no longo prazo. Sobre a preferência temporal dos juros, Rothbard de forma didática nos diz:
"Se a preferência temporal das pessoas diminuir, ou seja, se o grau de preferência pelo presente em relação ao futuro cair, as pessoas tenderão a consumir menos agora e a poupar e investir mais; ao mesmo tempo, e pela mesma razão, a taxa de juros, a taxa de desconto temporal, também cairá" (Rothbard, Murray Newton. For a new liberty: The libertarian manifesto. Ludwig von Mises Institute, 1978, pg. 233).
Num mundo normal de liberdade econômica básica predicada em direito natural, a taxa de juros seria regulada pela demanda de capital do mercado (pela preferência temporal das pessoas), porém, quando o governo toma partido e quer controlar o que não deveria se controlado, dá ruim, como ele diz:
"O que acontece é problema. Os empresários, ao verem a taxa de juros cair, reagem como sempre reagem a essa mudança nos sinais do mercado: investem mais em bens de capital. Investimentos, principalmente em projetos longos e demorados, que antes pareciam não rentáveis, agora parecem lucrativos devido à queda na taxa de juros. Em resumo, os empresários reagem como reagiriam se as poupanças tivessem realmente aumentado: investem essas supostas poupanças" (Rothbard, Murray Newton. For a new liberty: The libertarian manifesto. Ludwig von Mises Institute, 1978, pg. 234).
Existe uma grande diferença entre o mercado de forma orgânica ter acesso a capital de acordo com a taxa de juros de retorno de investimentos e de ter acesso fácil (easy money) por políticas econômicas intervencionistas. Por exemplo, num nicho específico como commodities, se tivermos uma crise nos futures de ovos, arroz, trigo e etc, podemos ter problemas em investimentos nesse setor da perspectiva empresarial (o que acontece seazonalmente e pode ter várias causas), vamos supor que os retornos de empresas nos setores afetados diminuam, logo a taxa de investimentos vai tender a ser temporarialmente menor nesse setor, visto que uma aversão a risco maior é gerada por esse problema.
O que regula no fim a taxa de juros (modulada pela preferência temporal) é a taxa de juros de retorno de investimentos, então quando empresas no geral vão bem (o mercado de ações), temos reservas de capital e fluxos de caixa maiores o que permite que capital seja mais acessível temporalmente, logo a demanda por capital pode aumentar, mais isso é uma reflexividade da taxa de juros de retorno de investimentos, e não da decisões de banqueiros em bancos centrais.
Mises sobre taxas de juros e crédito
Mises diz:
"Os juros são um fenômeno homogêneo. Não existem fontes distintas de juros. Os juros sobre bens duráveis e os juros sobre crédito ao consumo, assim como outros tipos de juros, são resultado da maior valoração dos bens presentes em relação aos bens futuros" (Mises, Ludwig von. Human action. Ludwig von Mises Institute, 1949, pg. 523).
O juros aqui segundo Mises, é uma relação de bens presentes vs. bens futuros (lembra a visão de Mises de inflação), o que significa que a taxa de juros é também uma relação sobre capital no presente vs. capital no futuro. Preferências mudam, assim como preferências sobre bens de consumo (como de usar lâmpadas ao invés de velas por razões óbvias), além disso a noção de diferença entre bens presentes e futuros também atinge a forma que damos valor a coisas (como a uma casa que tende a apreciar no futuro, levando a uma taxa de juros de retorno de investimento em comprar a propriedade).
Sobre o juros originário (originary interest), ele diz:
"Manifesta-se na economia de mercado no desconto dos bens futuros em relação aos bens presentes. É uma relação entre os preços das mercadorias, não um preço em si. Prevalece uma tendência à equalização dessa relação para todas as mercadorias" (Mises, Ludwig von. Human action. Ludwig von Mises Institute, 1949, pg. 523).
Então temos que o juros originário é essa relação entre mercadorias, do que vale apena comprar agora vs. o futuro. E é relevante isso para inflação,pois quando eu não quero comprar um Nintendo Wii U porque acho que está caro, é porque eu vejo que (pessoalmente) esse bem presente não vale para mim como um bem futuro de valor sobre o dinheiro que tenho, preços de n produtos elásticos afetam a demanda, sendo que a inflação pode aumentar eles continuamente, por conta do menor poder de compra do próprio dinheiro.
Agora algo que é menos contratuitivo (quebra a mente um pouco), que o juros originário não é medido pela oferta e demanda e não é o preço do capital (diferente do juros normal):
"A sua altura não depende da extensão da procura e da oferta. É antes a taxa de juro originária que determina tanto a procura como a oferta de capital e bens de capital. Determina quanto da oferta disponível de bens deve ser destinada ao consumo no futuro imediato e quanto ao abastecimento para períodos mais remotos" (Mises, Ludwig von. Human action. Ludwig von Mises Institute, 1949, pg. 524).
Por exemplo, quero alugar uma casa, o que define o preço do aluguel em termos de dinheiro? Depende. Qual é a situação da casa? A qualidade da região, e como ela é para mim e minha família, que me faz ter preferência sobre ela? Então se avalia a diferença dessa casa com outras similares na região (em número de quartos, banheiros, qualidade da pintura, piso e etc), e logo temos a formação de diferença de preços, modulados pela utilidade subjetiva (afinal, é subjetivo no fim, tipo, sua esposa odiar a casa pois ela tem uma cor que não lhe agrada; e outras esposas podem pensar assim, outras não e etc).
Agora vem a parte importante:
"O mercado de empréstimos não determina a taxa de juros. Ele ajusta a taxa de juros dos empréstimos à taxa de juros original, conforme refletida no desconto de bens futuros" (Mises, Ludwig von. Human action. Ludwig von Mises Institute, 1949, pg. 524).
Como eu queria colocar isso na cabeça de keynesianos e neoclássicos, isso realmente é algo extremamente relevante para entender taxas de juros. Primeiro vimos que a taxa de juros originário é uma relação de preços de n commodities e todo tipo de propriedade, e que ela não é definada pela oferta e demanda, mas sim por essa diferença entre bens presentes e futuros na mente das pessoas (preferência temporal mais utilidade subjetiva). Mas essa preferência temporal (junto a uma utilidade de desconto) no fim é uma relação de bens presentes vs. futuros, de capital agora vs. amanhã (e no infinito e além), e assim a taxa de juros além da preferência temporal e utilidade subjetiva, tem também essa taxa originária que define o valor da mesma continuamente.
Mises demonstra que a taxa de juros originária é algo natural e absoluto na economia (na ação humana das pessoas), e algo essencial na praxeologia de como pessoas dão valor as coisas temporalmente. Onde ela pode abaixar por exemplo, quando um aumento endógeno na poupança ocorre:
"De fato, um dos elementos que ajudam a determinar a taxa de juros, o nível do fundo nacional de subsistência, é necessariamente alterado pelo aumento da poupança. Quanto maior o fundo de meios de subsistência em uma comunidade, menor a taxa de juros" (Von Mises, Ludwig. The theory of money and credit. Ludwig von Mises Institute, 1953, pg. 347).
É algo que Hayek citava bastante na teoria dele sobre poupança, vale lembrar que na Teoria de Ciclos-Econômicos de Mises-Hayek, o crescimento econômico com base em poupança endógena (que depende do aumento da taxa de juros de retorno de investimentos, e cronicamente do aumento do conhecimento humano; veja em Hermann Hoppe no "A Short History of Man") e não expansão de crédito.
O problema de uma redução da taxa de juros artificialmente
"A redução da taxa de juros estimula a atividade econômica. Projetos que não seriam considerados "lucrativos" se a taxa de juros não tivesse sido influenciada pelas manipulações dos bancos, e que, portanto, não teriam sido empreendidos, tornam-se, no entanto, "lucrativos" e podem ser iniciados. O aumento da atividade econômica leva a uma maior demanda por materiais de produção e por mão de obra" (Von Mises, Ludwig. The Austrian theory of the trade cycle and other essays. Vol. 8. Ludwig von Mises Institute, 1978, pg. 28).
Como já disse anteriormente, projetos que não poderiam ser realizados são porque a taxa de juros caiu, e isso pode gerar problemas de "malinvestiment", onde isso não ocorreria numa taxa de juros natural, não controlada pelo banco central. Pois a taxa de juros só cairia realmente, quando a taxa de retorno de investimentos subisse, de forma simples, quando empresas fossem nesse ciclo mais bem sucedidas em seus projetos em n setores da economia.
Isso tudo porque uma confusão é criada pelo controle artificial da taxa de juros, um controle que benefício o governo, bancos, hedge funds e o mercado de private equity. Eles possuem leverage como nunca antes na história, porém, isso cria um efeito danoso e inflacionário a economia. E isso afeta as próprias empresas, imagine que você tem uma ideia de abrir um restaurante, mas não com poupança, mas sim com empréstimo, então o governo cria formas de fazer crédito ficar mais acessível a uma taxa de juros menor, isso é bom certo? Depende, você pensaria duas vezes em fazer esse projeto se a taxa de juros fosse maior, iria tomar muito mais cautela em o realizar, porém, a confusão é instaurada quando a taxa de juros é controlada, e logo o preço do capital vira um projeto maluco de um banco central.
É só aumentar a taxa de juros quando isso acontecer, certo?
Então, pera, é só o banco central aumentar a taxa de juros? Assim resolveríamos o problema certo? Uma contração de crédito, um Credit Crunch como dizem, isso faria a economia desacelerar e malinvestments deixar de ocorrer? Não:
"Se os preços subirem continuamente e se, como resultado, o mutuário obtiver um lucro adicional com a venda da mercadoria que comprou com o dinheiro emprestado, ele estará disposto a pagar uma taxa de juros mais alta do que pagaria em um período de preços estáveis;" (Von Mises, Ludwig. The Austrian theory of the trade cycle and other essays. Vol. 8. Ludwig von Mises Institute, 1978, pg. 31-32).
Um empresa de alimentos (que vende pudim) pega crédito há uma taxa de juros de 5%, compra matéria prima, novas máquinas, novo pessoal e etc, porém, posteriormente a taxa de juros aumenta, o que cria menos acesso a capital em todo o mercado (artificialmente), porém, isso tem efeitos na disponibilidade de acesso a crédito de n empresas, e mesmo que nossa empresa de pudim foi bem sucedida em vendas, os preços de n produtos (pela depreciação da moeda) podem ser alterados pelo controle da taxa de juros, criando novamente uma confusão.
Então o que se deve fazer? Libertar os juros do controle de bancos centrais, logo teremos a taxa de juros natural de mercado. É claro que alguém poderia dizer que nesse caso, os bancos privados iriam se aproveitar disso e criar um cartel para definir a taxa que quiserem, mas isso é resolvido pelo uso de uma commodity como moeda, como ouro e prata, assim eles não terão essa opção (caso minting seja proibido, assim como reservas fracionárias). Só aumentando a taxa de juros você não resolverá o problema completamente, apenas irá criar outro (até porque a mesma é teoricamente incalculável).
Em Crises Econômicas, podemos diminuir a taxa de juros para aquecer a economia?
Não se corrige um tiro com uma 12 numa pessoa com um band-aid, assim diminuir a taxa de juros através de uma injeção de liquidez na economia, não vai gerar uma melhorar no longo prazo, Mises conclui:
"A economia não poderá se desenvolver de forma harmoniosa e tranquila a menos que todas as medidas artificiais que interferem no nível de preços, salários e taxas de juros, conforme determinado pelo livre jogo das forças econômicas, sejam renunciadas de uma vez por todas" (Von Mises, Ludwig. The Austrian theory of the trade cycle and other essays. Vol. 8. Ludwig von Mises Institute, 1978, pg. 35).
É a única solução, esquecer totalmente o controle da taxa de juros. A melhor opção seria acabar com bancos centrais completamente, mas se isso não for politicamente possível, ao menos retirar o controle deles da taxa de juros seria algo interessante. Estamos falando de algo sério aqui, que realmente implica no dia a dia das pessoas, inflação crônica realmente afeta o acesso mesmo a bens básicos para a sobrevivência humana, esses controles não beneficiam os pobres, eles os crucificam.