Como se decide o preço justo?

Escrito por Aranea

Será que o vendedor que coloca os preços lá em cima, está sendo injusto?

The Syndics of the Amsterdam Drapers' Guild, known as the ‘Sampling Officials’.

Desde Aquino e as perspectivas da Escola de Salamanca, houve cada vez mais um avanço na visão do que seria o preço justo de mercado. Em que o objetivo é tentar entender qual é preço que reflete a "verdade" sobre o valor de n produtos.

O grande problema é que tanto no espectro político quanto individual, algumas pessoas ainda não entendem em certos setores, como a formação de preços funciona, o objetivo aqui é tentar dar uma luz à um tema que já foi solucionado há muito tempo.

Sobre a propriedade privada

É bom começarmos com uma noção básica de propriedade. Tenho por propriedade, um bem que é indivisível do ser, não que ele faça parte intrinsicamente do ser de uma pessoa (não faz parte fisicamente do corpo dela, como uma casa obviamente), mas mesmo externa a ela, é indivisível da posse da mesma. Ao ponto que ao eu comprar um carro e colocar ele no meu nome, esse item é indivisível do meu ser, ao menos do ponto de vista temporal e legal enquanto em minha posse.

Quando alguém compra um item buscando vender ele com lucro (à margem), tal será chamado de comprador marginal, onde agora a propriedade está em sua posse, mas com certa liquidez (velocidade de transformar isso em dinheiro), ele quer transformar esse produto em venda, tanto para pagar seu custo de obtenção quanto para usar esse lucro para comprar mais inventário (rotatividade de inventário).

O que o vendedor realmente deseja?

O lucro obviamente (Mises trata sobre isso em "The Free Market and its enemies" e "Profit and Loss"). Onde ele nunca se disporia a comprar um item que ele não deseja usar, mas sim revender, se não houvesse uma possibilidade de arbitragem.

Naturalmente o valor mínimo deve ser há uma certa margem acima do custo de obtenção, em que o custo não forma o preço, mas sim a utilidade marginal do produto e a preferência temporal das pessoas sobre o mesmo, onde o segundo muda constantemente e é subjetivo, enquanto o primeiro é uma relação de oferta.

O que realmente define o preço?

A preferência temporal das pessoas sobre determinados itens, define preços num mercado elástico (no inelástico também, mas focarei apenas no elástico aqui), de outra forma, o que as pessoas desejam temporalmente (demanda),o que é naturalmente subjetivo e imprevisível (a não ser que você consiga ler a mente das pessoas, o que não é o caso).

Se num mercado elástico (onde preço afeta a demanda) a oferta de uma commodity vem a diminuir, teremos um aumento de preço, e a pessoa que antes pagava (vamos supor) R$70 pelo mesmo item, paga agora R$300, e com o budget temporal da pessoa e reservas sendo finito e tendo que ser alocado em diversos âmbitos (contas a pagar, comida, utilitários, escola para os filhos e etc), ela vai pensar duas vezes em comprar o mesmo item, afinal, nesse caso a elasticidade dele é criada por ser um item de "luxo", que ele não necessita como um arroz, feijão e óleo de cozinha.

O aumento do preço pode ter múltiplas causas, podem ser impostos elevados, tarifas de importação, safras menores associada a n commodities ou afetando apenas algumas. Porém, num mercado elástico, se o vendedor aumenta o preço acima do de mercado (onde existe informação desses preços no mercado interno e externo sobre os itens), ele não vai vender,pois o preço justo de mercado só emerge quando tanto o vendedor quanto o comprador entram em acordo, e nesse caso nenhum comprador irá pagar acima do valor que ele mesmo deseja.

Você pode estimar o lucro futuro, mas não o calcular

Mises diz:

"Onde há divisão social de esforços e cooperação, bem como propriedade privada dos meios de produção, o cálculo econômico em termos de unidades monetárias torna-se viável e necessário. Lucro e prejuízo são computáveis ​​como fenômenos sociais. Os fenômenos psíquicos de lucro e prejuízo, dos quais eles são derivados em última instância, permanecem, é claro, magnitudes intensivas incalculáveis" (Von Mises, Ludwig. Profit and loss. Ludwig von Mises Institute, 2008, pg. 26).

É totalmente possível usando estatística e econometria (equações e algoritmos para analisar dados econômicos), entender tanto lucros passados quanto presentes. Porém, prever lucro possível no longo prazo é impossível, você pode até usar dados para tentar encontrar um possível valor esperado de forma bayesiana, mas esses valores são fictícios.

No sentido que o poder preditivo de se n ações do empreendedor vão gerar lucro no futuro, é incalculável por qualquer Máquina de Turing Universal, ou seja, o cálculo econômico é simplesmente inatingível, demanda futura pode ser estimada mas não prevista, no fim sempre vai haver deadweight loss num supermercado da vida, pois é impossível maximizar o lucro esperado futuro ad infinitum.

Lucro e inflação

"A incapacidade de compreender os efeitos da inflação sobre os métodos habituais de cálculo de lucros deu origem ao conceito moderno de especulação. Um empresário é considerado especulador se sua demonstração de resultados, calculada em termos de uma moeda sujeita a uma inflação crescente, apresentar lucros que outras pessoas consideram “excessivos”. Aconteceu com muita frequência em muitos países que a demonstração de resultados de tal especulador, quando calculada em termos de uma moeda não inflacionada ou menos inflacionada, não apenas não apresentou lucro algum, mas também prejuízos consideráveis" (Von Mises, Ludwig. Profit and loss. Ludwig von Mises Institute, 2008, pg. 28).

Vamos supor que eu tenha uma loja de games (não importa o setor na verdade), e que eu gastei R$20.000 de inventário todo mês em média, tendo uma porcentagem de lucro de 15% em média nas vendas que chegam a R$70.000 mensais (nesse exemplo hipotético).

Tenho o custo de aluguel da loja, também realizando operações online no Mercado Livre, Ebay e etc. Custo de funcionários, juros de empréstimos à pagar, impostos a serem pagos internamente e de possíveis importações, frete de vendas on-line e etc.

Se entendermos que existe uma inflação anual (que colocaremos aqui em 6% ao ano), significa que o valor de todas as minhas vendas no seu resultado final que é o lucro, o lucro líquido geral obtido perde em poder de compra anualmente, isto é o que tenho em reserva em dinheiro.

Porém, é óbvio que se houvesse tido 2% ao ano de inflação, eu teria um capital com maior poder de compra do que em 6% ao ano, e isso naturalmente é importante, pois significa que meu lucro é maior quando há uma inflação menor, o ponto de Mises, é que alguém pode até perder dinheiro, pode não ser lucrativo quando não se ajusta seu lucro à termos ajustados à inflação.

O acúmulo de capital e o lucro beneficiam a sociedade

Mises continua nessa obra a provar que o lucro longe de roubar dos seus consumidores o que é justo, beneficiam aos mesmos. O ponto é que num sistema onde o lucro é imoral, não haveria incentivo para a produção, e logo os produtos dispostos aos consumidores, seriam naturalmente medíocres (veja como era na União Soviética, como é em Cuba ou a Alemanha Oriental).

Pode ter certeza, que o vendedor não vai conseguir vender seus produtos muito acima do preço de mercado, as pessoas só pararão de ir comprar ali caso isso ocorra. Mesmo que ele tenha um monopólio, os que são orgânicos tendem a emergir ao agradar seus consumidores, os que tendem a impor preços que poderiam se considerar abusivos, são monopólios criados pelo próprio Estado (como no mercado de luz, energia, telecomunicações e etc).

Mises continua:

"As perdas são a prova dos erros cometidos, da falha em executar satisfatoriamente as tarefas que incumbem a um empreendedor. A riqueza dos empreendedores bem-sucedidos não é a causa da pobreza de ninguém; é a consequência do fato de que os consumidores são melhor abastecidos do que seriam na ausência do esforço do empreendedor" (Von Mises, Ludwig. Profit and loss. Ludwig von Mises Institute, 2008, pg. 38).

O empreendedor bem sucedido, é aquele que realmente cria o melhor ambiente na sua loja para os seus clientes, aquele que cria os melhores produtos, aqueles que são focados no bem-estar do consumidor (como já disse João Apolinário, um empreendedor conhecido no Brasil pela Polishop), ele busca aqueles produtos no mercado externo que vão beneficiar os cliente dentro do know-how que o empreendedor possui junto com seu time de alocação de novos produtos, para gerar o melhor repertório para gerar a maior quantidade de lucro possível.

Onde esse lucro é o resultado de ter bons produtos aos melhores preços, onde os consumidores compram daquela empresa exatamente porque preferem ela temporalmente à outras em dados contextos.

Estudo de caso: Um exemplo no Mercado de Retro Games

Vou pegar esse mercado, pois é um que tenho tido interesse recentemente. Três meses atrás o dono do canal Retro Mania fez um vídeo no Youtube demonstrando alguns problemas do mercado de games retros, especialmente de pessoas reclamando dos preços nas feiras focadas nesse nicho, que tende a ter preços salgados, com consoles do Nintendo 64 do Pikachu valendo mais de R$4.000 reais, fitas do Super Nintendo específicas e raras por centenas de reais e etc.

Vou levantar alguns pontos essenciais para ficar mais didático:

  1. O vendedor na feira ou loja teve um preço de obtenção do item
  2. O preço de mercado doméstico e internacional afetam esse mercado
  3. É um mercado altamente elástico, onde o preço afeta a demanda
  4. Se existe uma alta rotatividade de vendas a esses preços de mercado, existe uma demanda no setor
  5. Se existe uma demanda nesse setor compradores potenciais, então o preço justo é estabelecido

As pessoas não entendem, que o preço justo é definido pela utilidade subjetiva do item. É claro que alguém que paga mais de $5000 dólares numa fita Neo Geo do Metal Slug, tem uma preferência por itens desse console, o que é um desejo pessoal dessas pessoas, e existe uma comunidade que gosta desse e outros consoles desse tipo.

Outros gostam mais de colecionar Super Nintendo,ou tudo da Nintendo. Ou alguém pode focar em jogos somente do Nintendo Switch, comprando versões de edições limitadas, onde muitos fazem flipping (revender o que foi comprado no varejo), e não há nada de errado nisso, se você acha que não vale, obviamente, não compre, mas tem quem compre, há sim demanda, e um preço de mercado que pode ser visto em sites e plataformas de preços.

Argumento deles: Mas tal pessoa que está aumentando os preços

Isso não tem nexo, é totalmente irracional essa objeção. Alguns acusam players relativamente conhecidos do mercado de cobrar preços maiores que o normal, ainda sim eles estão vendendo normalmente, o que me faz pensar que a demanda continua comprando e sendo suprida.

É claro que tem itens que possuem uma precificação complexa, por falta de transações no mercado. Por exemplo, não é todo dia que você vê uma fita do Mario Bros de NES lacrada em perfeitas condições, nota 10 em estado, e aí você usa transações semelhantes do mesmo item recentemente, e assim tanto o comprador quanto vendedor vão negociar o que ambos acham justo, se um dos lados não ceder, a transação não irá ocorrer, se ocorrer, ninguém foi enganado ou defraudado, ambos foram beneficiados (o que no fim é subjetivo o que eles acham disso).

Quando uma loja de games por exemplo, deseja gerar mais inventário com pessoas vendendo itens para eles na loja, o dono da mesma se torna um comprador marginal, ele não vai usar o item, ele quer vender com lucro, logo ele vai te pagar abaixo do preço de mercado, se você acha injusto o valor, é só não vender, venda você mesmo online (boa sorte) ou fique com o item.

Estudo de caso: Mercados

Outro exemplo propício são os mercados. O que normalmente mais irrita os consumidores, é quando os preços de bens inelásticos aumentam. Então você com certeza já viu uma velinha reclamar do aumento do preço do arroz, do feijão, dos ovos, do café e etc. E isso é normal, os consumidores mesmo em mercados elásticos tendem a ver aumentos repentinos com maus olhos, e podem optar em ir em outro mercado por conta disso.

Frequentemente vejo pessoas próximas dizendo que: "aquele mercado x é muito claro, por isso vou no no y", e coisas semelhantes. E isso é natural, não necessariamente essa perspectiva é quantitativa, não é como se os preços de n produtos fossem muito diferentes entre mercados do mesmo porte na região (e os preços mudam mesmo de bairro para bairro).

Porém, é óbvio que mercados de maior porte,podem comprar em margens maiores, e por isso o preço de cada item unitário (digamos, pepsis e coca-colas) tendem a ser mais barato do que na padaria da esquina, pois a padaria recebe em valores supérfulos comparado ao grande mercado, embora o bulk de todas as pequenas padarias e mercearias são sim uma fonte de faturamento para as empresas do ramo alimentício.

Não é que mercados maiores são bonzinhos, é só que eles compram uma oferta maior de n produtos e pela lei da utilidade marginal decrescente o óbvio ocorre. Porém, é um fato que mercados perdem muita grana em logística, onde a falha em prever a demanda futura de n produtos de n setores pode gerar prejuízo.

É claro que sempre haverá produto que vai vencer, pois como disse, o cálculo econômico é impossível (veja o "Economic Calculation in the Socialist" de Mises Commonwealth). Mesmo a pequena mercearia não pode calcular a demanda futura, mesmo que seu fluxo de clientes seja deveras menor.

Eu mesmo, quase nunca vou a certas mercearias e padarias da região onde moro, qual a probabilidade de eu comprar algo nelas? Nem eu sei. Talvez um dia voltando com sede para casa num dia de domingo, eu compre uns 3 salgadinhos e uma coca-cola dois litros numa mercearia que nunca entrei na vida, nem eu mesmo sei a randomicidade de onde comprarei coisas no futuro, o máximo que o vendedor pode fazer é ter a estatística base do seu comércio e à partir daí fazer inferências, que serão no máximo estimativas, e seu know-how e bom senso serão essenciais na sua tomada de decisões de como alocar seu inventário (deveria ele ouvir aquele fornecedor empurrando-lhe mercadoria golea a baixo? Talvez não).

Mises diz:

"Em toda grande empresa, cada negócio ou ramo de negócios específico é, em certa medida, independente em sua contabilidade. Ele contabiliza o trabalho e os materiais uns contra os outros, e é sempre possível para cada grupo individual encontrar um equilíbrio específico e abordar os resultados econômicos de suas atividades de um ponto de vista contábil" (Von Mises, Ludwig. Economic calculation in the socialist commonwealth. Routledge,[sd], 1940, pg. 24).

Ele também diz:

"Agora, no sistema econômico de propriedade privada dos meios de produção, o sistema de cálculo por valor é necessariamente empregado por cada membro independente da sociedade. Todos participam de sua emergência de duas maneiras: por um lado, como consumidor e, por outro, como produtor. Como consumidor, ele estabelece uma escala de valoração para bens prontos para uso no consumo. Como produtor, ele coloca bens de ordem superior em uso de forma a produzir o maior retorno" (Von Mises, Ludwig. Economic calculation in the socialist commonwealth. Routledge,[sd], 1940, pg. 20).

Temos os lados dos comércios que precisam comprar dos fornecedores (ou no atacado para empresas menores) para vender com margem de lucro ao consumidores (essa é a oferta). Do outro lado temos a preferência temporal das pessoas de vários bens de consumo (demanda), onde as preferências das pessoas mudam, e isso vai refletir muito nas escolhas dos comerciantes, dos varejistas em relação a quais produtos eles dispõem em sua loja.

Estudo de caso: Restaurantes

Nem preciso te provar que comer no restaurante é um premium. Eu tenho um tio que sempre pedia marmitas nos dias de serviço, que ela lhe entregue na empresa sempre do mesmo restaurante.

É claro que pagar mesmo um marmitex tende a sair mais caro do que pegar o resto da comida do outro dia, que chamamos de marmita. Porém, vamos ser sinceros, marmitas são basicamente comida congelada que tende a ser inferior à de restaurantes mesmo de bairro, e por isso tendem a ser relativamente ruins.

Eu sempre odiei comer marmita no almoço do trabalho. Porém comer sempre num restaurante, mesmo self-service no quilo, tende a ser mais caro (tenho uma péssima experiência nesse tipo de restaurante). E tirando a parte do horário comercial, restaurantes tendem a ser uma forma gourmet de comer, você vai neles de vez em quando (principalmente nos mais caros), difilmente alguém vai no outback toda semana por exemplo, é algo seazonal (embora em shoppings a rotatividade seja maior e o preço do aluguel também em compensação).

Agora em entregas por aplicativo, temos uma rotatividade que não depende de relações espaciais de alguém ter que ir até um local, onde isso gera a possibilidade de maior número de vendas no agregado, e também consumidores que nunca entrarão no seu estabelecimento provavelmente. E o preço dos pratos, quem decide? O consumidor claro, quem entra num Fasano ou La Tamboille sem grana? É a preferência das pessoas sobre comida é extremamente variada, no sentido que eu pessoalmente não gosto de comida indiana por exemplo (no momento), outras sim, então o que a pessoa está prestes a pagar depende muido de suas preferências pessoais (utilidade subjetiva).

A margem de lucro em restaurantes (e no setor alimentício no geral) tende a ser baixa, e a alocação de recursos é relativamente estreita, obviamente produtos vão vencer ou faltar, e gerir essa questão estatisticamente leva paciência. É necessário entender o custo geral de cada prato por porção matematicamente, e ter tudo isso alinhado e sistematizado para não irem porções à mais ou a menos que saiam da linha e criem confusão.

Agora, restaurantes mais caros são elitistas? Já que à margem de lucro em cada prato tende a ser obviamente maior (embora os custos operacionais do restaurante também dependendo). O que você quer dizer com elitista? É um restaurante com um alto premium entregando uma experiência (subjetivamente, depende do gosto da pessoa) superior aos outros, se eles conseguem cobrar um preço maior e realmente entregam algo de um nível culinário superior.

Eu pessoalmente prefiro comer um uma comida japonesa simples ou um Burger King, eu não pagaria um alto premium para ir nesses requintados restaurantes, no fim é uma preferência pessoal, se você não acha um preço justo pelo ambiente e comida, então comer um dogão na feira de R$ 8,50 será melhor.

Estudo de caso: Setor Farmacêutico

Esse com certeza é mais tryhard de lidar, pois estamos falando da saúde das pessoas. É claro que alguém mais socialista tende a pensar que remédios deveriam ser gratuitos para todos, e é claro, todos desejaríamos que fosse o caso, quem não gostaria que todo o setor da medicina, da saúde, estivesse disposto a todos.

Porém, nada é de graça. Você produzir medicamentos possui um custo. Você criar novos medicamentos através de Clinical Trials tem um alto custo, até porque antes de testes clínicos você tem que através de pesquisa e desenvolvimento, encontrar combinações químicas potenciais biomolecularmente, filtrar essas e testar em animais, depois de amplos testes quem sabe gerar testes clínicos, e com honestidade (embora nem sempre eles têm isso) dar resultados reais de se o mesmo funciona ou não.

Depois médicos terão que receitar esse medicamento, mas será que ele realmente é bom? O que a pesquisa acadêmica diz sobre o mesmo? Honestamente ele é de qualidade e deveria ser recomendado de fato? Caso não, então a empresa vai perder em vendas, pois se ninguém receita esses medicamentos e etc, quem irá comprar?

O ponto é que desde o início da pesquisa e desenvolvimento de potenciais métodos e substâncias que poderiam ser criadas para atender os desejos inelásticos desse mercado (pois tem medicamentos que se você não compra, você morre basicamente dependendo da sua condição), você pode perder muita grana, em certos casos suas operações podem depender totalmente do futuro do próximo projeto, e a visão da mídia da sua empresa pode tanto te colocar lá em cima quanto a colocar em colapso.

Medicamentos deveriam ser mais baratos?

Eu gostaria que sim, mas infelizmente há um custo em todo o processo de manufatura. É claro que o grande problema nesse setor é da moralidade ou não da propriedade intelectual aqui, pois se uma empresa tem uma fórmula que não pode ser reproduzida por outras, ela basicamente tem o monopólio total de um mercado inelástico, onde existem patologias, que talvez uma ou duas empresas no mundo fornecem o tal medicamento, e o ponto é: "qual seria o preço justo aqui?"

Deixe-me dizer, que subsídios do governo não resolve o problema, o mesmo não tem recursos suficientes para suprir as necessidades médicas de toda a população, por isso sempre haverão grandes filas em certos hospitais de metrópoles, simplesmente é impossível temporalmente oferecer um serviço gratuito de qualidade em todas as instâncias (embora existam hospitais públicos muito bons, mas a exceção não muda o problema).

Já vi pessoas indo reclamar no Procon de preços de medicamentos, pois: "aquela farmácia aumentou o preço da minha insulina", e etc. Não sejamos hipócritas, a farmácia tem que lucrar, se não ela irá à falência, e aí quem vai te vender remédios? Ninguém.

Alguém deveria avisar que mais de 30% dos preços dos medicamentos são em impostos. Todos gostam de atacar o vendedor que vive numa margem normalmente baixa de lucro e luta para alocar os recursos corretamente no seu inventário para não ter deadweight loss. Porém é um fato que o governo muito bem poderia zerar todos os imposto em remédios e da venda deles no geral,só a isenção na importação não é o suficiente se alguém quer atacar os farmacêuticos pelos preços.

E no Brasil tem o PMC (Preço máximo ao consumidor), que regula o quanto de margem de lucro uma farmácia pode ter na venda de diversos grupos de remédios. Maximização de preços é totalmente inútil de fato do ponto de vista austríaco (e obviamente concordo), mas pior que isso, é o fato que tem quem reclame do preço da farmácia, quanto ela faz eles abaixo do PMC, o que deveria levar os olhos do consumidor ao governo e não ao lojista.

O Ponto Central

Que mundo feliz seria se tudo fosse "de graça" (uma Utopia pós-escassez). Mas a vida real não é Star Trek. Temos que entender que existem razões para os preços das coisas, que surgem essencialmente da utilidade marginal do produto e utilidade subjetiva, moduladas pela preferência temporal.

Se alguém tem um grande dedo no preço alto das coisas em relação ao que produzimos de renda, é o governo que permite reservas fracionárias, a existência da moeda fiat, um sistema inflacionário que nos tira poder de compra cronicamente. É isso que de fato nos faz mais pobres. Temos que sempre entender também como a baixa do poder de compra da moeda nacional influencia os preços dos produtos, e de como os controles inorgânicos por parte do governo, nos ferem mais do que qualquer varejista.

Devemos terminar então com Mises novamente:

"Um sistema monetário fiduciário não pode durar para sempre e um dia chegará ao fim. O padrão-ouro nas condições atuais é o único padrão que torna a determinação do poder de compra da moeda independente das ideias mutáveis de partidos políticos, governos e grupos de pressão" (Von Mises, Ludwig. Free market and its enemies. Foundation for Economic Education, 2004, pg. 52).

Até então, o que mais afeta os preços e no fim nosso poder de compra, continuará até o Götterdämmerung.