Competitividade de Mercado

Escrito por Aranea

Um exemplo de como a Competitividade de Mercado é importante para a inovação

Conferência Sega

Numa economia normal, sempre haverá concorrentes lutando entre si para ter uma fatia maior do mercado (the largest piece of the pie). Normalmente monopólios são criados por intervenções estatais, seja beneficiados players de mercado maiores a manterem vantagem competitiva (através da legislação e subsídio por exemplo) ou criando eles mesmos um monopólio inorgânico através de empresas estatais ou concessões.

O ponto deste artigo é demonstrar a necessidade e os benefícios de um mercado competitivo. É um fato que uma empresa num nicho sem competidores terá muito maior vantagem e lucro no setor (visto que a demanda é finita) quando tendo que inovar contra grandes players de mercado, e isso que cria produtos com menores preços e maior qualidade.

Caçando o cervo

Na “Origem das Espécies” de Charles Darwin, o autor trata de um tema pertinente para nosso tema, sobre como no seu “struggle for life” (luta pela existência), animais e plantas lutam pelos recursos escassos no seu ecossistema para maximizar sua probabilidade de sobrevivência (ou sua taxa metabólica para ser mais técnico.

Sabemos que no erro das presas em sobreviver temos o acerto de presas em conseguir se sustentar, afinal, é na falha de um cervo tropeçar ou ser lento numa fuga, que dará a um lobo a chance de ter sua janta. O ponto de Darwin, é que os “melhores” organismos que sobrevivem e mantêm sua espécie através de transmissão genética, visto que os “melhores” são aqueles que mais se adaptam ao seu ambiente e assim podem ser mais efetivos na caça, na fuga de predadores (no caso de presas), e existem animais que foram extintos organicamente, sem ação do homem, mas apenas na “luta pela existência”, sendo fracos (por inúmeros fatores), deixaram de existir.

Existe uma boa analogia com empresas. A maioria das empresas vão à falência, e isso é natural, as causas podem variar de:

  1. Uma péssima ideia bem executada
  2. Uma boa idéia mal executada
  3. Uma boa ideia bem executada, mas sem capital o suficiente para escalar
  4. Uma boa ideia bem executada, destruída por efeitos externos de mercado (como uma recessão, crises de crédito e etc)
  5. Uma boa ideia bem executada, mas desenvolvida de forma pobre posteriormente
  6. E por fim, uma boa ideia bem executada, e desenvolvida de forma escalável, fazendo a empresa e repertório de produtos crescer

É fácil lembrar da Teoria dos Jogos de Von Neumann nessa questão, que é tão bem aplicada na economia humana como na animal (no exemplo Darwiniano). Assim como animais (por extinto no caso, mas retendo individualidade) possuem estratégias para conseguir performar na sua caça, fuga e etc,tendo assim n agentes com m estratégias tentando minimizar seus custos e maximizar seus ganhos, empresas possuem as mesmas propriedades.

Uma empresa que não tem uma estratégia de mercado pode falhar miseravelmente. Uma pode até ser organizada, ter uma boa estratégia, estar no ápice do tema empregado, e mesmo assim falhar. Não estou dizendo que sorte é importante, mas timing e demanda são relevantes,mas nem sempre controláveis, muito menos previsíveis probabilisticamente.

A competitividade é necessária

Num sistema socialista, todas as empresas são estatais, logo, não existe competitividade, pois a alocação de recursos e decisões administrativas e empresariais fica a critério do Estado e da sua hierarquia organizacional. Isso cria um ambiente onde não há incentivo para inovação, no máximo um incentivo passivo, que não dará probabilisticamente resultados, visto que não há “falência” em certo sentido, a empresa pode até performar mal, mas não um risco privado de um ou mais sócios, mas sim uma administrada por alguém que o Estado colocou ali, o maior risco dele é perder o emprego, mas ela mesma nem é dele, então, e daí?

Numa ERE (Evenly Rotated Economy), também não existe competitividade no sentido da vida real, pois numa ERE as preferências não mudam, logo as preferências por novos produtos não existem, por características diferentes, por peças diferentes, por usos diferentes, cores e etc, as pessoas compram as mesmas coisas e não mudam suas preferências (o que seria uma distopia ficcional no fim).

Então fica óbvio que para a competitividade existir, mudanças de preferências precisam também. Se todos vão comprar a marca de refrigerante A, para que vou criar uma B? Numa ERE, mesmo a intenção de criar uma marca B com características diferentes, não faria sentido, pois as preferências das pessoas não mudariam em relação à marca A, logo, é um sistema sem inovação nenhuma à partir do momento que as preferências não mudam (o assim o juros originário sendo zero).

A competitividade de mercado não é algo inventado pelo homem, mas na verdade, ela surgiu organicamente de pessoas em mercados parecidos querendo atender seus clientes e sempre quando um concorrente aparece, isso poderia significar uma luta pela existência desses mercadores, mesmo numa sociedade primitiva Suméria (por exemplo).

A mesma também faz com que empresas sejam obrigadas a evoluir, pois senão serão dizimadas do mercado, seus produtos venderão menos por conta de uma demanda finita naquele nicho, eles terão prejuízos em relação ao custo de produção que não se converter em vendas e por isso, em fluxos de caixa. Logo as mesmas não serão lucrativas, e terão que falir, unicamente pois não atenderam as necessidades de seus clientes melhor que seus concorrentes.

Competitividade permite monopólios orgânicos

Um monopólio orgânico surge naturalmente duma empresa que fornece bens para seus consumidores que lhes agradam. Ela surge não das decisões da empresa apenas (embora ela criou a oferta que agradou aos clientes obviamente), mas pela decisão dos consumidores em ter preferência pelos produtos daquela empresa e fazer ela crescer naturalmente. Não há nenhum problema em uma empresa de crescimento orgânico adquirir outras do mesmo nicho, mesmo que ela tivesse mais de 90% do mercado.

Normalmente, os monopólios ocorrem quando é difícil de novas empresas entrarem num mercado, não por falta de capital, mas por restrições do governo na legislação (restrições inúteis e irracionais) que ao invés de permitir o livre acesso de ideias a serem executadas, criam barreiras inúteis que no fim só tiram a prosperidade de crescimento econômico de uma nação, por razões pífias e ilógicas que uma criança no primário poderia identificar o problema.

Em n setores, a competitividade reduz o preço

Não em necessariamente todos, mas na maioria. Pois é necessário lidar com a elasticidade de certos mercados (onde o preço pode afetar a demanda), onde um competidor com um produto da mesma qualidade, pode ter tal eficiência de produção e logística, que o preço se torna menor que o dos seus concorrentes, mesmo que tal empresa mantenha uma boa margem de lucro no processo.

Em mercados elásticos (como de roupas, eletrônicos, carros e etc) a tendência é que haja uma eficiência de produção e redução de custo que gere preços menores entre m competidores lutando entre si por um pedaço da torta do mercado. Mesmo em produtos inelásticos ocorre uma equalização de preços que tendem a um equilíbrio de Nash, o que significa que os preços tendem a ser similares entre diferentes marcas, mesmo que custos de produção e logística sejam diferentes.

É claro que só houvesse uma marca, ela decidiria os preços quaisquer e o consumidor teria que engolir. Ela não precisaria inovar, pois não há “predadores” concorrentes que poderiam acabar com seu market share. E através da redução de custos nos processos de produção, logística, distribuição e n etapas da cadeia de produção, que a mesma pode ao favorecer seus consumidores com menores preços, gerar uma alta na demanda, em que de fato as pessoas têm uma capacidade finita de alocação de recursos entre n produtos que desejam, e elas irão escolher aqueles que mais lhes dão satisfação, desprezando o resto.
Por isso que Research & Development (pesquisa e desenvolvimento) é tão importante para players de mercado, ao ponto que gigantes como a Samsung, Apple, Meta, e outros têm que gastar bilhões em pesquisa privada em suas empresas, para gerar software, hardware e etc melhores que suas concorrências.

Onde nem sempre as mudanças são realmente “melhores”, eu pessoalmente odeio Apple, não quero nenhum produto da empresa, não acho um Iphone melhor que o meu Xiaomi, mas essa é uma decisão pessoal minha, em termos de hardware pode ser uma coisa, em termos de software pode ser outra para alguém, então tudo depende da preferência das pessoas, das escolhas delas, e é assim que a fatia de mercado se divide entre as opções mais favoráveis dada uma alocação de recursos finita.

Um exemplo prático entre grandes empresas

Estou me preparando para escrever um livro sobre a Economia em Games, não só a história dos mesmos, mas uma perspectiva econômica nessa questão. E acabei lendo todas as edições da Revista Videogame (com fim em meados dos anos 90) e a Revista Ação Games com fim em meados dos anos 2000). Ambas foram revistas excelentes com muita informação do mercado externo (no Japão por exemplo), e quero tratar de um tema específico de competitividade do fim dos anos 90 até o começo dos anos 2000.

O primeiro ponto é que a guerra de consoles sempre existiu, mas irei tratar aqui apenas da guerra entre a Sony, Sega, Microsoft e Nintendo. Na geração de videogames 32 bits, houve uma luta acirrada entre a Sega com o x32 e o Sega Saturno, sendo que o último foi concorrente direto do PS1, em que dados de vendas no Japão no início de ambos nos anos 90 era relativamente acirrada inicialmente.

A Sega era antiga no mercado, produzindo o Master System, Mega Drive, Sega Genesis, Sega CD e etc, enquanto a Sony tinha tentando uma parceria com a Nintendo para fazer um “Nintendo CD”, mas eventualmente foi recusada e assim decidiu tocar ela mesma um projeto interno, que ficou conhecido como Playstation 1.

Embora inicialmente acirrada, o final foi devastador. Mais de 100 milhões de unidades para o PS1 contra menos de 10 milhões do Sega Saturn, e o interessante, é que em termos de hardware ambos eram similares em poder gráfico e memória, um melhor que o outro em diversos contextos. Porém, eventualmente os jogos de PS1 se tornaram muito melhores, e a luta foi sendo perdida não no console, mas nos jogos licenciados no mesmo.

É como um termo de Joel Ruzich da Microsoft (na Ed. 162. pg. 42 da “Ação Games), que disse no tempo de desenvolvimento do Xbox, que não adianta investir milhões no produto se o preço não for competitivo. Mas não só o preço, a utilidade percebida do produto também é importante, e no longo prazo, os exclusivos do PS1 estavam em outro nível.

A ascensão e queda do Dreamcast

É estranho como eu nunca tinha ouvido falar do Dreamcast quando novo. Na verdade, eu só ouvi falar até recentemente quando comecei a estudar mais sobre a história dos games, e até jogo Virtua Tennis,Grandia II e outros jogos do mesmo no emulador.

Bom, o Dreamcast era da Sega, e fazia parte da geração 128 Bits, jogos como Resident Evil: Code Veronica, Jet Set Radio e Skies of Arcadia são do mesmo. A potência gráfica do Dreamcast era ótima, assim como jogabilidade e acessórios, teoricamente, se só ele fosse lançado na era 128 seria um tremendo sucesso, afinal, era muito bom.

Porém, vieram concorrentes após seu lançamento, como o famoso Playstation 2, Gamecube da Nintendo e o Xbox da Microsoft que tinha acabado de entrar no mercado, sendo hoje o que é nesse nicho por conta do sucesso do primeiro. Entenda que o Dreamcast foi a maior falha da Sega (que por sinal, há muito é listada na Tokyo Stock Exchange como Sega Sammy Holdings Inc.).

Depois de perder a luta com o Sega Saturn (que por sinal, foi meu primeiro console) para o PS1 e Nintendo 64 (mais de 30 milhões de unidades vendidas), essa era a última aposta deles. Shenmue (estilo GTA no Japão com elementos RPG), Sonic Adventure e outros foram os exclusivos do mesmo, assim como Visual Novels que são vendidas até hoje, mas o ponto é que competir com os lançamentos da Sony, Microsoft e Nintendo foi devastador.

Em 31 de Março de 2001 o console deixou de ser fabricado, seu preço posteriormente após um tempo chegou mesmo a $80 dólares no Japão e $50 nos EUA (em que era $200 dólares originalmente). A Sega fez a escolha sábia de descontinuar a produção e isso até foi benéfico para ações da empresa (segundo a Ação Games nos seus últimos volumes). A mesma teve que gastar mais de $690 milhões de dólares para parar a produção do console, tendo que receber a doação do Chairman da empresa, Isao Okawa de $770 milhões (além do perdão de um crédito de $500 milhões).

Agora eles tinham que desovar o estoque, fizeram até promoções, edições de luxo, e até vários jogos foram lançados ainda, só para se desfazer do mesmo, e a Sega continuaria no mercado focando apenas em jogos, e existindo até hoje por conta dessa escolha, já que se tivesse persistindo no erro, acabaria indo a falência potencialmente. Para dar a magnitude do prejuízo, eles tiveram pelo menos $270 milhões de dólares de perda líquida naquela época. Assim, a estratégia da empresa seguiu em apenas desenvolver games para os que antes foram seus concorrentes.

A frase “o segredo está na lâmina, não na navalha” (numa entrevista citada pela Ação Games na Edição 163), é muito pertinente por parte de um dos líderes da empresa, visto que realmente, o Dreamcast se tornou uma lâmina sem corte, assim eles deveria a dispensar e se tornar a lâmina de seus concorrentes.

A Nintendo ficou para trás nessa geração

O PS2 da Sony vendeu 160 milhões de unidades, enquanto o Gamecube 21,74 milhões e o Xbox (novo no mercado) 24 milhões. Ou seja, a Nintendo perdeu não só para um concorrente recente (a Sony) como um recém nascido, mesmo o Resident Evil 4 que era para ser exclusivo do Gamecube foi obrigado a ir para outros consoles por razões óbvias de lucro futuro da venda dos jogos, que não iriam ser cobertas no Gamecube (eu mesmo na minha infância nunca vi um).

Eles viviam dizendo que eram superiores aos concorrentes, e eram sim em termos de hardware talvez, mas não em termos de repertórios de jogos, que é o que importa no final na decisão dos consumidores (que possuem renda finita para alocar seus recursos num premium como games).
Você vê como esse nicho foi desenvolvido por uma necessidade de sobrevivência? E em toda a história desse mercado, com grandes players de mercado participando (a Nintendo várias vezes foi uma das principais empresas do Japão na Bolsa japonesa), vemos como inovar e beneficiar os consumidores que dava a vantagem necessária para subir as vendas e ter um maior pedaço da torta do mercado.

Hoje temos os três colossos que continuaram existindo, a Sony, Nintendo e Microsoft nesse meio. A Google que é uma grande Big Tech obviamente, poderia ter mudado tudo com o Google Stadia, mas fracassou, se uma das maiores empresas do mundo no setor de tecnologia falham num nicho, vemos quão importante e relevante é o know-how das que permanecem.

Tudo que disse se aplica a n nichos de mercado. A concorrência nos leva a produtos melhores, e faz os “piores” saírem do mesmo (isso em alguns nichos é subjetivo, ou em todos talvez, vai do gosto das pessoas). Nos leva a preços menores também, por incrível que pareça, consoles e jogos originais sempre foram caros, literalmente sempre quando falamos de novos.

Creio que podemos aprender muito com tais exemplos, a competitividade é natural e barreiras inorgânicas na legislação não devem existir, impostos elevados e restrições e regras inúteis podem beneficiar apenas os Big Dogs da indústria, mas não os pequenos empresários e desenvolvedores de ideias.