De onde veio o tráfico no Brasil? (parte 2/2)
Breve análise sociológica do narcotráfico no Brasil.
No texto anterior, apontou-se sobre como, no Brasil, há uma cultura de ilegalidade paralela ao oficialismo. Desde os tempos da Colônia, valorizou-se ao mesmo tempo, o cargo público e as evasões da lei, com isso, temos a síntese do oficial corrupto em todos os órgãos públicos. Busca-se, agora, responder à seguinte questão: de onde veio o narcotráfico no Brasil? Como, no Brasil, a intervenção do Estado em todas as esferas econômicas possíveis foi a regra, o empresariado também é absorvido pela atividade do Estado, pois, para prosperar, ele só pode ou aceitar o que lhe é imposto, ou, então, buscar legislar a seu favor por meio da entrada na máquina pública. Historicamente, acompanhava isso as práticas de monopólio; exemplo era a prática do "atravessar", que consistia em um comerciante poderoso comprar antecipadamente toda a safra de um produto a um preço baixo e obrigarem os produtores a vender exclusivamente para si. De posse de todo o estoque, o "atravessador" impunha o preço que bem entendia aos compradores, inclusive estrangeiros, que não tinham outra opção senão aceitar as condições impostas. Esse "atravessar" era considerado um "estanque", algo que legalmente só os reis poderiam fazer. A atividade do Estado, todavia, não se alimenta sozinha, ela precisa de capital prévio; como, então, conseguir capital previamente? Um dos meios mais recorrentes foi o da ilegalidade, mercados clandestinos, o "tráfico". Mas houve no Brasil vários tráficos, o tráfico de "gentes", o contrabando de madeira, de vinhos, metais preciosos, o contrabando de mercadorias inglesas, francesas, etc., fora os mais diversos tipos de fraudes. Nesse sentido, o modelo econômico brasileiro sempre foi um modelo de concentração de rendas; a economia brasileira sempre dependeu da monocultura de exportação, primeiro do açúcar e depois, dominantemente, do café. Esse modelo reforçou o poder nas casas-grandes: uma pequena elite agrária e mercantil cujos interesses estavam intrinsecamente ligados ao poder político. Essa elite controlava a terra, o trabalho (primeiro escravo, depois dependente) e o acesso ao Estado, criando um sistema fechado e excludente. Uma ordem político-econômica de tamanha exclusão, sustentada por instituições formais que a elite manipulava a seu bel-prazer, era, na prática, impotente para regular a vida social cotidiana, o que exigia a existência de normas sociais igualmente excludentes, baseadas na violência e na coerção, paralelas à legalidade e ao estado formal, poder-se-ia dizer que eram Estados dentro de Estado. ## Brasil e o narcotráfico atual Para compreender a especificidade da manifestação do narcotráfico no Brasil, é crucial situar o fenômeno em seu contexto global e hemisférico. Tal como os ciclos do açúcar, do café e demais mercadorias, o problema do tráfico não surgiu simplesmente de uma dinâmica interna do Brasil, mas do Brasil em