Eficiência de capital
Uma empresa pode ter 100% de eficiência no retorno de investimentos?
No artigo anterior intitulado "O que seria o preço justo", falei sobre como na composição dos preços diversos elementos estão envovidos. Desde um vendedor marginal que busca sempre gerar lucro em suas transações ,fornecedores que buscam a mesma coisa, sistemas cíclicos de commodities colecionáveis onde a utilidade marginal e valor subjetivo reinam.
Porém, aqui vou um pouco além dessa questão. Agora quero falar sobre "eficiência de capital", que seria exatamente responder essa pergunta: "como alguém deve alocar seus recursos disponíveis visando a maior quantidade de lucro possível", e veremos como isso é simples de responder, mas complexo de se executar.
A gênese de um negócio
Porque pessoas abrem empresas? Podem haver n razões para isso, mas o ponto final para as mesmas serem bem sucedidas, é ter lucro. Como uma empresa pode ter lucro? Ela tem que ter vendas, com uma certa margem entre os custos e o preço final ao consumidor.
Mas talvez a razão central para alguém criar uma empresa, é realmente aplicar uma ideia que estava matutando na cabeça da pessoa, e colocar ela em prática. Quando um pessoa decide criar uma loja por exemplo, ela tem que ter um know-how mínimo de várias áreas. Ela tem que entender o básico do negócio em que ela atua, se tal pessoa ir para o ramo de café ou de chá, e nem saber ao menos uns 10 tipos diferentes de chá, se não souber o que é um chá de erva-cidreira, ou mesmo macchiato,frappé e panna no contexto do café, como essa pessoa pensa em abrir um negócio nesse setor?
Normalmente a ideia de lojas que alguém pode vir a ter, tem conexão com algo que alguém goste. Eu pessoalmente não sou um especialista em vinhos, eu realmente não sei nada sobre, deveria eu abrir uma adega ou uma distribuidora nesse setor? Com certeza não.
Porém, tenho me inteirado bastante no mercado de games recentemente (o qual gosto muito) e TCG, além do mercado de moedas e barros de ouro, prata paládio e etc. Não seria melhor eu abrir uma empresa num setor que eu devidamente conheço e posso fazer inferências que realmente podem criar valor na minha loja e para minha marca? Com certeza.
E essa ideia tem um caráter totalmente privado. E no geral todos os negócios realmente bem sucedidos numa economia desenvolvida, são de caráter privado. Qual Big Tech hoje em dia é uma empresa pública? Nenhuma. O governo não tem capacidade, nem se quisesse de superar a eficiência e know-how do ser privado que tende a ser descentralizado naturalmente.
O que é capital?
Usarei capital nesse momento para inferir a quantidade de recursos monetários do empreendedor, não no sentido real onde dinheiro com certeza não é capital, mas sim uma forma de armazenar e mover capital. Mises diz:
"Seria absolutamente impossível para o indivíduo, mesmo que fosse um especialista completo em assuntos comerciais, acompanhar todas as mudanças nas condições de mercado e fazer as correspondentes alterações em sua escala de valores de uso e de troca, a menos que escolhesse algum denominador comum ao qual pudesse reduzir cada taxa de câmbio" (Von Mises, Ludwig. The theory of money and credit. Ludwig von Mises Institute, 1953, pg. 48).
E ainda:
"Como o mercado permite que qualquer mercadoria seja transformada em dinheiro e o dinheiro em qualquer mercadoria, o valor de troca objetivo é expresso em termos de dinheiro. Assim, o dinheiro se torna um índice de preços, na expressão de Menger" (Von Mises, Ludwig. The theory of money and credit. Ludwig von Mises Institute, 1953, pg. 48).
Porque Mises (citando Menger) diz que o dinheiro seria como um índice de preços? Pois essa é a função da moeda, que originalmente tinha uma formatação de commodity, como cevada, trigo, sal, tabaco, algodão, milho e etc, todas que já foram usadas para a realização de transações em diversos momentos da história.
Então ok, podemos expressar demominações de preços em dinheiro, mas como podemos expressar a eficiência do uso do mesmo em investimentos e projetos? Simplesmente pela taxa de juros de retorno (segundo a linha de Rothbard), em que isso significa apenas a porcentagem de retorno de investimento, por sinal, mesmo a taxa de juros (se o banco central não existisse) é definida por essa métrica modulada pela preferência temporal das pessoas de dinheiro.
Capital e Liquidez
Qualquer coisa que crie valor na sua loja (nesse exemplo, mas pode ser em qualquer empresa ou setor). A estrutura dela em si já é capital na sua forma fixa, se você paga aluguel no estabelecimento, ainda é capital mas você o usa temporariamente, a loja é sua, mas alugada (assim como uma casa seria o mesmo príncipio).
Os equipamentos da sua loja, desde as gôndolas, onde os itens ficam dipostos na banca, tudo que é literalmente da empresa à parte da loja alugada é seu capital. Onde nós não devemos separar capital fixo do variável (como Marx faz no Das Kapital), pois mesmo capital fixo tem aspectos variáveis e apreciação (como na própria formatação de aluguéis).
O seu inventário é extremamente importante, e a liquidez do mesmo. Se você gastar demais em comprar itens de fornecedores que não convertam em vendas, você basicamente terá deadweight loss. E ter produtos criando teias nas prateleiras, nunca pode ser considerado algo benéficio. Então por liquidez, quero dizer a velocidade que você pode converter seu asset em dinheiro real, onde certos tipos de itens são mais líquidos do que outros nesse aspecto.
E compra de inventário (inventory allocation) é algo relativamente complexo, especialmente se você não ter know-how, você só vai cegamente comprar produtos do mesmo fornecedor à margens que não necessariamente são boas, e você não vai saber o que vende e o que não vende, pois além de estatística aqui, você precisa realmente conhecer o setor para ter essa informação, e não se ela fosse disponível na maioria dos casos. Conhecer como precificar um produto, depende no fim de conhecimento sobre o mercado em que ele se encontra.
Eficiência de Produção
"De acordo com a lei dos retornos, existe uma proporção ótima de fatores, dados outros fatores, na produção de qualquer produto. Essa proporção ótima pode ser a única na qual o bem pode ser produzido, ou pode ser uma entre muitas proporções" (Rothbard, Murray N. Man, economy, and state with power and market. Ludwig von Mises Institute, 2004, pg. 455).
O problema é encontrar essa tal proporção óptima. Quanto você deve produzir como produtor-fornecedor para ter o maior lucro possível? Depende, primeiro você tem que entender a demanda para tais produtos, o problema é que é impossível calcular demanda futura.
O que você pode fazer é tentar calcular uma demanda estimada, ou seja, e uma estimativa ilusória que tem uma base estatística é pode vir a ser um norte para você determinar quantas máquinas você deve comprar para produzir tanto para vender, e assim, se possível, vender tudo com a maior liquidez possível. Se um varejista vir à sua pequena indústria e comprar tudo, amém! Isso é uma coisa excelente, ter um contrato continuamente que permite compras periódicas, e mesmo o varejista compra visando atender uma demanda futura, que ele certamente desconhece, embora estima.
Rothbard continua dizendo:
"Todo capitalista tentará empregar um fator (ou melhor, o serviço de um fator) a um preço que seja pelo menos inferior ao seu produto de valor marginal descontado" (Rothbard, Murray N. Man, economy, and state with power and market. Ludwig von Mises Institute, 2004, pg. 456).
Esse tal produto de valor marginal descontado é uma margem do quanto ele pode vender sem afetar a demanda. Em que o autor exemplifica, que o que modula essa relação é a preferência temporal das pessoas, onde se a mesma mudar, a margem de valor, de preços possíveis do produto tendem a mudar também. Se eu produzir (oferta) mais café que minha demanda deseja no momento e assim vender acima do meu valor marginal descontado, eu terei prejuízo, meu erro foi um erro de cálculo da demanda futura, mas meus custos continuaram os mesmos, caso eu tivesse produzido menos, eu teria vendido o mesmo o tanto seu o custo adicional, essa é a relação importante aqui. Eu deveria ter diminuído meus fatores de produção, para ajustar a demanda esperada, embora seja apenas uma estimativa, no futuro terei que ser mais cuidadoso nisso, esse é o dever de todo bom capitalista.
No fim o empreendedor deseja que seu faturamento marginal seja igual a seu custo marginal, nunca ele vai ter isso com 100% de eficiência continuamente (afinal, sempre existe a possibilidade de estratégias que teriam sido superiores em dados momentos), mas a busca por balancear esses dois fatores, que dirá se o mesmo foi bem sucedido ou não realmente.
O que seria eficiência do emprego de capital?
É algo muito simples. Seria a capacidade de alguém converter seu capital de investimento na empresa visando obter a maior quantidade de lucro possível. Onde num mercado elástico, eu tenho que entender a qual margem eu devo adquirir certos itens e a qual eu posso vender, pois a liquidez deles vai mudar caso meus preços sejam mais altos do que os consumidores estariam dispostos a pagar (o que demanda um conhecimento amplo da perspectiva de consumdor nesse nicho).
Esqueça curvas de custo inúteis (seguindo Rothbard novamente nisso), esqueça dados estatísticos apenas e uma visão de budget allocation usando métodos markovianos (pois já vi pessoas usando Reinforcement Learning em IA para isso), o que você precisa saber, é que não é possível saber a demanda futura, mas é possível saber o que já funcionou, o que está funcionando (estatisticamente com dados da sua empresa) e depois (teoricamente) o que poderia vir a funcionar, o que demanda um conhecimento desse mercado, e o famoso "gut felling" que nada mais é do que a gênese de uma ideia inovadora.
O que torna essa ideia bem sucedida ou não é o retorno desse investimento (como já supracitado), especificamente, a taxa de juros de retorno do mesmo. O problema em questão é como obter mais eficiência no capital empregado, e novamente, isso é complexo, pois existem n estratégias que os agentes podem usar para minimizar seus custos e maximizar seus ganhos (o famoso teorema MinMax de Von Neumman), ganham aqueles que tomam as melhores escolhas para agradar seus clientes, porém o empreendedor não tem a capacidade de prever demanda futura e possíveis flutuações de mercado, no fim, é basicamente uma aposta, uma bem considerada e ponderada, mas ninguém realmente sabe para onde certos setores irão ir, por exemplo, quem pensava que o Bitcoin seria o que é de fato hoje, em 2011, a resposta: nenhum ser humano.
É impossível ter uma eficiência de 100% continuamente
Não. Isso é coisa de neoclássicos. Gosto dos gráficos deles, são realmente visualmente instrutivos, quem não gosta de ver uma curva de lucro óptimo? Todo mundo com certeza. Porém, não tem nenhuma utilidade para a vida real, visto que para obter eficiência do emprego de capital com esse fim, o que você precisa é conhecimento do mercado de atuação e adotar as melhores estratégias para isso, como fazer isso, depende muito do contexto, região (geograficamente), da cultura do local (não se vende porco na Turquia por uma razão) e etc.
Nenhum mercado do mundo tem eficiência de 100% em alocação dos recursos, e não é porque os caras da logística são imbecis, é simplesmente porque o ponto óptimo da curva de maximização de lucro, é no geral, inatingível, o que você pode fazer é melhorar a sua margem de erro, e até usar dados estatísticos para isso, mas no fim as inferências não dependem de funções de probabilidade bayesiana ou markoviana, mas do seu conhecimento, know-how (não quero soar como Hayek aqui nesse tema, mas acabou soando).
Então como alguém deve realizar isso? Qual é o segredo? A bala de prata? Não existe. O objetivo é bem claro, comprar apenas o que possivelmente irá vender e ter uma liquidez de 100% de eficiência, esse seria o objetivo teórico, mas na realidade, você sempre poderia ter estratégias melhores para realizar o mesmo fim, e vence o empreendedor, que aplica e executa as ideias e estratégias que chegam nesse fim, embora tudo no fim cai na mão de Deus:
"Atendei, agora, vós que dizeis: Hoje ou amanhã, iremos para a cidade tal, e lá passaremos um ano, e negociaremos, e teremos lucros.
¹⁴ Vós não sabeis o que sucederá amanhã. Que é a vossa vida? Sois, apenas, como neblina que aparece por instante e logo se dissipa" (Tiago 4:13-14).
Ninguém sabe às reviravoltas que podem ocorrer no mercado do nada que podem mudar tudo. O ponto central é que devemos focar na informação que temos em mãos agora, e praxeologicamente entender quais serão as possíveis mudanças do mercado pela lógica, embora essas são inferências que podem estar certas ou erradas, só o tempo no fim pode demonstrar se nossas escolhas como empreendedores (ou mesmo consumidores) foram corretas).
Estudo de Caso: QuickFlip Games
Hoje mesmo estava vendo um vídeo de uma loja dos EUA, chamada Quickflip Games. Ela só tem um mês de abertura, inicialmente focada em jogos, rapidamente modificou sua estrutura fazendo ajustes aqui e ali, e além de ter uma grande quantidade de vendas online na Amazon e agora no E-bay, eles expandiram o que antes era apenas online para uma loja física (um investimento com um custo considerável).
Expandiram o repertório deles para o mercado TCG, inicialmente em Pokémon, e talvez a coisa mais essencial e que tenho visto muito em lojistas desse setor, é que a loja (junto com a parte online) se torna uma forma eficiente de conseguir inventário.
O dono da loja em questão, dá bons argumentos de como eles conseguiram diversos itens de alto padrão seja localmente ou pelo site deles (chamado Quickflips), com pessoas enviando fitas de gameboy, jogos de wii, consoles e jogos raros para eles, sendo que passou de $3 milhões atualmente nessas compras até agora, em que o dono diz como o seu inventário se tornou muito mais amplo por conta disso, algo que alguém só online sem uma presença forte da marca não poderia executar tão bem.
O ponto é que muita pessoas nunca vão vender seus jogos, consoles e cartas no Ebay da vida às vezes, e assim como lojas de penhores, essa é uma forma de se livrar de algo que se tornou dispensável e conseguir um retorno em dinheiro vivo rapidamente (aumentando a liquidez da pessoa nisso). Para o lojista isso é muito benéfico, pois assim ele consegue negociar itens que podem ser alocados em seu inventário que talvez nunca fossem quotados em uma venda online local ou internacional, assim gerando um processo cíclico interno de vendas a eles, à parte do mercado externo (chamemos de C2B (Consumer to Business)).
Porém, mesmo com um know-how do que comprar e o que de fato vende (com alta liquidez), nem sempre alguém terá sucesso nessas escolhas. Super Nintendos vendem rapidamente, agora XBox 360s tendem a serem menos líquidos, vejo que o Gamecube e Nintendo 64 tendem a ter uma liquidez maior, o que mostra a preferência das pessoas em alguns itens de características retro.
Estudo de caso: Coin Shops
Lojas de moedas e barras de ouro e prata, por incrível que pareça, tem aspectos similares ao contexto de lojas de games retro. No sentido que ambas compram inventário de consumidores potenciais. Então uma Coin Shop compra barras de prata e ouro, além de moedas, normalmente à um valor descontado, visto que eles buscam aqui comprar para terem uma margem de lucro.
Porém esse valor é perto do Spot Price, que é o preço atual dessas commodities, obviamente o objetivo do dono loja é revender com uma margem de lucro, porém as flutuações dessas commodities no mercado cambial acaba mudando continuamente esses valores.
Moedas relativamente raras podem até possuir um premium acima do Spot Price, ainda sim, creio que o correto, seria compra a valores descontados, até porque muitas das vezes esse tal "premium" pode ser subjetivo. Então alguém pode dizer: "essa moeda de prata passou pelas mãos de Alexandre o Grande, enquanto ele fazia o discurso para seus soldados em Ópis", mas sinceramente, quem me provaria esse fato? Tem alguma passagem em Heródoto ou Tucídides sobre isso? Não. Alguma referência história? Não. Então esse premium não existe.
Dei um exemplo tryhard, mas alguém citar o premium nesse mercado demanda um bom know-how e no fim o que mais importa é o spot price. Alocar os recursos nesse mercado tende a ser muito "capital intensive", especialmente se você lida mais com ouro, onde uma onça estão valendo mais de $4.200 dólares atualmente, assim focar em prata sendo algo menos custoso ao alocar inventário.
E tudo que te vendem na loja, você só aceita se você ver possibilidade de venda líquida, e isso demanda (novamente) um bom know-how desse mercado, e não ser enganado só por uma nota alta na moeda em questão, mas sim pelo seu próprio conhecimento do setor, e como ele se provará óptimo? Pela sua taxa de juros de retorno de investimento nesse mercado. Nada mais.