EUA visam substituir China na liderança comercial com o Brasil e Trump cogita rever tarifas
Estados Unidos só estarão satisfeitos com um Brasil aliado.
O governo dos Estados Unidos quer tomar o lugar da China como principal parceiro comercial do Brasil. A declaração veio do secretário de Estado Marco Rubio neste sábado (25), durante voo entre Israel e Catar. "Achamos que, a longo prazo, é benéfico para o Brasil nos tornar seu parceiro de escolha e comércio, em vez da China", afirmou.
Rubio vê a influência chinesa no Brasil com grande preocupação, em livro seu de 2023, Decades of Decadence, o atual secretário de Estado chega a falar que a China "é o maior desafio deste século" e que, para combatê-la, alianças com Brasil, India, Taiwan e Japão serão importantes.
A fala de Rubio, portanto, expõe a disputa entre Washington e Pequim por influência econômica na América Latina. O anúncio ganha peso às vésperas do encontro entre o presidente norte-americano Donald Trump e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, marcado para este domingo (26) na Malásia, durante a Cúpula da Asean.
Pela primeira vez desde que impôs as tarifas de até 50% sobre produtos brasileiros em julho, Trump admitiu que pode reduzi-las. "Sob as circunstâncias certas, seguramente", disse o republicano a bordo do Air Force One. A Casa Branca divulgou o áudio da conversa, mas Trump não detalhou as condições.
Lula respondeu que nenhum dos dois lados apresentou exigências formais. "Vamos colocar na mesa os problemas e tentar encontrar uma solução. Pode ficar certo que vai ter uma solução", afirmou o petista, já em Kuala Lumpur. O presidente brasileiro disse estar aberto a discutir qualquer tema, sem vetos, mas reconheceu que o acordo pode exigir mais rodadas de negociação.
O Brasil busca a revogação do tarifaço, aplicado por razões políticas, e o fim das punições a autoridades brasileiras, incluindo ministros do Supremo Tribunal Federal e do Executivo. Trump e Lula se cumprimentaram de forma cordial em setembro, na Assembleia-Geral da ONU em Nova York, o que sinalizou uma reaproximação.
Segundo o ex-embaixador dos EUA no Brasil, Thomas Shannon, Trump abandonou a defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro. "Por que ele vai fracassar de novo quando já fracassou uma vez?", questionou Shannon em entrevista à BBC News Brasil. O diplomata disse que Trump reconheceu a impossibilidade de interferir no julgamento que levou à condenação de Bolsonaro por tentativa de golpe.
Shannon afirmou que o presidente norte-americano foi pressionado por empresários dos EUA contra as tarifas, que prejudicam tanto companhias quanto consumidores. "Ele sentiu que havia sido mal informado e decidiu corrigir o erro ao seu estilo", disse o ex-embaixador.
A mudança de postura revela cálculo político. Trump viu vantagem em trocar o conflito bilateral por uma narrativa de reconciliação. A reunião deste domingo poder marcar início de uma nova fase no diálogo comercial entre as duas maiores economias do continente americano.