Gamepass: Um modelo de negócio prestes a ruir?

Escrito por Aranea

O quanto a elasticidade de um mercado pode afetar uma empresa?

E3 Conferência

Recentemente houve um cancelamento massivo de assinaturas da Xbox Gamepass, que é um modelo de tipo uma netflix de games, que permite que alguém tenha acesso a centenas de títulos ao mesmo tempo.

Porém, esse é um mercado altamente elástico, onde o preço afeta a demanda. Essa elasticidade se demonstrou fatal para o aumento de preços de assinatura (sendo que concorrentes fizeram o mesmo) que começou anteriormente na Live do Xbox 360, evoluiu para o Gamepass, e é basicamente um modelo de fluxo de capital contínuo para a empresa, porém, o que acontece quando as pessoas decidem que ele não vale mais a pena?

Uma aquisição bilionária

Em Outubro de 2023 a Microsoft adquiriu as ações da Activision-Blizzard, algo que custou a eles mais de $75 bilhões de dólares, sendo que o repertório de ambas as empresas era gigantesco, era basicamente um gigante comprando mais um grande pedaço de torta do mercado.

Um dos motivos dessa grande aquisição foi associado ao próprio Gamepass. A Activision Blizzard por exemplo tem títulos em mãos como o Call of Duty (que é o maior FPS online atualmente com versões para console e mobile), Heartstone (que lembro que quando lançou foi uma febre), Spyro (do tempo do PS1), Diablo, World of Warcraft, Starcraft, Crash Bandicoot e etc, títulos que seriam muito bem vindos para o Gamepass seja do console e PC.

Vale lembrar que a Activision Blizzard nasceu em 2008 de uma fusão da Activision com a Vivendi Games,quem diria que um dia a mesma seria adquirida pela Microsoft? (que iniciou nesse mercado em 2001 com o Xbox original).

Um modelo de negócio genial

Eu lembro quando pequeno brevemente das locadoras, lembro também das famosas fitas cacete, até do dia que minha tia chegou de um dia chuvoso com uma do Rei Leão, realmente sempre foi bom ter acesso a assistir filmes quando você quisesse. O modelo de aluguel de filmes e jogos era bem simples, você pode levar a fita ou CD para casa por alguns dias pagando um certo valor e depois devolvendo a mesma.

Caso você não devolvesse você não poderia alugar mais fitas, logo, havia um incentivo para se devolver elas. Me lembro de passar muito tempo escolhendo filmes quando criança, a ideia é: "tem centenas aqui, mas qual de fato é vale a pena?".

Esse sentimento ainda existe, só que agora é fornecido num serviço de streaming, que não é diferente de alugar filmes ou jogos, só que a library deles é totalmente digital. E embora existam modelos mesmo no Prime Video e Youtube de você alugar um filme por um prazo, o que persiste é o de subscrição, onde alguém paga um valor para ter acesso a tudo, e temporalmente ter acesso a tudo que deseja assistir, certo?

Não exatamente, esse mercado se tornou inchado, quero dizer, altamente competitivo. Anos atrás só havia a Netflix, hoje temos Disney plus, HBO Max, Prime Video e etc, todos com catálogos com exclusivos e repertórios singulares em alguns pontos.

Tudo vai da preferência das pessoas no que assistir. Eu vi a série de filmes do Dirty Harry e James Bond inteira no Prime, algo que a Netflix nunca buscou ter, então existe sim a noção de curadoria do que deve estar nessas plataformas, além dos exclusivos criados pela própria plataforma.

O modelo do Gamepass

Tudo nesse mercado de streaming, é sobre curadoria e títulos exclusivos. Se você tem excelentes títulos que só você tem propriedade sobre, esse é um hedge nesse setor. No caso do Gamepass, eles também fizeram o que a Google não conseguiu com a tentativa fracassada deles de Console no Google Stadia.

Ele basicamente seria um console que permite acesso a clusters na nuvem (aluguel de servidor na prática) para alguém usar o hardware do servidores para jogar e não o do seu dispositivo, permitindo mesmo celulares rodar um Assassin's Creed Black Flag contanto que a internet fosse decente (o que temos relativamente no Brasil).

Foi um fiasco, mas a Microsoft que não é nenhum pouco fraca à google no setor de servidores na nuvem, fez a mesma coisa de forma bem sucedida, então eles com sucesso aplicaram a ideia de alguém usar servidores na nuvem para jogar jogos com uma taxa de quadros decente, contanto que você pague a subscrição deles.

Temos então a versão para Console, PC e Mobile sendo que pode ser usada a mesma assinatura. Agora, vamos para o repertório deles. Eu darei aqui uma visão da versão Ultimate do Gamepass de uma perspectiva pessoal. Alguns jogos me interessam, por exemplo: a trilogia de Dead Space, Mass Effect, a trilogia do Crysis, a série do Dragon Age, os títulos do Assassin's Creed (tem quase todos), os Call of Dutys com modo história, a série Farcry, A Way Out, Age of Empires, Ark Survival, Black (do Xbox Original), Diablo, Dishonored 2, a série do Doom, a triologia Fable, Fallout e etc.

Porém, isso na versão Ultimate do Gamepass, como disse antes, é um mercado elástico, de fato ter acesso a esses títulos me interessa pessoalmente, mas vale a pena o preço?

A elasticidade desse mercado

As versões Essential e Premium são inferiores, na segunda temos 200 jogos, na primeira apenas 50 (e a maioria ruim). Esse é um problema, mesmo na Ultimate vejo muitos jogos ruins que nem deveriam estar ali (a questão da curadoria), e na Essential é pior, tem até um Halo e Hellblade, e outros jogos que você zera uma vez e nunca acessa mais, é realmente horrível.

Então a única coisa que realmente presta no longo prazo, são os modelos com mais jogos, com maior repertório, mas o preço atualmente de uma Ultimate é R$ 119,00 por mês, o que é simplesmente abominável (mais de R$ 1.000 reais por ano). Primeiro que, você não aluga todos os jogos de uma vez, você aluga o acesso a jogos que você quer dessa biblioteca, o seu uso marginal associado a subscrição depende, vamos supor que você jogue 2 horas por dia (bastante para a maioria), 5 dias da semana, vamos arredondar para em média umas 50-60 horas por mês, sendo que você passa o maior tempo em títulos online, vale a pena pagar o preço de um console por ano para isso?

Sendo que uma hora você se cansa da biblioteca, assim como nas opções da Playstation plus na biblioteca deles, tem uma hora que você luta para achar bons títulos, ou melhor, aqueles que você realmente quer jogar, pois a curadoria deles não necessariamente atende suas preferências, mas você continua pagando. E se uma alta de preço ocorre, chega a crise existencial: "para quê eu pago isso mesmo?".

Títulos que poderiam estar no Gamepass mas não estão

Um ponto que deve ser levantado, é que não é de graça uma plataforma de streaming ter títulos na mesma, ela tem que pagar uma licença continuamente para realizar isso. Que pode ser anulada a qualquer momento no fim de um período contratual. Eu me lembro de várias vezes assistir Ratatouille na Netflix, mas obviamente todos esses títulos da Disney migraram para a Disney plus, e a netflix ficou a ver navios pois certos títulos do passado da Disney, são cíclicos, as pessoas assistem várias vezes (como Rei Leão).

Eu já assisti Breaking Bad várias vezes, na netflix, estão títulos cíclicos são sensacionais para a plataforma, porém, manter eles pode ser relativamente custoso. Então a ideia é criar os próprios títulos, aí você não paga licença, porém, se eles forem ruins e o concorrente faz séries e filmes exclusivos melhores que atendem o público em geral, elas migram para outra plataforma, então a competição nesse mercado são em grande parte os exclusivos atualmente e parceiras com empresas que possuem um repertório grande de biblioteca (como uma Paramount plus da vida no Prime Video).

Porém, porque simplesemte a Microsoft não coloca títulos como Parasite Eve I e II no Gamepass? Porque eles não colocam Dino Crisis I e II (o III não pois é horrendo, como o novo Call of Duty Black Ops por exemplo, mesma razão), Prince of Persia: Two Thrones, Darkwatch e outro títulos antigos que dão além de uma nostalgia, títulos que já passaram pelo teste do tempo e com certeza as pessoas gostariam de ter na plataforma? Depende, pode ser um problema de licença e custo benefício de ter títulos com esse custo na plataforma, ou porque eles acham que jogos antigos não valem tanto a pena e sim novos.

Essa é uma mentalidade ruim, eu tinha ela no passado, mas vejo que se um jogo de fato é bom, mesmo novos jogadores que não tiveram acesso a eles anteriormente vão ter interesse em jogar, e isso poderia aumentar o repertório da Ps Plus e do Gamepass, ambos que tem muitos títulos fracos na plataforma e poucos jogos clássicos do passado que deveriam estar ali de todo o jeito.

Realmente compensa?

Depende. Vai da preferência da pessoa em relação ao custo-benefício de se pagar um console por ano para ter acesso a esses jogos. É um fato que o modelo da Microsoft recente tem sido com o foco apenas no Gamepass como o futuro dos consoles (ou até excluir no futuro o console e ter só ele), porém, é um fato que por mais que seja um modelo genial inicialmente, ele tende a defasar com o tempo, é assim com o netflix, prime, todas essas plataformas, uma hora você não acessa elas mais com tanta frequência, uma hora os títulos ali não são tão atraentes, e simplesmente é aí que compensa mais comprar um Nintendo Switch desbloqueado do que assinar a Gamepass (não que eu recomende).

A Steam oferece um serviço muito superior, o console deles chamado Steam Deck (um portátil), mesmo custando o preço de uma geladeira, tende a ser uma opção melhor, onde você tem que pagar pelos jogos individualmente, mas o repertório deles é muito maior do que o da Microsoft, o que nos pode fazer pensar sobre o impacto do console que eles pretendem lançar no futuro dado que o Steam Deck foi um sucesso.

O ponto Central

Empresas como a Microsoft, Sony e Amazon estão deitando e rolando no mercado de streaming ou games já há um tempo. Vemos com a Nintendo que tende a cobrar preços altos nos seus jogos, mas é um premium por ter acesso a jogos exclusivos deles, que nem para PC você poderia encontrar.

Não quero dizer aqui que o modelo de streaming, de subscrição para library de jogos ou mesmo o serviço da Amazon Kindle Unlimited da mesma ideia aplicada nos livros seria um modelo que vai ruir no futuro, pelo contrário é um que é realmente o presente e o futuro.

Porém, é um fato no contexto do mercado de games, que mesmo que haja um certo monopólio do mercado de algum punhado de empresas, você alterar preços sem um motivo claro (e mesmo que ele exista) muito acima da inflação, é uma receita para o desastre. A elasticidade te punirá muito nesse mercado, um que é muito atrelado à mídia, é óbvio que a Microsoft vai perder bastante dinheiro nesse processo de até os sites ficarem congestionados de tantos cancelamentos, talvez o problema não seja o modelo em si, mas sim a estratégia da Microsoft em o administrar, num mercado elástico devemos sempre entender que mudar preços pode afetar tanto nossa demanda, ao ponto de gerar não só uma queda de faturamento, mas o fim de toda uma estratégia de mercado.