Ineficiência de Produção
É impossível prever a demanda futura, como então a indústria lida com isso?
Falamos anteriormente sobre ineficiência de capital, que está mais conectado a estratégias de investimentos de empresários, em que o objetivo geral é converter eles em uma taxa de juros de retorno futura positiva.
O foco desse artigo agora, é falar sobre quais são as causas da ineficiência na produção em si. Já disse Rothbard e diversos autores que o "fim da produção é o consumo", mas tem toda uma cadeia de produção e transporte que permite que os produtos cheguem às prateleiras do mercado, e delas até a nossa geladeira, veremos como a produção é complexa, e deadweight loss algo natural.
A impossibilidade do cálculo econômico
É uma fato que é impossível calcular a demanda futura, também é impossível saber se novas linhas de produtos de qualquer setor serão um sucesso imediato. Não podemos prever o comportamento das pessoas (embora Skinner queria isso com Reinforcement Learning, mas Chomsky destruiu essa ideia), o que podemos é tentar entender um mercado a tal ponto, que é possível conhecer o perfil do consumidor, mesmo num setor nichado, ao ponto que é possível entender o que os consumidores desejam, mas esse não é o fim da história.
Pois depois é necessário produzir industrialmente esses produtos (sendo eles físicos nesse exemplo, não digitais), além do custo de produção temos o custo de inventário, de transporte e distribuição, que pode ser tanto feito pela própria empresa (a Nintendo por exemplo domina todos esses canais, embora use terceiros também) ou por terceiros (a Square Enix em alguns jogos é distribuidora, mas não produtora), mas o ponto central é que entender o quanto é necessário produzir para a maior curva de lucro possível, é realmente complexo.
É impossível criar um algoritmo que te diga o quanto você deve produzir temporalmente com os fatores de produção atuais (a uma certa eficiência limite) tais produtos dando uma certeza que todos irão ser vendidos, é claro que você pode usar estatística do que vende e o que não vende da sua própria empresa, isso para produtos já há um certo tempo do mercado, se for um totalmente novo ou uma linha nova da empresa, você não tem esses dados, e os consumidores podem acabar ignorando seu produto nas prateleiras, e mesmo com um bom marketing, não significa que o produto ou linha irá continuar sendo considerada pelos consumidores no médio-longo prazo.
Não é um questão de capacidade computacional, é uma questão de falta de informação. A economia é um sistema de informação imperfeita, não que a informação em si seja imperfeita, mas a que nós temos do mercado. É claro que alguém inteligente no tema, pode fazer boas inferências sobre o mercado e tomar decisõs inteligentes, e assim gerar lucro de ideias bem sucedidas, mas esse know-how é uma informação e forma de usar ela num ambiente onde você não pode prever o futuro, cheio de incertezas.
Então porque Warren Buffet e Charles Munger deram tão certo nisso no mercado de ações e aquisições de empresas? Porque eles usavam seu próprio conhecimento e dados financeiros das empresas para avaliar a probabilidade do sucesso futuro delas, não usavam equações probabilísticas, não viam covariantes entre as ações e similaridade algorítimica. Apenas praxeologicamente analisam o portifólio de mercado dessas empresas, analisando as informações relevantes de mercado, é isso que empresas de Private Equity fazem, alguém poderia dizer que um sistema computacional poderia fazer o mesmo, mas com certeza não em alocação de recursos num cálculo econômico, visto que toda a informação na economia se torna confusa e perene, como Mises diz em "Economic Calculation in the Socialist Commonwealth".
Então como se faz isso?
Ok, é impossível prever demanda futura. Além de ser um mercado de informação imperfeita e de muitas incertezas. Um ambiente não controlável, onde tem elementos que são imprevisíveis, e são importantes e afetam o sucesso de suas escolhas. Mas sim, tem uma forma de lidar com isso.
A resposta é muito simples. Alguém deve em sua logística e produção, seguindo a Lei de Say, criar a demanda. Como se cria a demanda segundo a Lei de Say? Através da oferta. Você acha que existia demanda por refrigerantes antes de 1886 na Jacobs' Pharmacy? Ninguém estava pensando neles, não existiam na mente de consumidores, ninguém sabia se exatamente iria dar certo, mas provavelmente achavam o gosto interessante e se tem um grupo de pessoas que gosta de um drink, outras provavelmente irão gostar também.
Estava vendo um corte do 50 cent falando sobre sua empresa de garrafas de água. Ele diz no corte de como ele estava andando num mercado vendo vários tipos de marcas de água, e decidiu do nada fazer uma empresa nesse tema, a mesma se chamou Vitaminwater, e naturalmente ele usou sua influência no mercado de rap para gerar um belo marketing, no fim ele vende a empresa para Coca-Cola por $4.1 bilhões de dólares (seria possível escrever um livro só das aquisições da Coca-Cola, a lista é massiva).
E ela ainda vende, e parece que o marketing além de atender o mercado fitness não saiu da linha do hip-hop totalmente (dica: cuidado ao abandonar sua proposta de empresa original). Então primeiro alguém deve identificar oportunidades de mercado, criar a demanda através da oferta e ir modelando o negócio e otimizando ele continuamente e se diferenciando do mercado de forma escalável.
O problema mais difícil
O quanto você deve produzir mensalmente, seazonalmente e anualmente de n produtos para atender sua demanda? Essa é a pergunta de um milhão de dólares, e eu não sei a responder. O interessante é ao gerar a oferta, buscar ao máximo testar sua demanda e ver a aderência, pois se você produzir (normalmente se terceira a produção inicialmente) demais, vai ter produto parado no seu inventário, se for drinks ou alimentos é pior, porque o shelf-life é baixo, então o correto é ir testando e ver o que tem demanda, você não sabe a demanda futura, mas ao menos pode testar qual é a demanda presente, e assim ir vendo que quotas de produção são eficientes em otimizar o lucro, terceirazar transporte e logística inicialmente também pode ser eficiente, e depois se tudo der certo ao longo dos anos escalar fazendo isso internamente (depender de terceiros para sempre, não é bom).
É claro que muitos produtos tendem a vencer, isso não só do lado do produtos, mas também do atacadista e varejista. Esse é um problema crônica de erros em alocação de recursos, você pode aproximizar soluções que te façam perder menos lucro, mas produzindo menos ou mais você pode perder lucro por não produzir o suficiente para atender sua demanda, ou produzir demais acima da demanda e assim ter produto parado no inventário (tendo o custo de produção operacional e de inventário em mente te atacando).
O problema mais profundo
Outro problema está totalmente fora de seu controle. Eu não falei ainda sobre matéria prima, mas vamos supor que você tenha um custo médio de aquisição dela, tarifas internacionais e impostos nacionais de importação pode afetar o seu setor, na pior das hipóteses, fazer o lucro se tornar impossível.
Pois se você já luta para manter uma margem decente lidando com juros e dívidas, demissões de funcionários, problemas de gerência e administração e etc, impostos e restrições da legislação que afetam seu negócio podem fazer ele se tornar inviável, de um lado essa empresa poderá ir a falência, do outro os consumidores não terão acesso a esses produtos do perfil dessa empresa que pode ser um diferencial de mercado com menores preços.
Mesmo estatistas não deveriam permitir isso, visto que essas empresas pagam impostos e mantém o país de pé, afinal, o que será da economia sem empresários? Voltaríamos a uma economia pré-malthusiana de plantio doméstico. Então esses impostos e restrições pode vir a serem a adaga de prata no coração da indústria, e nesse momento, não importa mais seu conhecimento, know-how, estratégias, capital disponível, linhas de crédito e parters de mercado, dependendo da legislação adotada, sua empresa estará condenada ao fracasso, não importa quão inteligente no tema você for, nunca poderá resolver um problema crônico impossível de lidar.
Alguns resolvem o problema através de contrabando, o que alguns podem chamar de uma forma de contra-economia (como era usada nás "vésperas" da Revolução Americana). Porém, seria melhor tirar essas restrições ao ponto do contrabando se tornar inútil, pois ninguém toma risco de ser preso e ter milhares de dólares em mercadoria confiscados, caso o custo-benefício dessa ação seja irracional. A legislação tem que mudar, para uma perspectiva mais libertária, mais liberal (no sentido de Mises é claro), no sentido que ela deve ser mais racional, e entender que ela de fato afeta o mercado, é um fato que o primeiro passo que um empreendor deve fazer antes de iniciar em qualquer mercado ao redor do mundo, é ver é consultar com um especialista, o quanto a legislação o irá afetar, e assim calcular se vale a pena mesmo (a Nintendo por exemplo, dropou o Brasil por essa razão, caso contrário talvez eu teria consertado a tela do meu Wii U localmente anos atrás, quem sabe).