Influenciadores e sua sombra

Escrito por Mateus Tibúrcio

A ascensão dos influenciadores e o declínio das elites tradicionais no Brasil digital.

Ilustração de Debret. Família brasileira no Rio de Janeiro.

Os influenciadores são uma classe difícil de entender. Eles surgiram nos anos 2010 como entidades por vezes de difícil compreensão. O início dos anos 2020, com seus lockdowns pertinentes ao COVID-19, só galvanizaram a força destas entidades. Os motivos pelos quais eles crescem é arcano. A a maneira de funcionamento dos algoritmos é obscura e chegou a uma complexidade grande o suficiente para não ser compreendida pelas respectivas empresas. Inúmeros resultados são contraintuivos, como é o caso da força absurda ganha pelos sedevacantistas no YouTube. Inúmeros jogadores e grupos de interesse estão envolvidos. Há uma miríade de conexões subterrâneas. O início da internet era um ambiente propício para a formação de amizades próximas que, em muitos casos, permaneceram até hoje e geraram grupos de poder virtual, como pequenas ou grandes teias. Pessoas fortes ajudam os de situação difícil. Os aflitos são consolados por desconhecidos. Os envolvidos muitas vezes formaram laços difíceis de quebrar, e os que conseguiram ganhar poder naquele momento acabaram segurando o que tinham.

Ninguém entende a evolução da internet sem o conceito de philia. As várias bolhas criadas têm relações entre si que podem ser melhor descritas como uma forma de amor que se aproxima da amizade. Inúmeros favores foram trocados entre os membros de tais grupos, e até mesmo muitas famílias foram formadas. Um assunto é pouco claro. Muitos dos pioneiros da internet cresceram na vida, e o seu papel atual é obscuro. Não sabemos direito onde podem estar e como manipulam o funcionamento do meio em que se encontram. É um império das sombras. Em qualquer era de desordem, as articulações mais profundas da sociedade civil ganham de facto um aspecto de sinistro bem desagradável.

Ao mesmo tempo, muitos países são governados por desconhecidos. A elite burocrática dos diversos países é enigmática. A maioria dos deputados são eleitos de forma enigmática, sem que ninguém entenda muito bem como chegaram ao poder. Muitos cresceram de forma ambígua e têm pouca relação com a população em geral. A via prussiana foi o modo primário de crescimento da classe política, mas as redes sociais inverteram o fenômeno. Ela há de ser superada. Elas já provaram sua capacidade de depôr um governo, como é o caso do Nepal, derrubado por servidores de Discord cheios de fãs de One Piece que associavam os Tenryuubito aos comunistas locais. A Primavera Árabe é uma instância notável de manipulação dos movimentos em massa das redes sociais por forças obscuras de fins nebulosos, com consequências catastróficas. O resultado da brincadeira foi um conjunto de guerras civis. Em alguns casos, como o do Egito, houve a volta de uma ditadura militar. Já a Síria hoje é dominada por um terrorista egresso da al-Qaeda, sob a bênção do Ocidente.

A derrubada de Dilma Rousseff é um fenômeno inimaginável sem a figura desta classe ambígua, em especial de Olavo de Carvalho, que conseguiu suscitar um movimento gigantesco capaz de vencer por um breve período um partido até então inexpugnável. A eleição de Jair Bolsonaro, quase desprovida de recursos na mídia convencional, foi uma prova do poder de um conjunto de figuras aclamadas por multidões sem sair de casa. Logo surgiu um caminho alternativo à compra de votos para crescer. Ser um influenciador poderoso é algo capaz de levar alguém à classe política de modo mais fácil que os velhos sistemas de compra de voto, cheios de mapas mnemônicos capazes de desafiar Giordano Bruno.

No caso do Brasil, canalhas logo usaram a técnica de um modo particularmente doentio: O fomento das apostas por meio de propaganda enganosa. É preciso que se diga algo: grande parte dos influenciadores de primeiro escalão são gente desprovida de mérito. Virgínia Fonseca não tem mérito nenhum na sua vida e não tem nenhuma capacidade notável, porém é capaz de gerar discussões no país inteiro com eventos triviais da sua vida estranha de artificialidade vazia. É uma figura de nível mimético baixo. Pessoas sem relevância t têm vidas que geram interesse por meio de uma cadeia causal desconhecida.

A imprensa “tradicional” decai cada dia mais. O seu nível despenca. O conteúdo exibido perdeu seu brilho. A criatividade já deixou tais paragens. Quase todos os jornais antigos já perderam suas edições impressas, e tiveram de concorrer diretamente com contrapartes online às vezes muito superiores. A Netflix e seus análogos estão em processo de desbancar as várias estações de televisão. A Globo só se mantém pelos consultórios médicos e salões de beleza, com farto apoio estatal correspondente.

A política local sofre de um problema: As lideranças todas são velhas demais. Mais do que em outros países, estamos em uma gerontocracia. Lula, Dilma, Bolsonaro, FHC, Temer e Sarney já passaram da terceira idade. As próximas gerações de sucessores são uma incógnita. Ninguém sabe bem como a paisagem futura irá se parecer, mas é provável que os oligarcas não deixem herdeiros à sua altura. As várias alianças provavelmente não serão mantidas. Os antigos elos da corrupção da philia que reúne os maus dificilmente permanecerão. Os filhos de oligarcas são mal educados, burros e isolados dos seus pares. É seguro dizer que seu futuro será sombrio após a morte dos seus pais. Serão presa fácil para o futuro, e a classe dos influenciadores é quem mais tem o poder de agregar pessoas no maior poder capaz de manobrar as pessoas.

Até mesmo as religiões passam a ser dependentes da nova classe. O catolicismo reergueu-se no Brasil em parte pela ação de tais figuras, e em menor grau o mesmo ocorre em vários países do globo. Em terras tupiniquins, a fragilidade de tudo tornou a internet um poder hipertrofiado, contudo o fenômeno torna-se mais e mais onipresente no mundo. A fraqueza do clero torna muitos influenciadores os professores de religião, e eles acabam realizando o papel de catequistas ao insuflar em outros uma fé vicária. Conversão é uma experiência profunda, e o converso sempre coloca a alma nas mãos do confessor que lhe foi testemunha. A tendência é a um conjunto de idiossincrasias em cada neófito, todas provenientes das várias personalidades comunicantes da verdade religiosa, real ou putativa. É difícil romper com as amarras da experiência de introdução à vida espiritual.

Qual foi a ultima ratio para todos os detentores do poder? Recrutar a nova casta de algum modo. O decadente Vasco da Gama, em processo de declínio, recrutou o YouTuber Felipe Neto, porém este não foi capaz de segurar o domínio no meio dos cartolas. No entanto, é fato que tal eAstranha figura foi capaz de levar novos torcedores a uma instituição em triste declínio, da qual este que escreve é torcedor e apoiador, por sinal.

O infame Lula também recrutou o referido ente para sua campanha abominável em 2022, e o mencionado reuniu uma network de influencers de esquerda capazes de tornar o jovem um dos pilares principais de força de um partido até então destruído comandado por um velho alcoólatra saído de um presídio. O novo pilar da esquerda nacional foi uma juventude avacalhada pela imbecilidade de figuras desprovidas de valor, sem nenhum conhecimento e de total falta de virtudes. Um exemplo áureo, ou melhor, plúmbeo, é o YouTuber PC Siqueira, mestre de quase todos os seus continuadores. Envolvido em inúmeros problemas com drogas e relacionamentos, acabou por cometer suicídio. Houve inclusive um áudio mal esclarecido no qual ele era acusado de fazer insinuações sinistras envolvendo crianças. Era um caso de indivíduo grotesco que teve um papel desproporcional na influência dos criadores de conteúdo. Muitos do alto escalão desta classe tinham alguma relação com este corno vesgo, o que nos leva a pensar na índole moral dos detentores do poder digital. Mesmo a televisão já tentou incorporar alguém assim, por exemplo, no programa O Aprendiz.

O caso Felca é dramático. As acusações lançadas pelo influenciador paranaense eram justas, pois inúmeros outros ícones agem como corruptores da infância. A solução proposta por ele foi a criação de uma lei de monitoramento total dos usuários da internet que logo adquiriu tração instantânea a ponto de criar uma lei perigosa capaz de gerar um maior controle de discurso. Pouco depois, ele acabou com um quadro no Fantástico da Globo, o que foi amplamente considerado uma venda de primogenitura da parte de alguém até pouco tempo anti-establishment. A capacidade de cooptação do beautiful people nunca deve ser desconsiderada, ainda mais em um país de pessoas de mente fraca. É tudo pior na classe alta local, de notória instabilidade. A falta de força interior sempre torna a fama uma transição brutal demais, mesmo em alguém bem-intencionado. O ímpeto de conciliação com os grandes é um comportamento difícil de exorcizar em uma pessoa comum, ainda que sob boa vontade, o que parece aqui ser o caso.

Felipe Neto também começou como politicamente incorreto antes de se voltar para o woke e a sex-lib. A diferença entre o rapaz de óculos escuros do Não Faz Sentido e o moleque colorido está sobre um abismo ambíguo talvez melhor explicado por tendências arcanas da personalidade de uma forma mentis incompreensível. A vulgaridade é facilmente atraída por uma esquerda cada vez ligada à pauta sexual contra a antiga base econômica.

A tendência é que as redes sociais tornem-se uma maneira de afirmar o poder. Inúmeras estratégias podem ser adotadas para reunir pessoas. Um número de seguidores passa a ser um dado real no curriculum vitae de alguém, e após uma determinada quantidade de pessoas, alguém ganha uma capacidade ilimitada de ganhar dinheiro ou mesmo de fazer circular idéias. As pessoas a cada dia têm menor conhecimento de fisiognomonia, e são mais capazes de aceitar a influência de pessoas claramente malignas. Não se reconhece mais pela cara de alguém se existe uma suspeita visível de perigo. Só um idiota poderia acreditar que Virgínia Fonseca ganhou uma fortuna no Tigrinho, e a crença no algoritmo virtual de um jogo de azar é uma prova inconteste do emburrecimento da população. Todas as estatísticas comprovam a correlação entre o declínio do QI e a exposição a tecnologias geradoras da preguiça. Só um país idiota em mundo emburrecido poderia considerar a Boca Rosa uma figura capaz de mover corações. Gente de baixíssimo nível geral passou a moldar as vidas de milhões de pessoas pelo mundo, em especial neste país condenado que parece ser condenado ao exílio da história.

Poucos políticos conseguem se manter no poder sem algum grau de engajamento virtual. Se não for este o caso, a consequência é uma incapacidade de se comunicar com o povo em larga escala. O influenciador revela-se uma figura mercurial capaz de percorrer em vários meios, às vezes como mercenário, comprando e vendendo seu apoio a quem pagar mais. Tal poder é altamente corruptor para todos os envolvidos. Inúmeras eleições foram vencidas pela manipulação do marketing digital e pelo recrutamento en masse de influencers. Até um pleito local pode ser decidido por meio de um fluxo de dinheiro para os “famosos” locais. Qualquer prefeito precisa bajular as mocinhas blogueiras de cada cidade. Se não o fizer, terá problemas. O que segura a velha classe é o seu domínio da zona rural, às vezes dominada por caudilhos cruéis, a cada dia mais próximos a serem suplantados pelo crime, a única outra classe cujo poder cresce aqui. Os bandidos são os novos power brokers capazes de rivalizar com os influenciadores, e eles são um coringa capaz de anular o esforço digital. Em certos lugares do Brasil, surgiu uma aliança entre as organizações criminosas e o estamento burocrático local. Certos lugares do Nordeste são exemplos sinistros. De fato, a força amorfa da figura do influenciador às vezes parece um mal menor diante do antigo estado de coisas posterior à Constituição de 1988, que paradoxalmente hipertrofiou o poder das elites mais toscas. Talvez o influenciador seja algo muito próximo do ladrão, ou um dos seus rivais pelo controle da sociedade. Para o bem ou para o mal, tal arranjo veio para ficar. Resta-nos sentar e meditar quanto ao que vemos no mundo. Resta-nos às vezes apenas entender o que acontece. A outra coisa é rezar…