Inteligência americana alerta para invasão chinesa em Taiwan

Escrito por Vitor Gomes Calado

Inteligência dos EUA alerta para expansão de frota chinesa com fins militares

Um navio de carga é visto próximo a um novo tipo de doca especializada para desembarque no sul da China. (Fonte: US Naval War College/Maxar Technologies)

Um documento confidencial da Agência de Inteligência de Defesa dos Estados Unidos revela que a China desenvolve uma estratégia que combina operações civis e militares para ampliar sua capacidade de invasão anfíbia. O relatório, preparado para o Pentágono neste ano e obtido pela emissora australiana ABC, mostra que Pequim constrói mais de 70 grandes embarcações comerciais do tipo roll-on/roll-off até o fim de 2026.

Essas balsas comerciais transportam centenas de passageiros e veículos. A estrutura permite que cargas pesadas entrem e saiam diretamente por rampas. Segundo o documento, as modificações nos navios incluem portas reforçadas para o transporte de tanques e blindados.

A aliança de inteligência Five Eyes, que reúne Estados Unidos, Reino Unido, Canadá, Austrália e Nova Zelândia, monitorou cerca de 30 dessas balsas em exercícios do Exército de Libertação Popular em 2022. Taiwan confirmou que vê os navios como parte das "intenções expansionistas" da China.

Imagens de satélite captadas durante o ano revelam três novas classes de docas de desembarque em construção. Essas estruturas flutuantes variam entre 110 e 185 metros de comprimento e funcionam como portos móveis. A tecnologia permite que as balsas descarreguem tropas e equipamentos diretamente em praias.

Thomas Shugart, pesquisador do Centro para uma Nova Segurança Americana, descreve as docas e balsas como "conjuntos combinados", projetados para atuar de forma integrada. Análises de patentes chinesas realizadas pela Escola de Guerra Naval dos EUA mostram que as docas podem se conectar e formar um píer de 820 metros.

As imagens de satélite identificaram as estruturas em testes no mar próximo a Zhanjiang, cidade que abriga o Comando do Teatro Sul do Exército de Libertação Popular, responsável pelas operações direcionadas a Taiwan.

O Colégio de Guerra Naval dos EUA constatou que as docas foram desenhadas especificamente para uso com as balsas chinesas. Os comprimentos e as posições das portas de carga coincidem de forma precisa.

A primeira evidência do uso militar dessas embarcações surgiu em 2019, quando a balsa Bang Chui Dao, com 15 mil toneladas, participou de um exercício de assalto anfíbio. Desde então, vídeos de propaganda do governo chinês mostram as balsas em treinamentos militares.

"A inserção direta de tropas em conflito é um ato beligerante reservado a navios de guerra, mas o Exército de Libertação Popular pretende usar embarcações roll-on/roll-off comerciais (que não são navios de guerra) para esse fim", afirma documento interno do Comando Indo-Pacífico dos Estados Unidos.

O Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais aponta que a China produzirá 76 grandes balsas entre 2023 e 2026. Esse número representa 40% de toda a produção comercial de balsas do país no período, incluindo as destinadas à exportação.

A escala da produção preocupa o Pentágono. O relatório de inteligência classifica as balsas comerciais como alvos militares em um cenário de conflito com a China. Na prática, isso significa que as forças americanas poderiam atacar e afundar os navios durante uma crise no Estreito de Taiwan, mesmo com tripulações civis a bordo.

China se pronunciou acerca disso

Douglas Hsu, principal representante de Taiwan na Austrália, afirma que a ilha enfrenta táticas crescentes de zona cinzenta. "Vemos ataques cibernéticos e embarcações civis ou outras instalações de uso duplo no domínio marítimo como parte da estratégia da China", declarou.

Hu Bo, diretor do Centro de Estudos de Estratégia Marítima da Universidade de Pequim, contesta a avaliação americana e a define como uma "ameaça nua" à China. "É senso comum que a China se prepara para uma crise em Taiwan. Isso não significa que a China fará algo rapidamente no futuro. Preparação não é o mesmo que intenção", afirmou à ABC.

Para Pequim, Taiwan é território chinês, e qualquer esforço militar para retomar a ilha constitui um "ato legítimo de reunificação". Um documento oficial chinês declara: "O Estado jamais permitirá que forças separatistas da 'independência de Taiwan' façam Taiwan se separar da China sob qualquer nome ou por qualquer meio."

A comunidade de inteligência americana acredita que Xi Jinping ordenou ao Exército de Libertação Popular que esteja pronto para invadir Taiwan até 2027. A capacidade de deslocar grandes contingentes de soldados e material para praias representava um dos maiores obstáculos para essa meta; obstáculo que as novas docas de desembarque e a frota expandida de balsas comerciais começam a superar.