Líder da oposição venezuelana exige saída de Maduro do poder

Escrito por Vitor Gomes Calado

"Com ou sem negociação, ele vai deixar o poder", disse vencedora do Nobel.

Maria Corina Machado, imagem ilustrativa

María Corina Machado, ganhadora do Prêmio Nobel da Paz de 2025, declarou em entrevista à agência France-Presse que o presidente venezuelano Nicolás Maduro deixará o poder. A líder da oposição, de 58 anos, vive na clandestinidade há mais de um ano e ofereceu garantias ao atual governo para facilitar uma transição pacífica.

"Maduro tem a chance de fazer uma transição pacífica. Com ou sem negociação, ele vai deixar o poder", afirmou Machado. A política disse estar pronta para oferecer garantias ao presidente e outros membros do governo, mas manteve os detalhes em sigilo até que as negociações comecem.

A oposição venezuelana contesta os resultados das eleições presidenciais de julho de 2024, quando o Conselho Nacional Eleitoral declarou Maduro vencedor sem apresentar dados detalhados. A alegação foi de que houve ataques aos sistemas de informática. Machado e seus aliados apresentaram contagem própria que apontaria fraude no processo.

O Nobel da Paz entregue na semana passada representou, segundo Machado, um "golpe fatal" para o governo. Ela considera que o prêmio demonstra reconhecimento internacional da vitória da oposição nas urnas. "O mundo todo sabe que eles foram derrotados. Mostramos nosso triunfo", disse.

A líder oposicionista não pôde concorrer às eleições depois que as autoridades barraram sua candidatura. Em seu lugar, entrou o diplomata Edmundo González Urrutia, que hoje vive exilado na Espanha. Machado se tornou porta-voz da campanha e hoje afirma que ele a convidou para ser vice-presidente.

Nos últimos meses, a tensão entre Venezuela e Estados Unidos aumentou. O presidente Donald Trump acusa Maduro de controlar cartéis de drogas e usar o narcotráfico como arma contra os americanos. Em agosto, Washington enviou ao menos oito navios de guerra para a costa venezuelana e aeronaves militares para Porto Rico. Fontes do governo americano indicam que ataques em território venezuelano podem acontecer em breve.

Machado dedicou o prêmio Nobel ao povo venezuelano e também a Trump. Ela justificou a homenagem ao presidente dos Estados Unidos como reconhecimento pela formação de uma coalizão internacional em apoio à causa democrática. "Temos grande respeito e comunicação contínua" com Washington e outros governos, afirmou.

A premiação gerou reações do governo Maduro. Caracas fechou sua embaixada em Oslo, além das representações na Austrália, e abriu novas sedes diplomáticas no Zimbábue e Burkina Faso. A decisão foi apresentada como reestruturação do serviço diplomático, mas observadores a interpretam como resposta ao Nobel.

Machado também estendeu as garantias aos militares e funcionários públicos que facilitem a mudança de governo. "Todos temos um papel a cumprir, civis e militares", declarou. Ela não especificou se espera uma revolta das forças armadas, mas disse que qualquer ação que respeite o resultado que a oposição reivindica será "restauração da Constituição".

A líder oposicionista acusa o governo de corrupção e repressão. Segundo ela, há recursos para reprimir manifestantes, mas faltam verbas para remédios, educação, serviços públicos e aposentados. "Esta é a maior pilhagem da história da humanidade", criticou.

Chamada de "La Libertadora" por apoiadores, Machado aparece em público sem aviso prévio, faz discursos em caçambas de caminhões e foge de moto. Ela conta os dias para o fim do governo atual. "Não conto os dias na clandestinidade, mas os que faltam, porque não tenho dúvida de que estamos em contagem regressiva", concluiu.