Lula e Trump conversam sobre tarifas e retomam diálogo bilateral

Escrito por Vitor Gomes Calado

Por fim, Marco Rubio foi designado para negociar com Alckmin e Haddad.

Donald Trump e Lula. Imagem ilustrativa

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump realizaram nesta segunda-feira, 6 de outubro, uma videoconferência de 30 minutos para discutir a crise comercial entre Brasil e Estados Unidos. A conversa marca uma tentativa de retomar o diálogo após meses de tensão provocada pelas tarifas de 50% impostas pela Casa Branca a produtos brasileiros.

Durante o contato, mantido em sigilo pelos dois governos, Lula solicitou a retirada da sobretaxa de 40% aplicada aos produtos nacionais e das restrições contra autoridades brasileiras. O presidente brasileiro destacou que o país é um dos três membros do G20 com quem os Estados Unidos mantêm superávit comercial em bens e serviços.

Trump designou o secretário de Estado Marco Rubio para negociar com o vice-presidente Geraldo Alckmin, o chanceler Mauro Vieira e o ministro da Fazenda Fernando Haddad. Os dois líderes trocaram telefones diretos e acordaram um encontro presencial em breve.

Possível reunião na Malásia

Lula sugeriu três opções para o encontro: a cúpula da Asean na Malásia no fim de outubro, a COP30 em Belém ou uma viagem aos Estados Unidos. Auxiliares do presidente brasileiro defenderam que o primeiro contato ocorresse de forma virtual, em ambiente controlado, antes de uma aproximação presencial.

O ministro Fernando Haddad, que participou da videoconferência, classificou a conversa como "positiva" do ponto de vista econômico. Além dele, estiveram presentes o vice-presidente Alckmin, os ministros Mauro Vieira e Sidônio Palmeira, e o assessor especial Celso Amorim.

As tarifas de 50% sobre produtos brasileiros entraram em vigor em agosto e atingem café, carnes, castanhas, máquinas, equipamentos e calçados. A medida veio após a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado, aliado político de Trump.

O governo brasileiro lançou um plano de socorro para empresas afetadas, que inclui linhas de crédito, diferimento de tributos e flexibilização de compras públicas. Além das tarifas comerciais, os Estados Unidos aplicaram sanções contra cidadãos brasileiros, entre eles o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, sua esposa e a empresa de ambos.

O diálogo desta segunda-feira foi possível após um encontro rápido entre os dois presidentes durante a Assembleia Geral da ONU em setembro. Na ocasião, Trump afirmou ter tido "química excelente" com Lula e chamou o brasileiro de "um cara legal".

Lula descreveu o contato como uma chance de restaurar as relações entre as duas maiores democracias do Ocidente, que mantêm laços diplomáticos há 201 anos. O governo brasileiro enxerga na conversa uma oportunidade de reafirmar princípios de soberania e reciprocidade, recusando imposições unilaterais.

Breve análise

A expectativa geral é que o canal diplomático seja reaberto e que as negociações avancem para encerrar o impasse comercial que prejudica empresas e exportadores brasileiros.

Todavia, com a designação do chefe da política externa dos EUA, Marco Rubio, como negociador, uma conjectura realista deve ser colocada: não se espera, dada a pessoa de Rubio e sua revolta com Cuba e o PT, que os EUA façam qualquer concessão ao Brasil. Desse modo, caso seja necessário que o encontro "dê em alguma coisa" das negociações com o Secretário de Estado, a única conjectura possível seria uma conclusão unilateral ao governo americano e prejudicial ao governo de Lula. Desde o início das tarifas, a única conjectura válida é um "perde-perde" para o governo brasileiro, o temor é que, para aliviar suas perdas, os governantes joguem tudo ao povo do Brasil.