Misinterpretações do Mercado

Escrito por Aranea

Interpretar mal o mercado pode custar milhões de dólares, destruir em empresas e criar novos Impérios

Time da Nintendo

Existe um grande problema quando uma grande empresa, por mais que entenda seu próprio mercado, interprete mal os elementos econômicos e de competitividade em volta de si. Quando isso acontece, temos uma possível falha, um conjunto de erros que pode atrapalhar ela negativamente no futuro.

Por isso é necessário fazer interpretações corretas em relação a que tipo de características colocar em um novo produto, qual realmente não tem possibilidade de dar certo, e assim guiar a empresa num sentido mais próspero no longo prazo.

O objetivo deste artigo é demonstrar que os erros na interpretação do mercado, podem levar a prejuízos ou mesmo a danos irreversíveis a uma empresa, ou investidores.

Um exemplo esdrúxulo

Vou começar com um exemplo fictício que representa bem situações na vida real. Lendo o manhua chamado “Medical Return” Yu-In e Yeon Jae-joong sobre medicina, o protagonista meio que volta no tempo em sua vida e a revive como um neurocirurgião mantendo todo o seu conhecimento médico da vida passada. E tem um parte interessante sobre o desenvolvimento de um novo remédio para uma empresa chamada Mine Bio

O primeiro problema é quando o protagonista, Kim Jihyun, é escalado para fazer um estágio nessa empresa de biotecnologia. Pensam que ele é apenas um novato no segundo ano das matérias eletivas, mas no fim ele prova que o investimento da empresa num projeto de criar um kit de teste para demonstrar que tipo anemia um paciente tinha, era inútil.

Porque era muito complexo criar um que funcionasse dado o preço que iria ficar
Testes de sangue como o Serum ferritin test (para saber o quanto de ferro há no seu corpo) já eram eficientes e tinham menos custo do que tal dispositivo
Um Kit para classificar todos os tipos de anemia seria impraticável em custo benefício mesmo se funcionasse

Existem vários tipos de anemia, as de deficiência de ferro no corpo, de vitamina B12, as associadas a algum tipo de doença ou infecção (Anemia de Doença Crônica), anemia aplástica causada por um erro de produção de células sanguíneas nos ossos, entre outros tipos. O ponto é que o protagonista provou que naquele momento, a empresa não deveria colocar tempo e recursos num produto que claramente iria fracassar.

Porém muitas não aprendem com os erros, focar em características falhas num projeto e persistir nelas continuamente é uma falha do ponto de vista de planejamento que só pode levar ao fracasso. É óbvio que é fácil ver as coisas depois que ocorreram, o difícil é ver as falhas a priori, no momento atual do mercado, e assim interpretar o que deve ser feito.

Um erro particular num mercado particular

“As ações de compradores e vendedores no mercado podem estar relacionadas aos conceitos de receita psíquica, lucro e custo. Lembremos que o objetivo de cada agente é alcançar a maior receita psíquica possível e, portanto, obter o maior lucro psíquico em comparação com sua melhor alternativa seguinte — o custo” (Rothbard, Murray N. Man, economy, and state with power and market. Ludwig von Mises Institute, 2004,pg. 135).

Custo é algo primordial em qualquer empreendimento, e a coisa mais óbvia é que deve haver uma relação de retornos sobre o capital investindo em quaisquer projetos. O exemplo que quero citar é da Nintendo, de uma fala de Hiroshi Imanishi da Nintendo, preservada na Edição 24 da Revista Edge, que diz:

"Sony e a Matsushita colocaram terceiros para começar a produzir seus jogos antes de lançar seu hardware -- essas companhias até ajudam alguns terceiros financeiramente. Isso é absurdo. A Sony fez mais de 200 contratos com terceiros pelo tempo que o Playstation será lançado. Se o hardware não for bom e não vender, o que acontecerá com os desenvolvedores? É muito arriscado” (Edge, Edição 24, pg. 91).

Hiroshi era PR Manager (gerente de relações públicas) da Nintendo até então, e muito dessa entrevista nos mostra porque o Nintendo 64 perdeu para o PS1 (32.93 milhões de unidades vendidas contra 102 milhões do PS1). Primeiro que nessa e nas entrevistas com Peter Main e Shigeru Miyamoto, eles demonstraram que não ligavam muito para a concorrência, o Hiroshi chega a dizer nessa entrevista que eles não tinham uma real concorrência (especialmente no Japão), ele de fato via a Sega como um grande player de mercado, mas nada mais.

Eles até respeitavam a Sony, mas não viam o mesmo como um concorrente à altura. Eles decidiram usar cartuchos como estratégia de hedge contra o uso de CD-Rom que estava no seu começo, e de fato tinha problemas (ainda tem, com leitores quebrando no longo prazo, meu PS1 slim queimou assim quando era criança), só que CDs eram mais baratos que cartuchos, e poderiam armazenar mais megas de informação dos games, o problema era a velocidade de processamento dado o uso de CD vs. cartucho, que na época tinha uma paridade diferente.

Outro grande erro citado nessa entrevista como um hedge da Nintendo, foi não permitir terceiros trabalhando com seu hardware desde o começo, o que foi a estratégia da Sony no PS1, até barateando em 12 mil libras o preço do sistema de debugging (o famoso PS1 azul para teste) e todo o aparato para fazer os jogos, além do uso do Geometry Transformation Engine (GTE) que foi fundamental no hardware do PS1 em questão cálculos de otimização de polígonos.

No fim, somente 380 jogos foram lançados para Nintendo 64, enquanto mais de 3500 para o PS1, e muitos jogos bons é claro, não foi de nenhuma forma uma perda de qualidade.

A Sony interpretou muito melhor o mercado

Meu ponto central é esse: “A Sony entendeu muito melhor como aproveitar a tecnologia da época para ter os melhores resultados em execução”. O 3DO principalmente, tinha um hardware considerado superior na época pela maioria ao do PS1, com a versão do 3DO M2 mais ainda. Porém era apenas isso, hardware sem uma plataforma, um software que fosse fácil de lidar para programadores.
Vejo nessa época uma briga muito forte de programadores em querer usar assembly ao invés de C, visto que o primeiro é mais perto que linguagem de máquina (é uma linguagem de baixo nível), programar nele dá mais eficiência computacional. Isso é verdade, mas sinceramente, programar no assembly é o inferno, interpretar assembly já é difícil, eu só usei pessoalmente para payloads quando estudava cibersegurança, é um mausoléu comparado a C (eu sou geração que começou com python, embora aprendi basic no ensino médio).

O PS1 decidiu fazer sua plataforma para compilar em C, o que facilitou a vida de programadores (e ainda hoje ela aloca memória muito bem, não como assembly é claro, mas estamos falando de uma linguagem mais fácil em questão de produtividade). Alguns jogos da época usavam C no geral e assembly em partes que demandam mais capacidade computacional (mesmo no Nintendo 64 com MIPS Assembly), mas é um fato que o PS1 era mais fácil de programar.

A Sony fez a coisa certo em beneficiar seus desenvolvedores (licensees), vale lembrar que os mesmos produzem jogos para um console na forma de uma licença, porém, um estúdio tem que alocar corretamente para quais plataformas ele deve criar jogos, onde esse número de projetos para cada uma é finito naturalmente. Muitos queriam focar no 3DO, por conta de pensarem que seu hardware era o futuro, mas no fim, o mesmo flopou. É claro que a Sony corria riscos, ela não quis criar um colosso em hardware na época, mas apenas um produto bom, fácil de programar, e developer friendly, essa estratégia de mercado se provou avassaladora.

O erro fatal

Talvez, o erro mais fatal da Nintendo na época, é que eles tinham o queijo e a faca na mão para serem mais competitivos com a Sony. Mas primeiro, eles subestimaram seu novo concorrente (que por sinal tentou criar um SNES CD antes para a Nintendo, e foi recusada eventualmente), segundo, eles pensavam que seu repertório com títulos como Zelda, Mario, Donkey Kong e etc seria o suficiente para ter um hedge (embora Zelda Ocarina of Time foi o melhor jogo que joguei na vida).

Terceiro, eles consideraram que cartuchos deviam continuar sendo usados por eles, sendo que em questões de qualidade gráfica, o PS1 era superior mesmo usando CDs. Isso aliado a eles fecharem o desenvolvimento de jogos para um repertório de desenvolvedores maior, foi o erro fatal da Nintendo, eles tinham tempo para mudar o hardware e não fizeram, e mesmo no Gamecube cometeram erros similares, mas o estrago já tinha sido feito antes, se eles tivessem derrotado a Sony no PS1, talvez as coisas teriam sido diferentes.