Monopólio de Demanda

Escrito por Aranea

Realmente cartéis poderiam criar de forma eficiente um monopólio de demanda?

Laboratório de produção

Já ficou claro em outros artigos desta série, sobre como o monopólio inorgânico tende a ser criado pelo Estado, dando vantagens para players de mercado que agem conforme seus próprios interesses, ou mesmo criando empresas estatais que controlam parte de um setor totalmente (como o de água, energia etc), tendo assim uma administração ineficiente.

Porém, monopólios possuem diversas facetas, elementos monopolistas podem ocorrer de n formas diferentes. O foco deste artigo será explorar como monopólios inorgânicos afetam a economia negativamente, e como os orgânicos não necessariamente são ruins.

Preliminares

Num sistema socialista (como uma USSR da vida) o Estado se torna o supremo monopolista. Assim eles controlam todas as empresas do país e o quanto cada uma delas irá produzir de n commodities (arroz, trigo, cevada, petróleo, gás natural e etc) hierarquicamente. Além disso, eles controlam a distribuição, transporte e lojas que vendem esses produtos, por mais que a demanda sejam as preferências de pessoas em relação ao que querem consumir, nesse sistema o Estado limita o escopo do que as pessoas podem ter, e assim temos um controle sobre a demanda potencial (o que pessoas podem vir a consumir).

A curva de relação preços assim não existe, pois a oferta e demanda são controladas no sistema socialista, por isso a USSR foi obrigada a usar preços do exterior para usar como base no seu indíce interno de preços, pois a preferência temporal das pessoas não tomava partido na economia, poderiamos chamar isso de "restringir a ação humana" (o que diz muito deste regime).

Numa ERE (Evenly Rotating Economy) onde as preferências das pessoas não mudam, o monopólio da oferta simplesmente não faz sentido, pois a diferença entre relações de preços não existem. Não existe noção de elasticidade de um produto numa ERE, ou mesmo inelasticidade, todos os produtos são produzidos (a oferta) de tal forma que atendem a curva de demanda de forma perfeita, logo, restringir a oferta não faz sentido, pois você não teria benefícios disso nem motivação visto que todos os agentes numa ERE não mudam suas preferências, isso significa que empresas não teriam incentivo a faturar mais que o ponto óptimo entre o faturamento marginal e o custo marginal (ao ponto que Mises diz que numa ERE, o significa do dinheiro deixaria de existir por conta disso, óbvio que a mesma é impossível de existir, mas é boa de usar como exemplo).

O exemplo de Mises

“Preços de monopólio só podem surgir de um monopólio de oferta. Um monopólio de demanda não gera uma situação de mercado diferente daquela sob demanda não monopolizada. O comprador monopolista - seja ele um indivíduo ou um grupo de indivíduos agindo em conjunto - não pode obter um ganho específico correspondente aos ganhos de monopólio dos vendedores monopolistas” (Mises, Ludwig von. Human action. Ludwig von Mises Institute, 1949, pg. 380).

Mises demonstra que uma constrição na oferta de um bem (como commodities) cria obviamente uma diferenciação nos preços, do que quando temos um mercado competitivo, onde diversos players de mercado competem entre si para ter um maior market share do nicho que atuam. O governo também pode criar elementos de constrição na oferta, como de colocar quotas máximas de exportação (para não permitir uma empresa vender tudo que produziu para o exterior sem se preocupar com o mercado nacional) e tarifas de importação de matéria prima, o que aumenta os custos de produção.

Mas o que seria monopolizar a demanda? Seria alguém que tem produtos sem substitutos no mercado (inelásticos), que poderia cobrar valores quaisquer aos seus consumidores. É claro que se os produtos forem de caráter elástico, o preço cobrado pode afetar a curva de demanda, fazendo a empresa vender menos. Se os produtos forem de caráter inelástico (como no setor farmacêutico que pela propriedade intelectual da fórmula do remédio pode impedir outras empresas de o produzir) a mesma pode mudar sua curva de demanda através do preço monopolista (que fica a critério da mesma, sem itens competindo com ela para afunilar o preço).

Num monopsônio, temos apenas um comprador (B2B, Business to Business), podendo pela demanda que o mesmo requer nos contratos de compra de n produtos dessas m empresas, mudar a projeção de oferta delas, afinal, elas só irão produzir caso a mesma compre seus produtos, logo, os calendários de mercado (market schedules) da mesma regularização a tensão entre investimento das empresas em fatores de produção, ou seja, produzir seus produtos.

E isso obviamente muda os preços de mercado, pois é uma relação que muda a oferta arbitrariamente, de acordo com o tamanho dos contratos realizados pelo único comprador.

Porém, isso tende a ser algo criado pelo governo

Num livre mercado essa estrutura não funciona, mesmo se existissem cartéis que buscassem controlar a oferta (e assim o preço) como compradores, ao fazer reuniões (ao estilo Death Note no Terceiro Kira) para determinar o tamanho de seus contratos em quantidade comprada de n fornecedores, embora eles poderiam aumentar o preço dos produtos assim (pois eles estão literalmente controlando a oferta através da demanda), isso não os beneficia.

Pois pense comigo, como eles fariam isso por algum tempo sem alterar negativamente seu lucro futuro? Pois por mais que haja barreiras de entrada em n mercados internacionais, é impossível alguém (no momento ao menos), fazer um cartel que junte todos os players de mercado, e mesmo que fosse possível, essa relação não seria necessariamente lucrativa para todos continuamente.

Se eu dominasse a OPEC à partir de hoje por exemplo e dissesse: “à partir de hoje, buscar aumentar o preço de barris de petróleo para 95.13 USD/Bbl ao invés do 56.13 USD/Bbl atual restringindo a oferta do mesmo” (não vendendo parte do mesmo para manipular o preço), seria um cartel de controle da oferta, mas agentes externos (num livre mercado) poderiam gerar flutuações de preços que vão minar nosso objetivo, pois outro cartel do mesmo nível poderia querer fazer a mesma coisa, e logo teríamos talvez até 3 cartéis nesse setor lutando entre si, no fim vira uma competitividade entre cartéis e a manipulação do preço pode ser minada (embora esse seja apenas um exemplo).

Mises faz a proposição de que são as restrições de governos que tendem criar controle da oferta, onde o monopólio de demanda por parte de empresas privadas, não as beneficia num mercado competitivo, apenas quando elas possuem vantagens que outras empresas não possuem, essas dadas pelo governo (como uma concessão que tal empresa grande pague menos impostos na importação de produtos que o resto, e assim por diante).

Cartéis não funcionam no longo prazo

No exemplo de Mises, proprietários tendo uma quantidade de oferta (a) menor que outra com uma oferta menor (b) de outros, decidem formar um cartel para restringir a oferta de (a) (pode ser petróleo, gás natural, qualquer coisa). É uma verdade pela lei da utilidade marginal, que restringir a oferta irá aumentar os preços, se o produto for inelástico (onde preço não afeta a demanda), eles podem ter vantagem ao realizar essa ação.

Porém se os proprietários da oferta (b) decidirem fazer a mesma coisa, teremos uma luta entre ambos nessa manipulação do preço, poderíamos até adicionar um outro cartel com uma oferta (c) fazendo a mesma coisa, logo teríamos um mercado competitivo entre grandes players de mercado, o que limita a manipulação pela retenção da oferta.

Monopólios sempre são de oferta

“Se os proprietários de a (ou b) forem, ao mesmo tempo, os empreendedores que realizam o processamento de m, seu cartel assume a aparência externa de um monopólio da demanda. Mas essa união pessoal, que combina duas funções catalíticas distintas, não altera a questão essencial; o que está em jogo é a resolução das relações entre dois grupos de vendedores monopolistas” (Mises, Ludwig von. Human action. Ludwig von Mises Institute, 1949, pg. 381).

O ponto central é que os preços monopolistas surgem apenas duma restrição de oferta, e num ambiente de liberdade econômica, onde restrições inúteis e até imorais do ponto de vista de direito natural do povo de empreender o monopólio inorgânico é desconsiderado, pois um cartel não tem o poder de maximizar o lucro das empresas continuamente, por mais que hajam barreiras de entrada, e visto que sem os limites do abuso de propriedade intelectual e restrições que impedem novos competidores, a tendência é que haja uma competitividade que só permita monopólios orgânicos (que no fim são criados pelos próprios consumidores, gostando dos produtos da empresa).

Isso até pode confundir nossa mente, pelo fato de que um monopólio de demanda nem faz sentido em termos. Se tiramos o foco da oferta o próprio termo desaparece, criando apenas confusão e dor de cabeça. É claro que para itens inelásticos, mesmo num Duopólio de Bertrand, eventualmente outras empresas (sem restrições e barreiras legais) entrariam nesse mercado e se tornaria um competitivo.

Não importa quanto seu produto é diferente, para a maioria existem alternativas, é claro que existem remédios que são fabricados apenas por uma empresa (e aprovados legalmente) como o Ozempic da Novo Nordisk. Existem n compradores do produto na forma B2B para vender em B2C para consumidores, vamos supor que uma empresa A fosse a única que tivesse direito de os vender na Ruritânia (um exemplo hipotético), a Novo Nordisk quer vender para outras, mas as leis do país impedem, logo, temos um monopólio de demanda, mas criado de forma estatal, inorgânica.

Num livre–mercado, esse controle por cartéis seria muito complexo de manter num mercado competitivo, outros cartéis lutando entre si no fim gerariam um mercado competitivo de grupos de grandes players de mercado, logo isso se tornaria inútil e os mesmos não veriam benefícios de agir como cartéis, mas apenas buscando seus próprios interesses, poderia maximizar seu lucro ser conseguir vantagens através de restrições criados pelo Estado.

Assim:

"Nosso exemplo se encaixa, mutatis mutandis, no caso em que a e b podem ser empregados para fins diferentes da produção de m, desde que esses outros empregos produzam retornos menores" (Mises, Ludwig von. Human action. Ludwig von Mises Institute, 1949, pg. 381).

E se dão retornos menores nessa luta entre cartéis (pela disfunção de preços criada por ambos), logo não faz sentido os suster por muito tempo, afinal, o objetivo de qualquer pequena--média--grande empresa é o lucro, e num Livre Mercado, os Cartéis tendem no geral a ter retornos diminuintes eventualmente.