Nova Geopolítica: tensões, guerras e Brasil

Escrito por Vitor Gomes Calado

Marco Rubio redefine geopolítica americana, pressionando Europa e focando na rivalidade com China, Brasil no meio de tudo.

Novo padrão geopolítico põe em cheque integridade do Brasil: ficarão do lado de quem? China ou EUA?

Este texto fornece análise geral das notícias que se passaram nos últimos dias.

O mundo assiste a um reordenamento geopolítico truculento, onde o foco americano migra da Europa para a competição tecnológica com a China, exigindo que antigos aliados assumam a própria defesa e redefinindo a própria natureza do poder militar global.

Esta mudança estratégica, articulada pelo Secretário de Estado Marco Rubio, ataca diretamente as «décadas de decadência» que, segundo ele, enfraqueceram os Estados Unidos. Rubio, uma figura proeminente da nova direita americana, redefine a política externa criticando o consenso pós-Guerra Fria. Ele crê que as elites americanas falharam ao abraçar a noção do «fim da história», de Francis Fukuyama, após a queda da União Soviética, o que levou à subestimação da competição entre nações e da persistência da vontade de poder.

O Secretário de Estado ataca o neoliberalismo e o globalismo, acusando as elites de ingenuidade e arrogância. Elas pensaram que o comércio sozinho traria democracia a regimes autoritários, resultando em ameaças à segurança nacional, desindustrialização e erosão da autoestima americana. Rubio vê a ascensão da China como «ameaça mais grave» e «desafio fundamental deste século», ele culpa as decisões ruins dos EUA, como a entrada da China na OMC em 2001 e denuncia a perigosa dependência americana da China crescente em suprimentos vitais, como semicondutores e medicamentos. Isso explica os a pressa de Trump em interferir em assuntos com empresas como Nvidia e Intel.

O Retorno da História no Fronte Oriental

O «retorno da história», descrito por Rubio, manifesta-se de forma mais perigosa na Europa Oriental, onde a Rússia age agressivamente. Ele vê a invasão da Ucrânia como o «capítulo de abertura do retorno à história», é chegada a nova era de competição. A Rússia, sob Vladimir Putin, busca reconstituir seu império e expandir o arsenal nuclear, é este o sentido de toda a guerra na Ucrânia.

A tensão Rússia-OTAN escala rapidamente. Nesta semana, a Polônia, membro da OTAN, ativou aeronaves militares nacionais e aliadas em seu espaço aéreo no início de um sábado, após a Rússia lançar um dos maiores ataques aéreos contra a Ucrânia. Bombardeios russos atingiram regiões próximas à fronteira polonesa. Sistemas de defesa antiaérea e reconhecimento por radar atingiram o máximo estado de prontidão. A mobilização de caças ocorreu de forma preventiva, durando cerca de duas horas.

Além disso, caças MiG-31 russos violaram o espaço aéreo da Estônia por 12 minutos, um incidente que Tallin classificou como «incursão sem precedentes». Caças F-35 italianos, juntamente com aeronaves suecas e finlandesas, responderam à violação. A Estônia solicitou consultas sob o Artigo 4 da OTAN. Moscou nega as acusações, mas a OTAN descreve o comportamento russo como «absolutamente perigoso».

Para reforçar as defesas da aliança, o Departamento de Estado americano aprovou a possível venda de sistemas de mísseis Javelin à Polônia, avaliados em US$780 milhões.

Pressão Americana sobre a Europa

Apesar de aprovar vendas defensivas pontuais, Washington sinaliza uma postura de endurecimento em relação à Europa. A política americana atual é a de que os aliados devem aumentar seus gastos militares. O governo americano implementa restrições na exportação de equipamentos militares e prioriza o fortalecimento das defesas domésticas dos EUA.

O Pentágono bloqueou negociações de venda de mísseis Patriots para a Dinamarca, já que considera estes sistemas escassos e necessários nos Estados Unidos. O vice-secretário adjunto de Defesa, Elbridge Colby, questiona o valor de certas vendas militares para o exterior.

Funcionários do Departamento de Defesa informaram diplomatas europeus sobre planos para reduzir o apoio militar aos países bálticos (Letônia, Lituânia e Estônia), nações que fazem fronteira com a Rússia. O porta-voz do Pentágono, David Baker, comunica que a Europa deve reduzir sua dependência dos EUA, já que Washington direcionará sua atenção para outras prioridades, incluindo a defesa nacional.

Rubio exige que os aliados europeus assumam maior responsabilidade com seus orçamentos militares. Essa pressão libera os EUA para focar na China e nas alianças estratégicas na Ásia e nas Américas. Diplomatas europeus temem que essa redução no apoio americano encoraje ações mais agressivas de Putin.

Por Que os EUA Exigem que a Europa Pague Sua Própria Defesa?

A era da complacência europeia acabou. Com foco nas ameaças globais, os Estados Unidos exigem que seus aliados suportem os custos de sua defesa, isso expõe décadas de dependência e baixo investimento.

Marco Rubio, em seu livro contendo seu projeto de política externa, afirma que os aliados europeus «devem assumir mais responsabilidade por sua segurança», sob o motivo de que essa mudança permitiria que os EUA foquem na ameaça da China Comunista no Indo-Pacífico e que a Europa lidere o combate à agressão de Putin.

A guerra na Ucrânia força a Europa a reconhecer a realidade. A invasão deve fazer países europeus entenderem que não vivem em utopia pós-conflito; A União Europeia precisa manter essa percepção mesmo se Putin perder, os EUA assim direcionam recursos contra Pequim nos anos futuros.

O Custo da «Carona» Europeia

Para além das exigências de Rubio, Alex Carp, coautor de The Technological Republic, ressalta Europa se beneficiou de enorme investimento americano em segurança, cerca de US$ 900 bilhões por ano, sem dividir os custos. Enquanto os EUA gastam cerca de 3% a 5% do PIB em defesa, a União Europeia gastou perto de 1,5%.

Até mesmo desde Obama os EUA estiveram frustrados com o gasto anêmico europeu. Obama alertou o Reino Unido para atingir o limite de 2% do PIB se quisesse manter o «relacionamento especial». Ele chamou os aliados que não pagavam de «caronas» (free riders).

Essa «retirada estrutural» do investimento em defesa na Europa, iniciada nos anos 90, resultou em forças armadas menores. Josep Borrell, Alto Representante da UE, lamentou que «após a Guerra Fria, encolhemos nossas forças para exércitos bonsai». Essa abordagem força quase trinta nações a procurar diferentes estratégias. O comentarista Christian Mölling ressaltou que os «exércitos bonsai da Europa nutriram indústrias bonsai». A Europa, portanto, não possui uma indústria militar robusta para sustentar exércitos em expansão.

Para os fundadores da OTAN em 1949, o desinteresse europeu em defesa seria um fracasso. O Presidente Dwight D. Eisenhower escreveu que os EUA «não podem ser uma Roma moderna guardando as fronteiras distantes com nossas próprias legiões»: a Europa deve rapidamente desenvolver sua própria capacidade para defender seus interesses.

Nenhum caso foi pior do que a perda de força de vontade por parte da Alemanha. Alex Carp diz que o país foi «castrado», e a «castração» do país teve consequências. Vladimir Putin calculou corretamente que não pagaria preço alto pela invasão da Ucrânia. Após décadas de introspecção, o exército alemão virou caricatura de uma real força armada. O autor diz que o que foi feito com a Alemanha no pós-Segunda Guerra foi uma overcorrection, isto é, uma correção exagerada, que desarmou a Alemanha resultou em um preço alto para a Europa.

Hoje, a tese corrente é a de que estamos chegando numa era pós-atômica: o campo de batalha será decidido por software, nesse novo ramo, a União Europeia tem nova oportunidade de desenvolver seus exércitos e não cometer os mesmos erros que cometeram com suas velhas empresas de tecnologia como Nokia, Siemens e outras, que perderam para as empresas chinesas.

A supremacia militar americana manteve a estabilidade, mas o compromisso de manter essa supremacia saiu de moda no Ocidente e, com isso, os rivais geopolíticos se aproveitam.

Essa nova era, a do «retorno à história», exige que os orçamentos mudem.

A «República Tecnológica» e a Parceria Histórica

A estratégia americana para manter a supremacia global envolve pesados investimentos em tecnologia militar, encapsulados no conceito da «República Tecnológica». Alex Karp, coautor de The Technological Republic, argumenta que a indústria de software deve reconstruir seu relacionamento com o governo para construir capacidades de inteligência artificial que enfrentem os desafios atuais. Ele enfatiza que o poder neste século dependerá de software.

Karp, tal como Rubio, critica as elites americanas, em especial as do Vale do Silício, por se concentrarem em empreendimentos lucrativos, mas superficiais, como aplicativos de fotos e jogos de celular, em vez de se dedicarem à defesa nacional. 

Ele clama um novo «Projeto Manhattan» para garantir a vitória dos EUA nas futuras guerras impulsionadas pela IA. O conceito sugere que engenheiros e tecnólogos devem assegurar que o futuro digital melhore as liberdades democráticas.

A paz durável, na visão dos defensores da República Tecnológica, nasce da ameaça crível de guerra. A empresa Palantir, de Karp, surge como uma big tech militar, ela constrói software e capacidades de IA para agências de defesa e inteligência dos EUA e aliados.

A visão de Karp e da Palantir ecoa perfeitamente na Parceria Tecnológica histórica firmada entre EUA e Reino Unido. Donald Trump e o primeiro-ministro Keir Starmer assinaram esta semana o Acordo de Prosperidade Tecnológica, que estabelece colaboração em inteligência artificial, energia nuclear civil, computação quântica e inovação de fronteira.

Na Inteligência Artificial, os países planejam criam programas de pesquisa conjuntos e desenvolverão modelos para biotecnologia e medicina de precisão. O Centro Americano para Padrões e Inovação em IA fortalecerá laços com o Instituto Britânico de Segurança em IA.

Os setores ambientalistas, com suas políticas contra a energia nuclear, fizeram os países europeus dependentes do combustível e energia russo. Trump mandou os europeus cessarem o comércio com os russos e, como parte dessa pressão, no acordo firmado, o Reino Unido também se comprometeu em eliminar a dependência de combustível russo até o final de 2028. Para isso, no setor nuclear civil, os dois países pretendem liderar uma «era dourada nuclear».

Na computação quântica, ambas as nações criarão uma força-tarefa para acelerar avanços em hardware e software, e organizarão um «transatlantic Quantum Code Challenge». O acordo aborda também telecomunicações 6G e proteção de tecnologias críticas. Michael Kratsios, Conselheiro de Ciência de Trump, destaca que o acordo exporta a «pilha tecnológica americana de classe mundial» e promove políticas pró-inovação globalmente. A parceria sinaliza a intensificação da competição global por supremacia em tecnologias emergentes.

Embate político entre Brasil e EUA: e os exércitos?

Num cenário global de alta tecnologia, desde, pelo menos, os anos 80, lógica dos assuntos militares mundiais passou a enfrentar a Revolution in Military Affairs (RMA).

Essa revolução começou com uma decisão de Harold Brown, então Secretário de Defesa do presidente norte-americano Jimmy Carter, de que o Ocidente deveria tentar «compensar» a vantagem numérica soviética por meio de avanços qualitativos e tecnológicos, já que a OTAN jamais poderia colocar em campo tantas tropas quanto a União Soviética. Os americanos então se voltaram a áreas como microeletrônica e computação, partindo da ideia de que, em vez de adquirir novos e mais tanques, navios e aeronaves ou de ampliar o tamanho das forças militares ocidentais, seria possível dar às plataformas já existentes e a seus militares uma vantagem competitiva significativa frente aos soviéticos com a aplicação de novas tecnologias.

Desde a década de 80, os EUA realizaram pesquisas e desenvolveram tecnologias militares avançadas, testando-as em exercícios de guerra e simulações. A Guerra do Golfo, em 1991, foi o campo de batalha em que essas inovações foram efetivamente colocadas à prova.

As tecnologias se mostraram cruciais para o sucesso das forças da coalizão, elas incluiam avanços em comando, controle e comunicações; sensores de inteligência e vigilância; munições guiadas de precisão; e sistemas de supressão das defesas aéreas inimigas.

A lógica agora envolvia exércitos altamente móveis, feitos de pessoas com alta capacitação (Forças Especiais), menos exércitos de massa. Essa inovação foi liderada pelos Estados Unidos.

Comparativo entre EUA, China e Rússia

De antemão, o domínio convencional dos Estados Unidos permanece inigualável. A supremacia americana força a China e a Rússia a buscar caminhos assimétricos, seja através de tecnologia avançada em nichos estratégicos ou pela reafirmação da ameaça nuclear, para compensar a superioridade americana.

A Transformação Militar (TM), conceito que evoluiu da Revolution in Military Affairs (RMA), envolve uma mudança marcada no caráter e forma das forças armadas. Ela exige inovação tecnológica (como microeletrônica, armas de precisão e C4ISR), mudanças doutrinárias (forças expedicionárias) e adaptação organizacional (forças especiais).

O conceito se expandiu em três camadas: o núcleo RMA (guerra convencional), a «transformação da transformação» (operações de contrainsurgência e estabilidade) e os «aspectos mais amplos» (defesa da pátria, espaço e dissuasão nuclear).

Estados Unidos

Os Estados Unidos lideram a TM. O sucesso na Guerra do Golfo de 1991, que validou as tecnologias iniciais da RMA (sensores, munições de precisão e C4ISR), demonstrou o domínio americano, eis a descrição da doutrina americana:

Em termos de adaptação integral (logística, estratégia e tecnologia):

1. Tecnologia (Núcleo RMA): Os EUA possuem capacidades que superam qualquer outro país, as primeiras invenções foram os mísseis guiados por satélite (JDAMs), que agora são a norma, e vastas frotas de transporte estratégico (como o C-17 Globemaster III), hoje a tendência são veículos não tripulados. O exército adota a guerra centrada em rede (network-centric warfare), e liga as forças através de tecnologia de informação.

2. Estratégia e Logística (Expedicionária): Os EUA completaram a transição doutrinária de exércitos pesados e estáticos da Guerra Fria para forças expedicionárias e de rápida mobilização, capazes de se projetar mundialmente, os EUA e os estados parceiros da OTAN desenvolveram a logística das forças especiais, altamente capazes e que hoje são o foco das forças armadas: os US Army Rangers, por exemplo, passaram cada vez mais a serem interpretados como força auxiliar às forças especiais como os Delta. Além disso, a prioridade são operações conjuntas entre Marinha, Aeronáutica e Exército.

No entanto, a adaptação americana às revoluções militares não é integral devido às contradições internas da TM. As experiências no Iraque e Afeganistão (contraterrorismo) impulsionaram a segunda camada: a «transformação da transformação» (Counter Insurgency [COIN] e estabilidade).

As forças armadas devem agora priorizar operações de estabilidade e contrainsurgência tanto quanto as operações de combate.

Esta dualidade gera tensão: a tecnologia e o treinamento otimizados para combate de alta intensidade (RMA) mostram-se irrelevantes ou contraproducentes em ambientes de contrainsurgência, onde a inteligência humana e a construção de relacionamentos com a população local são mais críticas que ataques de precisão.

A fraqueza americana, nesse sentido, se manifesta no conceito de «guerra de quarta geração», muito bem explorado pelos inimigos geopolíticos:

As forças de operações especiais e a guerra não convencional e irregular estão ligadas ao conceito de Guerra de Quarta Geração (4GW, na sigla em inglês). Esse conceito teve origem em um artigo seminal de 1989 de William S. Lind e seus colegas, que argumentavam que a guerra moderna já havia passado por três gerações — em que o campo de batalha se tornava cada vez mais disperso — e agora entrava em uma quarta geração, na qual não existem fronteiras definidas entre o campo de batalha militar e a esfera civil e política.
A Guerra de Quarta Geração, segundo estudiosos, é uma forma moderna de insurgência em que o “campo de batalha” passa a ser toda a sociedade inimiga, e o objetivo é provocar seu colapso interno, em vez de destruí-la fisicamente. O pensamento fundamental por trás das táticas da 4GW é a crença de que a vontade política superior dos insurgentes pode derrotar um poder econômico e militar maior. Assim, homens-bomba não têm capacidade de destruir a força militar das tropas da coalizão no Afeganistão, mas podem atingir a vontade política dos países em manter suas forças ali — da mesma forma que a continuidade da Guerra do Vietnã foi disputada, em grande medida, no “campo de batalha” dos campi universitários nos Estados Unidos.
A Guerra de Quarta Geração chama atenção para a necessidade de soluções interagências diante de conflitos militares de difícil resolução. Com o objetivo central de paralisar a nação-alvo e também organizações internacionais, as táticas e os prazos da 4GW diferem radicalmente dos da guerra convencional. As táticas violentas podem incluir desde conflitos de baixa intensidade, mas complexos, até a divulgação de vídeos de decapitações e ataques a escritórios da ONU ou à infraestrutura petrolífera com explosivos. Já as táticas não violentas concentram-se no uso da internet e de outros meios de comunicação para influenciar, por exemplo, parlamentares responsáveis pelo orçamento de defesa.
Ao mesmo tempo, enquanto os Estados Unidos e seus aliados concebem o tempo da guerra em termos de meses ou, no máximo, anos, os praticantes da 4GW medem sua luta em décadas. A natureza da 4GW, como observa um estudioso do tema, é tal que abrange os campos da diplomacia, defesa, inteligência, aplicação da lei e desenvolvimento econômico e social. "Os opositores de quarta geração não são invencíveis. Eles podem ser derrotados, mas apenas por meio de ações coerentes e pacientes, que envolvam todas as agências governamentais e também elementos do setor privado". (Military Transformation and Modern Warfare: A Reference Handbook)

O esforço americano consiste em encontrar o equilíbrio certo de forças e treinar o pessoal para atuar em todo o espectro de operações. No livro Wokeísmo e Geopolítica, de nossa editora, tratou-se de explicar como certas crenças ideológicas típicas do Ocidente se colocam como uma ponte de ação para potências antiocidentais, como China e Rússia: entre elas estão 1) a destruição da autoestima histórica do país perante a sociedade civil; 2) fomentação de polarizações políticas da população civil, o que mina a estabilidade dos governos democráticos e 3) apoio comercial a entrada de drogas altamente viciantes nos Estados Unidos (crise do Fentanil).

China

A China persegue a TM, influenciada pelas guerras do Ocidente desde 1991, que mostraram a natureza da guerra futura. É ponto pacífico que a capacidade militar chinesa é inferior à dos EUA, todavia, a China tem o plano de organizar seu exército para ser capaz de travar guerras modernas de alta tecnologia até 2050.

O Exército de Libertação Popular (sigla: ELP) conta com alguns problemas. O mais notável é que, tal como nos Estados Unidos, muitas das maiores mentes criativas do país se concentraram no setor de tecnologia, desmilitarizado. O exército é em grande parte composto por pessoas vindas da zona rural (sem maiores graus de educação), os salários não são tão chamativos quanto dos ramos da tecnologia.

A adaptação chinesa está concentrada nas camadas 1 (RMA) e 3 (Aspectos Mais Amplos), ignorando amplamente a camada 2 (COIN).

1. Tecnologia e Organização: A China copia a estratégia americana dos anos 80, passaram a adotar a «informatização» que significa confiar mais na informação para operações e trocar massa por qualidade. O ELP, para sanar o problema enunciado acima, reduziu seu tamanho, aumentou a profissionalização e reestruturou unidades em brigadas menores e mais móveis, alinhando-se às tendências RMA. O país desenvolve caças de quarta geração e munições de precisão.

2. Logística (Lacunas): O ELP carece de plataformas logísticas essenciais, como transporte aéreo estratégico (estando em um estágio mais modesto que o do Ocidente), o país também não consta com unidades de operações especiais comparáveis com unidades como os Navy SEALs, Delta Forcee Green Berets americanos ou a SAS britânica. A China possui uma unidade de «forças especiais», mas são aplicadas mais a propósitos civis que militares de facto.

3. Aspectos Mais Amplos (Assimetria): A China foca em estratégias assimétricas para anular as vantagens americanas. Os chineses priorizam manter o «acesso desimpedido ao espaço», carecer de tal acesso seria vulnerabilidade decisiva contra os EUA. Para impedir isso, a China desenvolveu armas antissatélite e fez seu próprio sistema de navegação por satélite (Beidou) para melhorar a precisão de mísseis. Também aprimora suas forças nucleares estratégicas (ICBMs móveis DF-31A e SLBMs JL-2), nas quais progrediu bastante.

Com relação a força, o exército chinês não vence os EUA em um confronto convencional «simétrico». A China adotou a «assimetria» (por exemplo: usar mísseis guiados como seu trunfo contra porta-aviões e bases) como resposta à superioridade convencional americana.

Rússia: Estagnação Convencional e Foco Nuclear

A Rússia é o país menos transformado entre as potências. A RMA/TM é vista pelo establishment militar russo primariamente através da lente tecnológica (MTR, Military-Technological Revolution).

A adaptação da Rússia é lenta e centra-se em grande parte na camada 3 (Aspectos Mais Amplos/Nuclear), deixando as camadas 1 e 2 em desenvolvimento limitado.

1. Tecnologia e Organização (Núcleo RMA): A Rússia permanece focada na tecnologia, mas o avanço é limitado por restrições financeiras pós-Guerra Fria, o que resulta em forças armadas predominantemente equipadas com sistemas da era soviética. A Rússia carece de sistemas C4ISR avançados (sendo descrita como «presa na era pré-digital»). Mudanças doutrinárias e organizacionais (como a transição para forças expedicionárias) são ausentes, a doutrina publicada russa permanece com os mesmos sistemas da era soviética.

2. «Transformação da Transformação» (COIN): Apesar da experiência prolongada no combate a agentes não-estatais na Chechênia, medidas de contrainsurgência não foram bem desenvolvidas, e a doutrina «publicada» não reflete as necessidades modernas de guerra assimétrica.

3. Aspectos Mais Amplos (Nuclear): A principal prioridade russa é a modernização de seu arsenal nuclear. O foco estratégico na força nuclear serve como garantidor da segurança e permite a dissuasão contra um ataque de primeira resposta de qualquer agressor potencial. A Rússia prioriza mísseis balísticos MIRVed (múltiplas ogivas) como meio mais econômico de manter uma dissuasão nuclear robusta, focando nisso como sua resposta assimétrica à superioridade convencional dos EUA.

Os russos também possuem diversos investimentos em mísseis convencionais de alta precisão.

Em um confronto convencional, o exército russo estaria em desvantagem.

A abordagem russa à TM lembra o impasse nuclear da Guerra Fria: eles privilegiam a dissuasão por meio de grande poder (nuclear), em vez da capacidade de gestão de crises regionais (convencional); se fossem os russos em vez dos americanos no Oriente Médio, eles optariam por dissuasão nuclear em vez de enviar tropas.

E o Brasil?

As Forças Armadas do Brasil enfrentam a Transformação Militar com progressos modestos orçamento pequenino. A Revolution in Military Affairs, originada nos EUA, prioriza inovação tecnológica para compensar a inferioridade numérica. O modelo RMA exige a transição de exércitos pesados para forças menores, profissionais e expedicionárias.

As Forças Armadas não seguem o modelo RMA integralmente. A doutrina brasileira foca em defesa territorial (Amazônia, litoral Atlântico) e dissuasão regional, não desenvolvendo uma doutrina «expedicionária» como a dos EUA ou OTAN.

O Brasil investe em modernizações pontuais, como a aquisição de blindados 6x6 (VBTP Guarani) pelo Exército, e a encomenda de caças Saab F-39 Gripen NG pela Aeronáutica. A Marinha iniciou a construção do primeiro submarino de propulsão nuclear «Álvaro Alberto» e recebe submarinos Scorpène. O Brasil ainda busca transferência tecnológica e o desenvolvimento de sua indústria de defesa.

Os avanços são limitados. O Brasil não realizou um corte radical de sistemas herdados e mantém o serviço militar obrigatório, sustentando um exército misto (majoritariamente conscrito), não uma força profissional pura.

O orçamento brasileiro também limita a transformação. O Brasil investe cerca de 1,1% do PIB em defesa (2024), abaixo da média global (2,3-2,5% do PIB) e extremamente distante dos gastos dos EUA (~3,4%). Essa restrição orçamentária afeta a velocidade e a escala das transformações.

As Forças de Operações Especiais brasileiras existem, mas têm porte menor que as americanas e treinam para cenários regionais. O Brasil fica em um estágio mais modesto, ele adota novas tecnologias quando possível, mas nunca alterou radicalmente sua forma nem atingiu o padrão das grandes potências.

Quanto às Forças Especiais, o Brasil mantêm algumas unidades (no exército as principais são os Comandos Anfíbios e as forças da Amazônia) também com as forças policiais, como o Grupamento Especial de Operações em Área de Caatinga (GEOsAC) e o Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE). Todas as forças mencionadas neste parágrafo constaram de amplo apoio e parceria militar com os Estados Unidos (e Israel), que chegam a conceder equipamentos, verbas e realizam treinamentos conjuntos periódicos. Os EUA, por sinal, consideram o Brasil como aliado prioritário extra-OTAN.

A modernização das Forças Armadas do Brasil, portanto, deve muito (senão tudo) à parceria com as forças armadas dos EUA.

Ganham de quem?

Sendo franco, diante do cenário geopolítico atual e da análise das capacidades militares, torna-se evidente que uma aliança Brasil-China-Rússia, pretendida por setores da política brasileira, contra os Estados Unidos seria contraproducente aos interesses brasileiros, na verdade seria impraticável.

A supremacia tecnológica e logística americana, demonstrada através da Revolution in Military Affairs, supera amplamente as capacidades combinadas dessas potências.

A China ainda luta para superar suas limitações logísticas e de projeção de poder, não parece lhes interessa ainda uma guerra (a não ser comercial) contra os EUA, a Rússia mantém-se dependente da dissuasão nuclear devido à sua estagnação convencional e já está ocupada com uma guerra na Ucrânia, o Brasil encontra em posição ainda mais modesta, com investimento de apenas 1,1% do PIB em defesa e forças armadas que dependem fundamentalmente da parceria tecnológica e do treinamento americano.

A própria modernização militar brasileira, dos caças Gripen aos submarinos Scorpène, depende de transferência tecnológica ocidental e parcerias com aliados dos EUA.

Geograficamente, o Brasil compartilha com os Estados Unidos não apenas a condição hemisférica, mas também interesses comerciais que tornam o alinhamento atlântico mais natural que uma improvável aliança com potências autoritárias euroasiáticas.

O caminho mais racional para o Brasil seria reconhecer os Estados Unidos como seu aliado natural, aproveitando sua condição de «aliado prioritário extra-OTAN» para fortalecer suas capacidades defensivas dentro do marco ocidental, ao invés de aventurar-se em confrontos que apenas enfraqueceriam sua posição estratégica no cenário internacional.

Fora isso, resistir aos anseios do Secretário Rubio, resoluto em pressionar suas alianças com os diversos países do mundo (Brasil incluso), fará ele buscar sufocar por si a influência chinesa no Brasil. Se o governo brasileiro for contra e resistir, poderá também ser sufocado junto, pois não possui meios de dissuasão contra os EUA. Resistir apenas trará ao processo doloroso ao Brasil, especialmente a seu povo.

As elites brasileiras não podem ficar de braços cruzados e bradar por «soberania nacional» em detrimento do bem comum de um país, arriscando destruir toda a economia e, assim, arriscar a sobrevivência material de seus habitantes.