O Círio de Nazaré
História Sacra do Círio... e a COP 30
A cidade de Belém celebra todo ano, no segundo domingo de outubro, o Círio de Nazaré, uma das maiores festas religiosas do mundo. A história sacra do país é cheia de marcos, mas a capital do Pará é particularmente notável pela manifestação visível do conflito entre o Logos e o Anti-Logos. A estrutura da cidade é proveniente da presença da Companhia de Jesus e da Ordem Celestial, Real e Militar de Nossa Senhora das Mercês para a Redenção dos Cativos, tão esquecida pela história. O Marquês de Pombal, Primeiro-Ministro de Portugal, decidiu extinguir as duas ordens nos seus domínios, com graves consequências para o Império Português, muito dependente de ambas para a educação e exploração.
O enviado para a tarefa foi o irmão de Pombal, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, nomeado Governador-Geral do Grão-Pará, até então uma colônia separada. O tirano ajudou a conspirar na execução do padre Gabriel Malagrida, grande apóstolo do norte do Brasil. O resultado foi uma pilhagem de terras dos jesuítas e mercedários. Até o presente momento, a cidade de Belém possui inúmeros litígios imobiliários entre a Arquidiocese e vários entes do poder público. Há inúmeras concordatas pendulares nas quais a posse de determinado terreno é transferida entre entidades de forma temporária.
O caso mais gritante é o da Igreja de Santo Alexandre, antiga sede local da Companhia de Jesus. No meio da disputa, ela foi disputada entre militares, a administração civil e o clero secular. A solução foi remover o tabernáculo e transformá-la em um Museu de Arte Sacra, um dos mais impressionantes do Brasil. O ouro da nave foi removido. Há um santo militar desconhecido na janela, cujo rosto foi destruído, possivelmente São Francisco Xavier ou Santo Inácio de Loyola.
As perseguições não pararam por aí. Dom Macedo Costa, bispo de Belém, foi duramente perseguido pelo Imperador D. Pedro II na Questão Religiosa por sua oposição à Maçonaria, instituição que já controlou a cidade. Depois do golpe republicano ele retornou à sua plena glória, chegando a ser Arcebispo de Salvador, Primaz do Brasil ex officio.
Se alguém for à Campina, encontra em um raio de 2 km várias igrejas católicas, sendo a do Rosário um centro de celebração Vetus Ordo. Nesta área, coexistem cinco lojas maçônicas, quatro sinagogas, uma tariqa, o primeiro templo brasileiro da Assembleia de Deus e seitas das mais diversas origens. A relação entre os vários cultos é cordial, e as igrejas protestantes, na sua extrema iconoclastia, participam do Círio. Oferecem água como obra de misericórdia.
O Círio de Nazaré é uma manifestação inequívoca do Logos. Uma imagem foi encontrada pelos indígenas, referente a uma devoção obscura de Portugal. Logo ela começa a gerar curas entre os grandes e os pequenos. A devoção cresce ao ponto que o sincretismo começa a se desenvolver, sob a raiva de Dom Macedo e de outros bispos devotos. Estranhamente, a maçonaria tem um papel fundamental na devoção. Os Chermont Raiol, família maçônica, foram guardiões da imagem da Virgem, e até hoje o símbolo do GADU aparece no emblema da Guarda de Nazaré.
A quantidade de fiéis continua a crescer. Mais de um por cento da população brasileira está presente. A marcha é gigantesca e parece interminável. As ruas ficam cheias até a madrugada, algo estranho em um país que sempre para de madrugada, exceto para vícios e pecados. A santidade acorda as pessoas e mantém o comércio impulsionado. A farra tem algo de ordenado.
As curas são incontáveis ao ponto de que mesmo as pessoas avessas à religião precisam manter alguma suspensão de descrença. A manifestação do poder divino mediada por Nossa Senhora faz o catolicismo parecer evidente por um minuto. Todas as tribulações ocorridas em um estado violento e instável em nada conseguem abater a realização de um fenômeno capaz de parar o país.
Belém é uma cidade decadente desde o fim do ciclo da borracha, que foi um momento de particular excesso. A mudança da rota de escoamento do ferro e a criação da Zona Franca de Manaus levaram-na a um gradual declínio, e já é considerada uma das capitais em perda populacional. Um azar histórico com prefeitos levou-a a um estado de particular colapso, como uma São Petersburgo equatorial. Românticos de várias procedências vagam pela cidade.
A COP-30 ocorrerá um mês após o Círio. Ela provocou grandes mudanças na estrutura urbana local. O movimento ambientalista é a outra coisa capaz de galvanizar o interesse público em cima da porta de entrada para a Amazônia. O contraste entre o Logos e o Anti-Logos fica cada vez mais claro… Por exemplo, uma parte do Santuário das Mercês teve de ser cedida ao estado para o evento da ONU. A família Barbalho e seus asseclas representam a síntese mais grotesca entre o velho coronelismo oligárquico e uma esquerda burocrática de tons comuno-globalistas.
Após o golpe maçônico da República, a bandeira do Brasil teve de ser mudada para remover as referências aos Braganças e aos Habsburgos. O verde passou a simbolizar as matas e o amarelo virou uma referência ao ouro, em um nacionalismo fiduciário onde a natureza é o bem supremo do ideário pátrio. Cada estado recebeu uma estrela fixa do céu cortado pelo lema positivista “ordem e progresso”. O curioso é que o Pará foi simbolizado por Spica, uma estrela de plenitude no sentido clássico, associada à Virgem Maria. Seria o fio de Ariadne que leva Teseu para fora do labirinto, em um mito pagão que foi particularmente caro aos cristãos.
Em uma vastidão amazônica de pessoas às vezes brutais e violentas, Nossa Senhora de fato ofereceu uma luz. Um lugar tão inóspito foi escolhido como sede de uma devoção que salva corpos e almas em grandes proporções. O futuro do Pará é obscuro e o seu declínio parece ser inexorável, porém todo ano as esperanças são renovadas. Os mistérios da graça aparecem aqui são difíceis de entender, mas é claro que aqui ela se manifestou. O destino das nações é obscuro, mas a providência divina é sempre acessível como saída do labirinto.