O erro da Preferência por Liquidez
Essa doutrina keynesiana é tida como uma verdade absoluta, mas é uma mentira!
O que é a preferência por liquidez? É basicamente uma visão de como as taxas de juros funcionam, ela diz que através da política monetária do banco central de mudar a taxa de juros usando métodos probabilísticos e bom senso, eles podem regular a demanda por capital conforme a necessidade.
Porém, essa é uma grande falácia, primeiro porque taxas de juros nem pode ser calculadas probabilisticamente (aproximações sendo inúteis), afinal, é impossível prever a demanda de capital futura, mas o ponto central que eles desprezam que a preferência temporal por capital que de fato modula a taxa de juros, e é sobre isso que trataremos aqui.
A visão de Rothbard
"Para os keynesianos, a taxa de juros é considerada (a) como determinante do investimento e (b) como sendo determinada pela demanda por moeda para fins especulativos (preferência pela liquidez). Na prática, porém, eles tratam esta última não como determinante da taxa de juros, mas como sendo determinada por ela" (Rothbard, Murray N. Man, economy, and state with power and market. Ludwig von Mises Institute, 2004, pg. 786).
Então através, por exemplo, do banco central abaixar a taxa de juros (fazendo o preço do capital aumentar) eles acham que isso pode "aquecer o mercado", visto que é óbvio que com uma taxa mais baixa, empresas podem pegar empréstimos a um custo menor, e assim realizar projetos e investimentos com facilidade.
Um dos pontos centrais do "Homem, a economia e Estado" (na minha opinião), é que a taxa de juros de retorno de investimentos que define flutuações da taxa de juros modulada pela preferência temporal das pessoas (e empresas obviamente). Essas duas teorias de juros são completamente diferentes, essas duas visões mudam o cenário econômico de forma substancial, pois se a preferência por liquidez realmente estiver errada, logo o controle da taxa de juros pelo banco central é inútil e inorgânico, e por isso deveria acabar.
Preferência temporal dos juros
A preferência temporal (time preference) não é aplicável apenas para capital, mas para qualquer bem que existe. É uma relação entre nossa expectativa sobre bens presentes vs. futuros e pode ser associada à utilidade de desconto (discount utility) na economia comportamental (que por sinal é relevante na teoria neoaustríaca). Eu posso preferir uma apartamento agora vs. um no futuro, minha preferência temporal pode ser uma relação entre o quanto mentalmente prefiro em viver em um apartamento que desejo vs. o imóvel que estou agora.
No mercado Real Estate (imobiliário) a preferência temporal por propriedades pode mudar os preços locais continuamente, visto que estamos falando de uma relação temporal de demanda por apartamentos de uma localidade (por exemplo), é uma relação de como pessoas agem, onde agem individualmente mas os efeitos são de uma massa de pessoas com preferências voltadas a um mercado.
Como dinheiro não é diferente, quando empresas vão mal (em bulk no índice) por conta de investimentos mal realizados (como na Dotcom Bubble nos anos 90 de investimentos em start-ups da nova internet que eram hype que não se sustentou), a preferência temporal por dinheiro pode vir a diminuir, pois nesse caso uma crise pode realmente temporarialmente abaixar a taxa de juros de retorno de investimentos que nada mais é que a porcentagem de ganhos de investimentos realizados, em que parte é para pagar juros de dívidas, e se elas vão mal, quem vai pagar os bancos? Logo os bancos tem que tirar acesso a capital fácil, a taxa de juros aumenta, foi o que aconteceu na Crise de 2008 inicialmente por exemplo.
A definição
Em (Herbener, 2011) vemos a explicação desse conceito por Kizner:
"O preço pago por uma árvore tende sistematicamente a ser inferior à soma de sua produção anual de frutos, porque, quando a árvore é comprada, a produção é apenas prospectiva. Simplesmente não se está disposto a pagar US$ 100 hoje para receber US$ 100 em frutos daqui a cinco ou dez anos, por mais sólido que seja o contrato de entrega de frutas" (Herbener, Jeffrey. Pure Time-Preference Theory of Interest, The. Ludwig von Mises Institute, 2011, pg. 105).
Como já disse anteriormente, a teoria da preferência temporal dos juros fala sobre a relação da diferência de bens presentes vs. futuros (que é basicamente o juros originário de Mises), isso é definido pela utilidade subjetiva das pessoas em relação a bens, no caso do capital, uma quantidade x de capital agora vs. a mesma quantidade no futuro. Isso é como câmbio funciona, se eu valorizo dólares agora mais que reais, logo temos uma apreciação em termos de dólares vs. reais, quando a os preços das coisas sobem (inflação) as pessoas tende a poupar mais, pois elas começam a valorizar o fato que o futuro (teoricamente em suas mentes) pode ser de preços ainda maiores.
Então num momento de hiperinflação, as pessoas vão logo no mercado comprar tudo que podem, valorizando esses bens presentes vs. os futuros, se estamos num período de estabilidade, pode ser que a expectativa sobre preços futuros seja boa, então esse efeito não irá ocorrer. Em suma, o que define a taxa de juros é a preferência temporal por capital das pessoas, onde essa mudança de preferência pode ser causada por n fatores, como uma inflação e recessão causada por expansão de crédito e crises econômicos (num exemplo hiperbólico).
De forma ainda mais clara: mudar artificialmente a taxa de juros não muda a demanda por capital (a preferência temporal pelo mesmo), somente força um valor irreal no preço do capital, criando um que não é natural.
A explicação de Garrisson
"Se os participantes do mercado fossem caracterizados por uma indiferença geral quanto ao momento em que seus objetivos são atingidos, quanto à distância temporal da produção, então o valor dos meios, dos insumos, refletiria o valor total, não descontado, de sua contribuição para a produção. Não haveria diferença de valor, nenhum retorno de juros a ser contabilizado. Se os participantes do mercado descontam o futuro, então o valor dos insumos presentes será sistematicamente menor do que o valor da produção futura. A diferença de valor é o retorno de juros" (Herbener, Jeffrey. Pure Time-Preference Theory of Interest, The. Ludwig von Mises Institute, 2011, pg. 164).
Isso é puramente utilidade de desconto na prática. Você prefere receber $5.000 no pix agora ou $ 20.000 daqui há 30 anos? Bem, eu prefiro o primeiro. Empresas tem essa noção de demanda temporal por metas que realmente criem resultados de curto--médio prazo, pois a incerteza sobre o futuro nos coloca em cheque sobre o que temos no presente. O ponto é que o juros originário não é estático, ele muda continuamente, por que a preferência temporal das pessoas muda continuamente, assim essa diferença sempre existirá.
Quando alguém quer comprar um carro e não tem reservas, ela tem que pegar um empréstimo e pagar o juros da dívida, tudo para ter o carro agora. Pela utilidade de desconto ela tende a ver que pagar mais pelo carro à juros agora é melhor do que esperar guardar dinheiro para comprar no futuro, visto que ela precisa do mesmo agora para usar para si mesmo, trabalho, família e etc.
Quando empresas precisam realizar investimentos, elas preferem pagar mais do que ele vale agora (a uma certa taxa de juros) em troca de ter rápido acesso a capital para realizar o projeto rapidamente, caso contrário a empresa teria que esperar ela ter reservas o suficiente para ter o projeto, e talvez nem o realizar, ele ficaria no mundo das ideias até ter o capital necessário, então ela abre mão de parte do eu capital para pagar o juros da dívida e ter acesso a ele agora ao invés de depois através da poupança.
Se empresas não estivessem nem aí para quando realizariam projetos e pessoas para quando teriam acesso a bens de consumo (e uso), ninguém pagaria por capital (o que é a taxa de juros), as pessoas só pagam por capital por verem um custo--benefício no mesmo, porém, a taxa dessa diferença de relações de bens presentes vs. futuros não é definida pela taxa nominal de juros em si escolhida por alguém, as pela preferência temporal das pessoas e empresas em usar essa capital com algum fim, seja uma empresa querendo levantar um prédio ou uma pessoa comprando um carro.
O Ponto Central da Preferência por Liquidez
"Assim, a discussão keynesiana sobre a preferência pela liquidez centra-se no “incentivo para manter dinheiro em caixa” à medida que a taxa de juros sobe ou cai. De acordo com a teoria da preferência pela liquidez, uma queda na taxa de juros aumenta a quantidade de dinheiro demandada para “fins especulativos” (preferências pela liquidez), e um aumento na taxa de juros diminui a preferência pela liquidez" (Rothbard, Murray N. Man, economy, and state with power and market. Ludwig von Mises Institute, 2004, pg. 786).
Então o banco central pensa assim: "Veja, estamos numa crise econômica, precisamos fazer algo para ajudar as empresas a se estabilizarem, o que faremos?", então outro diz: "bem, uma forma de nós conseguirmos permitir as empresas a ter mais acesso à capital, é baixando o preço do capital, assim eles estarão dispostos a retirar de suas reservas com mais facilidade pela elasticidade do preço de capital, e assim eles poderão usar esse dinheiro para investir em projetos que potencialmente trarão lucro no futuro, criação de empregos e etc", e o outro respondeu: "é uma excelente ideia".
Porém, essa mudança não é apenas num número (da Selic da vida), mas é realmente uma criação de oferta de capital na economia, quando ninguém pediu pela mesma naturalmente, é claro que as pessoas, até empresários dizem: "eu até compraria aquela máquina para a minha academia, mas com essa taxa de juros alta do governo, fica difícil". Mas vamos tentar ajudar esses caras a pensar, outro pode na mesa se levantar e dizer: "meus amigos, tem um problema nisso tudo, e se as empresas decidirem não usar esse capital para o que queremos que é aquecer a economia, além de usar para investimentos potencialmente falhos?".
Logo os keynesianos olham com desdém para quem falou fora de lugar, e dizem: "e de que outra forma iremos melhorar a situação do país? Precisamos de resultados, mostrar que estamos fazendo alguma coisa, essa crise está crucificando nossas empresas, precisamos injetar liquidez na economia, para isso as pessoas pagam impostos". Porém, isso é uma falácia, o fato que eles estão apenas minimizando o preço do capital, nada mais é que uma fixação de preços inorgânica, não natural, e isso cria um ambiente confuso, onde o preço de capital entra num limbo desconhecido.
O tendão de Aquiles da Preferência por Liquidez
Creio que nessa passagem, Rothbard demonstra o conceito de forma ainda mais clara:
"A proporção entre consumo e investimento reflete as preferências temporais dos indivíduos. O consumo reflete o desejo por bens presentes, e o investimento reflete o desejo por bens futuros. Um aumento na curva de demanda por moeda não afeta a taxa de juros se a proporção entre consumo e investimento (ou seja, a preferência temporal) permanecer a mesma" (Rothbard, Murray N. Man, economy, and state with power and market. Ludwig von Mises Institute, 2004, pg. 788).
Aqui ele usa o termo consumo e investimento como base, e a diferença é vista entre o quanto as pessoas desejam consumir (bens presentes) e investir (bens futuros). Numa crise econômica as pessoas tendem a deixar de investir, elas não vão comprar um carro ou apartamento numa recessão com preços inflados e um custo de consumo alto (no geral), assim elas tendem a poupar. A definição da preferência temporal aqui é a diferença entre consumo e investimentos, onde a demanda por capital não muda a taxa de juros, mas sim essa diferença entre ambos. Então se as pessoas tenderem a investir mais em bens futuros (num apartamento, uma casa do guarujá e etc), temos uma preferência maior por capital no momento, enquanto se for por consumo de bens presentes, elas não buscarão acesso a esse capital.
No geral, a mudança da taxa de juros artificialmente não muda a demanda por capital (quando a taxa abaixa), e a demanda por capital não muda a taxa de juros, o que a muda é a preferência temporal, tendo em vista a o juros originário de Von Mises, que nada mais é que a mesma coisa.
Resumo da Ópera
Numa economia de livre mercado, a taxa de juros deve ser definida pela oferta e demanda de capital definida apenas por bancos privados, usando commodities como lastro (ouro ou prata) para que os bancos não se aproveitem disso e sem reservas fracionárias e formas de expansão de crédito ex-nihilo (que também os beneficiam).
Assim o acesso a capital à pessoas e empresas seria o real, o natural, o que é justo, e não um artificialmente controlado pelo Estado, sendo que o mesmo é naturalmente incalculável (Reducto ad absurdum: caso seja calculável, então seria possível realizar o calculo econômico comunista (se você conseguir prever a demanda por capital), caso não for (que é o que acredito), logo é impossível).