O Mercado Global de Flea Markets
Mercados regionais desregulados com transações relativamente livres
Falei em outro artigo sobre o flea market do Brasil (sendo que o termo é a versão em inglês da expressão "feira do rolo"), e foquei especialmente no mercado que eu conheço mais nesse tema, no contexto de retro games (visto que não sei nada de roupas ou outros tipos de produtos vendidos ali).
Meu objetivo agora é analisar o mercado de flea market global, no qual vemos devidas similaridades da mesma prática ao redor do mundo, sendo mercados obviamente regionais, não necessariamente escaláveis, mas que possuem um fluxo de pessoas relativamente alto procurando barganhas e itens a um valor descontado do de mercado.
Como um Flea Market funciona?
Todos são relativamente parecidos nisso. Normalmente eles ocorrem em regiões com um grande espaço livre (embora no Brasil e na Espanha tende a ser na rua mesmo), alguns são em locais relativamente fechados ou áreas que aparentam ser relativamente desertas (como nos EUA).
Na maioria desses flea markets vemos jogos e consoles sendo vendidos, e naturalmente aqueles na Europa são comprados usando euros, o que cria um ambiente perfeito para que ganha em dólar e euros visto que você terá acesso em Flea Markets na Espanha, França (especialmente em Paris), Alemanha (como o Sproedentalplatz Krefeld), Suécia e etc, o que pode aumentar o repertório de quem deseja fazer flipping (comprar à um preço descontado do spot price para vender online).
Em todos você pode ver itens sendo vendidos em barracas ou apenas mesas bem montadas ou simplesmente em tapetes no chão. No maior Flea Market de Tokyo vemos ambas modalidades ocorrendo, e por incrível que pareça, muitos itens de alta qualidade para um olhar atento com um bom know-how de certo nicho, podem estar mesmos nas áreas aparentemente piores. É uma boa oportunidae para thrifting, comprando mesmo roupas ou relógios usados a preços descontados com facilidade e possibilidade maior de barganha.
Em países de moedas alternativas
Quero usar o termo "moeda alternativa" para aquelas que não são o Euro e o Dólar, visto que o câmbio tenderá a varias dependendo da sua moeda local. É muito mais fácil precificar os itens internacionalmente em termos de dólares (por uma simples razão de índice) ao invés de fazer câmbios de moeda para moeda respectivamente.
Quando alguém vai para o mercado japonês em Akihabara por exemplo, você vai encontrar obviamente em sua maioria, itens que estão na língua japonesa no caso de retro games, e isso é importante, pois existe uma demanda tanto para itens apenas em inglês quanto para japoneses e a demanda de ambos tende a ser diferente depende.
Também temos uma demanda de importações de itens japoneses para o Brasil por exemplo, e players de mercado que intermediam essas transações. Por exemplo, numa loja conhecida em São Paulo chamada Pereira Games, vemos que o dono recebe importações de itens japoneses de forma legal, indo desde Nintendo Superfamicoms, jogos raros lacrados de PS1, Nintendo, Gamecube e etc, e outras lojas tem intermediadores do tipo.
Esses intermediadores poderiam (provavelmente já têm) ter uma estratégia de ir a flea markets locais no Japão como o Tokyo Flea Market, Mottainai Flea Market, em Shinjuku, em Aoyama e etc, com um bom know-how do nicho encontrar os itens que valem a pena, estão em boa qualidade (ou que podem ser restaurados) e assim comprar eles à valores descontados do mercado comparando com o Spot Price atual deles.
Não é tão simples quanto parece
Porém, lhe garanto que isso não é fácil. Não é só comparar os preços com o mercado local (em termos de ienes) e internacional (em termos de dólares), você realmente tem que saber o que tem valor tendo um grande conhecimento do mercado. Por exemplo, vamos supor que você ache um Metal Gear Solid dos PS1 lacrado, mas você não conhece nada sobre Metal Gear, você talvez saiba sobre o preço de mercado do mesmo e o quanto as pessoas veneram esse game, porém quem não conhece o valor desse game lacrado (mesmo a um preço relativamente alto) não poderá enchegar a possibilidade de venda desse item (onde experiência com o que de fato vende ciclicamente é importante).
O que faz um item como esse ter valor é o valor subjetivo colocado pelas próprias pessoas, não é intrinsicamente que o seu valor é encontrado, e sim no que as pessoas esperam desse item, onde a escassez de um item com preferência temporal alta (pela lei da utilidade marginal), faz ele ter mais valor, pois diversas pessoas querem esse item nessas condições, e assim seu preço de mercado naturalmente sobe.
Recentemente vi um PS1 Debugging Station azul por exemplo, que era usado para desenvolvedores testarem games, eu não sabia seu valor, seu uso antes de conhecer esse fato, então algo que ocorre, é que constantemente estamos aprendendo sobre um mercado em particular e esse conhecimento nos faz mais capazes de reconhecer oportunidades de flipping (de arbitragem), no fim, know-how é tudo.
Barreiras de linguagem
No fim dá para se virar com inglês em todo lugar do mundo, mas a verdade é que tanto para reconhecer itens com mais facilidade (como os japoneses) e também ter mais informações sobre eles com mais detalhes especialmente em lugares mais periféricos de uma região, seria bom saber a língua local.
Vi por exemplo uma loja na Coréia do Sul (obviamente na do Sul) que tinha uma grande quantidade de itens, sejam japoneses ou coreanos (e aí a demanda de itens coreanos pode ser diferente naturalmente, talvez menor) ou em inglês. É claro que não estou dizendo que você não pode fazer análises devidamente sem conhecer a língua local, você só precisa saber o valor de itens e ver oportunidades de valores descontados, mas creio que seja útil para barganha e no geral de trocar conhecimentos com locais, para entender mais de itens que o vendedor sabe sobre mais que você.
Transporte, impostos e limitações
Quando falei sobre o tema em outro artigo, o foco era apenas no Brasil, se você vai para um flea market em qualquer parte do país, você simplesmente vai até essas feiras, compra os itens e seu único custo agora é volta para casa. Para alguém fazendo flipping, isso é um custo necessário, visto que naturalmente se você faz isso com frequência esse terá que ser contabilizado no custo de transporte desses itens (seja no seu carro, bagagem de avião e etc).
Transporte de inventário inter-regionais são naturalmente mais em conta do que internacionais. É claro que não estou falando sobre custo de shipping, pois meu foco aqui é de alguém que vai literalmente aos flea markets em outros países ao invés de comprar online e através de fornecedores.
Porém, limitações internacionais existem, de quantos itens você pode levar na sua bagagem por exemplo. Então mesmo que alguém visite o flea market da Tailândia, e consiga inventário de forma mais barata do que em outros países e itens relativamente raros, há um limite de quantidade que você pode trazer, custo de bagagem maior e também taxas, e impostos como IOF que podem aumentar o custo de flipping aqui.
Atualmente o limite tanto voltando para o Brasil de avião quanto de navio, é de $ 1.000 dólares (não pagando assim impostos), o que é nada para alguém (metade você já gastou num Metal Gear Solid original lacrado) que deseja realizar um inventário. Pagar 50% de impostos do excedente disso já pode fazer a possibilidade de flipping inviável. Ainda sim são R$ 5.343,40 reais, então alguém poderia comprar itens em bulk de qualidade em flea markets abaixo desse valor e talvez trazendo mais de uma pessoa conseguindo itens relativamente raros e ter uma certa margem de lucro.
Deixe-me dizer que essas limitações são extremamente protecionistas, e em nada beneficiam o mercado brasileiro (e isso se aplica não só ao mercado de games obviamente, a todos). Na verdade, se essas restrições fossem zeradas assim como as de shipping, então você teria um inflow de produtos internacionais de qualidade no Brasil muito maior, o que aumentaria a possibilidade de lucro de empresas vendendo esses itens, gerando mais renda de impostos para o governo (se é isso que eles querem realmente), então mesmo do ponto de vista estatal, essas restrições, taxas, impostos são inúteis e simplesmente irracionais.
Suponhamos que as restrições atuais fossem retiradas
O que aconteceria se os impostos e taxas associadas a trazer itens de fora do Brasil fossem retirados? Simples, diversos itens de qualidade seriam vendidos no mercado nacional a preços menores, aumentando o poder de compra da população, e assim permitindo que as pessoas (principalmente os mais pobres) tenham bons produtos que necessitam ou desejam sobrando assim mais de sua própria renda para outros fins.
Quando alguém tem que pagar mais por uma mochila para as crianças (vamo supor alguém que tenha 5 filhos pequenos), elas não podem dividir uma mochila, você tem que comprar cinco. Se você pode comprar elas internacionalmente, com maior qualidade e a menor preço, quem é beneficiado? Os pais, visto que eles podem comprar o que seus filhos não somente desejam, mas necessitam (não estamos falando de consumismo exacerbado aqui), e pode sobrar dinheiro para outras coisas também relevantes.
Mas vamos supor que as restrições continuem, agora os pais tem que comprar itens de pior qualidade a preços altos (visto que a China por exemplo produz com maior eficiência nesse mercado), e isso encurta mais a renda da família, não só para a compra de mochilas, mas de tudo que desejam ou necessitam, agora imagine isso em todo o mercado nacional como um todo, como isso afeta as famílias dessa nação continuamente.
Pequenos empresários são beneficiados quando as restrições não existem
São os empresários menores que se beneficiam de fazer flipping (ou mesmo comprando no atacado internacional, ou de distribuidores) de produtos internacionais, sendo intermediadores nessa transação (o que é totalmente justo). São as empresas grandes que preferem e pressionam o governo para gerar tais restrições, pois sabem que a vantagem competitiva da China por exemplo, é deveras maior, eles tem medo que seus produtos caros e ruins se tornem obsoletos e assim possuam uma menor fatia do mercado.
Não é culpa deles mesmos que eles são inferiores? Porque temos que obrigar a população a comprar nacionalmente esterco, visto que tem ouro vindo além dos mares na terra do sol nascente. E não estou falando que isso melhoraria com acordos bilaterais, esqueça isso, o certo é acabar totalmente com as restrições, e entender que o governo já tem uma fonte de arrecadação suficiente em outras streams de arrecadação, não é porque o governo (digo, as pessoas que o administram) é imbecil na sua administração que cobrando impostos essa situação vai melhorar, pelo contrário, você só pressiona mais o povo enquanto joga todo o dinheiro pelo ralo na forma de dissipação de capital (um termo de Bastiat).
Os que defendem restrições, apenas formentam o mercado nacional inútil, quem diz o contrário, é um imbecil. Praxeologia é como matemática, quando ocorre uma relação lógica óbvia, aquele que diz um resulta diferente da equação óbvia, é um idiota, é um maluco, a verdade é que essas restrições até criando um ambiente de menor arrecadação do governo, então eles são duplamente imbecis.
Transações internacionais são relevantes nacionalmente
Esqueça soberania nacional nos termos usados atualmente, a soberania nacional deve ser a soberania do povo, não de uma corja de políticos quando salários altíssimos e dizendo que são os arautos iluminados da sociedade, eles são é aristocratas vestidos de democratas, é desejam apenas seus próprios interesses mesquinhos.
Aristóteles mesmo era relativamente contra importações e à favor de exportações, mas era uma economia pré-malthusiana formentada em guerras, conflitos internos de disparidade política com o mundo atual em alguns aspectos (não todos). Porém, hoje apesar do globalismo ter seus problemas, temos a possibilidade de comunicar-se com um fornecedor no Japão mesmo pelo Instagram (como já vi no mercado TCG por exemplo), e conseguir importar mercadorias de forma legal com facilidade dependendo do stream necessário e quantidade de capital disponível.
Estamos numa era em que transações internacionais são facilmente executadas em comparação à decadas atrás, e pequenos empresários poderiam usar essa oportunidade para satisfazer seus consumidores sendo intermediadores de produtos internacionais. E sabemos que mesmo que a vantagem comparativa é um faca de dois gumes, o que o Brasil é bom e produzir ele exporta, o que ele é ruim de produzir ele importa, isso é natural e como Bastiat dizia, até impede a possibilidade de guerras e conflitos sendo executadas a esmo como anteriormente, pois como posso guerrear com meu maior fornecedor de um bem inelástico que preciso no meu país?
Restrições não são uma forma de estabelecer a soberania nacional. Restrições são uma forma de imbecilidade nacional. Elas mostram que tal país é retrógado em relações internacionais, enquanto continuarmos com o protecionismo que tanto os autores franceses como Mirabeau, Quesnay, Turgot, Bastiat e etc criticaram, tudo que teremos é uma economia que poderia estar prestes a ir para o próximo nível, mas foi impedida pela imbecilidade de legisladores.