O que é Flipping e Scalping em varejo?

Escrito por Aranea

Como um mercado de nicho relativamente abandonado vem se reinventando

Gamestop

Flipping é o conceito de comprar um asset a um valor descontado do valor de mercado e vender ele posteriormente com arbitragem (por um valor maior). Mesmo o “Security Analysis” de Graham e as obras associadas às ideias de Warren Buffet, tem como ponto central a ideia de comprar ações pelo “discounted present value”, onde o investidor tem que avaliar se as ações que ele escolheu comprar tenderão a apreciar em relação ao histórico e prospectivo de sucesso que probabilisticamente a empresa venha a ter.

No mercado de Real Estate (imobiliário), o conceito de flipping é o mesmo, você escolhe casas, propriedades, prédios e etc, que estejam numa situação ruim e com um valor abaixo do mercado no preço do seu metro quadrado na região, e você investir numa reforma do imóvel para fazer o preço naturalmente se ajustar ao real de um imóvel em bom estado. Ganhando com a apreciação do imóvel pós-reforma.

Porém, quando falamos de flipping no varejo, as coisas são diferentes. Estamos falando de alguém que compra itens e produtos (colecionáveis principalmente) no varejo pelo valor descontado no mercado, e revende online com lucro, e esse é o foco deste artigo.

Flipping em itens colecionáveis e jogos

Um exemplo simples de flipping nos EUA, é alguém buscar comprar em diversos tipos de lojas jogos que estejam a um preço abaixo do valor original, ou videogames, controles de edição limitada, actions figures limitadas, cartas TCG que possuem valor de mercado, mesmo fitas de videogames antigos como Nintendo 64, caixas lacradas de gameboy Advance como Pokémon Fire Red ou Pokémon Emerald, todos esses itens podem nem ser produzidos mais por terem saído de linha, e a sua escassez aprecia seu valor.

É claro que a utilidade marginal que define o preço desses produtos, quanto mais temos no mercado, mais um equilíbrio de Nash nos preços ocorre, enquanto se forem extremamente escassos, como Beta Booster Pack de Magic que pode valer $30.000 dólares, podem funcionar pela lei de Pareto, que tende a ter flutuações de preços maiores.

Então um “flipper”, seria alguém que busca nessas lojas generalistas, o máximo de itens que estejam num valor abaixo de mercado. Porém, não é tão fácil assim, é necessário um nível de know-how, pois alguém teria que saber quais itens possuem mais demanda provável de venda, então não adianta comprar um jogo de PS2 genérico que ninguém conhece ou joga, mas sim aqueles que têm uma probabilidade de venda maior, e que estejam em bom estado, pois não adianta você aumentar sem inventário, seu estoque, sem uma liquidez de saída desses produtos.

O custo de Flipping

Como alguém poderia do nada começar a fazer flipping nesse nicho? Primariamente, ter um estoque, e dependendo do tamanho do mesmo, ele pode ser feito mesmo em casa sem danificar os itens. E alguém tendo know-how desse nicho, teria que agora encontrar os itens corretos que poderiam permitir um lucro possível com uma liquidez decente.

Liquidez nesse contexto é o tempo entre você adquirir seu produto no inventário e a venda, se você vender num Mercado Livre da vida, e ninguém nunca comprar, seu custo não gerou nenhum lucro, afinal, o que importa para uma empresa no fim são as vendas, onde deve haver um lucro bruto em cada transação.

Então alguém sem conhecimento no tema poderia fazer as compras erradas, não conseguir achar a forma e estratégia buscando uma demanda contínua e cíclica de mercado e no fim não conseguiria performar nesse nicho. Então seja flipping de Real Estate ou de itens colecionáveis, tudo depende do seu conhecimento, e da eficiência do capital empregado na composição do inventário.

Caso alguém tenha uma loja, os custos são maiores (aluguel, luz, funcionários e etc) do que alguém que vende apenas online usando uma plataforma como a Amazon, um site próprio e etc. Então alguém que faz flipping online apenas, pode ter uma exposição de mercado maior de potenciais compradores e assim um inflow de capital cíclico relativamente maior.

Exemplo prático de Flipping

Facilmente pode se achar um Nintendo Wii por R$351.99 reais no Aliexpress,porém, com as tarifas atuais no Brasil de importação de compras de consumo, isso se torna um problema caso o valor seja acima de $50 dólares. Mesmo se for uma compra bulk, o imposto ainda é de 30%, caso não houvessem essas taxas, alguém poderia fazer flipping importando de fora, mas agora somente se forem compras de escalar maior para pagar menos impostos.

O que alguém pode fazer é comprar nacionalmente, e assim buscar no varejo itens que estejam a um valor descontado de mercado, usarei o nicho de games aqui, mas em todos é a mesma coisa. Um Nintendo Wii no Aliexpress está R$351.99, porém um desbloqueado (jogos piratas funcionam) está R$ 649,90 na Shoppe, se você mesmo desbloquear (o que não é complexo necessariamente), o valor de venda já é maior por esse fato.

Ou comprando caixas seladas, vamos supor que você encontre um Nintendo New 3DS XL Hyrule Edition sendo vendido no varejo local a R$3.500 reais, mas o preço de mercado é R$ 5.000 em média, essa é uma oportunidade de arbitragem. Porém, essas margens tendem a ser menores e alguém tem que buscar fontes, informação realmente (no sentido de Hayek) de onde estão os produtos com valor abaixo de mercado, e normalmente eles não estão online, eles estão naquela venda de garagem (comum nos EUA), em feiras de vendas de itens colecionáveis deste nicho, em lojas generalistas com formatações de promoções ou vendas em bulk (vários itens de uma vez), e por aí vai.

Estamos falando de jogos usados e lacrados de Nintendo 64, Nintendo DS, Nintendo Wii, PS1, PS2, Nintendo Gamecube, de consoles em si, de VR’s de PS4, Guitarras de Guitar Hero, fitas de GBA antigas, além de itens colecionáveis desse nicho, onde existem meios, lugares, que possuem esses produtos e não estão listados na internet, e aí fica a oportunidade de flipping (levando em conta que todos esses produtos sendo originais, onde o preço de mercado é maior).

Exemplo regional: Santa Efigênia

Para quem mora em São Paulo, com certeza você já ouviu falar da Santa Efigênia, que é um lugar onde existe todo tipo de loja possível inimaginável, incluindo desse nicho. Onde existem lojas com preços variados e com itens diversos, e o foco seria comprar os preços dos varejistas com os itens online, e assim encontrar a possibilidade de arbitragem através de resale (revenda).

Lojas generalistas com vários itens nesse nicho também podem agregar. O mercado de flipping de livros é relativamente conhecido, com pessoas achando livros em ótimo estado e alta demanda, mesmo de primeiras edições em sebos, e depois revendendo após restaurar o mesmo, o que demanda um acesso a esses sebos e realmente num tempo finito encontrar essas oportunidades, em que o know-how para encontrar algo de valor é essencial, além da forma de vender isso pelas plataformas corretas e da forma mais transparente e clara possível. No fim, gostar do nicho e por isso conhecer ele muito bem, é a coisa mais importante nesse mercado.

Parte 2: Scalping de uma perspectiva libertária

O ponto básico do direito libertário é ele ser predicado em direito natural, no princípio da não-contradição de proposições legais e da não violação do PNA (Princípio da não-agressão, tudo na lei no fim é sobre alguém ferir o direito do seu próximo, em todas as suas categorias seja de fraudes bancárias até homicídios, o ponto no fim é esse em todas as leis.

É claro que a perspectiva libertária visa liberdade econômica total ao indivíduo, mas tal liberdade não pode violar o direito do seu próximo, ou seja, no direito econômico libertário ainda temos leis que protegem o indivíduo contra as ações injustas do seu próximo.

O foco aqui será tratar sobre scalping, e se essa prática é imoral ou não, ou mesmo se constitui-se numa forma não legal de transacionar mesmo num contexto libertário.

O que é Scalping?

Não devemos confundir com o termo “scalping” usado no mercado financeiro, onde traders fazem transações buscando flutuações baixas do mercado mas com uma grande quantidade de capital em cada uma, sendo transações de curto prazo e de alta frequência naturalmente (um aspecto muito comum em algorithmic trading).

Scalping no contexto que iremos falar, trata de revenda de produtos comprados em varejo (retail), e já devemos nos familiarizar com alguns termos relevantes. Quando alguém compra um produto de um distribuidor, ele está pagando o “wholesale price”, que envolve compras em atacado onde o foco é revender de uma perspectiva comercial (como uma loja, um mercado e etc).

Para diversos tipos de produto, você como pessoa física não terá acesso a grandes quantidades wholesale como lojas e mercados conseguem, mesmo o atacado revenda o que alguém já produziu, mas é diferente se você compra do próprio fornecedor, nesse caso você adquire as mercadorias em wholesale price de forma perene.

A loja ou mercado compra o produto à wholesale price e vende ele com margem de varejo (retail) com um lucro que varia de produto para produto mas que tende ao preço de mercado local e regional. Porém, o scalper (que pratica scalping) é alguém que compra em varejo e revende com uma grande margem no mercado online normalmente, mas a questão é: “que tipos de produtos poderiam ser vendidos assim?”.

De Air Jordans à Dunk Lows

Scalping pode envolver diversos tipos de transações, mas irei focar nas mais conhecidas para qual tal termo é usado. Existe um mercado de tênis de marca com unidades limitadas e colecionáveis, por exemplo, o mercado da Nike de Air Jordans.Como o Air Jordan I que é bem icônico com seu cano alto e cores preto e vermelho vibrantes, ou um Air Jordan 2010, Air Jordan XX3, Air Jordan VIII, toda essa linha tem uma gama de tipos de produtos que têm uma apreciação futura de mercado modulada pela preferência temporal das pessoas.

Um Air Jordan 12 Retro está custando R$1.200 reais atualmente, um Air Jordan 1 High Electro Orange está R$1.100 reais, um Air 1 Zoom CMFT 2 Musselina/Celestial está R$1.750 reais, e quando estamos falando de edições que tem uma limitação de oferta e com demanda para esses tipos diferentes colecionáveis, temos um mercado de venda peer-to-peer, de revendedores no geral mesmo de lojas, online ou de uma forma mais marginal numa OLX ou eBay da vida.

Indo para outros tipos da Nike, temos um Supreme x Nike SB Dunk Low Stars Black valendo R$ 4.000 reais, e alguém pode vender ele para lojas posteriormente, não só de pessoa para pessoa (especialmente se não foi usado) ou um Nike SB Dunk Low What The P-Rod que está R$ 2.500 reais, e esses tênis viram uma forma de commodity sujeita à características de preços de itens em leilão.

O problema está em indivíduos que compram esses tênis de edições limitadas em massa, exatamente para vender por preços muitos maiores e limitando a possibilidade de outras pessoas comprarem eles, estamos falando de uma pessoa comprando centenas, mas não em atacado ou com o fornecedor, no preço de varejo que aprecia posteriormente, pois a edição para de ser fabricada.

Tem um problema em praticar Scalping?

De uma perspectiva libertária, não. Ao comprar esses produtos, a pessoa não roubou esses produtos da loja, ela comprou eles legalmente, e nada há de errado na intenção de revenda. Se um tênis Nike numa edição com apenas 500 produzidos, for comprado por apenas uma pessoa, bem, ela comprou eles legalmente sem ferir o direito de ninguém no processo, sem ferir o PNA.

Porém, quando estamos falando de uma compra no varejo de forma física, quando vemos vídeos de pessoas (com intenção de revenda à 120% mais) colocando todos os produtos daquele nicho no carrinho enquanto outras esperam na fila para os comprar, e não deixando nada para ninguém, temos um problema.

E vejo que recentemente, lojas como o Walmart, Costco, Target nos EUA estão tendo de lidar com esse problema, colocando limites de compra por pessoa ou colocando os produtos em lugares inacessíveis para alguém pegar todos de uma vez, pois ao pegar todos você está literalmente impedindo que outras pessoas da região tenham acesso imediato a esses produtos, sendo que estamos falando de produtos com características “de leilão” e apreciação futura.

As pessoas tendem a considerar scalping antiético

Nas redes sociais tenho visto muitos denunciando scalpers, obviamente não por cometer crimes (pois não estão), mas por acharem essa prática meio antiética, antiética no sentido de tentar manipular o preço do mercado ao impedir o acesso de varejo a outras pessoas.

No mercado TCG de pokémon vemos isso, nos EUA existem até vending machines focadas apenas em produtos da linha TCG, e o problema era de pessoas que esvaziavam elas mesmo desligando a máquina na tomada para poder repetir a compra várias vezes, com o fim de revenda, mesmo de Card Shops que são lojas que vendem esses itens a rodo.

A política de lojas pode vir a ser de permitir que todos tenham acesso a tais produtos, afinal, o varejo não é um fornecedor Wholesale, é um espaço privado que qualquer um pode ter acesso às mercadorias, e para beneficiar seus consumidores,limitar a quantidade de itens por pessoa pode acabar com a prática parcialmente (tendo em vista que ela é antiética,embora não imoral).

Talvez a margem de um scalper pode ser até maior que um vendedor de varejo, que tem que vender ao preço de mercado (spot price) algo que ele adquiriu pelo wholesale price onde as margens tendem a ser menores naturalmente, além dos custos de aluguel, estoque, funcionários e etc, algo que scalpers não têm, eles fazem seu estoque no varejo, mas por serem itens limitados (mesmo a demanda não vendo sendo suprida até para varejistas) acabam apreciando muito de valor,e podem facilmente vender esses itens online num eBay ou Mercado Livre, sem incorrer todos os revezes.

Scalpers nem sempre são bem sucedidos

O que pode acontecer, é que o “resale price” (preço de revenda) pode vir a diminuir no longo prazo, para qualquer tipo de produto mesmo que limitado. Afinal, não é a escassez de um produto que cria seu valor, mas sua utilidade marginal subjetiva, logo, não é porque você comprou uma edição limitada ou itens escassos, que eles naturalmente irão apreciar no mercado.

Isso pode fazer scalpers perderem dinheiro nessas transações, e de forma irrecuperável realmente. Não é como se eles tivessem alta liquidez também, eles podem acabar não vendendo todos e acabar demorando para recuperar seu capital investido ou mesmo qualquer lucro, então scalping pode acabar se tornando uma ingenuidade.

Scalping e Dropshipping

Não devemos confundir scalping com dropshipping, mas podemos ver similaridades. Dropshipping é basicamente ter uma plataforma, app ou site que serve de intermediadora entre um consumidor e um atacadista e o produtor, onde o dono da plataforma não tem nada no seu estoque (o que tira um grande custo da sua operação), ele compra e revende o produto com uma margem de lucro em cima, é literalmente resale na prática.

O produto passa por um terceiro que entrega ele para o consumidor, tudo que a plataforma fez foi intermediar a transação. Porém, vemos tipos de dropshipping, onde na verdade a pessoa poderia comprar o mesmo produto num aliexpress ou Shoppe da vida por um preço menor, e logo alguém pode pensar: “eu estou comprando algo revendido de varejo?”, o que seria meio que burrice certo? É claro que o preço do produto tem que permitir essa margem de lucro sem afetar a elasticidade da demanda ao consumidor, mas o ponto é que isso é estranho no mínimo.

Mas não existe nada de errado com dropshipping, a pessoa concordou em todo o processo de transação, e todos sabemos que preços de itens variam em diferentes mercados, lojas, sites e etc, a pessoa não foi necessariamente enganada no processo, no máximo lhe faltava informação sobre opções melhores de compra, mas isso não pode ser uma razão colocar alguma imoralidade nesse processo.

Qual dos dois é pior?

A diferença entre ambos, é que em um você tem pessoas físicas (que podem ser associadas à jurídicas) comprando todos os produtos de um nicho para apenas revender por um preço maior, impedindo colecionadores de seu processo normal de compra, e do outro temos pessoas apenas intermediando vendas.

Dos dois, creio que com uma grande margem, scalping é muito mais antiético e mal visto do que o dropshipping (dependendo da forma que é feita), não são práticas comerciais imorais, e esse é o ponto deste artigo, numa sociedade libertária, ambos não tem nenhum problema, mas o ponto é: “qual é a linha entre a ética e imoralidade em transações?”. Porém a resposta para essa pergunta, não darei aqui, afinal, eu não sei a resposta.