O que se sabe até agora sobre a liquidação do Banco Master

Escrito por Vitor Gomes Calado

Retrato da riqueza brasileira: império financeiro construído sob fraude e conexões políticas

Edifício do Banco Master.

Na madrugada de uma segunda-feira de novembro de 2025, Daniel Vorcaro foi detido no aeroporto de Guarulhos quando tentava embarcar para Malta em um jato particular. O banqueiro de 42 anos, dono do Banco Master, não imaginava que aquela seria sua última tentativa de deixar o país como homem livre. Horas depois, o Banco Central decretaria a liquidação extrajudicial de sua instituição financeira, encerrando um dos capítulos mais escandalosos do sistema bancário brasileiro recente.

A Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal, revelou um esquema de fraude bilionária que envolveu a emissão de títulos de crédito falsos, gestão fraudulenta e uma organização criminosa voltada à prática de múltiplos crimes contra o sistema financeiro nacional. Os prejuízos estimados chegam a 12 bilhões de reais, afetando 12,4 milhões de clientes e causando perdas de 1,86 bilhão de reais a fundos de previdência pública em todo o país.

Natural de Belo Horizonte, Vorcaro vem de uma família de classe média alta do setor da construção civil. No final da década passada, assumiu o controle do banco Maxima, fundado nos anos 1970, e rebatizou a instituição como Banco Master. O que se seguiu foi um crescimento acelerado: o patrimônio saltou de 219 milhões de reais em 2019 para 4,7 bilhões de reais em 2024, 25 vezes em cinco anos.

O que chamou atenção da Faria Lima foi a estratégia ousada do banco. Enquanto bancos tradicionais ofereciam CDBs (Certificado de Depósito Bancário) com taxas de juros próximas a 120% daquela do CDI (Certificado de Depósito Interbancário), o Master prometia até 140% do CDI. A rentabilidade muito acima da média servia de isca, e a garantia do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) de até 250 mil reais funcionava como argumento de venda, a isca foi mordida pelos investidores, contanto com influencers inusitados como Paulo Gala (economista-chefe do banco!), o sinófilo e propagandista Elias Jabbour e até mesmo Gabriela Prioli tendo feito posts promovendo o banco.

Com os recursos captados, o banco investia em empresas consideradas de alto risco, como Light e Oi, além de adquirir precatórios depreciados e carteiras de crédito.

Isso tudo, no final, revelou-se um castelo de cartas. Em 2024, começaram investigações da Polícia Federal, após pedido do Ministério Público Federal, visando apurar a possível fabricação de carteiras de crédito inexistentes. Revelou-se um esquema no o Master teria adquirido carteiras de crédito de uma empresa dirigida por um ex-funcionário sem realizar qualquer pagamento e, logo em seguida, revendeu esses títulos ao Banco de Brasília (BRB), recebendo pagamento imediato.

Entre janeiro e maio de 2025, essa operação resultou na transferência de 12,2 bilhões de reais do BRB para o Master. Ao justificar a transação ao Banco Central, o Master informou que a carteira de crédito tinha origem em duas associações de servidores do estado da Bahia, criadas por um diretor do banco.

Uma auditoria do Banco Central destruiu essa narrativa. Ao analisar uma amostra de 30 supostos clientes tomadores de créditos das operações cedidas pelo Master ao BRB em janeiro de 2025, a instituição constatou que não foi possível estabelecer qualquer correspondência das transações com o fluxo financeiro. Os dados sinalizavam insubsistência, termo técnico que significa inconsistência ou falta de fundamento que comprove a existência de algo.

A titularidade dos títulos passou então a ser atribuída à Tirreno, empresa criada no final de 2024 por uma pessoa que registrou outras firmas semelhantes, o que é indício de uma "empresa de prateleira" para viabilizar o socorro ao Master. O contrato inicial de parceria entre Master e Tirreno e um dos instrumentos de cessão de crédito sequer estavam autenticados em cartório.

Vorcaro costumava reconhecer a importância de sua rede de contatos políticos. Dizia a pessoas próximas que havia feito "fortes amigos" em Brasília, que "no Brasil não tem como andar se não tiver esse tipo de proteção" e que, sem o apoio de poderosos, não estaria onde chegou.

O banqueiro contava que, durante as negociações com o BRB, o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, teria ligado para um aliado político para saber mais sobre seu histórico e recebido "ótimas referências". Ibaneis nega o episódio e confirma apenas que esteve com Vorcaro "uma ou duas vezes em eventos sociais, mas nunca para tratar de banco".

Entre os avalistas políticos de Vorcaro estava o senador Ciro Nogueira, ex-ministro da Casa Civil do governo Bolsonaro, com quem o banqueiro nutria uma relação de "grande amizade". Em agosto de 2024, Nogueira propôs elevar de 250 mil para 1 milhão de reais o valor da indenização paga pelo Fundo Garantidor de Créditos—mudança que beneficiaria diretamente o Master ao ampliar seu limite de captação de recursos. A proposta foi engavetada no Senado após pressão do mercado.

O partido de Nogueira também tentou ajudar o Master em um embate com o Banco Central. Durante as negociações de venda ao BRB, quando a autoridade monetária sinalizou possível rejeição da operação, o deputado Cláudio Cajado, aliado de Ciro, articulou um requerimento para acelerar a tramitação de projeto de lei que permitiria ao Congresso destituir presidentes e diretores do Banco Central. A manobra só não avançou devido à pressão do mercado.

Vorcaro mantinha também boa relação com o presidente do União Brasil, Antônio Rueda. Enquanto cultivava esses contatos, o Master recebeu investimentos que somaram 2,6 bilhões de reais do Rioprevidência, responsável pelo pagamento de aposentadorias e pensões de servidores do Estado do Rio de Janeiro — fundo loteado pelo partido controlado por Rueda.

Advocacia de Vorcaro

Sob pressão, Vorcaro buscou se cercar de nomes estrelados do direito. O banco gastou mais de 500 milhões de reais com advogados nos últimos 24 meses. Em 2024, o Master registrou 580 milhões de reais em despesas com "serviços técnicos especializados", volume 75% superior ao de 2023. Na nota explicativa, a instituição admite que o aumento, de quase 250 milhões de reais, "foi composto principalmente por serviços de consultoria jurídica".

Entre os escritórios contratados está o Barci de Moraes, onde trabalham a esposa e dois filhos do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. O escritório atuou em ações relacionadas ao Master. Mais recentemente, o banqueiro contratou o escritório de Walfrido Warde, especializado em mercado de capitais e disputas societárias, além dos criminalistas Roberto Podval e Pierpaolo Botini.

O banqueiro também contratou como consultor o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega para ajudar na interlocução com o governo federal. Além de Mantega, contava com os serviços do ex-presidente Michel Temer e de Henrique Meirelles, ex-comandante do Banco Central e da Fazenda.

O ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, também fez parte do comitê consultivo estratégico do Master antes de integrar o governo Lula. Após se aposentar do Supremo Tribunal Federal em abril de 2023, o jurista retomou as atividades de advogado e passou a ter ampla clientela, deixando o escritório ao retornar à vida pública.

Para se aproximar de atores da política, Vorcaro comprou por 36 milhões de reais uma mansão em Brasília, localizada em condomínio fechado de bairro nobre da capital federal. O imóvel de 1.700 metros, com ampla vista para o lago Paranoá, passou a ser frequentado por diferentes interlocutores influentes.

Vorcaro foi preso junto com Augusto Lima, ex-sócio e CEO do Banco Master até maio deste ano. Lima chegou ao Master em 2019, quando o banco incorporou o Credcesta, programa de crédito consignado para servidores públicos. Após deixar a sociedade com Vorcaro, Lima assumiu o controle do Voiter, rebatizado como Pleno, que teve aprovação do Banco Central em agosto de 2025.

A desembargadora Solange Salgado da Silva, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, rejeitou o pedido de liberdade de Vorcaro. A magistrada afirmou que "a interrupção dos atos criminosos faz-se imperiosa" e que "a liberdade do paciente, neste cenário de fraude sistêmica e obstrução da fiscalização, representa risco concreto".

A defesa de Vorcaro alegou que a fundamentação do pedido de prisão foi baseada em argumentos genéricos, sem demonstrar risco concreto. Os advogados afirmaram que os fatos não são contemporâneos, que o Banco Central afastou qualquer ameaça ao decretar a liquidação e que não houve tentativa de fuga, pois o empresário viajaria aos Emirados Árabes para assinar contrato de venda do Banco Master.

A liquidação extrajudicial equivale ao encerramento efetivo do banco. Todas as atividades foram suspensas, e os depósitos ficaram bloqueados temporariamente para saques, acionando a atuação do Fundo Garantidor de Créditos. O Banco Central nomeou a EFB Regimes Especiais de Empresas como responsável pela liquidação e tornou indisponíveis os bens de controladores e ex-administradores.

A crise afeta 12,4 milhões de clientes e 515 trabalhadores. Dezoito fundos previdenciários de estados e municípios aplicaram 1,876 bilhão de reais em letras financeiras do Banco Master entre outubro de 2023 e dezembro de 2024. O Rioprevidência responde por mais da metade desse volume, com 970 milhões de reais investidos. As aplicações foram feitas em letras financeiras, título que não tem cobertura do Fundo Garantidor de Crédito.

O FGC protege investimentos de até 250 mil reais por CPF ou CNPJ, por instituição financeira. Qualquer valor acima desse limite não é coberto e só poderá ser recuperado no processo de liquidação e venda dos bens do banco. Cerca de 1,6 milhão de investidores aguardam o ressarcimento de 41 bilhões de reais pelo Fundo Garantidor.

A Polícia Federal apreendeu um jatinho de Vorcaro avaliado em 200 milhões de reais. A Justiça decretou o afastamento temporário do presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, e do diretor de Finanças e Controladoria da instituição, Dario Oswaldo Garcia Júnior, por ao menos 60 dias.

Breve lição Final

A lição do Banco Master é infeliz retrato do Brasil: impérios financeiros, fortunas pessoais inteiras construídas em cima de nada; fraudulentas, mas sustentadas por conexões pessoais no estamento burocrático que, por interesse do político eleito, conduz a máquina que deveria ser pública segundo seus desígnios privados.

Com a redemocratização, a instituição de um Banco Central independente e uma política fiscal responsável se realizaram com um objetivo latente de combater o velho patrimonialismo cujos tentáculos se estendem por séculos, a intenção era modernizar a economia e a política do Brasil, mas o capitalismo brasileiro ainda permanece patrimonial: politicamente orientado a sustentar as mesmas elites antigas e abrigar novas elites coniventes.

Nos dias de hoje, de vez em vez aparecem gigantescos escândalos para nos relembrar que, em pleno século XXI, um sistema que subsiste desde o século XVI permanece firme, forte e governante no Brasil.