O "Volkswirtschaft"
Quando mais o poder age contra o direito natural, mais a possibilidade de prosperidade desaparece
Com Rothbard diz em “Conceived in Liberty”: “poder e liberdade não podem andar juntos” (parafraseando). Assim, quanto mais poder os líderes de um Estado possuem, quanto mais eles podem ir contra o direito outorgado a eles, mais temos uma balança que tende ao poder, mas não a liberdade econômica, política e legal do povo.
No “Ação Humana”, Mises usa o conceito de volkswirtschaft (economia nacional em alemão), para ilustrar a noção de um Estado quasi-ditatorial, que quer sempre dar ordens e criar regras inúteis, irrelevantes e abusivas ao povo, com o pretexto de termos como: “segurança”, “paz”, “democracia”, “verdade”, quando são hipócritas que querem apenas poder para si. Aqui veremos como Mises descreve esse conceito, também na sua obra “Bureaucracy” que tem tudo haver com esse tema
“Todo poderoso” governo
“Eles partem do pressuposto de que existe um conflito irreconciliável entre os interesses da Volkswirtschaft (economia popular) e os dos indivíduos egoístas ávidos por lucro. Não hesitam em priorizar os interesses da Volkswirtschaft em detrimento dos interesses individuais. O cidadão justo deve sempre colocar os interesses da Volkswirtschaft acima dos seus próprios interesses egoístas” (Mises, Ludwig von. Human action. Ludwig von Mises Institute, 1949, pg. 320).
Essa ideia tende a um protecionismo, a uma noção de que temos o dever de proteger a soberania nacional através de métodos como: tarifas de importação, quotas de exportação, restrições de importação, subsídio e coisas do tipo. Recentemente, vi uma lei que não foi aprovada, que visava taxar youtubers para dar esse imposto para a indústria nacional de cinema realizar seus projetos.
Isso é imoral, porque outro setor tem que ajudar uma indústria que tanto não consegue suportar a si mesma, que só realiza projetos com ajuda do Estado? Veja que essa é uma ideia dentro de um setor que está voltado ao estatismo, pois se o Estado lhes ajuda, eles vão deitar e rolar para o mesmo como cães. Porém, o interesse daqueles que buscam redistribuição de renda (nesse caso em forma de tomar de empresários de um setor) é sempre voltado aos interesses do Estado que lhes fornece capital, é uma mentalidade que está indo de contrário aos interesses do empreendedor comum de pequeno–médio porte.
No mundo globalizado atual o protecionismo cada vez mais (sempre foi) se torna um entrave na prosperidade econômica de um país, que deveria discutir como gastar menos e cortar de forma expansiva todos os impostos significativamente, mas eles tendem à direita da Curva de Laffer.
É claro que não temos um volkswirtschaft total atualmente, mas temos um parcial, um que tende ao social democratismo, ao caminho do meio que leva ao socialismo, não um socialismo real, mas uma socialização do capital que tira cada vez mais a oportunidade de prosperidade de n agentes no país. Eles discutem como criar leis, antes de tirar as leis inúteis que matam o empreendedor, as empresas deste país, e esse Neo-Mercantilismo é abominável.
Controle Total
Sobre a Alemanha Orienta e a USSR, Mises diz:
“Assim, eles estão em condições de usar, para seus cálculos econômicos, os preços estabelecidos no exterior. Somente porque podem consultar esses preços é que conseguem calcular, manter registros e fazer planos. Seria bem diferente se todas as nações adotassem o socialismo. Nesse caso, não haveria mais preços para os fatores de produção e o cálculo econômico seria impossível” (Mises, Ludwig von. Bureaucracy. Yale University Press, 1944, pg. 58-59).
Vamos supor pelo bem do argumento que o mundo todo fosse socialista. Não haveria forma de sequer realizar índices de preços, pois a USSR e a Alemanha eram obrigados a usar por fins de comparação e uso, os preços do mercado exterior, ele não poderiam (porque é impossível) gerar os preços eles mesmos para n commodities de n setores e indústrias, pois o mesmo só é formado organicamente numa economia de mercado, onde oferta e demanda demonstra isso e só vemos o resultado a posteriori, mas calcular eles a priori é impossível (a não ser que você seja um ser onisciente).
Em outra obra, ele diz:
“Para cada cálculo individual dos ramos específicos de uma mesma empresa, depende exclusivamente do fato de que é precisamente nas negociações de mercado que os preços de mercado, a serem tomados como base de cálculo, são formados para todos os tipos de bens e mão de obra empregada. Onde não há mercado livre, não há mecanismo de precificação; sem um mecanismo de precificação, não há cálculo econômico” (Von Mises, Ludwig. Economic calculation in the socialist commonwealth. Routledge,[sd], 1940, pg. 25).
Não existe mental calculation aqui. Quando um empresário quer realizar um produto, compra matéria prima de fora dos melhores fornecedores, monta sua cadeia de produção e aloca recursos com o fim de ter o maior lucro possível, a informação que ele tem do mercado e sua execução do mesmo, que fará ele ser bem sucedido, é como se fossem algoritmos genéticos, você tem uma pool de empreendedores num setor numa certa cidade ou país, tem um conflito de competitividade entre eles temporalmente, e os melhores dessa pool, aqueles mais eficientes em antecipar o mercado e agir da melhor forma, seja em produção, design, marketing e etc, que serão bem sucedidos.
Quando alguém escolhe quem deve agir em cada setor, esse exemplo não existe mais. Um exemplo esdrúxulo seria: imagine que você tem n crianças numa peneira de futebol, você deve escolher quem passa no teste dentre 15.000 delas com base em quem são os pais das mesmas, se são amigos do clube e etc, ou na qualidade apresentada no teste em capacidade no jogo?
É a mesma coisa no empreendedorismo, quando o governo quer escolher quem vai fazer cada coisa, ou dando suporte, linhas de crédito, subsídio para amiguinhos do governo, isso cria um ambiente em que os melhores de fato não vão submergir no mercado, pois estão sendo impedidos.
A Anatomia de uma empresa estatal
“O que é comum a todos esses casos é o fato de a empresa não estar mais interessada em aumentar seus lucros. Ela perde o incentivo para reduzir custos e realizar seu trabalho da maneira mais eficiente e econômica possível. Mas, por outro lado, os controles sobre melhorias nos procedimentos e tentativas de redução de custos permanecem” (Mises, Ludwig von. Bureaucracy. Yale University Press, 1944, pg. 66).
Uma empresa do Estado não tem incentivo a lucrar, pois o que gerencia a mesma não é dono, o dono é o governo em essência. Mesmo que o governo só tenha parte das ações da empresa, qualquer forma de controle administrativo fora da esfera privada tende a ser inferior. Tanto que numa concessão ou privatização, uma reestruturação tem que ser realizada e leva tempo para as coisas entrarem nos trilhos, pois toda a operação tem que mudar a mentalidade (o que pode vir a fazer um corte de pessoal necessário).
Num sistema socialista, num total volkswirtschaft, todas as empresas são do Estado, logo o que é verdade numa empresa estatal comum, vira um colosso imparável, um verdadeiro Leviathan de Hobbes, com todo seu poder e ineficiência.Isso não leva a prosperidade do país, imagine quanto a Venezuela poderia ter crescido caso suas reservas de petróleo que estão entre as maiores do mundo fossem bem utilizadas trazendo um inflow de capital privado para o país? A administração pública deu certo? É claro que não, a mesma impede a prosperidade do país, pois seu fim tende a não ser o lucro, seu fim não tende ser inovar, pois ela não pode cair, pois ela é tem em sua base o Estado.
Um exemplo no sistema bancário
“É possível que o nome “Banco” seja mantido, que o Conselho Econômico Supremo da comunidade socialista seja chamado de Conselho de Administração do Banco e que suas reuniões sejam realizadas em um prédio anteriormente ocupado por um banco. Mas não é mais um banco, não desempenha nenhuma das funções que um banco desempenha em um sistema econômico baseado na propriedade privada dos meios de produção e no uso de um meio de troca geral — o dinheiro” (Von Mises, Ludwig. Economic calculation in the socialist commonwealth. Routledge,[sd], 1940, pg. 40).
Uma coisa que falei sobre num artigo anterior sobre as obras de Yegor Gaidar e a reestruturação da Rússia para um livre mercado depois do socialismo imperial de décadas, foi como a transição de bancos para agirem como os do ocidente, foi muito complexa. Pois eles não sabiam o que deveriam fazer, não sabiam como deveriam agir numa economia de mercado, as operações bancárias não são as mesmas no socialismo, elas são completamente controladas pelo governo, tanto o inflow e outflow de investimentos e empréstimos, logo é simplesmente algo não natural neste contexto.
Numa economia de mercado normal, o banco fornece diversos tipos de investimento para n agentes tendo uma linha de crédito decente para performar pagamentos de juros. Numa economia socialista, o juros originário não existe, a preferência temporal é controlada em certo sentido, não as das pessoas, mas o efeito das diferenças de preços, pois os mesmos são controlados pelo governo.
Havia sim empréstimos entre membros, e eles recebiam capital externo sim, mas não estamos falando de bancos privados operando nesse contexto, mas apenas estatais em toda a USSR, empréstimos entre eles e coisas do tipo, mas estava longe de um sistema bancário normal, por isso essa transição foi muito difícil.
Mises continua:
“Mesmo assim, Lenin está longe de perceber que se trata de um problema inteiramente novo, impossível de resolver com os instrumentos conceituais da cultura “burguesa”. Como um verdadeiro político, ele não se preocupa com questões que estejam além do seu alcance” (Von Mises, Ludwig. Economic calculation in the socialist commonwealth. Routledge,[sd], 1940, pg. 42).
Por não ter juros originário, pelos preços serem controlados, por toda a estrutura da economia não ser privada, a função do dinheiro se perde na economia socialista, vira realmente um asset estatal com fim de realizar transações sim, mas transações totalmente fora da sua função é contexto natural. E não somente da economia moderna como se fossem retrógrados, de qualquer tipo de sociedade normal, pois como o cálculo econômico é impossível, você realmente cria uma confusão tão grande que o dinheiro agora não tem um valor real, tanto que a USSR teve muitos problemas em lidar com as flutuações de sua moeda interna entre seus membros.
O ponto central
Não é uma questão de ideologia, é uma questão praxeológica. É uma questão do que é racional e o que é irracional. Claramente vemos que o socialismo como teoria é irracional, simplesmente o cálculo econômico não pode funcionar. Logo, fica claro que uma confusão é gerada em todos os processos econômicos, porém, vemos isso de forma parcial nos governos atuais com adeptos do progressismo, assim, o caminho do meio que é seguido, leva não a um socialismo, mas um quasi-socialismo leve, que tira a possibilidade de prosperidade da nação.