OPINIÃO—O que dizer acerca das operações policiais?

Escrito por Vitor Gomes Calado

Nem bukelismo, nem banditismo.

Imagem de tropas do BOPE em treinamento.

Na América Latina, o experimento de Nayib Bukele deixou muitas impressões postivas na opinião pública. Isso é natural para qualquer medida que se caracteriza por um mote simples como "matar bandido", isto é, possui fácil apelo populista.

A execução de tais políticas, todavia, depende de uma série de fatores e recai sobre uma possibilidade que deve ser levada em conta: a de, no processo de combate às gangues, matar pessoas inocentes. No El Salvador de Bukele, a prisão de inocentes foi considerada um sacrifício necessário para haver segurança pública no país. Muitos creem que essa é a única alternativa, recusar isso é tentar defender bandidos. Não é este o caso.

A realidade é que as pessoas que emitem opiniões desse gênero pouco sabem acerca de como funciona uma operação militar, bem como o estado tecnológico dos equipamentos militares. Há uma categoria inteira de armamentos que pode ser designada "de alta precisão", são armamentos feitos justamente para eliminar alvos específicos. A figura mais popular associada às armas de alta precisão são os franco-atiradores, os famosos "snipers", mas a alta precisão pode ser atingida por diversos meios: uma adequada operação de inteligência contribui para maior precisão; uma logística apropriada também pode focar na precisão—como parece ter sido o caso nesta última operação da PMERJ, onde os batalhões cercaram os arredores da favela e direcionaram os traficantes para a mata; eles, desse modo, utilizaram terreno para separarem os alvos dos civis, aumentando a precisão.

Soldados bem treinados também tendem a ser mais precisos em seus tiros. Neste último caso, a utilização do Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE) contribui mais ainda para evitar mortes civis: soldados da elite precisam de disciplina e cada tiro deve ser preciso, ainda mais na situação de combate urbano. Ademais, mobilizar tropas de elite, no Brasil, é um caminho burocrático, e quaisquer erros por parte do soldado rendem sanções penais. Cada bala de um homem do BOPE, antes de passar pelo cano da arma, passa por uma série de juízes e, se este tiro atingir um civil, a bala também vai aos juízes e joga o soldado na cadeia.

Isso contribui para as tropas de elite terem aquilo que no exterior chamam de trigger discipline, atirar só quando se sabe que acertará o alvo, deixar de lado os impulsos, resistir à adrenalina. Os homens do BOPE atiram pouco, evitam até balas perdidas, cada bala atinge o alvo planejado.

Destarte, a abundância de balas perdidas e civis mortos e feridos possui outra causa: a indisciplina dos guerrilheiros do narcotráfico. Eles atiram muito mais, gastam pentes e mais pentes, pois é somente na quantidade que poderiam competir contra as tropas da polícia. De todo modo, para evitar morte de civis, na última operação do BOPE, os traficantes terem sido direcionados para a mata minimizou o risco dos tiros atingirem moradores.

Sempre há algum risco, no combate urbano, de se atingir civis, por isso as autoridades possuem o dever moral de sempre minimizá-lo. Assim, as forças do Estado tem o dever de utilizar-se de todos artifícios ao seu alcance para isso: devida operação de inteligência, boa logística e disciplina, mas também utilizar-se de tecnologias armadas avançadas.

Talvez o maior exemplo de operação de precisão no mundo ocorreu recentemente, no Irã: em uma das incursões de Israel, eles enviaram um míssil direcionado a um líder de alto escalão do país islâmico. O míssil atingiu o quarto do líder iraniano, situado num complexo residencial. Eram prédios residenciais, com civis, e um míssil que atingiu o prédio matou apenas o alvo, sem causar danos a mais ninguém. A tecnologia militar de ponta atingiu patamares altíssimos, e deveria ser utilizada a favor da lei e da ordem.

O que desejo concluir é que, para além de bukelismo ou banditismo, a prudência exige que se utilize as mais sofisticadas ferramentas do engenho humano para operar o mais eficientemente possível, de modo a preservar a vida humana e combater os criminosos, as operações são legítimas caso isso seja feito.

Para isso, transformações são exigidas. Seriam necessários mais investimentos em segurança pública, bem como parcerias internacionais—especialmente com a OTAN—e troca de experiências com tropas estrangeiras e, especialmente, a recepção de tecnologia bélica superior para combater o crime. Por fim, as instituições deveriam se desburocratizar e des-ideologizar, de modo que os novos burocratas sejam guiados por uma visão realista da dignidade da pessoa humana.