OTAN apresenta plano de defesa de 4.400 páginas contra Rússia

Escrito por Vitor Gomes Calado

Plano possui foco em sistemas anti-drones e evitar recorrer a exércitos de massa.

Mapa ilustrando projeto de defesa do Flanco Oriental de 2022, anterior a este.

A Organização do Tratado do Atlântico Norte divulgou uma estratégia abrangente para proteger seus países-membros de uma possível agressão russa. O documento, batizado de "Conceito de Linha de Dissuasão no Flanco Oriental", foi apresentado pelo general americano Christopher T. Donahue em Bruxelas aos representantes militares das 32 nações da aliança.

A proposta coloca drones e sistemas autônomos como primeira linha de resposta em caso de ataque. A ideia é criar uma zona não tripulada de operações que absorva o impacto inicial de uma ofensiva, mantendo as tropas humanas em reserva para contra-ataques. "Isso significa tirar pessoas do campo de batalha tanto quanto possível", explicou o tenente-general Jez Bennett, vice-comandante do Comando Terrestre da OTAN.

O conceito surge em meio a crescente tensão com Moscou. Autoridades da aliança alertam que a Rússia já iniciou a chamada "Fase Zero", período em que forças militares e serviços de inteligência se preparam ativamente para conflito. Kaupо Rozin, chefe da inteligência externa da Estônia, destacou reformas russas que aumentam a presença de tropas nas fronteiras com países da OTAN.

Entre os dias 27 e 31 de outubro, comandantes testaram a nova abordagem durante exercícios em Wiesbaden, na Alemanha. As manobras Steadfast Duel e Avenger Triad simularam o comando de mais de 100.000 soldados e reuniram, pela primeira vez, todas as 32 nações-membro em um cenário de defesa do Artigo 5, cláusula que define ataque a um membro como ataque a todos.

Os exercícios incorporaram lições da guerra na Ucrânia, onde o uso massivo de infantaria resultou em baixas devastadoras. A OTAN busca evitar esse modelo. "Não é mais como na Segunda Guerra Mundial, com os russos empurrando bucha de canhão para a frente", afirmou o brigadeiro-general espanhol Zacarias Hernández Calvo.

A estratégia já está em fase operacional. A aliança testa sistemas anti-drones não tripulados, como o Projeto Eagle na Polônia, com expansão prevista para a Dinamarca. Sensores de alerta conectam-se por meio de arquitetura em nuvem informada por inteligência artificial, permitindo respostas rápidas e coordenadas.

Donahue defende que o sistema, desenvolvido para o leste europeu, seja expandido globalmente. "Com este sistema de comando e controle estabelecido na Europa, ele deve ser rapidamente dimensionado e conectado em escala mundial, pronto para enfrentar qualquer ameaça", escreveu o general em julho.

A preocupação da OTAN se intensifica com a reorganização de distritos militares russos, que coloca forças próximas às fronteiras da aliança. Rozin observa que essas unidades são rapidamente transferidas para a Ucrânia após apenas uma ou duas semanas de treinamento. "Mas cedo ou tarde elas voltarão", alertou.

O ministro da Defesa da Noruega, Tore Sandvik, acrescentou outra camada de inquietação ao revelar que a Rússia fortalece sua presença militar na Península de Kola, dentro do Círculo Polar Ártico, onde mantém um dos maiores arsenais nucleares do mundo com armas apontadas para Estados Unidos, Canadá, Reino Unido e Noruega.