Parcerias com a China: bom pra quem?

Escrito por Vitor Gomes Calado

Parceria chinesa, no Brasil, apenas reproduz a velha lógica da Casa-Grande e da Senzala.

Lula e Xi Jinping, simbolica ligação entre os dois governos.

A percepção comum de que a China é o parceiro econômico mais importante do Brasil é uma das maiores mentiras fabricadas por meios escusos da imprensa.

É uma percepção falsa, que pressupõe uma confusão entre volume comercial e integração na economia real, bem como ignora uma distinção: a diferença entre um parceiro comercial e um parceiro econômico.

Ao observarmos apenas os valores de importação e exportação, a China é gigante. Os chineses compram soja, milho, minério de ferro e petróleo brasileiro em grandes quantidades. Os números parecem confirmar uma parceria sólida e mutuamente benéfica.

Essa relação reproduz o velho pacto colonial: o Brasil exporta matérias-primas e importa produtos manufaturados. Pior ainda: o Brasil importa muito mais do que exporta, a China contribui para o déficit comercial do Brasil. No primeiro trimestre de 2025, por exemplo, as importações brasileiras da China superaram as exportações em mais de 10%.

Este país exporta montanhas (minério de ferro bruto) e importa celulares Xiaomi (que já são taxados!), e demais bens processados, com maior valor agregado.

A riqueza inteira que os chineses trazem ao Brasil está no setor primário, não constrói capacidade industrial, não gera empregos qualificados; apenas sustenta os senhores da Casa-Grande (hoje um lobby no Congresso), enquanto a população inteira contenta-se com a Senzala.

Em matéria de parceria comercial, Estados Unidos e Europa operam melhor.

Eles de fato investem no Brasil, transferem tecnologia e constroem capacidade produtiva local. Um terço de todo o Investimento Direto Estrangeiro produtivo no Brasil vem de U.S. Persons (pessoas americanas). Nessa posição, a China ocupa apenas a oitava posição, mesmo com tantas parcerias e investimentos chineses anunciados, o comércio americano e europeu ainda supera.

Pra além de valores, o capital do Atlântico Norte flui para setores que definem uma economia desenvolvida: automotivo (Ford, General Motors, Volkswagen, Audi, Renault), tecnologia (Microsoft, Amazon, Google, IBM), serviços financeiros (Visa, Mastercard), processamento de alimentos, produtos químicos e farmacêuticos (até no setor do agronegócio: estrangeiros como Bunge e Cargill possuem mais participação no mercado interno). O Reino dos Países Baixos e o Japão conseguem investir mais no Brasil que a China.

Cerca de 25% de todo o Investimento Direto Estrangeiro americano no Brasil é em Data Centers, setor que exige mão de obra qualificada e aumenta a complexidade econômica.

Os investimentos chineses, todavia, são concentrados em energia e petróleo, setores que beneficiam mais a própria China e reforçam ainda mais dependência brasileira na exportação de commodities.

Balança de pagamentos Brasil-China

Pra além da Balança Comercial (exportações x importações), é necessário mostrar a Balança de Pagamentos, que registra todos os fluxos financeiros internacionais: comércio, investimentos, remessas e transferências.

É necessário entender também outra diferença: um dólar que entra via exportação de soja gera receita momentânea, um dólar que entra como investimento em uma fábrica constrói capacidade produtiva de longo prazo, cria empregos qualificados e transfere tecnologia. Só o segundo traz desenvolvimento econômico.

O Brasil focou em manter um dólar artificialmente mais alto para favorecer a exportação do agronegócio. Por paridade de poder de compra, o real deveria estar por volta de R$3. Estando a R$5, significa que pra cada dólar que é exportado implica em mais reais para o fazendeiro que o exporta, mais rentabilidade ao setor do agronegócio. O exportador do Brasil recebe em dólar, mas paga os custos em reais, um dólar mais alto multiplica sua receita, mas prejudica todos os demais consumidores, que pagam mais caro em tudo que é importado, e paga mais caro no alimento, pois este é destinado ao mercado exportador (nesse sentido, as empresas agrícolas americanas também servem mais ao mercado interno que os exportadores brasileiros).

As regiões mais desenvolvidas do Brasil dependem de um fluxo de capital liderado pelos Estados Unidos. O capital americano e europeu, diferente do chinês, cria raíz na economia brasileira.

As regiões mais desenvolvidas do Brasil dependem menos da agricultura que exporta para a China mas mais de capital físico, humano e financeiro vindos do Atlântico Norte.

Com isso, pode-se perfeitamente dizer que o comércio com a China, para o Brasil é, em geral, prejudicial. Beneficia somente um setor da economia em detrimento dos demais.

O Brasil alimenta porcos, não pessoas

O setor que mais comercializa com a China é o agronegócio. O Brasil pode até contribuir para a dieta de 1,5 bilhão de pessoas, mas 80% da soja exportada vira ração animal, não alimento humano direto.

O modelo brasileiro subsidia consumidores globais às custas da população local. As políticas macroeconômicas do Brasil, como dito anteriormente, mantêm o dólar artificialmente valorizado.

Essa distorção encarece os alimentos para os brasileiros num país. Frango brasileiro, congelado, custa menos na Armênia que frango fresco no Brasil. O subsídio beneficia os consumidores estrangeiros e prejudica o poder de compra doméstico, se há menos comida no prato do brasileiro, a culpa é de quem favorece tais políticas.

Desde Böhm-Bawerk, sabe-se que o desenvolvimento econômico sustentável exige cadeias produtivas longas e complexas. Estas geram empregos de qualidade, agregam valor e retêm capital no país.

Um dos únicos setores com participação grande da china que nutre isso é o de exportação de petróleo: apesar de ser commodity, extrair petróleo envolve plataforma marítima, engenheiros qualificados e capital fixo em grande quantidade.

No final, os dados de investimento, tecnologia e capital humano apontam pra uma coisa: a economia brasileira que gera produtividade, desenvolvimento e empregos com qualificação vem do Atlântico Norte. Para melhorar padrões de vida e reter talentos, o Brasil deve atrair mais Investimento Direto Estrangeiro em indústrias, tecnologias e serviços.

Este capital vem predominantemente dos Estados Unidos e Europa.

EUA e China: escolha entre qualidade e quantidade

O Brasil mantém duas relações econômicas internacionais distintas. Com a China, uma relação comercial baseada em commodities, que beneficia um lobby do Congresso Nacional. Com Estados Unidos e Europa, uma relação econômica baseada em investimento e que sustenta o mercado interno.

A China não é tão importante assim para o Brasil, é a aliança atlântica que dá ao Brasil as únicas fagulhas de economia moderna e diversificada que o Brasil tem; com a China, os velhos senhores de terra replicam a lógica do pacto entre metrópole e colônia, e replicam as relações sociais entre Casa-Grande e Senzala. A diferença é que os escravos estão em número muito maior, são todos os habitantes do Brasil, e a Casa-Grande consiste em imensos edifícios de arquitetura modernista em Brasília.