Praxeologia e Liberdade

Escrito por Aranea

Existem axiomas e leis que regem a economia da sociedade?

Von Mises e Rothbard

Von Mises definiu a economia como a “ação humana”, que seria analisada através da “praxeologia e história”. Sendo que a praxeologia seria a ciência de relação de causa–efeito de ações humanas (no geral) e a história sendo uma base para o estudo dessas relações de causa–efeito. Então quais foram as causas dos efeitos da inflação romana com Diocletiano, quais foram as relações de causa–efeito da minimização de preços e controles de câmbio ao longo da história, do uso da moeda fiduciária e etc.

Essa sistematização da economia vem desde Cantillon, du Pont de Nemours, e de certa forma mesmo de Gournay, que seria a noção de pensar na economia como um conjunto axiomático com base na própria experiência, mas não houve um desenvolvimento maior nessa questão até Von Mises bater o martelo no termo “praxeologia”. Meu objetivo será levantar os pontos centrais dessa questão no contexto da obra “Economic Controversies de Rothbard”, sobre o qual farei uma série de artigos sobre.

Praxeologia e História

Von Mises diz no ação humana:

“Existem dois ramos principais nas ciências da ação humana: a praxeologia e a história.

(...) A experiência histórica, enquanto vivência de fenômenos complexos, não nos fornece fatos no sentido em que as ciências naturais empregam esse termo para designar eventos isolados testados em experimentos” (,Mises, Ludwig von. Human action. Ludwig von Mises Institute, 1949, pg. 30-31).

A praxeologia não é uma teoria quantitativa, mas de relações de causa–efeito, então quando eu digo a proposição:

“Uma aumento na oferta de café com uma demanda constante, faz o preço do café abaixar”

Essa é uma proposição geral, que pode ser descrita como a lei básica de utilidade marginal decrescente das commodities, quando você tem por n razões um aumento na oferta de um bem inelástico (o preço não afeta a demanda, como o arroz), o preço tende a cair. Enquanto que, quando a oferta diminui, o preço tende a aumentar.

Mas essa não é uma relação quantitativa, a preferência temporal das pessoas sobre café e arroz que modula essa relação. Na Turquia e outros países com uma cultura muçulmana, a maioria das pessoas não consome porco por razões religiosas, vemos uma preferência temporal das pessoas que modula a demanda por porco no país e na necessidade de produção para abastecer um mercado interno, o que ali não existe.

Podemos usar outro exemplo com ouro:

“Se houver um aumento da oferta de ouro de forma significativa, o preço de mercado tenderá abaixar”

E vice-versa. Porém, podemos agora ir de comida e metais como vimos, para dinheiro fiat, posso dizer:

“O aumento exógeno da oferta de capital, gera inflação”

E depois posso expandir essa proposição:

“O aumento exógeno da oferta de capital, gera inflação,
e a inflação gera menor poder de compra,
que gera menores vendas em mercados elásticos”

Tudo que disse é bem simples, que quando temos uma inflação causada por efeitos monetários de criação de dinheiro ex-nihilo (como bancos fazem), isso gera um menor poder de compra para a população, especialmente de bens elásticos (onde o preço afeta a demanda, e o mesmo aumentou acima do preço real que seria sem a inflação, agora uma maior porcentagem do salário é gasto com tais bens).

Expandindo a praxeologia

“Neste caso, deparamo-nos com o fato de que, logicamente, só pode haver um soberano supremo sobre as ações de um homem: ou sua própria vontade livre ou alguma causa externa a essa vontade. Não há outra alternativa, não há meio-termo, e, portanto, o ecletismo em voga na academia moderna deve, neste caso, ceder às duras realidades da Lei do Terceiro Excluído” (Rothbard, Murray N. Economic controversies. Ludwig von Mises Institute, 2011, pg. 09).

A “Law of excluded middle” diz que uma proposição pode ser verdadeira ou falsa, e nunca um meio termo entre as duas. Isso entra no contexto da lei da não–contradição aristotélica, que diz que você não pode fazer uma proposição contraditória (falsa) e por meios sofistas tentar provar que ela é verdadeira, e entramos assim no conceito de “wertfreiheit” citado frequentemente pelo autor nessa parte, em que “wert” significa valor, e a tradução seria “valor–livre”, onde nesse contexto significa que devemos separar a pessoalidade de análises objetivas, que minha opinião pessoal não altera a realidade de axiomas verdadeiros (ou falsos).

Um exemplo fácil é usando os acidentes de Aristóteles, por exemplo, a zebra possui um acidente em sua pele de ter listras, então eu posso dizer que no geral: “todas as zebras possuem listras”, agora, podem haver zebras sem listras (um defeito genético morfogênico talvez), mas a exceção não anula a regra, o que também entra no paradoxo do corvo (no qual não irei entrar aqui).

Esse princípio de wertfreiheit rege a praxeologia, onde:

“O professor Mises já fez isso para a economia, que ele subsume sob a ciência da praxeologia: esta se concentra no fato formal universal de que todos os homens usam meios para fins escolhidos, sem investigar os processos das escolhas concretas ou a justificativa para elas” (Rothbard, Murray N. Economic controversies. Ludwig von Mises Institute, 2011, pg. 17).

Não se mede a elasticidade da demanda no sentido neoclássico na praxeologia, mas se usa o conceito de elasticidade numa relação de causa–efeito, onde eu posso dizer que:

“Um aumento na elasticidade da demanda de café, pode fazer a oferta (em produção) futura diminuir”
Vamos supor que as pessoas agora sejam mais sensíveis ao preço do café (uma mudança na preferência temporal delas), assim como tem pessoas fitness mais sensíveis a certos tipos de produtos hoje em dia e etc. Vamos supor que esse aumento na elasticidade (onde o preço afeta a demanda) faça as vendas caírem, e logo, menos café ser produzido no supply side. Essa é uma possibilidade dentro de uma proposição geral.

E podemos fazer n proposições gerais, como:

“A demanda que gera a oferta”

Essa sendo uma proposição keynesiana, agora, a versão de Say diz:

“A oferta gera a demanda”

Tem um livro inteiro do W.H. Hutt que fala sobre essa questão (“The theory of Idle resources”), que é bem denso e complexo, mas o ponto era reabilitar a lei de Say, em demonstrar que, no geral, a oferta gera a demanda, e isso no geral é verdade (embora não irei dar a prova aqui).

Você pode propor:

“Tanto a oferta gera a demanda como a demanda a oferta”

Mas esse seria o caminho do meio. Não existia demanda por computadores há 200 anos atrás, hoje existe, mas foi a oferta que gerou tal coisa, embora a preferência das pessoas em querer usar computadores, celulares e etc, que fez essa oferta escalar e se desenvolver, na utilidade subjetiva deles para elas e empresas. No geral, a oferta cria a demanda, esse é um axioma, a famosa lei de Say, é uma proposição praxeológica de causa–efeito que pode ser demonstrada na história.

Economia não é igual a física ou química

“Por outro lado, os fatos da história humana não são, como na física, controláveis ​​e sujeitos a testes; são os resultados complexos e mutáveis ​​da interação entre motivações e ações humanas, que impactam o meio ambiente natural e uns aos outros. As leis da ciência econômica, portanto, só podem ser construídas partindo de axiomas conhecidos apoditicamente e deduzindo-se deles um conjunto de leis necessariamente verdadeiras (Rothbard, Murray N. Economic controversies. Ludwig von Mises Institute, 2011, pg. 26).

É um fato que a economia não pode ser comparada com a física. Tem uma grande tese de Eugene Wigner chamada “The unreasonable effectiveness of mathematics in the natural sciences”, que busca mostrar como a linguagem matemática foi efetiva na física ao longo da história, desde a lei da gravitação de Newton, as equações de Maxwell do eletromagnetismo, a relatividade de Einstein etc, no geral ela foi bem sucedida (e ainda é) como formalismo para descrever observações da natureza.

Porém, não é a mesma coisa para a ação humana. Um exemplo simples, as flutuações atuais no preço da prata e do ouro em relação a questões macroeconômicas associadas ao dólar e decisões recentes do FED (e a resposta do público a elas), você pode prever o futuro do preço com os dados atuais? Você pode usar probabilidade bayesiana, markoviana, Hidden Markov Models, o que você quiser, você nunca vai ter uma teoria da probabilidade efetiva aqui, pois a quantidade de informação do mercado não é perfeita e suficiente para você tomar decisões futuras.

Preços de ações refletem parcialmente a informação do mercado (sendo eu contra a Efficient Market Hypothesis), mas as causas de flutuações são multifatoriais e nem todas são acessíveis a seres não oniscientes, na verdade, a maioria é inacessível, mesmo nesse mundo cheio de informação aparentemente.

Pessoas não são quarks e férmions, elas não se comportam de forma simétrica em gauge symmetries e grupos abelianos, elas agem irracionalmente constantemente, elas mesmas não podem prever suas próprias ações futuras individualmente, quanto mais de todas as pessoas no mundo atualmente. A teoria da probabilidade keynesiana em “A treatise on probability” é simplesmente inútil, toda a parafernalha de “degrees of beliefs” é subjetiva ao ponto de ter que ser ignorada (Ramsey demonstrou isso em certo momento).

Expoentes de Lyapunov regem seres temporais de elementos econômicos, e mesmo com técnicas de Chaos Control, a verdade é que somente com informação nos preços de ações, você não irá muito além, é um problema intratável realmente.

O ponto no qual discordo de Rothbard

“E mesmo que isso fosse possível, o que teria sido alcançado além de uma drástica perda de significado em cada etapa do processo dedutivo? A lógica matemática é apropriada para a física — a ciência que se tornou o modelo a ser seguido por positivistas e empiristas modernos, que acreditam que todas as outras ciências sociais e físicas deveriam emular” (Rothbard, Murray N. Economic controversies. Ludwig von Mises Institute, 2011, pg. 62).

Já disse isso em outra obra, e vou expandir isso em outro artigo, eu discordo da visão que a praxeologia não seja formalizável. Minha visão está no contexto semiótico para responder a razão disso, e podemos chamar de “Semiotic Argument” ou argumento semiótico. Aqui Rothbard diz que o formalismo matemático, qual seja, perde informação quando traduzido de uma emulação verbal.

De forma mais simples, você pode falar:

“Um aumento exógeno na oferta de dólares, gera inflação (pela utilidade marginal decrescente)”

Você pode converter isso para um formalismo matemático? Seja qual você usasse, na visão dele, seria inútil, seria no máximo dizer a mesma coisa, não se ganharia nada novo, e pior, se perderia algo antes existente. Então alguém não poderia entender o que eu disser num formalismo matemático, mesmo que o significado seja o mesmo.

Bem, o formalismo poderia ser assim:

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O que significa, é que quando há um aumento significativo (exógeno nesse caso) da oferta de dinheiro, isso gera inflação (com o símbolo no centro sendo associado a uma relação causal). O que mudou? Os símbolos certo? A linguagem antes usada era a verbal falada, e agora foi convertida a símbolos que representam a mesma coisa.

(Ernest, 2008) demonstra numa trilogia de artigos a relação entre a linguagem verbal e a matemática que pode ser aplicado normalmente em educação, a ideia é que proposições matemáticas podem ser convertidas para linguagem verbal (escrita também obviamente) e vice-versa, isso sem perder nenhuma informação, uma relação homeomórfica:

“Mas deve-se notar que qualquer tradução de regras e significados de um sistema implícito (a estrutura de significado) para uma forma mais explícita(as regras de um sistema semiótico) é, na melhor das hipóteses, um homomorfismo e nunca pode ser um isomorfismo” (Ernest, 2008, Part II).

Não devemos confundir homomorfismo com homeomorfismo, em que o primeiro é aplicável a estruturas algébricas e o segundo para estruturas topológicas. É claro que traduzir uma proposição como: “o cavalo é azul”, para outra língua, “the horse is blue”, é uma relação isomórfica, onde é uma preservação de inversões bijetiva, ou seja, se considerarmos artigos, substantivos e etc como vetores e considerar a distância euclidiana de sentido entre palavras (como de queijo para geladeira e de computador para mouse), podemos criar modelos de linguagem para traduzir proposições.

Porém, esse mapeamento não se preserva totalmente (em isomorfismos isso pode ser o caso em diferentes contextos (Garcıa-Rıos et, al. 2009), ou seja, se eu tentar traduzir uma expressão comum americana “big time”, como na frase: “Palmeiras will lose to LDU, big time”, eu poderia até achar expressões idiomáticas próximas a essa, as o sentido se perde na tradução aqui, pois existem expressões que são shibboleths, e nesse sentido isomorfismos podem permitir esse tipo de exceção.

Mas traduzir uma expressão verbal para a matemática é um isomorfismo ou homomorfismo? Informação parcialmente se perde, ou no geral se preserva? Em questões semióticas, as regras e símbolos que usei anteriormente para falar de dinheiro e inflação, são tão fora da expressão verbal que é impossível haver uma tradução? No geral ela é possível, no geral a informação não se perde, e isso é óbvio.

(Storer, 1952) diz:

“Pode-se estabelecer como princípio geral, em parte definidor do que se entende por "mesma estrutura", que onde existe tradução unívoca mútua entre duas línguas, as expressões correspondentes nas duas línguas têm a mesma estrutura” (Storer, 1952).

No contexto dessa passagem, o ponto é que não existem duas línguas nesse mundo que sejam perfeitamente traduzíveis de um lado para o outro sem perder sentido em expressões idiomáticas complexas (shibboleths). O autor continua:

“De acordo com o princípio da tradução unívoca mútua, se existir uma língua que possua as mesmas relações de ordenação que as envolvidas no fato a ser expresso; e se a expressão nesta língua tiver uma estrutura idêntica à estrutura do fato, então a expressão em qualquer outra língua que seja a tradução unívoca da expressão nessa primeira língua será ela própria estruturalmente isomórfica à do fato” (Storer, 1952).

A questão é se de fato podemos considerar a tradução entre linguagem verbal e um formalismo como o supracitado acima, como um homomorfismo preservado o sentido, o significado da proposição verbal original completamente. Apelando ao senso comum do exemplo citado, eu creio que sim, de forma até engraçada, já vi autores sugerindo alguém (se fosse capaz), formalizasse toda a Ação Humana de Von Mises, na minha opinião sincera, isso não é uma questão de “se”, mas sim “como”, talvez no livro “Lógica Proposicional de Hazlitt algum avanço pequeno tenha sido feito, mas muito tem que ser realizado para um formalismo rigoroso ser promulgado.

Praxeologia e ética

Não creio numa versão racionalista da ética e moral, eu creio que Deus deu a todos os homens a capacidade de obter por si mesmo a noção de certo e errado (Romanos 2), mas cumprir isso à risca é outra coisa. No geral todos sabem o que é certo e errado, mas escolhem fazer o que é mal para seus próprios interesses (Romanos 3:23).

De nenhuma forma eu acreditaria numa ética kantiana de um imperativo categórico, mas numa ética cristão naturalmente predicada em Deus e na bíblia sagrada. É claro que pena razão o ser humano pode atingir um certo conhecimento do bem e o mal, e viver conforme seu imperativo categórico, é o suficiente para se definir mesmo um direito natural entre não–cristãos e realizar isso pragmaticamente, mas creio que muitos usam a “razão” para no imperativo categórico de cada um pensar e agir violando o direito do seu próximo.

Existem sim absolutos morais e éticos, então aborto será errado você pensando nisso ou não, pois não é uma questão de opinião, mas um fato lógico que requer apenas bom senso. Mas alguém que defende aborto (e todo o resto de imoralidades vãs) e qualquer coisa que obviamente é maligna, não pode se dizer racional nessa questão, não creio que uma ética praxeológica seria útil, sinceramente, juntar praxeologia e ética nem faz sentido se ela for wertfreiheit de fato. Porque no fim, nesse tema, as pessoas sempre levam para o lado pessoal.

A questão social

"Mas, como a praxeologia nos informa que “utilidade” e “custo” são conceitos puramente subjetivos (psíquicos) e, portanto, não podem ser medidos ou sequer estimados por observadores externos, torna-se impossível para tais observadores ponderar “custos sociais” e “benefícios sociais” e decidir que estes últimos superam os primeiros em qualquer política pública, muito menos efetuar as compensações necessárias para que os perdedores deixem de ser perdedores" (Rothbard, Murray N. Economic controversies. Ludwig von Mises Institute, 2011, pg. 89).

Essa passagem de Rothbard bate no ponto de forma cirúrgica, e principalmente nos EUA. O ponto é que Social Security no geral é inútil, e desde Bastiat isso não é novidade, que ações do governo que buscam teoricamente ajudar a população no fim são pura dissipação de capital, mas creio que de forma mais clara, a utilidade de um benefício social (como o bolsa família) é incalculável, mesmo que busque aproximações disso, é como determinar taxas de juros (de forma bayesiana), oferta e demanda futura, são problemas intratáveis computacionalmente.

A real razão de existirem benefícios sociais, é de ser uma forma de governos tentarem dizer que estão usando o dinheiro suado do povo coletado de impostos para ajudar eles mesmos, quando na verdade, eles ajudariam mais cobrando cronicamente menos impostos e isso seria um benefício social muito mais real e palpável que Social Security, que no fim é apenas uma desculpa para cobrar impostos demasiados.

Referências:

  1. Mises, Ludwig von. Human action. Ludwig von Mises Institute, 1949.
  2. Rothbard, Murray N. Economic controversies. Ludwig von Mises Institute, 2011.
  3. Storer, Thomas. “Linguistic Isomorphisms.” Philosophy of Science, vol. 19, no. 1, 1952, pp. 77–85. JSTOR,
  4. Ernest, Paul. "Towards a semiotics of mathematical text (Part 2)." For the learning of mathematics 28.2 (2008): 39-47.
  5. Ernest, Paul. "Towards a semiotics of mathematical text (part 3)." For the Learning of Mathematics 28.3 (2008): 42-49.
  6. Garcıa-Rıos, Vıctor Nozair, and Alberto Gerardo. "Characteristic subgroups are not preserved by isomorphisms of tables of marks." (2009).
  7. Menger, Karl, and Karl Menger. Austrian marginalism and mathematical economics. Springer Vienna, 2003.