São Jerônimo: para os dias de hoje

Escrito por Vitor Gomes Calado

Tradutor da Bíblia, linguísta, elevou a Escritura acima de toda vaidade literária.

Pintura de São Jerônimo. Imagem ilustrativa.

Ego iam senex non novitatis sed veritatis solius amore allectus, opus hoc aggredior in holocaustum omnipotenti Deo ad accendendum aliorum mentes erga sacras scripturas. Det dominus Iesus Christus ut assequar intentum.
-- Tommaso De Vio, O.P., Cardeal da Santa Igreja Romana em prefácio a sua tradução e comentários à Bíblia. 1

Dia 30 de setembro a Igreja celebra a memória de São Jerônimo, presbítero e Doutor da Igreja. Enquanto vivo, foi exímio linguista, conhecedor não só da literatura clássica latina, como também do hebraico e do grego. Foi responsável por organizar (e realizar em grande parte) a primeira tradução integral dos textos bíblicos direto dos textos originais gregos, hebraicos e aramaicos.

Muito poderia ser dito sobre o trabalho editorial de S. Jerônimo. Suas observações são levadas em conta até hoje. Um exemplo: impressiono-me até hoje quando li pela primeira vez que um dos livros deuterocanônicos, o Ecclesiasticus, foi traduzido por Jerônimo direto de seu original hebraico ao latim; até a década de 1940, os estudiosos tinham somente acesso à tradução ao grego feita pelo neto de Ben Sirá (autor do Ecclesiasticus) e ao texto siríaco; até que, de fato, o que Jerônimo disse há mais de 1500 anos foi confirmado: os manuscritos do Mar Morto e demais descobertas nos revelaram um texto em sua língua original, inspirado.

Essa sede, nos estudos bíblicos, pelos textos originais, esse ímpeto filológico, transbordado também aos textos clássicos da Grécia e de Roma, começou com S. Jerônimo. Nos textos bíblicos é essencial ter sede pelos originais, pois, como diz a própria Igreja, «a Escritura deve ser lida e interpretada com o mesmo espírito com que foi escrita» (Dei Verbum 12).

São Jerônimo superou uma dificuldade perene entre os cristãos, especialmente entre aqueles com afinidade pelas letras: enxergar valor literário na Sagrada Escritura. O que isso quer dizer? Muitos são tentados, até hoje, a buscar a sabedoria nos grandes clássicos da literatura universal, nos poetas gregos e latinos, na filosofia de Platão e de Aristóteles e, em nossos dias, nos poetas do romantismo, na literatura alemã, francesa, russa, etc., na filosofia pós-moderna, na fenomenologia, na sociologia; tudo isso, muitas vezes, em detrimento da Escritura.

Claude Tresmontant, filósofo, teólogo, hebraísta e helenista do século XX, chegou a dizer que, dentre os sacerdotes de sua época, numerosos eram aqueles capazes de escrever densas dissertações e dar aulas sobre a sociologia de Marx, sobre a fenomenologia de Husserl e tantos outros tópicos complexos da sabedoria secular, mas muito menos numerosos eram aqueles preparados para falar acerca do mistério da Santíssima Trinidade.

Esse vício existiu em todas as épocas. Na Idade Média, por exemplo, além do Novo Testamento, praticamente a única "peça literária" da Escritura que foi valorizada foram os Salmos, com direito a belíssimos cantos em latim destes velhos cantos hebraicos (essa negligência quanto ao Velho Testamento pode perfeitamente ter contribuído e vice-versa para o antissemitismo medieval); à parte disso, todavia, o estudo das letras até a Renascença cambaleava: o hebraico foi instituído nas universidades em meados do século XV somente, nessa época surgiram homens como Erasmo, Lutero, Caetano.

Erasmo investigou os antigos códices da Bíblia, um dos manuscritos mais antigos e usados até hoje, o Codex Vaticanus (séc. IV), só foi descoberto por conta de Erasmo. Lutero, para além de agitação religiosa, inaugurou uma controvérsia teológica acerca da Carta aos Romanos, de Paulo, e acerca do cânone bíblico e traduziu a Bíblia dos originais ao alemão (incluindo os deuterocanônicos). Na controvérsia luterana, Caetano engajou, ao ponto de se ver na necessidade de, no Espírito de Jerônimo, retraduzir toda a Bíblia dos originais ao latim, redescobrir a veritas dos textos originais. Infelizmente, ele morreu antes de terminá-la.

Enxergar o "valor literário" da Sagrada Escritura é considerar que o texto central da fé cristã tem uma aparência menos encantadora que a literatura secular, esta é mais tentadora, oferece, ao nível literário, a via larga, ao contrário da via estreita da Escritura.

As leituras clássicas não são, como tais, ruins, oferecem sabedoria de fato, o Papa Francisco, por exemplo, sempre exortou acerca da importância da literatura. Acompanhado disso, todavia, vem uma tensão no âmago dos estudiosos, naquelas almas que, podendo ser campeãs da fé, preferiram se embriagar na retórica em vez de mergulhar naquilo que S. Jerônimo chamou de veritas hebraica do Velho Testamento, ou, adaptando, a veritas graeca do Novo Testamento (que é também hebraica, por se situar no seio do povo hebreu).

Há valor literário da Escritura? Imenso. Qualquer leitura séria do texto bíblico terá de levar em conta coisas como a poética hebraica, a tipologia dos textos, a retórica "rabínica" de Jesus e de Paulo. Ademais, todos os avanços no que se pode chamar de técnica editorial e filologia existem não graças aos textos "clássicos", mas sim ao texto da Sagrada Escritura e da Tanakh (massoretas).

O grande valor literário da Escritura, todavia, não está em nada disso, mas no fato dela ser a Palavra de Deus. É fascinante e encantador olhar como Deus falou ao homem, a língua, os gêneros literários e o estilo de cada autor do texto bíblico: Deus escolheu e serviu-se de homens e culturas, segundo as capacidades de cada um, de modo que, com Deus agindo neles e por eles, estes escrevessem, como autores, tudo aquilo que Deus queria (Dei Verbum 11).

Contra essas tendências de valorizar a sabedoria do mundo acima da sabedoria de Deus ou de tratar a Escritura no máximo como um manual do qual se colhem algumas citações de versículos, S. Jerônimo dá seu real testemunho de santidade. Como tradutor, editor e linguista, Jerônimo preservou e difundiu a herança da Igreja, a Sagrada Escritura, e serve também como venerável exemplo a todos que se dediquem a esse ofício.

Foi segundo o espírito de Jerônimo e contra essa tentação intelectual, e que tanto estava contaminando o mundo católico da época, que o Concílio Vaticano II redigiu aquele que, ao ver meu e de muitos, é seu mais belo e melhor documento: Dei Verbum, que trata da natureza da revelação divina, com ênfase na Escritura, a qual venera «como venera o próprio Corpo do Senhor» (21).


  1. Estou agora velho, afetado não pelo amor a novidade, mas somente pelo amor da verdade. Ofereço esta obra em holocausto ao Deus onipoente. Que eu excite as mentes dos outros às Sagradas Escrituras. Que o Senhor Jesus Cristo assegure meu intento.