Trump acena com acordo ao Irã enquanto país rejeita cúpula de paz

Escrito por Vitor Gomes Calado

Irã recusou ir ao Egito para conferência de paz, mas corre risco de se isolar ainda mais caso recuse acordo com Washington

Bandeiras de Irã e EUA. Imagem ilustrativa

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou na segunda-feira que Washington está pronto para negociar com Teerã. O anúncio ocorreu em discurso ao parlamento israelense, horas após a libertação dos últimos reféns mantidos em Gaza.

"Estamos prontos quando vocês estiverem, e será a melhor decisão que o Irã já tomou", afirmou Trump ao Knesset. O presidente defendeu que o acordo "vai acontecer" e disse acreditar que os iranianos "querem" a paz.

A declaração surge após um conflito de 12 dias entre Irã e Israel, em junho, quando forças americanas atacaram instalações nucleares iranianas. Durante a guerra, os EUA bombardearam três complexos nucleares em Natanz, Fordow e Isfahan, com o objetivo de impedir o desenvolvimento de armas atômicas pelo regime.

Trump descreveu o momento como o "amanhecer de um novo Oriente Médio" e insistiu que Israel "venceu tudo o que podia pela força das armas". Agora, segundo ele, chegou a hora de transformar vitórias militares em paz.

O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araqchi, respondeu com cautela. No sábado, ele disse que Teerã consideraria uma proposta "justa, equilibrada e razoável" dos americanos, mas ressaltou que nenhuma base para negociação foi recebida até o momento. As duas nações trocam mensagens por meio de intermediários.

Araqchi rejeitou na segunda-feira o convite para participar da cúpula de paz em Sharm el-Sheikh, no Egito, que reúne mais de 20 líderes mundiais. "Nem o presidente Pezeshkian nem eu podemos dialogar com contrapartes que atacaram o povo iraniano e seguem ameaçando e sancionando nossa nação", escreveu na rede social X.

A recusa iraniana divide opinião dentro do país. Comentaristas políticos, inclusive conservadores, criticaram a ausência e pediram que o governo aproveite a "oportunidade histórica" de abrir caminho diplomático. Reformistas acusaram a liderança de trair os interesses nacionais ao evitar o encontro.

A cúpula, organizada por Trump e pelo presidente egípcio Abdel Fattah al-Sisi, busca consolidar o cessar-fogo em Gaza, coordenar a reconstrução da região e estabelecer um governo tecnocrático palestino. As estimativas apontam custos de reconstrução acima de 30 bilhões de dólares.

Trump também pressionou países árabes a assinar os Acordos de Abraão, que exigem o reconhecimento de Israel. O presidente francês Emmanuel Macron, presente no evento, defendeu a solução de dois Estados e pediu que a Cisjordânia não seja esquecida nas negociações.

O Irã mantém a posição de que jamais reconhecerá Israel, descrito por Araqchi como "regime ocupante que cometeu genocídio". As conversas nucleares anteriores entre Teerã e Washington enfrentaram impasses sobre o enriquecimento de urânio em solo iraniano, as potências ocidentais querem eliminá-lo para evitar riscos de armamento, proposta rejeitada pelo regime persa.

Enquanto isso, diplomatas europeus alertam que a velocidade do cessar-fogo exige a rápida formação de uma força internacional de estabilização e de uma polícia civil palestina. Sem ação imediata, o Hamas pode se reorganizar, mesmo tendo prometido não integrar o novo governo de Gaza.

Trump disse que comandará o conselho de paz que supervisionará a reconstrução e o governo palestino. O gesto simbólico mais marcante foi o aperto de mão com Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Nacional Palestina, há duas semanas, Trump havia proibido Abbas de participar da Assembleia Geral da ONU.