Trump apresenta proposta de paz para Gaza em encontro com Netanyahu
Foi apresentado plano de 20 pontos para encerrar guerra entre Israel e Hamas em Gaza.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, divulgou nesta segunda-feira um plano com 20 pontos para encerrar a guerra entre Israel e Hamas na Faixa de Gaza. A proposta foi apresentada durante reunião na Casa Branca com o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu.
O documento exige a libertação dos reféns restantes em até 72 horas após a assinatura de um acordo. Em troca, Israel libertaria 250 prisioneiros palestinos condenados à prisão perpétua e outros 1.700 detidos após outubro de 2023. Para cada refém morto devolvido, Israel liberaria os restos mortais de 15 palestinos falecidos.
Trump afirmou que Israel e outras nações aceitaram a proposta. "Espero que consigamos um acordo de paz. Se o Hamas rejeitar, e isso é possível, será o único que não aceitou", declarou o presidente americano. Netanyahu, por sua vez, manifestou apoio ao plano, mas deixou clara a alternativa caso o Hamas recuse: "Se rejeitarem sua proposta, senhor presidente, ou se fingirem aceitá-la e depois a sabotarem, Israel terminará o trabalho sozinho."
A proposta prevê que Gaza seja governada por um comitê palestino técnico e apolítico durante a transição. O território seria desmilitarizado e reconstruído para beneficiar seus habitantes. Membros do Hamas que aceitarem a coexistência pacífica e entregarem suas armas receberiam anistia. Aqueles que preferirem deixar Gaza teriam passagem segura para países receptores.
O plano representa uma mudança significativa na posição do governo Trump, que anteriormente defendia o reassentamento dos 2,1 milhões de habitantes de Gaza. A nova proposta incentiva os palestinos a permanecerem no território e reconhece aspirações por um futuro Estado palestino — pontos historicamente rejeitados por Netanyahu.
O primeiro-ministro israelense enfrenta pressão interna de elementos ultraconservadores de sua coalizão. O ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, declarou que seu partido não aceitará qualquer plano que mencione um Estado palestino ou envolva a Autoridade Palestina. Já o líder da oposição, Yair Lapid, ofereceu apoio parlamentar para viabilizar um acordo.
O Hamas, por sua vez, afirmou estar disposto a avaliar propostas dos mediadores, desde que protejam os direitos nacionais palestinos. Um porta-voz do grupo declarou na sexta-feira que ainda não havia recebido formalmente o documento.
A proposta surge em meio à crescente pressão internacional sobre Israel. Reino Unido, França e outros países reconheceram formalmente o Estado da Palestina na Assembleia Geral da ONU na semana passada. Uma comissão de inquérito da ONU concluiu no início deste mês que Israel cometeu genocídio em Gaza — acusação rejeitada pelo governo israelense.
Trump se reuniu com líderes de países do Oriente Médio, incluindo Arábia Saudita, Egito, Catar e Turquia, durante a Assembleia Geral da ONU. O presidente americano classificou o encontro como sua "reunião mais importante" do dia e demonstrou otimismo com as negociações.
A guerra começou após o ataque liderado pelo Hamas ao sul de Israel em 7 de outubro de 2023, quando cerca de 1.200 pessoas foram mortas e 251 feitas reféns. Desde então, pelo menos 66.055 pessoas morreram em ataques israelenses em Gaza, segundo o ministério da saúde do território, controlado pelo Hamas.
O plano de Trump
Gaza será uma zona desradicalizada e livre do terrorismo, que não representará uma ameaça a seus vizinhos.
Gaza será reconstruída em benefício de seu povo, que já sofreu mais do que o suficiente.
Se ambas as partes aceitarem esta proposta, a guerra terminará imediatamente. As forças israelenses se retirarão para a linha acordada a fim de preparar a libertação dos reféns. Durante esse período, todas as operações militares, incluindo bombardeios aéreos e de artilharia, serão suspensas, e as linhas de combate permanecerão congeladas até que sejam atendidas as condições para a retirada completa e escalonada.
Dentro de 72 horas após a aceitação pública deste acordo por parte de Israel, todos os reféns, vivos e mortos, serão devolvidos.
Assim que todos os reféns forem libertados, Israel soltará 250 prisioneiros condenados à prisão perpétua, além de 1.700 gazenses detidos após 7 de outubro de 2023, incluindo todas as mulheres e crianças detidas nesse contexto. Para cada refém israelense cujos restos mortais forem devolvidos, Israel entregará os restos mortais de 15 gazenses falecidos.
Assim que todos os reféns forem devolvidos, membros do Hamas que se comprometerem com a coexistência pacífica e com a entrega de suas armas receberão anistia. Membros do Hamas que desejarem deixar Gaza terão passagem segura para países que os recebam.
Com a aceitação deste acordo, ajuda humanitária plena será imediatamente enviada à Faixa de Gaza. No mínimo, a quantidade de ajuda seguirá os parâmetros incluídos no acordo de 19 de janeiro de 2025 sobre ajuda humanitária, incluindo reabilitação de infraestrutura (água, eletricidade, esgoto), hospitais e padarias, além da entrada de equipamentos necessários para remover escombros e abrir estradas.
A entrada e distribuição de ajuda na Faixa de Gaza ocorrerá sem interferência das duas partes, por meio da ONU e suas agências, do Crescente Vermelho, além de outras instituições internacionais que não tenham ligação com nenhuma das partes. A abertura da passagem de Rafah em ambos os sentidos será regida pelo mesmo mecanismo implementado no acordo de 19 de janeiro de 2025.
Gaza será administrada sob um governo transitório temporário de um comitê palestino tecnocrático e apolítico, responsável pela gestão cotidiana dos serviços públicos e municípios para a população de Gaza. Esse comitê será composto por palestinos qualificados e especialistas internacionais, sob supervisão de um novo órgão internacional de transição, o “Conselho da Paz”, presidido por Donald J. Trump, com outros membros e chefes de Estado a serem anunciados, incluindo o ex-primeiro-ministro Tony Blair. Esse órgão definirá a estrutura e gerenciará o financiamento para a reconstrução de Gaza até que a Autoridade Palestina conclua seu programa de reformas, conforme proposto em diversos planos, incluindo o plano de paz de Trump de 2020 e a proposta saudita-francesa, e possa retomar com segurança e eficácia o controle de Gaza. Esse órgão seguirá os melhores padrões internacionais para criar uma governança moderna e eficiente, que sirva ao povo de Gaza e atraia investimentos.
Um plano econômico de Trump para reconstruir e dinamizar Gaza será elaborado por meio de um painel de especialistas responsáveis pela criação de algumas das cidades modernas mais prósperas do Oriente Médio. Muitas propostas de investimento e ideias de desenvolvimento já foram elaboradas por grupos internacionais bem-intencionados, e serão consideradas para integrar os marcos de segurança e governança, de modo a atrair e viabilizar esses investimentos, gerando empregos, oportunidades e esperança para o futuro de Gaza.
Será estabelecida uma zona econômica especial com tarifas e taxas de acesso preferenciais a serem negociadas com os países participantes.
Ninguém será forçado a deixar Gaza, e aqueles que desejarem sair terão liberdade para fazê-lo e para retornar. Será encorajada a permanência das pessoas, oferecendo-lhes a oportunidade de construir uma Gaza melhor.
Hamas e outras facções concordam em não ter nenhum papel na governança de Gaza, direta ou indiretamente, sob qualquer forma. Toda a infraestrutura militar, terrorista e ofensiva, incluindo túneis e fábricas de armamento, será destruída e não reconstruída. Haverá um processo de desmilitarização de Gaza sob supervisão de monitores independentes, incluindo a colocação das armas permanentemente fora de uso por meio de um processo acordado de desativação, apoiado por um programa internacional de recompra e reintegração, tudo verificado pelos monitores independentes. A Nova Gaza estará plenamente comprometida em construir uma economia próspera e em manter a coexistência pacífica com seus vizinhos.
Parceiros regionais fornecerão garantias para assegurar que o Hamas e outras facções cumpram suas obrigações, e que a Nova Gaza não represente uma ameaça a seus vizinhos ou a seu próprio povo.
Os Estados Unidos trabalharão com parceiros árabes e internacionais para desenvolver uma Força Internacional Temporária de Estabilização (ISF), a ser imediatamente enviada a Gaza. A ISF treinará e dará apoio a forças policiais palestinas selecionadas em Gaza, em consulta com Jordânia e Egito, que têm ampla experiência nessa área. Essa força será a solução de segurança interna de longo prazo. A ISF trabalhará com Israel e Egito para ajudar a proteger as áreas de fronteira, em conjunto com as forças policiais palestinas recém-treinadas. É fundamental impedir a entrada de armamentos em Gaza e facilitar o rápido e seguro fluxo de bens para reconstruir e revitalizar a região. Será acordado entre as partes um mecanismo de desconflito.
Israel não ocupará nem anexará Gaza. À medida que a ISF estabeleça controle e estabilidade, as Forças de Defesa de Israel (FDI) se retirarão com base em padrões, marcos e prazos vinculados à desmilitarização, a serem acordados entre as FDI, a ISF, os países garantes e os Estados Unidos, com o objetivo de uma Gaza segura, que não represente ameaça a Israel, ao Egito ou a seus cidadãos. Na prática, as FDI entregarão progressivamente os territórios que ocupam em Gaza para a ISF, conforme acordo com a autoridade transitória, até a retirada completa, exceto pela manutenção de um perímetro de segurança até que Gaza esteja devidamente protegida contra uma possível retomada de ameaças terroristas.
Caso o Hamas atrase ou rejeite esta proposta, o que foi estipulado acima, incluindo a operação ampliada de ajuda, será implementado nas áreas livres de terrorismo transferidas das FDI para a ISF.
Será estabelecido um processo de diálogo inter-religioso, baseado nos valores de tolerância e coexistência pacífica, para tentar transformar mentalidades e narrativas de palestinos e israelenses, destacando os benefícios que podem ser obtidos com a paz.
Enquanto avança a reconstrução de Gaza e quando o programa de reformas da Autoridade Palestina for fielmente implementado, poderão finalmente estar dadas as condições para um caminho viável em direção à autodeterminação e ao Estado palestino, que reconhecemos como a aspiração do povo palestino.
Os Estados Unidos estabelecerão um diálogo entre Israel e os palestinos para chegar a um horizonte político de coexistência pacífica e próspera.