Considerações sobre a Direita Bolsonarista
Tréplica a Ricardo Almeida
A Estratégia do MBL
Fui surpreendido com uma educada resposta do Ricardo Almeida acerca de uma questão que fiz no twitter sobre a estratégia vigente no MBL.
É curioso, mas eu tenho ao longo do tempo respeitado mais o @danielmiorim, porque observo que ele é bem mais inteligente e sagaz do que a aparência dele denota (sua má dicção, seu estilo de ancap gordo refutador. E no entanto ele não é um tolo. Longe disso.)
— Ricardo Almeida (@ricardombl) September 18, 2025
Nessa treta do…
Vou transcrever o texto aqui:
A Resposta de Ricardo Almeida
É curioso, mas eu tenho ao longo do tempo respeitado mais o @daniel_miorim, porque observo que ele é bem mais inteligente e sagaz do que a aparência dele denota (sua má dicção, seu estilo de ancap gordo refutador. E no entanto ele não é um tolo. Longe disso.)
Nessa treta do bolsonarismo ele avança uma tese interessante (e me perdoe se não fui inteiramente exato, li as coisas en passent): a de que deveríamos “dividir para conquistar”, que o bolsonarismo tem diversos grupos, e que se ele fosse extinto enquanto tal a sua força eleitoral seria absorvida por um agente interno dentro dessa divisão facciosa, e não pelo MBL.
Percebam, esse é fato um GRANDE RISCO. Isso não é banal. É evidente que a morte do núcleo familiar do bolsonarismo não assegura que o capital político majoritário da direita vá para nós. E notem: esse problema é ainda maior pelo fato de que não existe como crescer para muito além desse capital. A faixa de eleitores isentos é, por definição, instável, oscilante (uma característica da isenção) e o resto do campo está dominado pela esquerda, com um PT firmemente hegemônico.
É, portanto, EVIDENTE que a única maneira do MBL ficar realmente grande é amealhar boa parte do capital político do bolsonarismo. E isso não é certo pela simples morte simbólica do Bolsonaro, já que há vários núcleos em disputa. A figura de Tarcísio, caso ele se firme como candidato da direita em 26, pode gerar uma grande sombra sobre todo mundo e resolver a questão, ao menos temporariamente, na medida em que a direita, imbuída de impulsos revolucionários, consentir em se curvar a um candidato evidentemente alinhado com o “sistema”. Tudo isto vai depender da habilidade política de Tarcísio, num sentido bem amplo, o que inclui sua habilidade no jogo político e em manipular o imaginário simbólico da direita.
Neste cenário, o que fazer?
Ora, eu tenho uma tese um pouco diferente. Em primeiro lugar, precisamos reconhecer (e você, Miorim, precisa constatar esse ponto) que não há retorno para o discurso de ruptura. O nível de antagonismo entre MBL e bolsonarismo é tão grande que não há caminhos para um “dividir para conquistar”. Isso simplesmente não é possível como discurso. A oposição é total, radical, em bloco. Assim, já está estabelecido que não haverá qualquer composição; a opção do MBL tomar bolsonaristas convictos, famosos, para nosso campo não está na mesa (embora a recepção de figuras menores, menos divisivas, não seja impossível e, na minha modesta opinião, seja DESEJÁVEL).
O nosso jogo só pode ser a criação de grande titãs da direita. Perfis muitos grandes (o @GutoZacariasMBL é hoje aquele que está na margem de se tornar esse titã) que rasguem o pacto bolsonarista e absorvam um grande número de eleitores. Uma vez que tenhamos essas pessoas puro sangue teremos força suficiente.
É preciso, por exemplo, estabelecer em todos os estados do país como maiores figuras da direita nossas pessoas. Vejamos o exemplo da Bahia. Na há na Bahia ninguém de direita que seja maior que @SandroFilhoMBL. Nossa influenciadora @queciareismbl vai nessa direção. Os influenciadores bolsonaristas são menores. Logo, se lá criamos uma base sólida podemos, no âmbito de um estado, ser dominantes.
É possível fazer isso em todos os lugares. Com isso poderemos esvaziar a força do bolsonarismo por dentro. Logicamente, isso depende de termos uma grande figura nacional com muita escala. Teremos? Hoje, é difícil dizer. Mas a estratégia deve ser essa: esvaziar o bolsonarismo por dentro.
E caso Tarcísio vire o novo rei, apostarmos na radicalização discursiva e no contágio das mentes cansadas de capitular. Difícil? Difícil. Mas não impossível.
Minha Tréplica
Primeiramente, gostaria de recomendar minha leitura das principais facções dentro do Bolsonarismo que foi parte do editorial da primeira edição dessa revista.
Reconhecida a pluralidade efetiva das facções à direita, mais numerosas do que admite o lugar-comum, com subgrupos como os vaporwave orbitando fora do radar, impõe-se dimensionar o fenômeno bolsonarista comum pouco mais de rigor. Uma ferramenta que está no domínio dessa revista monitora os números do visualizações no YouTube, segmentado por grupos políticos, e oferece uma baliza mensurável para tal feito.
Em um único dia, canais identificados como “ancaps” somaram 1,345 milhão de visualizações; o MBL, 791.112; os comunistas, 61.408. No mesmo intervalo, o petismo alcançou 5,764 milhões e o bolsonarismo, 16,585 milhões. A desproporção é autoevidente. No Youtube, o bolsonarismo concentra algo como 80% do volume observado. No Instagram, a dominância em reels chega a 94,5%.
Essa hierarquia é tão nítida que o mero ato de se rotular já faz diferença. Frente à constelação bolsonarista, os maiores nomes do MBL gravitam na faixa dos médios. Uma boa evidência disso: a cifra “ancap” é o dobro da do MBL porque um único criador, o Ancapsu, ostenta a etiqueta e capitaliza o vetor algorítmico bolsonarista; um influenciador, surfando essa maré, supera sozinho todo o MBL.
Nada disso elimina o diagnóstico do desgaste. O bolsonarismo atravessa sua fase mais vulnerável e, em boa medida, sustentou-se por amarrações externas, com a mão americana tendo sido estendida quando o nacional-desenvolvimentismo de Aldo Rebelo ameaçava anexar o espaço à direita, chegando a ser cogitado para vice de Ricardo Nunes e até ventilado como hipótese presidencial no entorno bolsonarista. Onde faltou tese de país, sobrou improviso tático.
Nesse tabuleiro, “ruptura” costuma funcionar tão somente como um paliativo retórico. Não é o clima de ruptura que fecha as portas; o que as abre, e as mantém abertas, é a apresentação de estrutura, previsibilidade e um roteiro crível de poder. A direita aprendeu isso empiricamente. Quando a coisa esquentou, prosperou quem ofereceu uma sofisticada arquitetura decisória. O caso do Novo é pedagógico. Mesmo com João Amoêdo apoiando Lula e quadros no pior estilo Renova BR, o partido manteve uma presença funcional no ecossistema.
Em especial porque a disputa entre Tarcísio de Freitas e Eduardo Bolsonaro tende a aumentar significativamente. Sem lastro organizacional suficiente para projetar capilaridade nacional, Eduardo transita num limbo estratégico. Um arranjo de bastidor que lhe forneça base, inclusive partidária, teria hoje baixa resistência interna e alto retorno imediato.
Só não poderia ser para “industrializar o Nordeste” nem reeditar um SUS-centrismo programático. Para quem mira 2026, o eixo está mais próximo de um reformismo liberal musculado por referências como Vance, Rubio, Milei e Bukele. Nessa moldura, uma convergência com Eduardo, com lugar reservado para um vice, produziria um desenho eleitoral simples, célere e palatável ao circuito conservador internacional. O gesto permitiria modular o legado paterno sem afrontá-lo. Há matéria-prima, dita pelo próprio filho, para recompor o tom e arrefecer a crítica que carimba o ex-presidente como “moderado em excesso” enquanto procura uma nova figura.
Convém notar que a resistência mais ruidosa a Eduardo não provém da esquerda. Emana de competidores intramuros. Deltan Dallagnol e Duda Lima são percebidos por seu entorno como forças de contenção quase tão severas quanto a vigilância judicial. A política aqui seria basicamente uma questão de engenharia institucional.
Diplomacia partidária, presença constante nas mesas decisórias, ainda que por interposta pessoa, rende bem mais do que o atual maximalismo performático do MBL. Em temas corrosivos, como anistia, discrição funcionará como política pública até que o partido seja uma certeza. Evitar protagonismos inúteis e concentrar energia na costura funcionaria bem.
Em síntese, os números são soberbos em demonstrar a hegemonia digital e as fissuras revelam uma incrível plasticidade política. Entre ambas, abre-se um corredor estreito em que uma oferta sólida de estrutura e abrigo partidário, apresentada com parcimônia e continuidade, pode reordenar o campo à direita. Nesse traçado, Eduardo Bolsonaro surge menos como obstáculo e mais como chave de leitura. Nikolas provavelmente se espantaria e o restante, centrão inclusive, tenderia a acompanhar quem primeiro arrumasse a mesa.
Conclusão
A discussão acima é apenas um exemplo prático de reflexão política que foge aos olhos do MBL. Não é um conselho político tampouco uma recomendação, mas uma demonstração simples de como os espaços se tornam maiores quando são enxergados a luz de um verdadeiro pragmatismo político, o tipo de pragmatismo que me faz ser completamente contrário a política partidária.