EUA em ação na América Latina: Brasil entre aliança ou isolamento
Marco Rubio cercará Lula, EUA só se contentarão com um Brasil aliado.
A previsão para as negociações entre o governo brasileiro e o governo americano chegaram num impasse, Trump passou a bola a Marco Rubio "negociar" com Alckmin, Haddad e Mauro Vieira.
Há tempos nesta revista foi escrito um texto de nome O que esperar dos Estados Unidos? no qual se realizou uma conjectura de qual seria a postura americana no Brasil. Primeiro, havia afirmado que o encarregado por cuidar dos assuntos americanos na América Latina não era Trump ou J.D. Vance diretamente, mas sim Marco Rubio, chefe da política externa, isto foi confirmado.
Rubio tem como inimigo declarado a China, repetiu-se diversas vezes ao se falar do Secretário de Estado sobre como ele considera a China o maior desafio deste século para os Estados Unidos. Para ele, a China é um país com ambições de dominação global e representa o inverso do projeto americano de poder.
Para combater a influência chinesa, além de reduzir a dependência econômica em setores considerados estratégicos (daí a guerra tarifária com a China), é necessário também recorrer às alianças americanas e assegurar o hemisfério Ocidental (geográfico) para si. No momento em que Rubio assumiu o Departamento de Estado, não se fala mais em termos de Sul Global e Norte, mas sim em Ocidente e Oriente, pois os EUA veem o continente americano inteiro como seu hemisfério e a União Europeia como seus aliados naturais.
Para além disso, tanto Landau (vice-secretário) quanto Rubio estavam, há algumas semanas, no Oceano Pacífico firmando parcerias com os países insulares de lá. Após isso, foram para Coreia do Sul e, agora, após as eleições japonesas, muitíssimo provavelmente, firmarão parceria com o Japão. Todo esse planejamento foi exposto num breve parágrafo do capítulo 4 do livro Decades of Decadence de Rubio:
Por fim, precisamos fortalecer nossos aliados e parceiros. Não se trata apenas de uma competição entre China e Estados Unidos. Pequim busca o domínio sobre seus vizinhos. Ela os vê como Estados vassalos, Estados tributários. Essa é a sua visão para o futuro da região Indo-Pacífico. Estes não são Estados-tampão—não existem Estados-tampão—estes países simplesmente estão na linha de frente. Nos próximos meses e anos, nossas alianças e parcerias com Taiwan, Japão, Austrália, Coreia, Índia, Brasil e outros serão mais cruciais do que nunca [ênfase adicionada].
Num livro de 2023, Rubio está cumprindo aquilo que ele mesmo crê como sendo crucial para o combate à China, os EUA já consolidaram sua aliança com Austrália, Coreia e Taiwan, hoje pressiona a Índia para que pare de comprar petróleo russo e, por fim, o Brasil é também tratado como assunto especial pelo Departamento de Estado.
Não somente isso, "fortalecer" os aliados e parceiros envolve favorecer uma política militar nesses países. A nova primeira-ministra japonesa, por exemplo, já planeja expandir o orçamento militar de seu país.
A União Europeia desempenha, aos olhos da política externa americana, um papel especial: eles devem lidar com a Rússia. Os russos são vistos como um regime sustentado pela China, não são o alvo principal dos EUA.
Para lidar com a Rússia, todavia, a União Europeia precisa voltar a levar a sério sua indústria e, em especial, aumentar seu orçamento de defesa para que os Estados Unidos possam ficar "tranquilos" e se dedicarem diretamente à China.
O que esperar para o Brasil?
Não há sinal algum de que os Estados Unidos vão se contentar com uma política "multilateral" por parte do Brasil, eles desejam que o Brasil e demais países da América Latina sejam aliados dos Estados Unidos.
Para isso, todavia, devem retirar do continente inteiro as "forças" que impedem a aliança americana. Desse modo, é de se perguntar: que forças?
Marco Rubio sabe bem que forças são essas, a América Latina ainda possui um movimento comunista, o governo do PT tem ligações com o regime cubano, um dos grandes ícones do Uruguai, Pepe Mujica, é um dos fundadores do Foro de São Paulo, os governos de esquerda se aproximaram da Rússia e da China, o narcotráfico é visto por muitos como uma "guerrilha" e também se infiltra na burocracia dos países latinoamericanos. Desse modo, há toda uma estrutura antiamericana montada no continente.
Ainda há muito que resolver na América Latina. O cenário que os Estados Unidos vê é como aquele de uma casa vazia e velha que foi recém-alugada: está recheada de teia, mofo, poeira. É necessário "consertá-la", reformá-la, limpar tudo. Resta saber, todavia, se os EUA esperavam tamanho cenário e se irão até o fim.
Parece que sim. A quantidade de tropas enviadas ao Caribe indica isso: são muito mais que o necessário para enfrentar a fraca Venezuela, parece pressupor um combate muito maior e que envolveria forças do narcotráfico e de governos antiamericanos na América Latina, parece que eles se prepararam para o pior dos cenários, e estão dispostos a irem até o fim, mas não sem antes perguntarem até o último momento: vocês têm certeza que querem nos enfrentar?
A partir daí, a problemática passa a ser psicológica: nunca um líder de Estado ou do crime organizado na América Latina presenciara um ultimato dessa forma e de um governo tão poderoso como o dos EUA. Estão todos desesperados. Esse é também o caso do Brasil: o que Lula e o PT podem fazer contra os EUA? As apostas em multilateralismo, os apelos à OMC não passam de bravatas, tentativas de adiar o inadiável, mas, cedo ou tarde, eles terão de ceder.
Mas é impossível para Lula e o governo do PT ceder sem perder tudo, sua política se baseia em ser antiamericana, em ser uma voz do Sul Global e um dos sustentáculos do movimento comunista internacional. Caso cedam aos Estados Unidos, uma série de movimentações "por baixo dos panos" seria revelada, hoje mesmo o governo dos EUA está planejando retomar as investigações da lava-jato, quantas outras coisas de outros escândalos como a "ajuda internacional" prestada ao Brasil a Cuba e Venezuela, o mensalão e ligações com o crime organizado foram abafadas e deixadas de lado?
Diante dos EUA, o governo brasileiro está em estado de desespero. Esse desespero, todavia, sufoca não só o governo, como também o povo do Brasil. Se o processo americano no Brasil não for um corte rápido, será um processo longo e doloroso, um sufocamento capaz de gerar grande sofrimento. Se os EUA de Rubio resolverem realizar um cerco lento, o desespero político das elites governantes é capaz de tornar este país cada vez mais autoritário e austero.
O futuro, todavia, é incerto.
- Veja também Nova Geopolítica: tensões, guerras e Brasil;
- e também O que esperar dos Estados Unidos?.